sábado, 20 de setembro de 2014

A sugestão de escrever este artigo partiu do meu chapa Douglas Mendosa, sempre ligado na cultura popular de fino trato.

E Araca, ou seja, Aracy de Almeida (1914-1988) foi de finíssimo trato.

Se tivesse sobrevivido à extensa vida boêmia, faria 100 anos neste 2014.

Feia, suburbana, biriteira, escrachada e com panca de fanchona.

Esse é o perfil que ficou para o público que conheceu Aracy em seus últimos anos de vida, a partir de suas participações como jurada em vários programas de calouros pela televisão.


Por trás dessa imagem – construída, como veremos à frente – está escondida uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos.


Uma mulher muito inteligente, com uma história de vida que traz na bagagem importante parcela da nossa mais criativa música popular.

Aracy foi, de longe, a principal intérprete do nosso maior compositor, Noel Rosa (1910-1937).


Dezenas das canções do feioso mais genial da música popular brasileira foram especialmente produzidas para a voz dela.

Capa de álbum no qual Aracy interpreta canções de Noel

Em 1933, foi apresentada a Noel pelo também compositor Custódio Mesquita.

Aracy já era então conhecida como intérprete de várias marchas carnavalescas de sucesso, mas à sombra do estilo de sua amiga Carmen Miranda.

Aracy jovem

No mesmo dia em que se conheceram, num programa de rádio, Noel a levou para o primeiro porre juntos num boteco fuleiro.

Daí por diante foi uma das companhias constantes do compositor, juntamente com o cantor Almirante e o compositor Ismael Silva, seus principais amigos do meio musical.


Ela jurou que nunca teve caso com Noel, mas se sabe que era discretíssima quanto às suas relações amorosas.


Almirante, no seu ótimo livro No tempo de Noel Rosa, sugere que dividiram o mesmo colchão em várias ocasiões. Não se sabe se para curar os porres ou dar umas bimbas. Mas Aracy foi, de fato, mais amiga e intérprete de Noel que namorada.


Capa da última edição do livro de Almirante

Era muito mais descolada e esclarecida que a maioria das cantoras de sua época.

Além de Noel, Ismael e Almirante, seu grupo de boemia incluía Di Cavalcanti, Ary Barroso, Francisco Alves, Sílvio Caldas, Antônio Maria, Fernando Lobo (pai de Edu Lobo) e Dorival Caymmi.


Ou seja, os bambas da música popular das décadas de 1930 e 1940. A própria Aracy foi compositora (de marchinhas carnavalescas).


Mas seu início de carreira foi difícil. Era feiosa, desbocada e de aparência simplória. Não havia para ela espaço nos palcos dos cassinos e no teatro de revistas, que requeriam cantoras educadas e de boa aparência.


Impôs-se na marra e só se deslanchou depois que conheceu Noel Rosa.

Em entrevista na década de 1970, disse que antes de conhecer Noel havia uma massa compacta de autores formada por Ary Barroso, Assis Valente, Joubert de Carvalho, Lamartine Babo, entre outros, que não lhe concedia nenhuma canção, porque a consideravam uma cantora suburbana de baixo nível.


“Não me respeitavam por causa da minha vida pouco convencional, do meu modo de dizer as coisas. Quem primeiro acreditou em mim foi mesmo o Noel, que gostava desse meu gênio. Aliás, o Noel tinha lá sua cuca bem fundida, sabe? Ele estava bom pra viver essa época de agora, porque ele era muito maluco. Maluco demais! Xingava as pessoas, botava apelido. Noel era impossível!”

Embora a maior parte dos seus amigos fosse homens, não era malquista pelas cantoras. Dentre outras, foi muito amiga de Carmen Miranda.

Aracy abraçada pela "madrinha" Carmen

No início da carreira foi protegida por Carmen, que a levava para abrir seus shows.

Após a morte de Noel, dedicou-se com determinação à obra do amigo, gravando séries de discos póstumos com suas composições....



A principal epopeia em língua portuguesa é, claro, Os lusíadas, de Luís de Camões (1524-1580).

Depois, acho eu, a mais importante obra em língua portuguesa com características de grande poema épico é Os sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909), embora escrito em prosa.


Euclides da Cunha

 Os lusíadas está no âmbito do formalismo barroco, como toda a obra de Camões.


O curioso é que Os sertões também, embora a formação de Euclides da Cunha, como poeta, fosse associada à última fase do romantismo no Brasil, convergente para a vertente nacionalista conectada aos ideais republicanos.


Euclides não era um filho da elite como a maioria dos intelectuais brasileiros do século XIX. Para ter uma boa formação, na época, tinha duas alternativas: a carreira militar e a carreira eclesiástica.


Optou pela primeira. Como integrante do Exército, formou-se em engenharia e passou a exercer a profissão, comandando a construção de vias férreas, pontes, entre outras obras.


Mas seus interesses eram muito mais amplos.


