segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Esse é o grande Ismael

Em 18 de março de 1965, no Teatro Jovem – Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro – estreou um dos melhores shows de samba já produzidos: Rosas de Ouro.

Previsto para ficar em cartaz por um mês, acabou permanecendo por dois anos.

O espetáculo foi idealizado por Hermínio Bello de Carvalho.


No elenco estavam cinco jovens sambistas – Elton Medeiros, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Anescarzinho do Salgueiro e Jair do Cavaquinho – e duas grandes cantoras: Clementina de Jesus e Aracy Cortes.

Elenco de Rosas de Ouro e; no centro, a "madrinha" Aracy de Almeida

A proposta era resgatar obras de grandes compositores então esquecidos pela mídia: Paulo da Portela, Nelson Cavaquinho, Cartola, Henrique Vogeler, Lamartine Babo, Sinhô e Ismael Silva.

O espetáculo também foi sucesso em São Paulo.


Dois anos depois, em 1967, retornava ao palco do Teatro Jovem com os mesmos artistas e repertório ampliado, fazendo nova temporada em São Paulo e na Bahia.

A partir da versão de 1967 foram produzidos dois excelentes álbuns ao vivo.
Ismael Silva, um dos homenageados por Rosas de Ouro
 
Um dos pontos altos era a homenagem a Ismael Silva (1905-1978), inspirada em shows similares realizados décadas antes pelo próprio compositor, nos quais era comumente apresentado por um coro com os seguintes versos do próprio Ismael:

Meus senhores espectadores
Esse é o grande Ismael
Quando fez o seu primeiro samba
A China não tinha descoberto o papel

 
Rosas de Ouro fazia justiça a um dos compositores seminais da história do samba, contemporâneo de Donga, Geraldo Pereira, Wilson Baptista, Heitor dos Prazeres, Pixinguinha e, entre tantos compositores geniais, do nosso maior sambista, Noel Rosa, do qual Ismael fora o principal parceiro.


Na sequência, vinha uma estrofe de autoironia de Ismael:

A todos que me aplaudem eu agradeço
Essa atenção é bem mais do que mereço
Se não gostarem não digam nada a ninguém
Senão os outros não vão me aturar também

 

Ouçam a apresentação com o próprio Ismael acompanhada pelo grupo vocal MP4, seguida de pot-pourri de várias músicas do compositor:



Ismael foi um show man à altura do excelente cantor e compositor cubano Bola de Nieve – este também tinha especial talento satírico...



Além de ter sido o principal parceiro de Noel Rosa – com quem compôs mais de vinte sambas – Ismael foi o que mais se aproximou, pela qualidade das letras, do compositor de Vila Isabel.

Ouçam, por exemplo, a letra sarcástica de Contrastes com Jards Macalé:




Existe muita tristeza
Na rua da alegria
Existe muita desordem
Na rua da harmonia

Analisando essa estória
Cada vez mais me embaraço
Quanto mais longe do circo
Mais eu encontro palhaço

Cada vez mais me embaraço
Analisando essa estória
Existe muito fracasso
Dcntro do largo da Glória

Analisando essa estória
Cada vez mais me embaraço
Quanto mais longe do circo
Mais eu encontro palhaço

 

Chico Buarque gravou em depoimento: “Ismael é a maior influência que eu tenho em toda a minha obra. É o meu verdadeiro pai musical.”

Ismael começou no samba como percussionista. Tocava pandeiro, cuíca e tamborim. Em razão disso, foi, ao lado de Geraldo Pereira, um dos compositores que revolucionaram o samba no aspecto rítmico.


Também foi o fundador de uma das primeiras grandes escolas de samba do Rio de Janeiro: a Estácio de Sá.


Ismael, como Noel, foi um dos primeiros letristas do samba a tratar do sofrimento amoroso.
Ouçam a linda Se você jurar (parceria com Nilton Bastos) com o próprio Ismael:
 



Se você jurar que me tem amor
Eu posso me regenerar
Mas se é para fingir, mulher
A orgia assim não vou deixar


Muito tenho sofrido
Por minha lealdade
Agora estou sabido
Não vou atrás de amizade


A minha vida é boa
Não tenho em que pensar
Por uma coisa à-toa
Não vou me regenerar


A mulher é um jogo
Difícil de acertar
E o homem como um bobo
Não se cansa de jogar


O que eu posso fazer
É se você jurar
Arriscar a perder
Ou desta vez então ganhar

 

O compositor era boêmio e vivia num ambiente de malandragem, no qual para sobreviver tinha de ser bom brigador, como seu amigo Geraldo Pereira.

Mas a valentia, que custou a vida de Pereira, trouxe o maior dissabor para a de Ismael: envolveu-se numa briga de bar e atirou no desafeto, que não morreu, mas ficou gravemente ferido.


Preso em flagrante, Ismael foi condenado a cinco anos de prisão. Envergonhado, o sambista refugiou-se em Teresópolis até o julgamento.


Pelo seu bom comportamento enquanto esteve preso, não precisou cumprir os cinco anos de pena, mas dois.


Quando saiu da cadeia estava completamente deslocado. Noel Rosa, seu grande amigo e parceiro, morrera quando estava em cana.


Ismael era um homem de brio, sensível e orgulhoso. Tinha medo que lhe fizessem perguntas sobre o que tanto queria esquecer. A partir do episódio desapareceu durante mais de década.


Só voltou ao convívio dos amigos e familiares a partir dos anos 1950, quando fez grande sucesso seu samba Antonico. O Nestor da letra é ele próprio. Lembrem-se que ele era percussionista (“toca cuíca, toca surdo e tamborim”).


