sábado, 30 de agosto de 2014

Dylan lalinho, o caipira que pirou o mundo

Entre os vários bons letristas da musica pop norte-americana, três produziram versos interessantes de se ler, mesmo que desgarrados das respectivas canções para os quais foram compostos: Bob Dylan, Lou Reed e Jim Morrison.

Refiro-me ao contexto pop. Lá atrás há o mestre Cole Porter, o Noel Rosa das Américas. 

Neil Young e Johnny Cash também escreveram boas letras, mas indissociáveis das respectivas melodias.
   
Da música popular brasileira, consigo ler, com relativo interesse, letras de Noel Rosa, algumas de Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Caetano Veloso, e quase todas de Torquato Neto e Waly Salomão.

Nos casos destes porque as canções compostas com os parceiros músicos eram poemas musicados.

Bob Dylan, neto de imigrantes judeus russos, nasceu com o nome de Robert Allen Zimmerman.
 
 
Bob Dylan

O pai era um pequeno comerciante da cidade mineira Hibbing, do estado de Minnesota.

Até a adolescência ajudou o pai na loja de materiais elétricos. Era gordinho, introspectivo e detestava a escola. Aproveitava o tempo livre para ouvir cantores country e de rock’n’roll das paradas de sucesso interioranas.

Aprendeu os primeiros acordes no velho piano da família, até ganhar do pai um violão e uma gaita.

Não teve professores de música, até porque não existia nenhum na pequena Hibbing (cerca de 15 mil habitantes). Tudo o que aprendeu foi como autodidata.

Formou duas bandas de rock na cidade, nas quais tocava guitarra elétrica e fazia covers de Elvis Presley e Johnny Cash...


Sua identificação com Cash durou toda a vida.

Quando já era um dos cantores mais populares dos EUA, como Bob Dylan, e passou a ser hostilizado pelo público e pela mídia, Cash saiu em sua defesa e gravou algumas de suas canções.


Johnny Cash

Aos 18 anos, Robert Zimmerman (Bob Dylan a essa altura não existia) foi enviado para Minneapolis, para estudar na Universidade de Minnesota.

Estudou droga nenhuma, mas descobriu o repertório que lhe deu sustentação para o início da carreira: as canções folk de protesto preferidas pelos universitários.

Há um episódio engraçado desse período. Zimmerman frequentava o apartamento de uns estudantes só porque tinham uma ótima coleção de discos.

Ele era muito duro. A grana que o pai enviava dava para sobreviver modestamente. Para ouvir música, era preciso recorrer aos colegas que dispunham de condições financeiras para ter equipamentos de som e discos.

Os moradores do tal apartamento viajaram e Zimmerman surrupiou um número considerável de discos. Como somente ele sabia onde deixavam a chave, foi fácil deduzir quem os furtara.

Dois rapazes o procuraram com o propósito de resgatar os discos e dar-lhe uma surra.

Mas Zimmerman demonstrou tantos conhecimentos a respeito dos artistas cujos discos apanhara – dentre eles Woody Guthrie e Pete Seeger – que não só não lhe deram a surra, como decidiram doar os discos a ele.


Woody Guthrie

Também lia muito poesia. Em outra república de estudantes furtou um livro do poeta e dramaturgo galês Dylan Thomas. Foi paixão à primeira vista. Aonde ia levava o livro, até que suas páginas começaram a se desfazer.

Decidiu que teria de escrever poesia com a verve pulsante e referências apocalípticas de Thomas. Embora tocasse gaita e violão o tempo todo, já com boa desenvoltura, ainda não sabia se queria ser poeta ou cantor.

E se fizesse ambas as coisas, tornando-se um poeta cantor?

Robert Zimmerman, para decepção da família, anunciou que não queria mais cursar universidade. Disse que iria para Nova York, a fim de tentar ganhar a vida como artista.

O pai se encrespou, deu-lhe o dinheiro da passagem, mas daí por diante cortou a mesada.

Em condições bastante precárias, Zimmerman chegou à metrópole.