Junto com as atividades de engenheiro – que lhe dava os meios de sobrevivência – conseguiu atuar como professor de física, naturalista, jornalista, geólogo, geógrafo, botânico, zoólogo, hidrógrafo, historiador, sociólogo, professor, filósofo, poeta, romancista, ensaísta e... foi também um dos mais importantes escritores brasileiros...


O britânico John Anthony Burgess Wilson (1917- 1993) foi escritor, compositor, crítico e um respeitável biriteiro.

Controverso e avesso aos compromissos promocionais do mercado editorial, ao qual costumava espinafrar com suas críticas para jornais e revistas dos quais era colaborador, parte significativa de sua obra ainda permanece desconhecida do público.


Anthony Burgess e um amigo de penas

Ainda é lembrado principalmente pelo seu décimo oitavo livro, A clockwork orange (Laranja mecânica), escrito em 1962.

Seus livros, críticas e resenhas são marcados pela poderosa veia satírica
– similar à do seu colega de copo e ofício Guillermo Cabrera Infante (1929-2005) não poupando inclusive escritores britânicos de grande popularidade que lhe foram contemporâneos.

Cabrera Infante

Evidente que isso colaborou para aumentar os obstáculos à difusão de sua obra pelas editoras britânicas, cujos agentes detestavam o efeito negativo dos seus artigos àqueles que lhes rendiam os maiores porcentuais de venda.


O único escritor de língua inglesa da era moderna a cuja obra Burgess tirava incondicionalmente o chapéu era James Joyce (1882-1941). Foi, entre os escritores ingleses, o mais profundo conhecedor da obra do irlandês.


Depois de Joyce, para Burgess o principal escritor inglês moderno fora Joseph Conrad (1857-1924), que na verdade era polonês. Conrad escreveu Lord Jim, Heart of darkeness (Coração das trevas), entre outras grandes obras.

Baseado em Heart of darkeness, o cineasta norte-americano Francis Ford Coppola produziu Apocalypse now, seu principal filme, em 1979.
 
Conrad em 1904

Burgess dizia que justamente pelo fato de não conhecer o idioma inglês plenamente, Conrad era o melhor. Já os demais escritores ingleses modernos, dizia ele, escreviam em um idioma empastelado que nada tinha a acrescentar ao que Joyce já fizera...


É lugar-comum o fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson (1909-2004) ser apontado como o “pai do fotojornalismo”.

Embora tenha fundado nos anos 1940 a agência Magnum – junto com Robert Capa, David Seymour, George Rodger e William Vandivert –, a qual foi notabilizada pelo conceito de agência fotográfica voltada para o jornalismo e pela força das imagens de conflitos de guerra, temas sociais e políticos, Cartier-Bresson detestava ser chamado de repórter fotográfico.


"Pai do fotojornalismo", menos ainda, pois sabia que a profissão do repórter fotográfico já existia décadas antes dele ter tirado sua primeira foto.

Cartier-Bresson era tímido, discreto e de poucas palavras

Insistia que era fotógrafo, apenas, como qualquer outro.

A Magnun existe até hoje.


No documentário-entrevista L’aventure moderne, de Roger Kahane, produzido em 1962,  foi indagado a respeito dos fundamentos de sua técnica fotográfica.


Respondeu lacônico: “Observar, observar, observar”. E apenas acrescentou: “É pelos olhos que compreendo”.
 



O documentário é m dos poucos registros nos quais fala detalhadamente sobre seu trabalho. Era de poucas palavras e, pasmem, não gostava de ser fotografado...


Alban Maria Johannes Berg (1885 – 1935) foi um dos três principais compositores da chamada Segunda Escola de Viena, da qual provém o dodecafonismo e a música erudita serial.

Autodidacta musical até ser aluno de Arnold Schöenberg (1874-1951), seus primeiros trabalhos foram influenciados pela música impressionista e expressionista, bem como pelo cromatismo wagneriano.


Alban Berg

Mas acabou por se interessar por composição e pelo dodecafonismo. Junto com o seu mestre Schöenberg e seu amigo Anton Webern (1883-1945) pertenceu à chamada Segunda Escola de Viena (a primeira foi formada pelo trio Haydn, Mozart e Beethoven).


Arnold Schöenberg
Anton Webern

A mais conhecida peça de Berg é o Concerto para violino, na qual, tal como na maior parte do seu trabalho, emprega a técnica dos doze tons, que combina a atonalidade com as passagens harmônicas tradicionais da música europeia.


A seguir, Concerto para violino:




Berg fez parte da elite cultural de Viena durante o início do século XX.

No seu círculo de amigos encontravam-se os músicos Alexander von Zemlinsky e Franz Schreker, o pintor Gustav Klimt, o escritor satírico Karl Kraus, o arquitecto Adolf Loos e o poeta Peter Altenberg.


Chamado de "o romântico do dodecafonismo", levou ao ápice o drama expressionista...


No universo das histórias em quadrinhos (HQs), desde o surgimento desta arte na virada do século XIX para o século XX, são poucos os artistas do sexo feminino.

Quanto aos personagens que sustentam as tiras e histórias, há um pouco mais de equilíbrio entre os gêneros.

