segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Buster Keaton, o comediante que nunca ria

Enquanto a comédia britânica vem dos diálogos afiados e a brasileira do ambiente circense – vide Os Trapalhões e outros – a comédia americana nasceu nos palcos do burlesco vaudeville.

Vaudeville foi um gênero de entretenimento de variedades predominante nos EUA e no Canadá do início dos anos 1880 ao início dos anos 1930.


Desenvolvia-se a partir de muitas fontes, incluindo salas de concerto, apresentações de cantores populares, "circos de horror", museus baratos e literatura burlesca.


Buster Keaton com sua imagem literalmente enquadrada

O vaudeville tornou-se um dos mais populares tipos de empreendimento dos Estados Unidos. A cada anoitecer, uma série de números era levada ao palco, sem nenhum relacionamento direto entre eles.

Entre outros tipos, reunia músicos (tanto clássicos quanto populares), dançarinos, comediantes, animais treinados, mágicos, imitadores de ambos os sexos, acrobatas, peças em um único ato ou cenas de peças, atletas, palestras dadas por celebridades, cantores de rua e filmes populares.


Era uma baratíssima forma de entretenimento popular que unia dança, comédia, drama e até strip-tease. Muitos grandes artistas de cinema, incluindo Charles Chaplin, Buster Keaton e Os Irmão Marx começaram ali...




Os primeiros filmes mudos traziam a fórmula desenvolvida do teatro apresentado nesse entretenimento. Especialmente no tocante à piada física. Pessoas que caem, se estapeiam, lançam coisas umas nas outras e simulam acidentes para fazer os outros rirem.

Também do vaudeville veio a tradição americana dos one man show, com comediantes que sozinhos no palco contam piadas, zombam de situações cotidianas e até do próprio público.


Esses shows, ainda muito populares nos EUA, chegaram ao Brasil nas últimas décadas, revelando dezenas de novos comediantes por aqui.

Charles Chaplin foi o rei das comédias vaudeville no cinema, com recursos que aprendeu dos pais nos palcos: pantomima, mímica, dança, piadas físicas, gags, música popular, tudo misturado.


Chaplin na pele do seu personagem

O norte-americano Buster Keaton (1895-1966), idem, começou sua carreira nos palcos vaudeville e migrou para o cinema, tornando-se o principal concorrente de Chaplin como ator e diretor de filmes mudos, mas utilizando recursos diferentes do grande comediante de origem britânica.

Reza a lenda que o famoso mágico Harry Houdini, vendo o bebê de seis meses de seu parceiro Joseph Keaton cair da escada sem um arranhão, batizou-o, por brincadeira, de "Buster, o destruidor".


Keaton e Houdini eram donos de um teatro de vaudeville que se apresentava de cidade em cidade. O jovem Buster Keaton cresceu fazendo números cômicos com seus pais. Tornou-se um ator de muitos recursos e de impressionante presença cênica.


Participava de um número com seus pais chamado Os três Keatons, no qual a grande piada era como disciplinar a criança mal-educada por ele representada.


Mas aos 21 anos, com o encerramento da carreira de seu pai, começou a ter um problema que o acompanhou por quase toda a vida: o alcoolismo.


Em Nova York, rendeu-se à atração que tinha pelo cinema. Convidou um antigo companheiro de palco, o ator Roscoe "Fatty" Arbuckle, e fez seu primeiro filme, The butcher boy (O menino açougueiro), em 1917.



 

A dupla cômica fez um sucesso tão grande que logo foi convidada para estrelar uma sucessão de onze comédias.

Keaton passou a escrever seus próprios esquetes e a trabalhar como assistente de direção nos filmes de que participava. Logo começou a escrever seus próprios filmes.

O humor nos filmes de Buster Keaton, basicamente, se fazia através das chamadas gags: corridas, quedas, fugas, etc.


Uma de suas grandes inovações, no entanto, foi o fato de suas comédias se basearem num personagem impassível, que mantinha as mesmas feições diante dos fatos ocorridos.


Keaton percebeu que ao não modificar sua expressão, o espectador projetaria suas aspirações sentimentais, sensoriais e morais.


Em O homem das novidades, Keaton interpretou um fotógrafo que, para se aproximar da bela secretária do cinejornal da MGM, troca sua câmera fotográfica por uma câmera de cinema e se torna um cinegrafista.



O filme discute o cinema e a relação entre ficção e realidade no momento derradeiro do cinema mudo, por meio da organização caótica dos elementos.

Em 1928, Keaton vendeu seu estúdio de produção para a MGM – o que ele consideraria mais tarde seu maior erro.


Obrigado a adaptar-se ao esquema de produção de um grande estúdio, com um rigor ao qual não se adaptou, e, pior, trabalhando como assalariado, Keaton perdeu o controle sobre o conteúdo criativo de seus filmes e teve de aceitar roteiros impostos pelo estúdio.


Com isso, envolveu-se cada vez mais com o consumo de álcool.


Ao contrário de Chaplin, o estrelato e a veia cômica de Keaton não sobreviveram à conversão de Hollywood ao cinema falado.


Para piorar, a vida pessoal de Keaton estava em frangalhos, após um divórcio doloroso. O consumo de álcool aumentava proporcionalmente aos seus problemas pessoais.


Passou a década de 1930 em relativa obscuridade, escrevendo gags para vários filmes dos Irmãos Marx, como Uma noite na ópera e No circo.


Também fez aparições em filmes como Crepúsculo dos deuses (1950), de Billy Wilder 1950, e Deu a louca no mundo (1963), de Stanley Kramer.

