sábado, 20 de setembro de 2014

Os sertões: poesia épica em prosa

A principal epopeia em língua portuguesa é, claro, Os lusíadas, de Luís de Camões (1524-1580).

Depois, acho eu, a mais importante obra em língua portuguesa com características de grande poema épico é Os sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909), embora escrito em prosa.


Euclides da Cunha

 Os lusíadas está no âmbito do formalismo barroco, como toda a obra de Camões.


O curioso é que Os sertões também, embora a formação de Euclides da Cunha, como poeta, fosse associada à última fase do romantismo no Brasil, convergente para a vertente nacionalista conectada aos ideais republicanos.


Euclides não era um filho da elite como a maioria dos intelectuais brasileiros do século XIX. Para ter uma boa formação, na época, tinha duas alternativas: a carreira militar e a carreira eclesiástica.


Optou pela primeira. Como integrante do Exército, formou-se em engenharia e passou a exercer a profissão, comandando a construção de vias férreas, pontes, entre outras obras.


Mas seus interesses eram muito mais amplos.


Junto com as atividades de engenheiro – que lhe dava os meios de sobrevivência – conseguiu atuar como professor de física, naturalista, jornalista, geólogo, geógrafo, botânico, zoólogo, hidrógrafo, historiador, sociólogo, professor, filósofo, poeta, romancista, ensaísta e... foi também um dos mais importantes escritores brasileiros...



Euclides tinha um texto primoroso, infinitamente superior aos demais literatos com os quais teve o desprazer de conviver na modorrenta Academia Brasileira de Letras, da qual passou a fazer parte após a publicação de Os sertões.

Sua obra estava, sim, à altura da de Machado de Assis (1839-1908), que fundara a droga da Academia.


Os sertões é equivalente a Guerra e paz, do russo Liev Tolstói (1828-1910). Aliás, Tolstói foi uma figura tão controversa e repleta de idiossincrasias quanto Euclides.

Liev Tolstói, autor de Guerra e Paz

A complexa personalidade de Euclides fica evidente pelo próprio processo de elaboração de sua obra máxima.

Entre muitas atividades, conciliou as funções engenheiro do Exército com a de colaborador do jornal O Estado de S.Paulo, que o incumbiu de acompanhar a luta das forças republicanas contra os revoltosos do vilarejo de Canudos, no interior da Bahia.


Isso na última década do século XIX.


Inicialmente, como republicano que era, considerou que o movimento liderado por Antônio Conselheiro tinha a pretensão de restaurar o antigo regime e era apoiado por monarquistas residentes no país e no exterior.

O beato Antonio Conseheiro (de barba), líder de Canudos
Foi até o local da batalha, mas deixou Canudos quatro dias antes do fim da guerra. Não presenciou, mas tomou conhecimento do massacre bárbaro aos sobreviventes.

Rebeldes que impuseram derrotas ao Exército brasileiro

Reuniu material para, durante cinco anos, elaborar Os sertões.

Sua grande obra foi escrita nos intervalos de trabalho, enquanto se encontrava em São José do Rio Pardo, interior de São Paulo, comandando a construção de uma ponte.

Sua obra rompe por completo com suas ideias anteriores e pré-concebidas, segundo as quais o movimento liderado por Conselheiro seria uma tentativa de restauração do Império, comandada a distância.


Intrigava ao escritor como os soldados do Exército – com armamentos dos mais avançados para a época – foram consecutivas vezes rechaçadas por um exército de maltrapilhos comandando por um homem místico e frágil.


As forças legais, com as quais se identificava a princípio, se comportaram como jagunços, degolando e estripando prisioneiros, e estuprando as mulheres sobreviventes.


Conforme se aprofundava na elaboração do livro, mais se distanciava do ideário republicano e se acentuava nele a identificação com a fibra e determinação de Conselheiro e seus seguidores.


O cientista de ideias positivistas, cerebral, se deixou contaminar pelos impulsos messiânicos que sustentou a resistência daquela gente. De modo que seu canto de ódio inicial, antimonárquico, se tornou um canto de amor pelos revoltosos.


