sábado, 30 de agosto de 2014

Literatura e demais artes: coisas em comum e à parte

As relações entre a literatura – em especial a poesia – com as artes plásticas e a música são frequentes, mas difusas.

Isso sem contar que há autores que tramitam por diferentes artes, além da literatura. Não falo de pintores ou músicos que escreveram livros, mas de escritores de fato.

O poeta inglês Willian Blake (1757-1827) era também pintor e designer gráfico. Ilustrou as próprias obras, embora não com o vigor, a técnica e a profundidade de sua poesia.


Ilustração de William Blake

Já citei neste blog diferentes exemplos de escritores que foram também músicos.

Paul Bowles (1910-1999), além de importante prosador, foi prestigiado compositor.

Anthony Burgess (1917-1993) e Ezra Pound (1875-1972) deixaram peças eruditas.

James Joyce (1882-1941) era um bom cantor e tinha profundos conhecimentos musicais.

John Cage (1912-1992) foi tão inventivo na música quanto na poesia.

Na evolução dos estilos e escolas, ora literatura/artes plásticas/pintura estão próximas, ora afastadas...


Esta é a linha evolutiva (altamente questionável, é bom que se diga) dos principais estilos e escolas artísticas ocidentais: gótico-renascença-barroco-rococó-romantismo-realismo-impressionismo-expressionismo-modernismo.

Acreditem se quiser, pois é assim que se aprende do ensino fundamental ao superior. Citam até de quando a quando durou tal estilo/escola.

Mas é óbvio que nada se deu de forma tão coesa e cartesiana.

Para começar, muitas escolas sequer eram reconhecidas como tal pelos próprios artistas que as protagonizaram. Os nomes com os quais são identificadas foram atribuídos, posteriormente, por estudiosos.

O gótico, por exemplo, nunca existiu como algo organizado. Havia uma tendência, cujo estilo é identificável em obras surgidas em diferentes lugares e épocas. Mas nada que estabeleça uma linha harmônica entre elas.

Há sub-escolas e sub-estilos às vezes mais importantes que as escolas e estilos aceitos como preponderantes.

Enfim, fiquemos nas generalizações vulgarmente aceitas para não "perdermos tempo" com aquilo que não se ensina nas escolas.

Há momentos que uma das três (literatura, artes plásticas e música) está à frente (não necessariamente na vanguarda) puxando as demais.

Há momentos que se encontram totalmente dissociadas, como se nem pertencessem ao mesmo contexto cultural.

Um exemplo, nesse sentido, é o já mencionado estilo gótico.

Atingiu o apogeu na arquitetura com a construção de catedrais pelos principais centros urbanos da Europa medieval, entre os séculos XII e XIII, mas só chegou à literatura no século XVIII.


Catedral de Notre Dame (Paris)

Por outro lado, nesta se estendeu e se entrelaçou a outras escolas, como o romantismo (vide alguns contos de Edgar Allan Poe e Nikolai Gogol) e chegou até o século XX com os expressionistas H.P. Lovecraft e Horacio Quiroga.


H.P. Lovecraft
Horacio Quiroga

Durante o apogeu das vanguardas modernas, literatura, artes plásticas e música estiveram mais ou menos integradas e passaram por rupturas sintonizadas.

Mas isso se deu porque os movimentos modernos foram mais organizados, congregadores, inclusive porque a aproximação em bloco era questão de sobrevivência para seus protagonistas, que os lançaram entre duas guerras mundiais, em contexto extremamente instável.

Fora a questão de estilos e escolas, as influências que tramitam entre a literatura, as artes plásticas e a música são bem mais complexas, embora cada qual tenha suas linguagens, modos de realização e de expressão.

Não se trata de influências meramente figurativas.

Como o caso do poeta inglês John Keats (1795-1821) que se baseou num quadro do pintor barroco francês Claude Lorrain (1600-1682) para compor a bela Ode on a grecian urn.

De Stéphane Mallarmé (1842-1898), que se inspirou num quadro do também barroco François Boucher (1703-1770) para compor seu complexo poema L’aprés-midi d’um faune.

De Paul Verlaine (1844-1896), que procurou reproduzir os tons do violão no poema Les sanglots longs des violons.


Paul Verlaine

Edgar Allan Poe (1809-1849) tentou reproduzir o som e efeito o psicológico/cultural dos sinos de igrejas norte-americanas no poema Bells.

Bem, não devemos nos iludir com essas associações ao pé das letras, pois as relações mais complexas entre as três artes são as de natureza construtiva, estrutural.

Aí, sim, os estudiosos acadêmicos se embananam, afinal insistem em avaliar as artes sob aspectos históricos, sociológicos, psicológicos, etc. Ou seja, só conseguem analisá-las sob o suporte dos cabrestos semânticos.

