sábado, 30 de agosto de 2014

O ego engasga o logos em Gogol

Dos gêneros de prosa, o que mais me leva a reler, por prazer, é o conto.

Como diria Jorge Luís Borges, é o que, por ser mais compacto, permite maior precisão construtiva e refinamento de linguagem. Com isso, é o mais se aproxima do acabamento técnico da poesia.

Não é coincidência o fato de terem existido tantos poetas que foram, também, bons contistas. O próprio Borges é um exemplo. Edgar Allan Poe, outro.

Dois que foram mais poetas que prosadores: James Joyce e Guimarães Rosa. Escreveram vários gêneros de prosa, mas foram excelentes contistas.

Meu tio Iauretê, de Rosa, é obra perfeita, a meu ver superior a Grandes sertões: veredas, quanto ao acabamento. Claro que o segundo é uma obra monumental, muito mais complexa.

A literatura russa tem excelentes contistas. Meu preferido, sem nenhum demérito a Anton Tchekov, Ivan Turguêniev e aos demais, é o ucraniano Nikolai Vasilievich Gogol (1809 – 1852).


Retrato de Nikolai Gogol

Com 20 anos (1829), o jovem Gogol foi para São Petersburgo, onde conheceu o grande poeta, dramaturgo e prosador Alexandre Puchkin (1799-1837), o maior escritor de então, que indicou sua obra de estreia, Noites na herdade de Dikanka, para publicação.


Retrato de Puchkin, "o eritreu"

O êxito foi imediato. Mal saíra da adolescência, Gogol se tornou um dos escritores mais populares da Rússia.

Mas desde o início revelou ter uma cabeça complexa, sempre dividido entre várias outras preocupações que influenciaram de modo decisivo sua produção literária...


Dentre elas as de natureza mística, religiosa, política  e, a mais evidente de todas, a latente desconfiança de que a aceitação comercial (e do público) está em razão inversa à qualidade da obra.

Esta última dúvida o levou a abandonar a literatura seguidas vezes – sempre que algum de seus novos lançamentos fazia estrondoso sucesso – e, por fim, enlouquecesse.

O sucesso e aceitação pública, para ele, acobertavam seus reais objetivos como escritor: expor a condição humana em um país com desigualdades sociais tão gigantescas quanto seu território.

Passou a produzir obras com enfoque cada vez mais político, com críticas frontais ao poder monárquico russo (czarismo), cuja conjuntura trazia reminiscências feudais.

Os críticos, que antes haviam sido benevolentes, passaram a esculhambar Gogol pela ênfase nos aspectos políticos de sua obra.

Mas sua popularidade continuou em alta.

Curiosamente, a consensual aceitação pública continuava a incomodar mais o escritor que as ácidas considerações dos críticos à sua obra.

Gogol se sentia como um burocrata serviçal na condição de escritor popular.

Insistia que seu propósito não era vender livros e amealhar fortuna, mas denunciar, por meio da literatura, os vícios e abusos ao cidadão comum, humilhado e atravancado por uma sociedade déspota, absurda, centralizadora, insensível.

Ninguém o ouvia. A cada nova obra lançada, a crítica continuava descendo o porrete e a população seguia consumindo seus livros aos milhares.

Em pleno desarranjo emocional, Gogol fugiu (literalmentre) da Rússia e se tornou por alguns anos um viajante sem destino pela Europa, tendo permanecido a maior parte no tempo em território italiano.

Durante uma curta estadia pela França, recebeu a notícia da morte do seu amigo e protetor Puchkin, em 1837, em um duelo estúpido, por tentar lavar a honra após ter sido traído pela mulher – um final trágico idêntico ao do nosso Euclides da Cunha.

O homem que meteu uma bala no peito de Puchkin era um aventureiro francês a serviço do regime russo.

Gogol fica extremamente abalado e voltou à Rússia para concluir Almas mortas, romance que Puchkin deixara pela metade.

