segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Desencontros entre Paulo Francis, "pajé" Caetano e mico Jagger

Em dado momento as vidas dos três – Paulo Francis, Caetano Veloso e Mick Jagger – se cruzaram.

Francis dera o título de O Diário da Província a alguns de seus textos escritos para o tabloide O Pasquim. Isso enquanto estava no Brasil.


Quando foi morar nos EUA, como bolsista da Fundação Ford, passou a colaborar com jornais brasileiros escrevendo a coluna O Diário da Corte.


Em uma entrevista para uma TV brasileira perguntaram se sentia realmente na "corte" nos EUA. Respondeu em tom de deboche: “Sim, mas eu sou apenas o bobo dela.”

 
Paulo Francis


Tinha gosto refinado, inclusive para música. Assim como esculhambava a mediocridade dos políticos, especialmente os de esquerda, era também implacável com os músicos populares.

Mas, como tudo em Francis, suas críticas espalhafatosas eram mais motivadas pelo prazer da troça do que por convicções.

Não conseguia viver sem política. Embora ouvisse com mais frequência música clássica (óperas e, sobretudo, Wagner), também gostava de música popular.

Numa de suas crônicas, dos idos anos 1970, contou que viajara ao lado de Mick Jagger – este na poltrona da janela.


 
Caetano Veloso, Mick Jagger e Roberto D'Avilla


O músico se levantou seguidas vezes para ir ao banheiro durante o voo. Não pedia licença. Saltava sobre o acompanhante (Francis) “como um símio”.

Comentou que a curta e desagradável convivência com o músico inglês durante essa viagem aumentou ainda mais a falta de consideração que já tinha pela música dos Stones e dos Beatles.


No entanto, em outra oportunidade comentou a canção Citadel (Jagger-Richards), de 1967, salientando que era muito mais revolucionária que todos os discursos enfadonhos ouvidos nas passeatas que a ela se seguiram, em 1968.

À versão nacional da cultura pop – o tropicalismo – chamava comumente de “máfia do dendê”...


Mas não tinha nada contra os baianos. Esculhambava pelo gosto de fazer a piada. Era amicíssimo de outro baiano célebre da época: Glauber Rocha.

Em meados de 1983, mais uma vez Jagger foi, indiretamente, assunto de uma crônica de Francis publicada no jornal Folha de S.Paulo.


Caetano entrevistara o músico inglês para a TV Manchete e o jornalista escreveu, após a exibição do programa, a arrasadora crônica Caetano, pajé doce e maltrapilho (reproduzida no final deste artigo).


Tratava-se de uma edição do programa Conexão Internacional, da Rede Manchete, conduzido pelo jornalista Roberto D’Ávila, com a participação de Walter Salles atrás das câmeras.


D’Ávila convidou Caetano para participar da conversa com o cantor dos Stones.


Francis começou sua crônica com elogio a Caetano, considerando-o melhor cantor e compositor que Jagger.


Mas o espinafrou por ter se apequenado diante de Jagger no Conexão Internacional. Num dos trechos Francis escreveu:


“É evidente, por exemplo, que Mick Jagger zombou várias vezes de Caetano na entrevista na TV Manchete. O pior momento foi aquele em que Caetano disse que Jagger era tolerante e Jagger disse que era tolerante com latino-americanos (sic), uma humilhação docemente engolida pelo nosso representante no vídeo”.


O colunista também chamou de “ingênua” uma pergunta feita por Caetano a Jagger sobre o lugar do rock na história da música. Comentou:


“Essa pergunta simplesmente não se faz em televisão, ou até em jornal. É de um amadorismo total. Só serve para seminários de ‘comunicação’ no interior da Bahia. Não é uma pergunta jornalística. Jagger começou a debochar aí.”

O artigo não provocou uma resposta imediata de Caetano.

Meses depois, convidado a manifestar-se sobre o caso na coletiva para o show Uns, em São Paulo, chamou o jornalista de “bicha amarga, travada”.

Francis, que adorava retrucar quando alguém reagia às provocações em sua coluna, escreveu na Folha:



“Duas sorridentes cascavéis deste caderno me comunicaram hoje que Caetano Veloso me agrediu numa coletiva. Outro tema de debate: cantor de samba fazendo show vale uma coletiva? Por quê? Bem, fiz críticas culturais ao estilo de personalidade de Caetano, o flagelado milionário de ’boutique’, servil como um escravo diante do condescendente Mick Jagger. São críticas, certas ou não, mas culturais. Qual é a resposta de Caetano? Diz que sou uma bicha amarga e recalcada. É puro Brasil. Ao argumento crítico, o insulto pessoal. Mas o insulto é o próprio Caetano. Afinal, o que ele quer dizer é que sexualmente sou igual a ele, e usa isso como insulto.”

A temperatura esquentou e o jornal fez até uma enquete sobre quem “fazia a cabeça” de quem na época. Francis ou Caetano? Algumas das respostas foram engraçadas.

Júlio Medaglia, maestro e um dos arranjadores dos discos do tropicalismo:



“Neste momento, Paulo Francis é mais criativo. Ultimamente, Caetano só tem feito boleros.”

