sábado, 30 de agosto de 2014

Existe som, existe silêncio, existem séries, existe Anton Webern

Uma música sucinta, sintética, com espaços que funcionam como notas.

Segundo Augusto de Campos, embora sejam de universos musicais distintos, há semelhanças entre o cantor popular brasileiro João Gilberto e o compositor de música erudita moderna Anton Webern (1883 - 1945).


Anton Webern

Ambos perfeccionistas e sucintos ao extremo.


Em um de seus morfogramas – poemas visuais feitos a partir de imagens justapostas – Augusto sobrepõe imagens dos dois músicos.


Anton Webern foi um compositor austríaco pertencente à chamada Segunda Escola de Viena, liderada por Arnold Schöenberg (1874-1951), determinante para o surgimento da música dodecafônica – já era embrionária na obra de outros compositores anteriores a eles.


Arnold Schöenberg

Schöenberg, Webern e Alban Berg (1885-1935), que Webern conheceu tempo depois, revolucionariam a música no século XX.


Alban Berg

Berg foi um grande compositor. Trágico, de insatisfação constante, autodestrutivo, genial, arrogante, sarcástico, personalíssimo. O típico ariano.

Webern também era ariano. Mas modesto, tímido, austero, cerebral, impessoal, avesso ao estrelato, trabalhador incansável.

Webern é conhecido e admirado pelas inovações rítmicas, timbrísticas e dinâmicas que formaram um estilo musical próprio conhecido como serialismo, o principal legado inventivo pós-dodecafônico.


Dentre os pupilos de Schöenberg (provinha de uma família judia de origem húngara), Webern foi o que mais avançou, a partir dos elementos empregados, para resultados inovadores dentro do contexto da música atonal.


Webern começou como filiado ao expressionismo. A partir do atonalismo passa, gradativamente, a trabalhar com sutis combinações de timbre e som...



Os recursos por ele empregados são as formulações microformais, a melodia de timbres, a escrita musical atomizada, a partir de composições não-temáticas – também neste aspecto foi para terreno oposto ao de Alban Berg, cuja música é toda temática.

Webern era perfeccionista ao extremo. Produto consumado do artesanato mais laborioso e, ao mesmo tempo, autocrítico impiedoso, a ponto de destruir obras concluídas por não considerá-las essenciais.


Seu limite era a superação, sempre, buscando o máximo com o mínimo – no final deste artigo verão que sua obra, embora a mais representativa da era dodecafônica, é diminuta se comparada a de outros compositores eruditos.


Fazendo um paralelo com a tríade da poesia concreta brasileira – encabeçada por Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos – ele está mais para o rigor de Augusto, cuja obra também é pequena, porém essencial.


Webern negava o personalismo do artista. Era um homem austero, espartano, de vida simples, totalmente dedicado à objetividade, ao perfeccionismo.


Como maestro, passou por Bad Ischl, Teplitz, Danzig, Estetino e Praga antes de voltar a Viena. Conduziu a Orquestra Sinfônica dos Trabalhadores de Viena entre 1922 e 1934.


Morreu de forma estúpida em Mittersill, Salzburgo, assassinado por um soldado norte-americano durante a invasão dos Aliados.

Houve uma discussão envolvendo o genro de Webern. O soldado, que não falava uma palavra de alemão, confundiu o compositor com um suspeito de atividades de mercado negro e o metralhou.


Por ser um homem de esquerda, passara toda a guerra escondido dos nazistas, na mais absoluta penúria. Não podia de forma alguma se expor, porque o regime certamente revolveria seu passado e acabaria num campo de concentração.


A produção de Anton Webern (1883-1945) foi fundamental para diversas correntes do pensamento musical do século XX, em especial para o compositor francês Pierre Boulez e o compositor norte-americano John Cage.


Pierre Boulez
John Cage

Também foram influenciadas por Webern as produções dos serialistas integrais da segunda metade do século XX e as obras de compositores de diversas poéticas pós-dodecafônicas.

O silêncio era fator determinante nas composições de Webern, tanto que sua duração era meticulosamente destacada em sua escritura musical.


Dentre os diferentes temas discutidos por Cage e Boulez durante o período que conviveram próximos (1949-54), o silêncio em Webern foi questão recorrente.


Ambos deixaram apontamentos importantes para a compreensão da obra do compositor austríaco.


Cage interpretou o silêncio em Webern a partir de estruturas rítmicas.

Boulez o interpretou como uma moldura para individualizar cada som ou conjuntos de altura.


Para Cage, Webern via o silêncio como reservatório do acaso, com a música passível de ser preenchida pelos sons ambientes imprevistos.


Para Boulez, o silêncio em Webern rarefaz, individualiza o som. Som e intervalo tornam-se, assim, conjuntos íntegros.


Pelas próprias anotações deixadas por Webern, é possível notar de que maneira a manipulação das pausas está relacionada com a estrutura rítmica e harmônica de sua obra.


Percebe-se o quanto o silêncio participa tanto da manipulação rítmica quanto da manipulação das alturas, observou Boulez. 