Com o bom repertório de canções folks que aprendera durante a curta estadia em Minneapolis, conseguiu bicos para tocar em bares. Mas sua voz anasalada não agradava muito.

Razão pela qual volta e meia pensou em desistir da música e se tornar poeta. Além do galês Dylan Thomas, tinha agora outra paixão: o poeta simbolista Arthur Rimbaud. Caipira como ele – Rimbaud era filho de pequenos agricultores franceses.

Qual fizera seu ídolo Johnny Cash no passado, inventando histórias mirabolantes sobre si mesmo, Zimmerman passou a se apresentar com um novo nome: Bob Dylan.

Bob era abreviatura do seu prenome e Dylan era uma homenagem ao poeta galês que tanto admirava.

Negava que fosse judeu. Dizia às pessoas que era descendente de índios (por isso o nariz adunco), que vivera no México, onde tivera um tórrido caso homossexual com um poeta beat.

Na verdade nunca teve qualquer experiência homossexual. Tratava-se de uma referência ao transloucado romance do outro poeta que admirava, Arthur Rimbaud, com o também poeta Paul Verlaine.

E se declarar homossexual, na época, dava imagem positiva. Tratava-se, portanto, de mais uma estratégia para se fazer conhecido.

Lou Reed utilizara a mesma artimanha ao dizer publicamente que era amante de um transformista que, na verdade, se tratava apenas de um amigo da trupe do seu grupo, o Velvet Underground.

Para dar mais autenticidade à sua historia, Dylan recitava até poemas do suposto ex-amante. Os poemas, na verdade, eram todos de sua própria lavra.

Para construir a mítica em torno do seu nome, colaborou bastante o fato de ter descoberto que o famoso ídolo folk Woody Guthrie se encontrava internado num hospital psiquiátrico noviaorquino, por ser portador de uma doença degenerativa rara.

Dylan passou a visitá-lo com frequência.

Declarava às pessoas que era amigo pessoal de Guthrie. Para comprovar, trouxe uma letra de uma canção manuscrita pelo próprio com uma dedicatória a ele, Dylan.

Em 1961, conseguiu o primeiro trabalho profissional, mas só como instrumentista: tocou gaita na gravação de uma canção da cantora folk Carolyn Hester.

O empresário John Hammand o levou à gravadora Columbia para gravar, em 1962, seu primeiro disco, com composições de vários autores folks.

Mas sua voz de taquara rachada, ainda um tanto infantilizada, devido à pouca idade, não colou e o disco foi fracasso total. Dylan era ironicamente mencionado como o “fiasco do Hammand”.

Ainda assim, o empresário continuou a investir nele e o colocou como instrumentista em gravações de outros intérpretes folk.

Mas Hammand se dobrou às críticas e acabou se esquecendo dele. Dylan procurou um novo empresário, Albert Grossman, com quem sua carreira viria a se deslanchar.

Grossman o estimulou a compor.

No inicio de 1963, o empresário conseguiu incluí-lo na gravação de um especial sobre música folk produzido pela BBC e Dylan, até então um desconhecido, viajou para o Reino Unido.

Em Londres se deu a primeira apresentação pública da canção que o tornou popular: Blowin' in the wind.

Quando seu segundo álbum, The freewheelin' Bob Dylan, foi lançado em Nova York, em maio de 1963, ele já era figurinha carimbada.

Blowin' in the wind foi mais um dos tantos furtos de Dylan. Sua melodia derivava da canção tradicional No more auction block.

O verdadeiro diferencial é que sua letra era precisa ao questionar o status quo social e político da época e, por isso, caiu rapidamente nas graças do público.

Foi dessa forma que Dylan se tornou celebridade da noite para o dia: abordando os temas certos, nos momentos certos, com muita precisão e impacto.

Os acordes de A hard rain's a-gonna fall foram tirados da balada folk Lord Randall. Mas sua letra, com referências ao apocalipse nuclear, ganhou especial ressonância durante o desenrolar da crise dos mísseis de Cuba.