Décio Pignatari, poeta concreto:


“Os dois fazem igualmente a minha cabeça. Paulo Francis é um homem claramente ideológico e às vezes incursiona no terreno artístico. Caetano é o contrário.”

Angeli, cartunista:


“Eu misturo os dois. Pego o lado doce do Paulo Francis e o ferino do Caetano.”

Antonio Maschio, ator e proprietário do restaurante Spazio Pirandello: 


“Paulo Francis, sem dúvida. É um homem do mundo. Caetano, quando muito, é um homem do Brasil. Se todas as bichas do Brasil fossem ‘travadas’ como o Paulo Francis, este país estaria muito melhor.”

Petro Maria Bardi, então diretor do Museu de Arte de São Paulo:


“Na minha ideia, é Paulo Francis, hoje o maior, mais atual, mais vivo, mais inteligente e mais inventivo escritor brasileiro.”

José Roberto Aguilar, artista plástico:


“Caetano é meu amigo, moramos três anos juntos em Londres. Mas o Francis também é genial e seus livros são monumentais. O problema do Francis é que ele é de uma geração que só ouve jazz e música clássica, e passou a largo da geração do rock. Assim, fica reduzindo tudo a uma coisa de ‘lumpenproletariat’. Mas o rock não é só isso. O rock já tem sua literatura e sua cultura.”

José Miguel Wisnik, professor e compositor:

“Cada um de nós faz a sua própria cabeça, mas as sete faces do Caetano ressoam mais em mim do que a cabeça de papel do Paulo Francis.”

Julio Bressane, cineasta:


“Minha cabeça é feita pelos dois. A região que Caetano ocupa, que é a da poesia e onde habito, é a maior. Mas o Paulo Francis, que é hoje o maior articulista do Brasil, também ocupa uma região imprescindível. Inclusive já começamos a trabalhar juntos numa adaptação para o cinema do seu romance ‘Cabeça de Papel’.”

Ziraldo, escritor e desenhista:

“Sou Caetano. Mas não assumo.”

Millôr Fernandes, escritor e desenhista:


“Olhem, não me meto em briga de baianos.”

Paulo Francis morreu na manhã de 4 de fevereiro de 1997, no duplex em que morava com a mulher, Sonia Nolasco, em Nova York. Infarte fulminante.

Na época, além da coluna que escrevia para os jornais O Estado de S.Paulo e O Globo, participava do programa Manhattan Connection, da GNT, cujo âncora era Lucas Mendes, e também fazia quadros nos programas noticiosos da TV Globo.


Andava afiadíssimo. Na TV dava vazão ao seu lodo ator, interpretando o “bobo da corte", como ele próprio sugerira. Fazia um tipo histriônico, caricato, meio embebedado, que esculhambava gregos e troianos.


Caro Francis, o documentário de 90 minutos de Nelson Hoineff, é, desde o título, uma homenagem de quem viveu com ele uma longa amizade. Hoineff ouviu os amigos e também os múltiplos desafetos do jornalista e escritor.



Segundo Hoineff, o Paulo Francis doméstico era oposto a essa figura egocêntrica e sarcástica que tanto admirávamos.

Em casa ou com os amigos era pacífico, generoso, paciente, bom de papo e sem qualquer tipo de teimosia.

Seus apelidos àqueles que foram alvos de suas troças só são comparáveis em criatividade aos de Nelson Rodrigues.


Referia-se à então primeira-dama norte-americana, Hillary Clinton, como “a bunda”. Luiza Erundina, em sua fase mais sectária, era a “tamanqueira”. 

Foi trotskista na juventude e perseguido pelo golpe militar de 1964, após o qual passou por penúria financeira por ficar três anos sem conseguir trabalho fixo.


Ainda assim recusou, no período da abertura política, as gordas indenizações públicas às quais recorreram vários dos seus colegas.


Dizia que fora um homem de esquerda porque quis. Ninguém o obrigou a nada. Achava que, por isso, o Estado não tinha que arcar com os presumíveis prejuízos que tivera no período de militância. 

Muito antes da crise atual da Petrobras, nos anos 1980, já denunciava a empresa como “cabine de emprego” e “uma estatal ineficiente e inoperante”.


Chamava-a de “Petrossaurus”, como estigma de uma grande organização arcaica e dirigida por corruptos.

Elio Gaspari, então correspondente de Veja em Nova York, atribuiu à Petrobrás o "assassinato" do amigo.


Tudo começou quando, no Manhattan Connection, Francis afirmou que os diretores da estatal tinham contas milionárias no exterior. Milhões e milhões de dólares.


Na sequência, a diretoria da Petrobras entrou com um processo cobrando 100 milhões de dólares por danos morais. Pior: na corte americana.


Francis não quis desmentir e, bem a seu estilo, muito próximo do de seu amigo Glauber Rocha, reagiu indignado: “Estão querendo me silenciar”.

Mas sentiu o golpe. Ganhava bem, mas como um mero jornalista. Seu patrimônio – aplicações, dois apartamentos em Nova York e uma casa em Petrópolis (RJ) – somavam em torno de de três milhões de dólares.