Boulez organizou e regeu gravações da obra completa de Anton Webern, que podem ser encontradas nas lojas especializadas em dois CDs.

Como no romance Finnegans Wake, de James Joyce, os pontos sonoros em Webern estão dispersos em espaços multidimensionais distribuídos em séries. Por isso, a escrita diagonal por ele desenvolvida é denominada "serialismo" ou “pontilhismo”.


A escrita weberiana desvinculou conceitos como motivo e obra. Inaugurou novas casualidades de associações que não estão vinculadas à preponderância temática.


A série, em Webern, tornou-se uma estrutura de pensamento polivalente, que passou a engendrar inclusive um vocabulário próprio.


O termo opus é utilizado para peças musicais indexadas (como são os casos de obras de Bach, Haydn, Mozart, Schubert e outros), as quais são identificadas por um número de opus, que geralmente é atribuído em ordem cronológica – considerando a data da composição ou da publicação da obra. A abreviatura usual é "Op.", (plural "Opp.").


A seguir, relaciono as obras de Webern indexadas, algumas com audições (por meio do Youtube):


Op. 1 – Passacaglia para orquestra (1908)



Op. 2 – Entflieht auf Leichten Kähnen, para coral a cappella com texto de Stefan George (1908)


Op. 3 – Cinco Lieder sobre Der Siebente Ring, para voz e piano (1907-08)


Op. 4 – Cinco Canções com texto de Stefan George, para voz e piano (1908-09)


Op. 5 – Cinco movimentos para quarteto de cordas (1909)


Op. 6 – Seis peças para grande orquestra (1909-10, revisado em 1928)



Op. 7 – Quatro peças para violino e piano (1910)




Op. 8 – Duas Canções com texto de Rainer Maria Rilke, para voz e oito instrumentos (1910; segunda versão sem data, terceira versão 1921 com nova instrumentação, quarta versão revisada para publicação 1925)


Op. 9 – Seis bagatelas para quarteto de cordas (1913)


Op. 10 – Cinco peças para orquestra (1911-13)


Op. 11 – Três pequenas peças para violoncelo e piano (1914)


Op. 12 – Quatro Canções para voz e piano (1915-17)


Op. 13 – Quatro Canções para voz e piano (1914-18)


Op. 14 – Seis Canções para voz, clarinete, clarinete baixo, violino e violoncelo (1917-21)


Op. 15 – Cinco Canções Sagradas para voz e pequena orquestra (1917-22)


Op. 16 – Cinco cânons sobre textos em latim, para alto soprano, clarinete, e clarinete baixo (1923-24)


Op. 17 – Três Rimas Tradicionais, para voz, violino (alternando com viola), clarinete e clarinete baixo (1924)


Op. 18 – Três Canções para voz, clarinete em Mi bemol e violão (1925)


Op. 19 – Duas Canções para coro misto, celesta, violão, violino, clarinete e clarinete baixo (1926)


Op. 20 – Trio de cordas (1927)


Op. 21 – Sinfonia (1928)



Op. 22 – Quarteto para violino, clarinete, saxofone tenor e piano (1930)


Op. 23 – Três canções sobre Viae inviae de Hildegard Jone, para voz e piano (1934)


Op. 24 – Concerto para 9 instrumentos flauta, oboé, clarinete, trompa, trompete, trombone, piano, violino e viola (1934)


Op. 25 – Três Canções sobre textos de Hildegard Jone, para voz e piano (1934-35)


Op. 26 – Das Augenlicht, para coro misto e orquestra, sobre um texto de Hildegard Jone (1935)


Op. 27 – Variações para piano (1936)


Op. 28 – Quarteto de cordas (1937-38)



Op. 29 – Cantata Nº 1, para soprano, coro misto e orquestra (1938-39)


Op. 30 – Variações para orquestra (1940)


Op. 31 – Cantata Nº 2, para soprano, baixo, coro e orquestra (1941-1943)


A seguir, a relação de obras de Webern que não foram indexadas:


Duas Peças para violoncelo e piano (1899)


Três Poemas, para voz e piano (1899-1902) 


Oito Primeiras Canções, para voz e piano (1901-1903)

Três Canções, sobre poema de Ferdinand Avenarius (1903-1904)


No Vento do Verão - ("Im Sommerwind"), para grande orquestra - sobre poema de Bruno Wille (1904)


Movimento lento para quarteto de cordas (1905)


Quarteto de Cordas (1905)


Peça para piano (1906)


Rondó para piano (1906)


Rondó para quarteto de cordas (1906)


Cinco Canções, sobre poema de Richard Dehmel (1906-1908)


Quinteto de piano (1907)


Quatro Canções, sobre poema de Stefan George (1908-1909)


Cinco peças para orquestra (1913)


Três Canções, para voz e orquestra (1913-1914)


Sonata de Violoncelo (1914)


Peça para crianças, para piano (1924)


Peça para piano, em tempo de minueto (1925)


Peça para Trio de cordas (1925)


"Deutsche Tänze" (Danças Alemãs) por Schubert (1824), orquestrado por Webern (1932)

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