Dylan, embora muito jovem, mostrava uma esperteza autopromocional que às vezes surpreendia até seu próprio empresário.

Com essas duas canções, marcou seu prestígio no imaginário folk das canções de protesto.

Um novo pulo do gato foi seduzir Joan Baez, a queridinha do vasto público universitário que admirava as canções folks de protesto.


Dylan com Joan Baez

Baez foi determinante para dar popularidade nacional e internacional a várias canções de Dylan. A partir dela, outros intérpretes passaram a gravar suas canções.

Embora do ponto de vista comercial tudo parecesse perfeito, Dylan começou a manifestar sinais de inquietação.

Essa foi uma marca de toda sua vida. Quando um degrau da carreira era atingido, já estava se preparando para outro.

Dylan começou a dar sinais de que mudaria de rumo. Afastou-se das canções folk de protesto, voltando-se para letras mais pessoais, introspectivas, ligadas à sua visão muito particular do mundo.

Suas letras se tornaram cada vez mais ousadas e originais. Começaram os primeiros conflitos com seu público, predominante de esquerda, que exigia compromisso com as temáticas sociais.

A transição de sua carreira se efetivou de vez quando eletrificou sua música – até então se apresentava apenas com violão e gaita – e passou a tocar com uma banda de blues-rock como apoio.

Sua plateia ficou chocada. Houve muitas vaias. Dylan era chamado de “traidor”. Um fã mais ardoroso rondou sua casa, deu tiros para o alto e ameaçou matá-lo.

A maioria dessas pessoas ignorava que Dylan, na verdade, estava voltando às suas origens. Ele usou o cenário folk por oportunismo, por entender que era o contexto mais favorável para se fazer conhecido.

O uso de instrumentos elétricos também não era novidade. Fora utilizado pelos artistas que admirava desde a adolescência, em especial Elvis Presley e Johnny Cash, que trabalhavam com instrumentos elétricos desde os anos 1950.

Mas a guinada não era só por isso. O sucesso dos Beatles e demais roqueiros britânicos na releitura do rock americano também lhe chamaram a atenção.

De ídolo nacional, Dylan passou a ser considerado um crápula pelos fãs irados.

Nesse período em que viveu em clima de guerra com seu púbico lançou algumas das melhores canções do seu repertório: Maggie's farm (também surrupiada de uma canção tradicional), Subterranean homesick blues, Gates of Eden, It's alright ma (I'm only bleeding), Mr. Tambourine Man, Ballad of a thin man, Like a rolling stone, Just like a woman, entre outras.

Questionado por usar melodias de outras canções como ponto de partida para suas composições, Dylan debochou:

– E daí? Todos os músicos populares copiam algo de alguém.

Em 1966, após uma tumultuada turnê pela Inglaterra, devido ao formato rock do show, Dylan sofreu um acidente de moto que o afastou dos palcos e das gravações por dois anos.

Quando retornou, novamente surpreendeu o público ao reaparecer com roupagem country, tendência que se acentuaria nos próximos anos.

Era, mais uma vez, uma volta às suas origens.

O rock’n’roll e o blues que Dylan mais admirava eram os de origem rural. Nesse mesmo período, os Rolling Stones também davam uma guinada para o country, por influência do compositor norte-americano Gram Parsons.

Em 1969, Dylan deixou de realizar turnês por cinco anos, para se concentrar no trabalho de estúdio.

Quando retornou aos palcos, em 1974, voltou acompanhado da afinadíssima The Band, com a qual lançou os excelentes álbuns Before the flood e Blood on tracks.


Dylan e Robbie Robertson, o ótimo guitarrista da The Band

Em Desire, para mim seu melhor disco, utilizou The Band e parte do grupo jamaicano The Wailers, de Bob Marley.

A canção Hurricane, baseada na história de Rubin Carter, um boxeador negro preso injustamente, foi um grande sucesso.