Um dos momentos mais significativos da sua carreira de ator no cinema falado ocorreu quando, 1952, Charles Chaplin, que sempre o admirara, o convidou para integrar o elenco de Luzes da ribalta.


Keaton e Chaplin fazem um número de dez minutos em dueto no qual, como metalinguagem, dois velhos atores de vaudeville – o que de fato eles sempre foram – tentam resgatar os bons tempos.


Vejam Luzes da ribalta na íntegra e confiram a cena das duas feras do palco.


Nos anos 1950, Keaton estreou duas séries bastante populares para TV: o Buster Keaton Show e o Ao Vivo com Buster Keaton.

Em 1965, poucos meses antes de sua morte, Buster Keaton protagonizou o único filme realizado pelo teatrólogo e ficcionista irlandês Samuel Beckett, chamado simplesmente Filme.




Há vários filmes de Buster Keaton e Charles Chaplin disponíveis pelo Youtube. Vejam estes três de Keaton.

The goat (1921):




The electric house:





E Football:


Outros grandes comediantes do cinema mudo

Keystone Cops – Foi uma série de curtas produzida por Mack Sennet entre 1912 e 1917 com um esquadrão de polícia totalmente atrapalhado. Eram famosos pelas cenas ousadas envolvendo carros e trens e pelos acidentes bizarros que causavam. O comediante Roscoe "Fatty" Arbuckle, que participara do primeiro filme de Buster Keaton, e depois viu sua carreira afundar devido a um processo de estupro de uma menor, começou nesse grupo, assim como Charles Chaplin.


Harold Lloyd – Um dos mais populares atores do cinema mudo, tendo feito mais de 200 filmes entre 1914 e 1947. Com cara de bebezão, Lloyd arriscava a vida por uma boa piada, como em Safety last, de 1923, no qual escala um prédio pelas paredes externas, sem proteção. Suas ousadias o levaram a perder dois dedos na explosão de uma bomba em um de seus filmes. Era fotógrafo profissional – foi um dos primeiros a retratar nus femininos.


Gordo e Magro – O inglês Stan Laurel e o americano Oliver Hardy formaram uma das duplas mais conhecidas da comédia americana. Oficialmente a reunião ocorreu no filme The second hundred years, de 1927, e durou até final dos anos 1950. Misturando comédia física e até violentas com piadas finíssimas, incorporavam o espertão Hardy que sempre sabe tudo e se dava mal e o inocente e chorão Stanley. Na realidade, o gênio da dupla era um inglês que bolava os roteiros e as situações. A união entre os dois era tão forte que combinaram verbalmente nunca aparecerem nas telas sozinhos e, mesmo anos depois da morte de Oliver, Laurel recusou papéis para cumprir o que prometera ao parceiro.


Três Patetas – Os irmãos Howard e seu amigo de infância Larry Fine eram os reis da comédia violenta e ultrajante que fizeram sucesso não só no cinema, mas também na adaptação para a TV. Começaram a trabalhar juntos em 1925 e a carreira durou até os anos 1970, com várias alterações no elenco. A primeira formação do grupo foi com Moe, Larry e Shemp Howard, mas o último abandonou o grupo, sendo substituído pelo irmão, Curly. Em 1946, Curly teve um derrame e Shemp voltou ao grupo, mas 11 meses depois morreu de um súbito ataque cardíaco. Entrou em cena Joe Besser, que, para tristeza dos fãs, incluiu em seu contrato que não poderia apanhar de Moe ou Larry (exigência que acabou caindo depois, desde que ele pudesse revidar). A Columbia decidiu acabar com o trio, já que era considerado "ultrapassado", mas o sucesso de seus curtas na TV fizeram com que o estúdio voltasse atrás e colocasse os comediantes de volta no cinema em longas. Começou aí a fase na qual Joe de Rita, conhecido por Curly-Joe, participou como o terceiro pateta. O trio se desfez, definitivamente, quando Moe e Larry morreram em 1975.


Irmãos Marx – Groucho, Chico e Harpo Marx levaram literalmente o seu show de vaudeville, em teatro, para as telas de cinema. O trio era tão afiado que chegou ao ponto de representar sem script. Com situações caóticas repletas de nonsense, à maneira deles. Groucho ficava com as piadas verbais e tiradas sarcásticas, enquanto Harpo sempre interpretava um mudo e era famoso por suas gags visuais, tão imitadas depois pelos desenhos animados de Pernalonga ou Pica-Pau. Chico fazia o tipo italiano e era a ponte para as situações. Seus filmes se dividem em duas fases: na Paramount, onde se concentram as melhores obras do trio e depois na MGM, RKO e United Artists. Na Metro estrearam sua comédia mais famosa, Uma noite na ópera. Além disso, tinham seu próprio programa de rádio e Groucho ainda foi o apresentador de bem-sucedido programa de TV de competição com perguntas e respostas: You bet your life. Nesse último os convidados não tinham medo das perguntas de Groucho e sim das suas réplicas. Ao entrevistar uma moça que nos anos 1950 era a única mulher em seu local de trabalho, ele perguntou: "Você não é muito assediada?". E ela respondeu: "Quando alguém passa do limite, eu mostro minha aliança". De imediato, ele atacou: "Mas o anel só protege um dedo!"


W. C. Fields – Ator, comediante e ilusionista, Fields criou em seus filmes um dos maiores personagens da primeira metade do século 1920: um beberrão avesso a pessoas que acabava atraindo a simpatia de todos, apesar de seus conceitos distorcidos e cruéis sobre cachorros, crianças e mulheres. Em nossa época da ditadura da moral "politicamente correta" ele não teria existido.

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