O poeta que mantinha retido dentro dele, face às funções exercidas como técnico, cientista e homem afinado às tendências políticas dominantes, preponderou por toda a obra.


Quanto mais releio Os sertões, mais me impressiono com a beleza e preciosismo da linguagem. É difícil que outro escritor nacional possa superá-lo.


Grandes sertões: veredas, de Guimarães Rosa, é uma obra excepcional. Também vinculada à vertente formalista neobarroca. Mas Os sertões trata de verdades viscerais, no que diz respeito aos retratados e ao próprio autor.


Euclides nunca mais foi o mesmo depois de concluir o livro. Continuou um engenheiro competente, atuou na ampliação das fronteiras do país na região Norte, mas de certa forma incorporou a paixão que motivou Conselheiro a ir obstinadamente até o fim pelo que acreditava.


A partir daí a vida de Euclides se aproximou cada vez mais da de outro escritor radical e atormentado pelas paixões: o russo: Alexander Pushkin (1799-1837), o “negro”.


Retrato do escritor Alexander Pushkin

O maior poeta e romancista russo de todos os tempos era um mulato – descendia por parte do pai de um escravo abissínio – como nosso Machado de Assis.

Euclides era órfão e descendente de índios por parte da mãe. Casou-se com a filha de um oficial republicano, como Pushkin casou-se com uma moça da nobreza russa.


Ana de Assis, mulher de Euclides

Ambos foram traídos pelas respectivas esposas. Como se o enredo da biografia dos dois se repetisse a partir dai, tiveram a pachorra de desafiar os oponentes, que eram excelentes atiradores, e se deram mal.

Mas deixaram obras de beleza e precisão construtiva irretocáveis. Euclides, o belíssimo Os sertões e Pushkin, o romance em versos Eugene Onegin.


Os sertões é dividido em três partes: (1) Terra, (2) Homem e (3) A luta. Normalmente, os poucos que se dispõem a lê-lo vão direto à terceira parte, porque acham as demais “chatas”.


Um erro para lá de estúpido, porque a precisão de estilo se encontra justamente nas duas primeiras partes.


Na parte 1, A terra, Euclides trata do relevo, do solo, da fauna, da flora e do clima da região nordestina onde se encontrava Canudos.


Na parte 2, O homem, aborda o determinismo da população que é produto do meio (geografia), da raça (hereditariedade) e do momento histórico (cultura). E faz uma análise da psicologia do sertanejo e de seus costumes.


Na parte 3, A luta, aborda a Guerra de Canudos, descrevendo com riqueza de detalhes os fatos que levaram à dizimação da população do vilarejo pelas forças legalistas.


Não sejam preguiçosos e procurem ler Os sertões de cabo a rabo. Só então terão vaga ideia desta que é uma das mais importantes obras da literatura de todos os tempos. E, disparadamente, uma das que constituem o ápice da literatura nacional.


Uma única leitura é pouco.


Digo isso porque é impossível assimilar obras complexas como as epopeias homéricas (Ilíada e Odisseia), Metamorfoses (de Ovídio), Divina Comédia (de Dante Alighieri), Pantagruel e Gargântua (François Rabelais), Os lusíadas (de Luís de Camões), Dom Quixote (de Miguel de Cervantes), Fausto (Wolfgang Goethe), Eugene Onegin (de Alexander Pushkin), Guerra e paz (de Liev Tolstói), Ulysses e Finnegans wake (de James Joyce), Os cantos (de Ezra Pound), Grandes sertões: veredas (de Guimarães Rosa) e Paradiso (de Lezama Lima) numa só tacada.

Quanto mais vezes foram lidas, melhor a compreensão do que representam.


E, cá para nós, é muitíssimo mais enriquecedor ler Divina comédia a vida toda do que ler trocentos romances vagabundos por ano. Decididamente, não é quantidade que traz repertório.

A seguir, sete livros de Euclides para download:


À margem da história


Canudos e outros temas


Os sertões


Contrastes e confrontos


Ondas e outros poemas esparsos


Peru versus Bolívia


Um paraíso perdido

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