Em 1978, Dylan promoveu nova reviravolta em sua carreira: voltou-se para a música gospel, após se converter ao cristianismo e se filiar ao catolicismo. Mais uma vez foi chamado de “traidor”, agora pelos judeus conservadores.

Com Infidels, de 1983, Dylan afastou-se da fé cristã e voltou-se inesperadamente para suas raízes judaicas.

Não vou mencionar aqui a enorme discografia de Dylan. Em todos os seus discos há uma ou mais letras memoráveis. Sem dúvida ele é um dos melhores poetas da canção popular de língua inglesa.

Quanto às melodias de suas canções, é como ele próprio disse: os compositores populares sempre copiam algo de alguém.

A seguir, transcrevo minha versão, não literal, de sua  bela canção Jokerman. Tento passar a força apocalíptica do original.

Para mim, “jokerman” não é um mero jogador. Ele se refere a Deus, como uma figura poderosa, diabólica, a mexer como nossos destinos, à nossa revelia.

Por isso, transpus para “jocoringa”: um jogador jocoso, com poder devastador sobre o acaso.

Jokerman conta com ótima interpretação nacional de Caetano Veloso. A seguir, o cantor a apresenta ao vivo:



Segue minha versão:

Jocoringa

Estando todo tempo à caça do teu pão

Enquanto os olhos do ídolo cuca-de-ouro incandesce
Distantes navegantes chips a todo míster
O bote da cobra nos pulsos, com o impulso de um furacão 
Vento livre, à toda, em cada esquina
Com teus embustes brutos, o que de bom você faz?

(coro)

Jocoringa dança o canto do rouxinol
Pássaros passam alto na ausência do sol
Oh, oh, oh, Jocoringa

Tão veloz o sol se dissolve no céu

Você se levanta e não diz nada a ninguém
Põe fogo no rush para que os anjos se queimem
Presente sem futuro, horas de horror, é o que você tem
Bem acomodado sobre teu leito de nuvens
Está sempre à frente dos que agem e pensam assim

(coro)

Jocoringa dança o canto do rouxinol
Pássaros passam alto na ausência do sol
Oh, oh, oh, Jocoringa

Você, homem das montanhas, que caminha nas nuvens

Manipula multidões e sonha com furacões
Você está indo pra Sodoma ou Gomorra
Precisa de explosivos para chamar a atenção de tua irmã
Um amigo pra mártir, um amigo pra fêmea humilhada
Que procura um homem sem face com quem possa se unir

(coro)

Jocoringa dança o canto do rouxinol
Pássaros passam alto na ausência do sol
Oh, oh, oh, Jocoringa

Bem, o livro do Levitíco e do Deuteronômio

Os mandamentos da floresta num mar de ensinamentos
A neblina da manhã jorrando leite metálico
Michelangelo esculpido na imagem da fartura
Repousa num campo, longe das turbulências
Adormece sob estrelas o cão que te lambe inteiro

(coro)

Jocoringa dança o canto do rouxinol
Pássaros passam alto na ausência do sol
Oh, oh, oh, Jocoringa

Bem, o homem do rifle espreita as doenças da lama

O pregador procura certezas e só encontra mesmice
Trabalho noturno, canhões de água, chá com gás, cadeados
Coquetéis molotovs e muito rock por trás das cortinas do óbvio
Falsos juízes se prendem nas teias por eles próprios trançadas
Recortes de jornais guardados em gavetas enquadradas

(coro)

Jocoringa dança o canto do rouxinol
Pássaros passam alto na ausência do sol
Oh, oh, oh, Jocoringa

É um sombrio mundo, céu incerto, cinzento

Mulheres dão à luz príncipes vestidos de escarlate
Tome esses meninos sem mães pelas mãos
 E os coloque em algum lugar sem mais colóquios
Oh, Jocoringa, você sabe o que eles querem
Oh, Jocoringa, você só não quer dar a eles a resposta

(coro)

Jocoringa dança o canto do rouxinol
Pássaros passam alto na ausência do sol
Oh, oh, oh, Jocoringa

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