sábado, 20 de setembro de 2014

Nenhum artista tem domínio sobre o futuro de sua obra

É lugar-comum o fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson (1909-2004) ser apontado como o “pai do fotojornalismo”.

Embora tenha fundado nos anos 1940 a agência Magnum – junto com Robert Capa, David Seymour, George Rodger e William Vandivert –, a qual foi notabilizada pelo conceito de agência fotográfica voltada para o jornalismo e pela força das imagens de conflitos de guerra, temas sociais e políticos, Cartier-Bresson detestava ser chamado de repórter fotográfico.


"Pai do fotojornalismo", menos ainda, pois sabia que a profissão do repórter fotográfico já existia décadas antes dele ter tirado sua primeira foto.

Cartier-Bresson era tímido, discreto e de poucas palavras

Insistia que era fotógrafo, apenas, como qualquer outro.

A Magnun existe até hoje.


No documentário-entrevista L’aventure moderne, de Roger Kahane, produzido em 1962,  foi indagado a respeito dos fundamentos de sua técnica fotográfica.


Respondeu lacônico: “Observar, observar, observar”. E apenas acrescentou: “É pelos olhos que compreendo”.
 



O documentário é m dos poucos registros nos quais fala detalhadamente sobre seu trabalho. Era de poucas palavras e, pasmem, não gostava de ser fotografado...



Tinha extremo cuidado com a reprodução de suas fotos. Até a sua morte, fez questão de supervisionar todas as mostras que incluíssem imagens suas, para garantir que as tiragens fossem feitas com a mesma qualidade de grão, tonalidade e superfície.

Precisão geométrica

Ele era do tempo que o fotógrafo era um artesão que dominava todo o processo de composição de uma imagem: a escolha do que deveria ser clicado, a regulação manual da câmera, a escolha das lentes e, por fim, os procedimentos químicos que determinavam os resultados finais da revelação.


A seguir, algumas das imagens por ele classificadas como "instantâneos da realidade":















Sempre dedicou um cuidado extremo às exposições e, muitas vezes, foi enquanto as organizava que tomou decisões cruciais acerca do rumo do seu trabalho.

Acerca das escolhas dos instantâneos que caracterizam seu trabalho, sempre muito econômico no uso das palavras, costumava afirmar: “Não há nada no mundo que não tenha o seu momento decisivo.”


Em 1979, organizou uma seleção das 385 fotografias que considerava as melhores do seu arquivo e a destinou a instituições internacionais com o objetivo de fornecer a essência do seu trabalho.


Foram impressos seis conjuntos de provas dessa seleção, quatro dos quais estão em museus de França, Japão, EUA e Reino Unido.

Mas após sua morte os organizadores de mostras sobre sua obra voltaram a incluir milhares de fotos suas, rejeitando totalmente a criteriosa seleção feita pelo autor.


Vale observar que as 385 fotos por ele selecionadas seguem critérios técnicos e estéticos, e não os temáticos.

As exposições póstumas, contrariando Bresson, costumam dividir seu trabalho em três fases temáticas, cartesianamente associadas à cronologia.

A primeira fase – conforme as mostras atuais – se refere à sua produção entre 1926 e 1935, marcada pelas suas vinculações com o movimento surrealista.


Nela estão incluídas suas primeiras fotografias captadas com uma Brownie Box durante viagens pela Europa, México e EUA.


A segunda fase inicia-se com seu regresso dos EUA, durante a 2ª Guerra Mundial, quando se integra às forças alinhadas. É preso e, depois de ter fugido de um campo de concentração, torna-se guerrilheiro da Resistência e militante do Partido Comunista Francês.

 
Escombros e sofrimento da 2ª Guerra 


Relativo a essa fase do seu trabalho, os organizadores de suas mostras costumam destacar os trabalhos com temáticas “sociais”, de pendor humanista.

Ou seja, imagens sobre pobreza, crianças na rua, manifestações, etc. Esse é o Cartier-Bresson admirado por estudantes de jornalismo sedentos por clicar a realidade.


Mas se dessem alguma atenção às 385 fotos por ele organizadas como suas melhores, verificariam que a maioria dessas fotos deste período não foi incluída.


A terceira fase está relacionada ao período pós-guerra, quando participa da criação da agência Magnum e passa a trabalhar full time com fotojornalismo.


Cartier-Bresson foi também desenhista, pintor e escultor. Entre os artistas plásticos do seu círculo pessoal estavam Max Ernest (1891-1976).



Mas essas suas qualidades são pouco salientadas em suas mostras pós-morte. Ou seja, Bressn foi efetivado como o “pai do fotojornalismo” e só.

Henri Cartier-Bresson era filho da elite francesa. Até os 22 anos não pensava em arte e muito menos em política.


Com o aporte financeiro do pai, um industrial, aventurou-se pelo continente africano – Costa do Marfim, Camarões, Togo e Sudão –, cujas imagens idílicas despertaram nele o interesse por fotografia.



Mas de forma ainda descompromissada, como um garotão burguês.

De volta à França, decidiu fazer da fotografia o seu modo de vida, a sua expressão plástica, a ferramenta por meio da qual realmente tentou compreender e (apreender) o mundo.


O empurrão definitivo, segundo ele, foi dado por uma fotografia do húngaro Martin Munkácsi (1896-1963), que viu na revista Arts et Métiers Graphiques, na qual três rapazes negros correm rumo às vagas do lago Tanganica, na África.



“Fez-me perceber imediatamente que a fotografia poderia atingir a eternidade através do momento. É a única fotografia que me influenciou. Há nela tal intensidade, espontaneidade, alegria de viver e prodígio que ainda hoje me sinto deslumbrado”, escreveu em 1977.

A foto que o inspirou:



Teve uma fase de fascínio pelo cinema, durante a qual produziu documentários sobre a Guerra Civil Espanhola e colaborou em filmes de Jean Renoir, trabalhando como assistente e ator.

Foi o primeiro fotógrafo da Europa Ocidental a registrar a vida na União Soviética de maneira livre. Fotografou os últimos dias de Gandhi e os eunucos imperiais chineses, logo após a Revolução Cultural comunista.


Uma de suas últimas imagens de Ghandi

A partir daí as máquinas fotográficas passaram a ser extensões do seu olhar e da sua sensibilidade.

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