sábado, 30 de agosto de 2014

"Para fazer um filme é preciso uma garota (como Anna Karina) e uma arma"

Qual Glauber Rocha no Brasil – que dizia que para fazer um filme bastavam uma câmara e uma boa ideia – o cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard dizia que, para ele, bastavam “uma garota e uma arma”.

Armas, Godard teve aos montes em seus filmes, de vários tipos, literais ou metafóricas.


Mas com garotas foi diferente.

Durante um bom tempo, houve apenas uma garota para o diretor. Aquela que serviu como seu alter ego. Um lindo rosto jovem no qual o cineasta — e também os espectadores — poderia projetar seus sonhos.


No início dos anos 1960, para fazer um filme, o que Godard precisava mesmo era de Anna Karina.


Anna Karina em cena

Godard e Anna em pose sugestiva

Com sua beleza estonteante, olhar ingênuo, sapeca e, ao mesmo tempo, irônico, abusado, a atriz participou de sete longas-metragens de Godard e de dezenas de outros filmes importantes realizados na conturbada década de 1960.

Esteve em filmes de Luchino Visconti, George Cukor e Rainer Werner Fassbinder. Participou de musicais – também cantava – e chegou a gravar um disco com Serge Gainsbourg.


Foi, sem dúvida, a principal estrela da nouvelle vague. Principalmente de Godard, com quem esteve casada por tórridos
seis anos.

Consta que a adoração de Godard por Anna só se dava de forma plena quando havia uma câmera entre os dois. Na vida privada não se entendiam.

Em suas memórias, Anna conta que houve períodos – enquanto estiveram casados – que via Godard mais nos sets de filmagens que sob os lençóis.


Quando saía de casa e ela indagava a respeito do que ia fazer, a resposta era sempre a mesma: “Vou comprar cigarros.”


Ocorre que em muitas dessas saídas para “comprar cigarros” ele demorou semanas e até meses para retornar...



A nouvelle vague (nova onda) foi um movimento artístico do cinema francês identificado, equivocadamentre, com os distúrbios contestatórios dos anos 1960.

A expressão fora lançada em 1958 por Françoise Giroud, na revista L’Express, ao fazer referência aos novos cineastas Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais, Jacques Rivette, Claude Chabrol, Eric Rohmer e Agnès Varda.


Jean Paul Belmondo e Anna em Pierrot le fou, de Godard
Quase todos trabalhavam como críticos de cinema da revista Cahiers du Cinéma, com a qual também colaborou o brasileiro Glauber Rocha, a convite de Godard e Truffaut, dos quais era amigo.

A nouvelle vague começou com discussões teóricas sobre a sétima arte e as exigências de um cinema de autor.

Seus integrantes sempre negaram a intenção de constituir uma escola.


Realmente, fora a concordância sobre aspectos da construção cinematográfica, os filmes produzidos por cada um deles não tinham uma identidade em comum, como ocorrera com os diretores do expressionismo alemão e do neorrealismo italiano.

Mas havia alguns poucos traços em comum.


Satirizavam a própria linguagem cinematográfica. As cenas focavam o psicológico dos personagens, suas impressões cotidianas e banais.

De resto, não há como comparar sequer as obras de Godard e Truffaut, que eram muito próximos.

François Truffaut


Os primeiros filmes da trupe foram realizados sem grande apoio financeiro.

Eram caracterizados pela juventude dos seus autores, unidos pela vontade de transgredir as regras normalmente aceitas pelo cinema mais comercial.

O marco inaugural do presumível movimento foi o filme Le beau Serge, de Claude Chabrol, de 1958.


Logo em seguida, surgiram filmes que se tornaram clássicos como Acossado (A bout de souffle, 1959) e Alphaville (1965), de Jean-Luc Godard, e Os incompreendidos (Les quatre cents coups, 1959) e Jules et Jim (1962), de François Truffaut.


A seguir, trecho de Alphaville, com Anna Karina:



Muitos diretores foram, a partir daí, rotulados como integrantes da nouvelle vague, dentre eles Roger Vadim, que rapidamente passou a produzir filmes mais comerciais. Caminho também trilhado pelo pioneiro Claude Chabrol.

Paulatinamente, cada um seguiu seu rumo.


Godard continuou com seu cinema radical, avesso às concessões.


Truffaut seguiu por uma trajetória também radical, mas mais digerível que a do seu amigo Godard, o que lhe possibilitou inclusive alguns sucessos de bilheteria.


Alain Resnais persistiu com sua produção pequena, ficando mais conhecido por Hiroshima, mon amour (de 1959). Mesmo assim foi talvez o mais influente diretor do grupo.


Alain Resnais

Seu estilo contaminou toda a cinematografia mundial.


Nos EUA, diretores como Robert Altman, Francis Ford Coppola, Brian De Palma, Martin Scorsese e George Lucas sempre citam Resnais como uma de suas principais referências.

Vamos à musa Anna Karina...


Nascida na Dinamarca como Hanne Karin, chegou a Paris com 17 anos, fugindo da casa da mãe por não se dar bem com o padrasto.


Mal falava francês e não tinha trabalho.


Um dia foi abordada num café por uma agente que achava que ela tinha jeito de modelo. Assim, tornou-se manequim de Pierre Cardin e Coco Chanel, já com o nome de Anna Karina.

Godard a viu num comercial de TV e a convidou para participar do seu primeiro filme, Acossado. O problema, porém, foi que lhe ofereceu um papel no qual ela teria que ficar nua.


Anna prontamente recusou, por ser contra a nudez.


No filme seguinte, O pequeno soldado (rodado em 1960, mas lançado apenas em 1963 por conta da censura francesa, que não aprovara as cenas de tortura), foi novamente chamada e aceitou – desta vez sem a obrigação de ter que tirar a roupa.

Godard e Anna Karina fizeram juntos alguns dos principais filmes da nouvelle vague: Viver a vida (1962), Alphaville (1965), Pierrot le fou (O demônio das onze horas, 1965) e Uma mulher é uma mulher (1961).


Quando ainda era casada com Godard, trabalhou com Roger Vadim em La ronde (1964) e com Jacques Rivette em A religiosa (1966).


Em 1967, Serge Gainsbourg a convidou para participar da comédia musical Anna. O título não era coincidência: o roteiro foi escrito por Gainsbourg especialmente para ela.


Anna cantou no filme e gravou um disco com as músicas Gainsbourg.


Anna e Gainsburg

Depois, atuou ao lado de Marcello Mastroianni no italiano O estrangeiro, de Visconti, baseado na obra homônima do escritor francês Albert Camus.

Teve uma breve passagem por Hollywood, onde foi dirigida por George Cukor em Justine (1969).

Foi escalada por Fassbinder como a protagonista de Roleta chinesa (1976) e até dirigiu seus próprios filmes. O último foi Victoria, um musical de 2007.


Anna no cartaz do filme de Fassbinder

A beleza, o talento e os trabalhos variados renderam a Anna admiração pelo mundo.

Quentin Tarantino, por exemplo, se inspirou na personagem de Anna em Bande à part (1964), de Godard, para montar o visual de Uma Thurman em Pulp fiction (1994).

A seguir, a cena da dança em Band à part, na qual Tarantino se inspirou:

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