Existem várias protagonistas de HQs. Quase todas com forte apelo ao imaginário masculino acerca da sensualidade feminina.


Heroína de Milo Manara em plena ação

Ou seja, em um mundo dominado por super-heróis, as super-heroínas têm que lutar com armas próprias para ter seu espaço.

Algumas como parceiras ou namoradas dos heróis. Outras nos papéis de presas frágeis usadas pelos vilões para matá-los.


Mulher Gato e Mulher Maravilha, por exemplo, são versões femininas de heróis masculinos já consolidados. No caso destas Batman e Capitão América, respectivamente.


Mulher Maravilha

Com o tempo as mulheres foram ocupando novos espaços nas HQs, mostrando-se cada vez mais poderosas, inteligentes, destemidas e independentes. E, claro, muito sexy.


Uma das primeiras tiras cujo personagem central era feminino foi Little Orphan Annie, publicada pela primeira vez pelo desenhista norte-americano Harold Gray em 1924.


Tratava-se de uma órfã perseguida pelas vicissitudes da vida, com gosto pela caridade e desprezo à propensão da sociedade norte-americana de colocar o dinheiro acima de tudo.


Na década de 1930, o também norte-americano Chic Young criou a sorridente e resignada Blondie.


Durante os anos seguintes, surgiram vários personagens clássicos das HQs: Fantasma, Flash Gordon, Tarzan, Mandrake, entre outros. Todos tinham por trás uma namorada com presença forte em suas historietas.


Como separar o herói intergalático Flash Gordon, de Alex Raymond, da sua estonteante parceira Dale Arden?


Dale Arden com Flash Gordon

Milton Caniff criou, também na década de 1930, as historietas de Terry and the pirates, nas quais se sobressai a tenaz Dragon Lady.

Na Inglaterra, Norman Pett lançou a deliciosa heroína Jane, que tinha o hábito de perder suas roupas durante os episódios.


Capa de Pett para aventuras de sua Jane

Os desenhos de Pett alimentaram as fantasias sexuais dos soldados britânicos nas trincheiras de batalhas contra os inimigos nazistas.

Nos anos 1960, no vácuo da liberalidade comportamental e política, surgiram heroínas com alto apelo sensual.


Dentre elas Barbarella, do suíço Jean-Claude Forest, Valentina, do italiano Guido Crepax, e as sensualíssimas personagens do também italiano Milo Manara.

Barbarella, de Forest, satisfazia até robôs
 
Valentina, de Hugo Crepax

Além das heroínas já citadas, a seguir apresentarei algumas das personagens de HQs que marcaram época...


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Em 18 de março de 1965, no Teatro Jovem – Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro – estreou um dos melhores shows de samba já produzidos: Rosas de Ouro.

Previsto para ficar em cartaz por um mês, acabou permanecendo por dois anos.

O espetáculo foi idealizado por Hermínio Bello de Carvalho.


No elenco estavam cinco jovens sambistas – Elton Medeiros, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Anescarzinho do Salgueiro e Jair do Cavaquinho – e duas grandes cantoras: Clementina de Jesus e Aracy Cortes.

Elenco de Rosas de Ouro e; no centro, a "madrinha" Aracy de Almeida

A proposta era resgatar obras de grandes compositores então esquecidos pela mídia: Paulo da Portela, Nelson Cavaquinho, Cartola, Henrique Vogeler, Lamartine Babo, Sinhô e Ismael Silva.

O espetáculo também foi sucesso em São Paulo.


Dois anos depois, em 1967, retornava ao palco do Teatro Jovem com os mesmos artistas e repertório ampliado, fazendo nova temporada em São Paulo e na Bahia.

A partir da versão de 1967 foram produzidos dois excelentes álbuns ao vivo.
Ismael Silva, um dos homenageados por Rosas de Ouro
 
Um dos pontos altos era a homenagem a Ismael Silva (1905-1978), inspirada em shows similares realizados décadas antes pelo próprio compositor, nos quais era comumente apresentado por um coro com os seguintes versos do próprio Ismael:

Meus senhores espectadores
Esse é o grande Ismael
Quando fez o seu primeiro samba
A China não tinha descoberto o papel

 
Rosas de Ouro fazia justiça a um dos compositores seminais da história do samba, contemporâneo de Donga, Geraldo Pereira, Wilson Baptista, Heitor dos Prazeres, Pixinguinha e, entre tantos compositores geniais, do nosso maior sambista, Noel Rosa, do qual Ismael fora o principal parceiro.


Na sequência, vinha uma estrofe de autoironia de Ismael:

A todos que me aplaudem eu agradeço
Essa atenção é bem mais do que mereço
Se não gostarem não digam nada a ninguém
Senão os outros não vão me aturar também

 

Ouçam a apresentação com o próprio Ismael acompanhada pelo grupo vocal MP4, seguida de pot-pourri de várias músicas do compositor:



Ismael foi um show man à altura do excelente cantor e compositor cubano Bola de Nieve – este também tinha especial talento satírico...