sábado, 26 de julho de 2014

Will Eisner, o homem cuja imaginação nos faz voar

Nos anos 1940, quando o totalitarismo alemão – com apoio dos parceiros japoneses e italianos – ameaçava dominar o planeta, surgiram nos EUA, país símbolo da resistência ao chamado Eixo, vários heróis.

Melhor dizendo, super-heróis.

Batman, Super-Homem, Capítão América, Homem-Borracha e outros tantos.


Dotados de superpoderes, esses seres míticos se prestavam, voluntariamente, a lutar pela justiça e pela democracia.

Em meio à massa de super-heróis que inflavavam as vendas das seções de histórias em quadrinhos das bancas de revistas norte-americanas e de todos os países ocidentais, dentre eles o Brasil, surgia Spirit, desenhado por Will Eisner (1917-2005).



Seu personagem diferia dos concorrentes sob vários aspectos.

Para começar, não tinha superpoderes. Era de carne e osso, como seus leitores.

Mas tinha alguns precedentes atípicos. Dentre eles o de viver sob uma catacumba do Cemitério Wildwood, nos arredores de Central City, a cidade mítica inventada por Eisner.

Teria vindo à tona após o presumível assassinato do combatente do crime Denny Colt. Por isso, Spirit.

Somente o comissário de polícia Dolan, sua filha Ellen, um negrinho chamado Ébano e um esquimó de nome Gordura sabiam que Colt não havia morrido e que o herói Spirit era o próprio.


Diferente dos demais personagens de HQ, Spirit se deparava com aspectos mundanos do combate ao crime.


Em suas aventuras enfrentava mulheres magníficas (e más) e todo tipo de figuras execráveis dos subterrâneos de Central City, onde Spirit e Comissário Dolan combatiam a criminalidade.


P'Gell: uma das personagens femininas recorrentes

Mas o diferencial principal das historietas do Spirit era a qualidade dos argumentos e desenhos de Will Eisner.

Eisner foi um dos desenhistas mais perfeccionistas e bem-informados das histórias em quadrinhos...




Era profundo conheceder das técnicas narrativas de dois dos maiores contistas de todos os tempos: o alemão Wilhelm Hoffmann (1776-1822) e o russo Nikolai Gogol (1809-1852).

Nikolai Gogol

Também era admirador do cinema expressionaista alemão – como nosso Nelson Rodrigues – cuja estética cenográfica, enquadramentos e efeitos de sombra/luz incorporou aos seus desenhos.

Gerhard Shnobble, the man who could fly,  conto em quadrinhos publicado em 1948, é minha história favorita de Spirit.

 
Schobble, ao acaso, no mesmo elevador que Spirit



Eisner conta como o pequeno Gerhard Shnobble, arrasado por ter sido injustamente demitido de seu emprego, ao qual dedicara toda sua vida, decide se tornar famoso por saltar de um prédio e provar que sabia voar.

Para espanto dos leitores, ele realmente conseguiu e voou sobre o alto dos edifícios de Central Citty.



Shnobble voa sobre Central City





Mas os esforços de fama de Shnobble passaram despercebidos e sua vida foi interrompida quando, num tiroteio entre Spirit e alguns gangsters, foi ocasionalmente baleado.


Shobble voa enquanto o tiroteio ocorre

Ao final de tudo, caiu acidentalmente abatido e ninguém percebeu que ele fora capaz de alçar voo.

Meu romance O homem que sabia ouvir, lançado no início deste ano, é obviamente referenciado no título da história de Eisner, apesar de a temática e os personagens serem totalmente diferentes.


No início da década de 1980, o grupo de teatro Verdadeiros Artistas, do qual fiz parte, montou o espetáculo Curva da tormenta, que tinha como personagens Spírit e Dolan.


O próprio Eisner generosamente nos concedeu permissão de utilizá-los.


A peça também tinha como personagem Antonin Artaud (1896-1948), cujo desaparecimento, na trama, era investigado por Spirit e Dolan.



Antonin Artaud

Além de mim, participaram do espetáculo, como atores, Nando Ramos, Cassiano Quilici, Durvalino Couto, Paulo Contier, Magaly Prado, Georgia Vilela, Ana Paola D’Alessandro, Sílvio Foca e outros.

Tratava-se de um espetáculo multimídia. Os filmes foram produzidos por Ninho Moraes. 


Nossos músicos eram Plínio Cutait e Junia Flavia D’Affonseca. Os cenógrafos: Pedro Manoel Rivaben Sales, Paulo Amaral e Aluísio Eras.

