sábado, 20 de setembro de 2014

A literatura nada alinhada de “Little Wilson”

O britânico John Anthony Burgess Wilson (1917- 1993) foi escritor, compositor, crítico e um respeitável biriteiro.

Controverso e avesso aos compromissos promocionais do mercado editorial, ao qual costumava espinafrar com suas críticas para jornais e revistas dos quais era colaborador, parte significativa de sua obra ainda permanece desconhecida do público.


Anthony Burgess e um amigo de penas

Ainda é lembrado principalmente pelo seu décimo oitavo livro, A clockwork orange (Laranja mecânica), escrito em 1962.

Seus livros, críticas e resenhas são marcados pela poderosa veia satírica
– similar à do seu colega de copo e ofício Guillermo Cabrera Infante (1929-2005) não poupando inclusive escritores britânicos de grande popularidade que lhe foram contemporâneos.

Cabrera Infante

Evidente que isso colaborou para aumentar os obstáculos à difusão de sua obra pelas editoras britânicas, cujos agentes detestavam o efeito negativo dos seus artigos àqueles que lhes rendiam os maiores porcentuais de venda.


O único escritor de língua inglesa da era moderna a cuja obra Burgess tirava incondicionalmente o chapéu era James Joyce (1882-1941). Foi, entre os escritores ingleses, o mais profundo conhecedor da obra do irlandês.


Depois de Joyce, para Burgess o principal escritor inglês moderno fora Joseph Conrad (1857-1924), que na verdade era polonês. Conrad escreveu Lord Jim, Heart of darkeness (Coração das trevas), entre outras grandes obras.

Baseado em Heart of darkeness, o cineasta norte-americano Francis Ford Coppola produziu Apocalypse now, seu principal filme, em 1979.
 
Conrad em 1904

Burgess dizia que justamente pelo fato de não conhecer o idioma inglês plenamente, Conrad era o melhor. Já os demais escritores ingleses modernos, dizia ele, escreviam em um idioma empastelado que nada tinha a acrescentar ao que Joyce já fizera...


"Little Wilson" estudou literatura e língua inglesa na Universidade de Manchester. Na mesma cidade teve formação superior em música.

Mas veio a II Guerra Mundial e foi servir as Forças Armadas Britânicas na Ásia.


A guerra terminou e Burgess por lá ficou, como professor contratado pelo Ministério de Educação na Malásia.

Em 1959, a luta pela independência da Malásia o deixou desempregado. Pior: na mesma época foi diagnosticado como portador de um tipo de câncer que lhe daria poucos meses de vida.


Sua esposa,
Llewela Isherwood Jones, vítima de um estupro coletivo década antes – episódio que é contado, ipsis litteris, no romance Laranja mecânica – sofria de transtornos mentais e se tornara alcoólatra compulsiva.

Preocupado em deixar sua esposa sem recursos financeiros, Burgess entrou num frenesi literário. Escreveu dia e noite, sem parar, tendo em vista a perspectiva de morrer em breve.

A fim de ganhar uns trocos, entre outras atividades contrabandeou roupas de grife para a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).


Tinha acesso fácil ao império estalinista devido ao seu passado de militante do Partido Comunista da Grã-Bretanha.

A previsão médica felizmente fora equivocada. Burgess não tinha droga nenhuma de câncer e viveu até 1993. Só não durou mais porque tomou tornéis de uísque.

Mas não parou mais de escrever ótimos romances e de compor peças de música contemporânea.

Llewela morreu de cirrose hepática em 1968. No mesmo ano, Burgess casou-se com Liliana Macellari, uma linguista do círculo do russo Roman Jakobson que fora sua tradutora na Itália.


Liliana Macellari e Burgess

Laranja mecânica, embora tenha como ponto de partida o trágico incidente que levou para sempre a sanidade mental de Llewela, é sobre a ampla utilização do behaviorismo em clínicas, consultórios e prisões da Inglaterra.


Aborda também o aumento da delinquência juvenil tanto no ocidente capitalista quanto na Rússia soviética no período.


Por isso o inglês utilizado no romance é russificado, abundante de gírias inventadas pelo autor associadas a vernáculos eslavos.


Como Joyce, Burgess conhecia vários idiomas – dentre eles o russo e vários já extintos.