Daí que nunca chegam ao essencial.

Por consequência, o acúmulo de conhecimento universitário no que diz respeito à produção cultural, salvo exceções, continua a servir unicamente aos que dependem da academia como meio de vida.

Papo entre comadres, totalmente afastado da realidade dos que produzem arte.

A chamada teoria literária evoluiu um pouco com o surgimento do formalismo russo, do estruturalismo e da semiótica. Ou seja, tendo por conhecimento princípios mais objetivos, aplicáveis e de interesse formativo para novos artistas.

Mesmo assim continua segmentada, restritiva, voltada para os próprios umbigos daqueles que a desenvolvem.

Só para exemplificar: faculdades de letras, salvo um ou outro acadêmico, são ainda incapazes de assimilar a obra de James Joyce.

Deus do céu, o principal escritor moderno nasceu em 1882, morreu em 1941 e continua tabu!

Já li absurdos como o de vincular suas invenções a uma presumível doença mental da qual seria portador.

Meus senhores, meus senhores!

Joyce deixou por escrito as chaves para compreender suas duas obras mais complexas: Ulysses e Finnegans Wake.

E se as orientações deixadas por ele não foram suficientes, recorram aos dois livros sobre a obra de Joyce deixados por Anthony Burgess.


Joyce ao violão

Joyce, como Burgess, era um erudito. Tinha uma percepção crítica de longe mais apurada e vasta que a acadêmica.

Escrevia tão bem com as palavras quanto com os pentagramas. Os milhares de cidadãos pendurados nos cabidões de emprego universitários não escrevem bem nem com aquelas milenares letrinhas de origem fenícia.

Joyce estava a par das grandes transformações da música no seu tempo. Era intimo de vários compositores de vanguarda, com os quais trocava ideias a respeito do que experimentava com as palavras.

Teve proximidade com a psiquiatria, mas não como paciente. Leu toda a obra de Sigmund Freud e Carl Jung, tanto por interesse literário quanto para tentar entender os problemas mentais de sua filha Lucia.

Foi amigo Jung, a quem recorria com frequência, por meio de cartas, para saber se a moça estava tendo a atenção adequada.

Joyce amava visceralmente Lucia. Seu estado de saúde (física) deteriorava conforme piorava a saúde mental da filha.

Quando a guerra os afastou – ela ficou internada na França e ele teve de partir para a Suíça – Joyce jogou de vez a toalha. Morreu cego, extremamente amargurado.

Ainda assim, até próximo dos seus últimos dias fez mudanças nas páginas de Finnegans wake, segundo ele sua "sinfonia" . Como não via, escrevia com os olhos e mãos dos amigos.

Joyce tinha profunda formação em línguas. Talvez entre os escritores modernos somente Ezra Pound tenha se aprofundado, tanto quanto ele, no estudo de variados idiomas, dentre os quais alguns extintos.

Quem tiver a intenção de ir a fundo em sua obra, é preciso, inclusive, conhecer a ruptura estrutural que resultou no dodecafonismo, no serialismo e em outras tendências da música que lhe eram contemporâneas.

Muitas das descobertas de Joyce com as palavras (em dezenas de idiomas) estão mais associadas a Arnold Schöenberg e Anton Webern que a escritores.

As relações construtivas (e de linguagem) entre literatura e música vêm de longa data.

Sabe-se que já existia na Grécia antiga, pois se encontram relatadas na Estética, de Aristóteles.

Parte do entrelaçamento entre literatura e música chegou até nós por meio das partituras rudimentares da poesia trovadoresca registradas em pergaminhos e códices, as quais nos permitem, hoje, ouvir algumas das canções compostas por mestres como Arnaut Daniel (1150-2010) e Raimbaut D’Aurenga (1147-1173).

A lírica isabelina também teve estreita relação com a música. O conhecimento musical de William Shakespeare (1564-1616) é evidente não só em seus perfeitos sonetos, como em seus principais textos dramáticos.


Retrato de Shakespeare

Mesmo um péssimo tradutor não é capaz de extirpar toda a musicalidade dos grandes dramas shakespearianos. 

Apesar das interações entre literatura, artes plásticas e música, em diferentes épocas, os universos das três continuaram distintos.

Quem quiser conhecer as particularidades de cada uma, creio que uma das melhores obras seja Estética, do pensador alemão Friedrich Hegel (1770-1831).

Mas é preciso despir parte de suas considerações idealistas, próprias do romantismo, para se fixar no essencial.

Os patamares clássicos sobre os quais evoluíram as três artes estão na já mencionada Estética, de Aristóteles.

Outros autores , como Denis Diderot (1713-1784), escreveram a respeito mas não com a mesma abrangência e marcos distintivos de Aristóteles e Hegel.

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