A partir do espetáculo, Durvalino Couto produziu uma radionovela e uma história em quadrinhos, ambas referenciadas no argumento da peça.


Como o Verdadeiros Artistas era um grupo numeroso e o elenco mudou várias vezes, é provável que tenha me esquecido de mencionar os nomes de outros participantes.

Paulo Contier era Spirit. Alguns anos depois, na TV Cultura, Contier interpretou o detetive Máscara, também inspirado no Spirit de Eisner.



Will Eisner publicou The Spirit, inicialmente, como tira de uma série de quadrinhos de um jornal dominical. Depois passou a publicar histórias inteiras em revistas, todas com o mesmo número de páginas: sete.

As histórias do personagem – baseadas no mote “Ação, mistério, aventura” – abordavam uma larga variedade de situações: crime, romance, mistérios, horror, comédia, drama e humor negro.


As cenas ora hilariantes, ora melodramáticas, enfatizavam, sobretudo, o aspecto humano dos personagens.


Durante a Segunda Guerra Mundial, Eisner se alistou no exército norte-americano para trabalhar como propagandista nos fronts.


Eisner como soldado

Na ausência dele, o sindicato responsável pela comercialização dos seus quadrinhos passou a usar escritores e artistas fantasmas para continuar a história.

Mas as melhores histórias são aquelas que Will Eisner escreveu e desenhou.


Eisner desenvolveu um estilo com o uso de sombras e ângulos de diferentes visões, inspirados, como já mencionei, no cinema expressionista alemão.


Dois exemplos:





O título "The Spirit" era normalmente integrado ao fundo ou a paisagem da primeira página de cada série.


Ao mesmo tempo que desenhava The Spirit, Eisner fundou a American Visuals Corporation, empresa dedicada à criação de HQs, vinhetas humorísticas e ilustrações, que acabou absorvendo a maior parte do seu tempo.

The Spirit parou de ser publicado em meados dos anos 1950, quando Eisner passou a se dedicar a outros projetos.

Eisner atuou então em diversas áreas como desenhista, roteirista, arte-finalista, editor, cartunista, empresário e publicitário.

Somente quando o editor holandês Olaf Stoop reeditou The Spirit, no começo dos anos 1970, Eisner voltou a se interessar pela criação de histórias em quadrinhos.


Em 1978 criou Um contrato com Deus (A contract with God), considerada a primeira graphic novel do gênero, que consiste em quatro histórias acerca da vida no Bronx nos anos 1930.


Capa de A contract with God


Depois desta obra, Eisner prosseguiu criando graphic novels com regularidade, como Life on another planet, The dreamer, The building, Invisible people, entre outras.

Capa de Invisible people

Um mês antes de morrer concluiu sua obra mais política, A conspiração (The plot, 2005), um ensaio gráfico sobre a história do livreto Os protocolos dos sábios de Sião.

Eisner teve uma importância decisiva para demonstrar que histórias em quadrinhos não são apenas meio de entretenimento.


Além de sua carreira como quadrinista, ensinou técnicas de quadrinhos na Escola de Artes Visuais de Nova York.


Escreveu obras teóricas fundamentais sobre criação de histórias em quadrinhos: Os quadrinhos e a arte sequencial (Comics and sequential art) e A narrativa gráfica (Graphic storytelling and visual narrative).

História de The Spirit e graphic novels lançadas por Eisner em livros:


A contract with God (1978), Will Eisner color treasury (1981), Spirit color album (1981), Spirit color album, v2 (1983), Spirit color album, v3 (1983), Life on another planet (1983), The dreamer (1986), The building (1987), A life force (1988), Art of Will Eisner (1989), Out space Spirit (1989), To the heart of the storm (1991), The Will Eisner reader (1991), Invisible people (1993), Dropsie Avenue (1995), Christmas Spirit (1995), Spirit casebook (1995), The princess and the frog (1996), All about P'Gell: Spirit casebook II (1998), A family Matter (1998), Last day in Vietnam (2000), The last knight (2000), Minor miracles (2000), New York: the big city (2000), 6 volumes de The Spirit archives (de 2000 a 2005 – Eisner não desenhou os volumes 5 a 10), Will Eisner's shop talk (2001), Fagin the Jew (2003), Hawks of the seas (2003), Sundiata: a legend of Africa (2003), The name of the game (2003) e The plot: the secret story of the Protocols of the Elders of Zion (2005)
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