sábado, 30 de agosto de 2014

Trajetórias trágicas de Dylão lalão e crânio Crane

Bons poetas são cerebrais, mesmo que muito loucos e vivam, precariamente, aos pedaços, com suas almas oscilando, penduradas pela corda no fundo do poço.

Jamais são intuitivos ou inspirados, como os maus poetas, que ululam às dezenas pelas academias e meios afins, como coros de sapos nos brejos ante a tempestade ao anoitecer.

Neste artigo trato de dois bons poetas muito loucos, mas cerebrais: o galês Dylan Thomas (1914-1953) e o norte-americano Hart Crane (1899-1933).


Dylan Thomas
Hurt Crane

Os dois estão no ótimo livro de poemas escolhidos a dedo e vertidos para esta nossa sonora língua de curupiras por nosso melhor poeta tradutor, Augusto de Campos, no livro Poesia de recusa.

Thomas e Crane foram recusados porque não se adequaram e remaram contra a maré até o o último impulso, expostos a todos os riscos, para se manterem fiéis à poesia na qual acreditavam.

A verdadeira poesia: difícil, de alto repertório técnico, cuja maior riqueza está na linguagem e nos recursos construtivos.

Como diria Torquato Neto, poetas de verdade nunca traem sua poesia.

Thomas e Crane não tiveram pretensões sociais ou acadêmicas. De seus livros jorravam densas emoções e paixões intensas, mas sempre tratadas com rigor técnico, sob parâmetros nada improvisados.

Mas ambos tinham personalidades bastante difíceis...


O galês era bom ator, tinha excelentes recursos vocais, graças aos quais gozou de certo sucesso como radialista e, depois, no teatro.

Durante curto período manteve, na Inglaterra, um programa de rádio sobre poesia – exemplo raríssimo – no qual lia poemas dos poetas de sua preferência, modernos e de outras épocas.

Mas afunilou as possibilidades profissionais, se tornando um poeta cada vez mais hermético (e cada vez melhor), porém, com isso, seus meios de subsistência foram ficando restritos, precários.

Em seus últimos anos viveu de favores.

Os amigos recebiam a ele e a família (tinha mulher e filhos), para ajudar, mas Thomas não perdia a postura. Passava a impressão de que para os anfitriões, sim, era uma honra hospedá-los.

Fornicava a torto e direito. Nas casas dos anfitriões tentava seduzir suas esposas, filhas e até as domésticas. Claro que trouxe muitos dissabores aos lares pelos quais passou.

Pedia sucessivas quantias de dinheiro emprestadas que nunca eram pagas. Chegava, mesmo, a furtar objetos de valor para revendê-los e gastar com o consumo desenfreado de álcool.

Um canalha? No plano pessoal, até pode ser. Mas a poesia que produzia enquanto aprontava uma atrás da outra era incomparável.

Tinha uma memória que nem o álcool era capaz de corroer. Onde estivesse se punha a declamar, inclusive nos botequins mais fuleiros, onde todos os frequentadores paravam para ouvi-lo.

Contava com uma incrível capacidade de chamar a atenção e de fazer com que as pessoas, mesmo sacaneadas, continuassem a gostar dele.

Mudou-se para o EUA aos 35 anos, onde se tornou uma lenda, por sua embriaguez habitual, dramaticidade e romantismo incurável.

Foi ídolo dos então jovens poetas da chamada geração beat: Allen Ginsberg, Lawrence Ferllinghetti, Gregory Corso e outros.

Nos anos 1960, o musico interiorano Robert Zimmermann, descendente de judeus russos, emprestou o pré-nome de Dylan Thomas para seu nome artístico e se tornou Bob Dylan.

Bob Dylan, um dos melhores letristas do cancioneiro popular de todos os tempos, tinha paixão pela poesia de Dylan Thomas e de Arthur Rimbaud. Thomas também adorava Rimbaud.


Uma das raras fotografias de Rimbaud
jovem, quando escandalizava Paris

A única pessoa que parecia não gostar de Thomas era ele próprio. Desde jovem se empenhava, de todas as formas, a se destruir.