Dado que o poeta e contista argentino Jorge Luís Borges também era profundo estudioso de idiomas, quando os dois se conheceram a empatia foi imediata.


Jorge Luís Borges

A afinidade também se deu porque ambos compartilhavam talento satírico.


Consta que se viram pela primeira vez num evento literário na Inglaterra. Na ocasião, Borges deixara os ingleses pasmados ao recitar poemas britânicos antigos em inglês arcaico.

Ao ver Burgess, o argentino foi até ele e fez uma brincadeira alusiva aos sobrenomes parecidos: “Dizem que eu sou você e costumo confirmar que sim. Às vezes até me pego assinando Jorge Luís Burgess.”


Ao que Burgess respondeu: “Não tem problema. Também costumo dizer as pessoas que você sou eu e eu sou você.”


Daí por diante ficaram amigos, com trocas de correspondências assíduas.


Burgess escreveu vários romances superiores a Laranja mecânica. Os ótimos Enderby Outside (de 1968) e A clockwork testament, or Enderby's end (de 1974) são dois deles.

Evidente que também colaborou com o sucesso de Laranja mecânica o fato de ter proporcionado
ao cineasta norte-americano Stanley Kubrick (1928-1999) um dos seus filmes mais populares.

O ator Malcolm McDovell em Laranja Mecânica

Além de Laranja mecânica, são estas as obras de Burgess traduzidas pelas editoras nacionais:

Sementes malditas (The wanting seed), de 1962

Mel para os ursos (Honey for the bears), de 1963

Enderby por dentro (Inside Mr. Enderby), de 1963

Nada como o sol (Nothing like the sun: a story of Shakespeare's love life), de 1964

Homem Comum Enfim (Here comes everybody: an introduction to James Joyce for the ordinary reader), de 1965

A última missão (Tremor of intent: an eschatological spy novel), de 1966

Macho & fêmea (MF), de 1971

Sinfonia Napoleão (Napoleon symphony), de 1974

O homem de Nazaré (Man of Nazareth: a novel), se 1979

Poderes terrenos (Eartly powers), de 1980

O tocadordepiano (The pianoplayers), de 1986

Qualquer ferro velho (Any old iron), de 1988.

Burgess sobreviveu, após o equivocado diagnóstico de câncer sobretudo do jornalismo.


Sua obra, embora muito superior à de George Orwell (1903-1950), seu contemporâneo, nem de longe acompanhou o mesmo sucesso de venda.

Enfim, ganhou o pão de cada dia não como romancista, mas como crítico e articulista, já que os editores ingleses, pelas razões já citadas, literalmente o boicotaram.

Como compositor, deixou três sinfonias e cerca de 150 composições curtas.


Burgess ao piano

Depois de Joyce, Burgess é o prosador moderno de língua inglesa do qual mais gosto.


Tinha personalidade irredutível, pouco afável (e adequável) às vicissitudes políticas do século XX, como seu contemporâneo francês Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Por isso, da mesma forma que Céline, se deu mal de sobra.

Louis-Ferdinand Céline

Burgess e Céline, salvo o fato de a esquerda detestá-los, inclusive porque em algum momento de suas vidas foram com ela identificados, estão entre os melhores escritores do século XX.

A esquerda é um Vaticano disfarçado. Elege os bons e os maus, a torto e a direito, conforme a conveniência.


Salvo exceções como Walter Benjamin e Antonio Gramsci, os prognósticos dos intelectuais de esquerda sobre arte e literatura são de uma aridez saariana.

Meus car@s, querem conhecer prosa moderna de alto nível?


Então leiam Burgess, Cabrera Infante e seu mestre Lezama Lima, Joseph Conrad, Jorge Luís Borges  e Louis-Ferdinand Céline sem preconceito.

E James Joyce, claro, que foi o maior de todos.


James Joyce

Um comentário:

  1. Olá Edvaldo
    Gostei dessa publicação do comentário de Burgess sobre o Conrad, que era bem mais conciso que o Anthony. De qualquer modo, o Burgess era uma figura ímpar e magnética da expressão da vontade; controverso e ousado, como convinha ao chauvinista, era personagem vastamente complexo e rico que soube trabalhar o seu mito.

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