Em 1841, concluiu o romance iniciado pelo amigo. Tentou publicá-lo, mas o Comité Moscovita de Censura o recusou. Só conseguiu no ano seguinte, graças à intervenção de escritores influentes.

O romance trazia sátira impiedosa ao poder instituído. Mais uma vez a crítica cai de pau, acusando-o inclusive de deturpar a ideia original de Puchkin, transformando-a em mais uma obra com alto teor político.

Gogol voltou a abandonar a Rússia. Entrou numa fase mística exacerbada, que o levou a uma viagem de peregrinação a Jerusalém. Isso em 1849.

Sua saúde física e mental começou a a se complicar rapidamente. Mas sua produção literária prosseguiu de alto nível.

É desse período o excelente conto O retrato, sobre um pintor iniciante e idealista que nada vende, mas se dedica, sem as amarras comerciais, a realizar uma obra com o rigor técnico e profundidade nas quais acredita.


O desesperado, quadro de Gustave Courbet (1818-1877)

Ocasionalmente, compra um retrato numa loja de bugigangas. A obra lhe impressiona pelo olhar penetrante do retratado, que lhe dá a impressão de que o personagem está vivo.

Leva a obra para o local onde reside (que também usa como ateliê) e passa a ter seguidos pesadelos, confundindo o mundo onírico com o da realidade. Várias vezes vê o personagem saindo da tela, mas logo constata que se tratara apenas de um sonho.

A relação obcecada com a obra ocupa todo seu tempo. Chega então uma ordem de despejo, pelos meses de aluguéis não pagos. Por acidente, descobre que a moldura do quadro está recheada de moedas de ouro.

Era fortuna muda sua vida.

Paga os aluguéis atrasados e passa a dispor de recursos não só para se prover devidamente, como para comprar a influência dos críticos e se tornar um pintor influente.

No entanto, conforme sua aceitação pelo público se consolida, sua obra se torna mais e mais medíocre.

Torna-se um artista riquíssimo e passa a adquirir nos leilões as obras de todos novos pintores de talento, com a finalidade de destruí-las para que não venham a concorrer com as suas.

Por trás de tudo, está a influência do olhar vítreo do personagem do retrato adquirido no antiquário. O retrato o tirou da miséria, deu-lhe possibilidade de ser bem-sucedido, mas o transformou num sujeito mesquinho e doentio.

Claro que se trata de mais um enredo faustiano da literatura, sobre alguém que vende a alma ao diabo e, depois, amarga as consequências.

O importante em O retrato não é a trama, que reproduz no personagem os dilemas vividos pelo escritor, mas sua complexa construção, refletindo de forma metalinguística a relação imagem/espelho presente no perfeito conto Retrato oval, de Edgar Allan Poe, cuja Gogol desconhecia.


Retrato de Poe

Qual o pintor do seu conto, num acesso de fúria Gogol queima grande quantidade dos seus manuscritos inéditos. Obras que nunca mais puderam ser recuperadas, porque o estado de saúde do escritor declinou rapidamente depois do episódio.

Em menos de um ano após o incidente, o popularíssimo Nicolai Gogol morria na condição de doente mental que mal reconhecia os amigos mais próximos.

Quando Gogol faleceu, em 4 de março de 1852, Fiódor Dostoiévski (1821-1881)), que se dividia entre as funções de editor de jornal e de grande romancista, escreveu extenso e tocante artigo em homenagem ao falecido com o seguinte título metalinguístico: Todos nós saímos de O capote de Gógol.


Dostoiévski

Contos, romances e textos dramáticos de Gogol traduzidos e publicados no Brasil:

Almas mortas

Taras bulba

O nariz

O capote

O inspetor geral

O retrato

O diário de um louco

Arabescos

Noites ao pé de Dikanka

Viy

Uma terrível vingança

Mírgorod

Avenida Niévsky

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