Até que demorou: a cirrose só o matou aos 39 anos.

Bebia de tudo até cair nas sarjetas. Dizem que pouco antes de falecer, já com a saúde muito abalada, teria consumido 18 doses de uísque. Supostamente, quem as contou com tamanha precisão devia estar bastante lúcido!

Escreveu um romance autobiográfico cujo título parafraseia o Retrato de um artista quando jovem, de James Joyce, seu prosador preferido. O romance de Thomas se chama Retrato do artista quando jovem cão.

Segue o poema In my craft or sullen art (Neste meu ofício ou arte), vertido por Augusto de Campos:

Neste meu ofício ou arte

Neste meu ofício ou arte
Soturna e exercida à noite
Quando só a lua ulula
E os amantes se deitaram
Com suas dores em seus braços,
Eu trabalho à luz que canta
Não por glória ou pão, a pompa
Ou o comércio de encantos
Sobre os palcos de marfim
Mas pelo mero salário
Do meu coração mais raro.

Não para os orgulhosos à parte
Da lua ululante escrevo
Nestas páginas de espuma
Nem aos mortos como torres
Com seus rouxinóis e salmos
Mas para os amantes, braços
Cingindo as dores do tempo,
Que não pagam, louvam, nem
Sabem do meu ofício ou arte. 

Hart Crane viveu algumas décadas antes de Thomas. Mas as personalidades e os interesses por poesia eram idênticos. Figuras de linguagem e até palavras estranhas recorrentes na poesia de Crane se repetem na de Thomas.

O curioso é que Thomas só conheceu a poesia de Crane pouco antes de morrer. Alguém disse que a produção do poeta norte-americano se parecia muito com a dele.

O galês zombou, mas ao ler um poema de Crane, ficou fascinado. Concordou que o norte-americano era, estranhamente, um duplo dele.

Crane também também era autodestrutivo ao extremo e obcecado por sexo, só que com homens. Seus preferidos eram os marinheiros, para os quais se exibia nos botecos mais fuleiros das ilhas caribenhas.

Levou uma vida das mais atribuladas, em constantes porres. Num deles, se pinchou do navio onde se encontrava próximo de Cuba e nunca mais foi visto. Morreu um pouco mais jovem que Thomas, aos 32 anos.

Crane começou a escrever poesia por influência de Ezra Pound e T.S. Eliot.

Depois, passou a se interessar especialmente pelo simbolismo francês (Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Jules Lafougue) e pelos chamados poetas metafísicos ingleses, sobretudo John Donne (1572-1631).

É curioso, mas essas são as mesmas referências de formação de Dylan Thomas.

Após a publicação de Bridge, em 1930, Hart Crane entrou numa profunda depressão, embora continuasse a produzir em estilo requintado.

Considerado por muitos de difícil compreensão, e tendo falecido jovem, tornou-se num dos poetas mais influentes da sua época e, da mesma forma que Thomas, um dos preferidos dos poetas da geração beat.

Segue a versão ao poema Praise for na urn (Louvor a uma urna), nitidamente influenciado pelo poeta simbolista franco-uruguaio Jules Laforgue, também com tradução de Augusto de Campos:

Louvor a uma urna

Era do norte o rosto terno
Do falso exilado, juntando
De Pierrô o olhar eterno
E a gargalhada de Gargântua

Os sonhos que me confiava
Do travesseiro branco, insone
Agora sei, eram heranças
Corcéis suaves de ciclones

No monte oblíquo a lua oblíqua
Nos deu presságios indistintos
Do que ainda vivo o morto abriga,
Questões da alma e dos instintos,

Iguais às que, no crematório,
Do alto o relógio remoía
Sem poupar nosso obrigatório
Louvor às glórias desse dia.

Mas ao lembrar a mecha de ouro,
Já não suporto o rosto baço
Nem as abelhas, surdo coro,
Atravessando a luz do espaço.

Espalha a cinza destes versos
Pelos subúrbios, no arrebol
Onde se perderão, dispersos.
Estes não são os troféus do sol.

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