Vejam a letra e, a seguir, a interpretação de Gal Costa no ótimo show Gal a todo vapor, dirigido por Waly Salomão:



Ô Antonico
Vou lhe pedir um favor
Que só depende da sua boa vontade
É necessário uma viração pro Nestor
Que está vivendo em grande dificuldade

Ele está mesmo dançando na corda bamba
Ele é aquele que na escola de samba
Toca cuíca, toca surdo e tamborim
Faça por ele como se fosse por mim

Até muamba já fizeram pro rapaz
Porque no samba ninguém faz o que ele faz
Mas hei de vê-lo muito bem, se Deus quiser
E agradeço pelo que você fizer
 



Com sérios problemas financeiros, Ismael vivia então dos minguados direitos autorais. Para complementar o que ganhava, trabalhou para a companhia ferroviária Central, como chefe de turma da segurança interna e foi auxiliar em um escritório de advocacia.

Principal amigo e parceiro de Noel


Ismael conheceu Noel Rosa no Café Nice, ponto de encontro de músicos e boêmios do Rio. Os dois já se admiravam. Nesse encontro fizeram o primeiro samba juntos: Para me livrar do mal.


Noel, o mais inventivo poeta do samba

Na sequência, vieram outras parcerias de Noel e Ismael que resultaram em sucesso: Adeus, Uma jura que fiz, A razão dá-se a quem tem, Boa viagem e Ando cismado.

Adeus foi composta em homenagem ao principal parceiro de Ismael, Nilton Bastos, que, como Noel, também morreu de tuberculose.


Com Nilton, Ismael criou sambas antológicos: Arrependido, É bom evitar, O que será de mim e Se você jurar, que estourou no carnaval de 1931. 


Em 1964 fez algumas apresentações no ZiCartola.


Ismael se apresenta no ZiCartola com Nelson Cavaquinho

No ano seguinte participou ao lado da amiga e intérprete Aracy de Almeida do musical O samba pede passagem, no Teatro Opinião, gravado ao vivo.

Capa do disco gravado ao vivo

Nesse mesmo ano seu nome apareceu nos jornais por ter sido barrado num desfile de escolas de samba. Justo ele que fora o fundador de uma das que estava na passarela.

Nunca escondeu o fato de não gostar da transformação das escolas de samba com o passar dos anos. Dizia que era um espetáculo bonito, mas se tornara uma brincadeira cara, sofisticada, não mais acessível ao povo.


Nos anos seguintes as coisas melhoraram para Ismael. Participou de uma série de shows em universidades, sendo reconhecido como um mito da MPB, e fez apresentações em programas de TV.


Em 1973, Ricardo Cravo Albim produziu o show Se você jurar, com Ismael e a cantora Carmen Costa.


Ambos iniciaram a carreira com Francisco Alves. Ismael, como compositor exclusivo do "rei da voz" e Carmen, como empregada doméstica do cantor.

Em 1978, um fulminante ataque cardíaco levou para sempre o “grande Ismael”.


Ismael Silva compôs mais de uma centena de sambas e dezenas de marchas carnavalescas.


Todas as suas composições nas quais aparece o nome de Francisco Alves como parceiro são fruto de contrato assinado por Ismael com o cantor, que na verdade nada compunha.


Alves forçava tal procedimento para também receber pelos direitos autorais. Há várias “parcerias” parecidas dele com Noel Rosa e outros compositores dos quais fora intérprete.


A condição: ou aceitavam a maracutaia ou ele não gravava a música. Além de Francisco Alves, vários músicos de sucesso utilizaram tal procedimento indevido na época.

Em seguida, os principais sucessos de Ismael em ordem alfabética, alguns dos quais com os nomes dos reais parceiros entre parênteses. As que não têm referência a parceiros têm, obviamente, letra e música de Ismael:


A razão dá-se a quem tem (com Noel Rosa), de 1932


Adeus (com Noel Rosa),  de 1931


Aliás, de 1973


Amor de malandro (com Freire Júnior), de 1929


Ando cismado (com Noel Rosa), de 1932


Antonico (com Alcides Gerardi),  de 1950


Assim, sim (com Noel Rosa),  de 1932


Boa viagem! (com Noel Rosa), de 1934


Coisa louca, de 1973


Com a vida que pediste a Deus, de 1939


Contrastes, de 1973


Dona do lugar (com Noel Rosa), de 1932


Gosto, mas não é muito (com Noel Rosa), de 1931


Liberdade, de 1931


Me diga o teu nome (com Nílton Bastos), de 1931


Nem é bom falar (com Nílton Bastos), de 1930


Novo amor, de 1929


O que será de mim? (com Nílton Bastos), de 1931


Para me livrar do mal (com Noel Rosa), de 1932


Quem não quer sou eu (com Noel Rosa), de 1933


Se você jurar (com Nílton Bastos), de 1930


Sofrer é da vida (com Nílton Bastos), de 1931


Tristezas não pagam dívidas, de 1932


Uma jura que fiz (com Noel Rosa), de 1932


Ismael gay?


Por mais que tentasse disfarçar, os boatos corriam no meio artístico de que sua preferência sexual era por homens.


O único romance hétero de Ismael de que se tem notícia foi com uma passista da Escola Estácio de Sá, com a qual teve uma filha.


Embora tido como homossexual, o compositor era discretíssimo quanto aos seus relacionamentos.


Se foi de fato gay, era do time de Madame Satã. Ou seja, veado macho, valente e brigador.

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