Com o processo, estava em vias de perder tudo.

Seus escrachos políticos sempre estiveram voltados tanto à esquerda quanto à direita – embora a esquerda fosse seu alvo preferencial. Entre os de esquerda, tinha aversão especial por Lula e Brizola (a quem defendera no passado).


Não sobreviveu para ver o operário nordestino, de esquerda e de poucas letras, presidente da República. Evidente que não concederia trégua a Lula e à sua atual substituta, Dilma, se ainda estivesse vivo.


Franz Paul da Matta Heilborn – o nome de batismo de Paulo Francis – nasceu no Rio de Janeiro em 1930. No início, nem pensava em ser jornalista.


Nos anos 1950, frequentou a Faculdade Nacional de Filosofia na Universidade do Brasil. Em 1954 e 1955, fez um curso de literatura dramática na Universidade de Columbia, em Nova York e foi aluno do renomado crítico e autor teatral Eric Bentley.


Ainda nos anos 1950, integrou o Teatro do Estudante, da companhia de Paschoal Carlos Magno e, por sugestão do diretor, passou a assinar Paulo Francis.


Dirigiu os seguintes espetáculos: O dilema de um médico, de Bernard Shaw, em 1956; O telescópio, de Jorge Andrade, Pedro Mico, de Antônio Callado, e Uma mulher em três atos, de Millôr Fernandes, em 1957.


O olhar crítico sobre a produção teatral do Rio de Janeiro levou Paulo Francis a assinar em 1956 uma coluna na Revista da Semana, então sob a direção do jornalista Hélio Fernandes, irmão de Millôr.


No ano seguinte foi para o Diário Carioca, onde trabalhou até 1963 e consolidou sua fama de crítico de teatro rigoroso e polêmico.


De 1959 a 1962, foi contratado como editor assistente da revista Senhor, dirigida por Nahum Sirotsky e, mais tarde, por Odylo Costa, Reynaldo Jardim e Edeson Coelho.


Na revista, escrevia artigos e notas, pautava os ensaios sobre cultura e comportamento, escolhia os livros de ficção estrangeira a serem resenhados e titulava grande parte da publicação.


Em 1963, passou a assinar a coluna política Paulo Francis informa e comenta, publicada diariamente no jornal Última Hora, de Samuel Weiner.


Depois do golpe militar em 1964, ficou três anos desempregado, fazendo bicos na clandestinidade.


Em 1967, trabalhou durante um tempo na Editora Civilização Brasileira e editou, com o poeta e tradutor José Lino Grünewald, o suplemento dominical Quarto Caderno, publicado no Correio da Manhã.


Em 1968, passou a editar também a Diners, revista oferecida gratuitamente aos portadores do cartão de crédito e que lançou jornalistas como Ruy Castro e Telmo Martino.


Em dezembro daquele ano, logo após a decretação do AI-5, foi preso ao desembarcar no aeroporto do Rio de Janeiro, quando voltava de uma viagem a Nova York.


Deixou a prisão em janeiro de 1969. O Correio da Manhã havia sido fechado, e a Diners encerrou meses depois.


Viajou, então, pela Europa fazendo matérias como freelancer para a revista Realidade.


Entre 1969 e 1976, Paulo Francis assinou uma coluna na Tribuna da Imprensa e colaborou com O Pasquim, semanário carioca então dirigido por Tarso de Castro, Jaguar, Sérgio Cabral e Claudius e que contava, ainda, com as colaborações de Millôr Fernandes, Ziraldo, Henfil, Fortuna, Ivan Lessa e Luiz Carlos Maciel, entre outros. 


Em novembro de 1970, foi preso durante um mês, junto com outros oito integrantes do jornal.


Em junho de 1971, foi viver em Nova York, subsidiado por uma bolsa da Fundação Ford conseguida por intermédio de Fernando Gasparian, da editora Paz e Terra.

Continuou a ser correspondente de O Pasquim e da Tribuna da Imprensa e passou a escrever artigos para as revistas Status, História, Mais e Visão.


Em 1975, casou-se com a jornalista Sônia Nolasco e passou a ser correspondente da Folha de S. Paulo.


Francis e Sônia

Em 1977, Paulo Francis estreou na Folha de S. Paulo a coluna O Diário da Corte, na qual opinava, em notas curtas, sobre diversos assuntos, inclusive política internacional.

O jornalista deixou a Folha em 1990, e O Diário da Corte passou a ser publicada no jornal O Estado de S. Paulo. Em 1992, a coluna também começou a ser publicada por O Globo.


Na TV Globo, Paulo Francis estreou em 1981 como comentarista de vários assuntos, de política internacional a cultura.


A partir de abril de 1993, passou a comentar diariamente os destaques das principais redes de televisão norte-americanas.


A partir de 1993, ao lado de Lucas Mendes, Caio Blinder e Nelson Motta, fez parte do grupo de debatedores do programa Manhattan Connection, transmitido pelo canal pago GNT.


A partir de junho de 1996, passou a trabalhar no Milênio, programa da Globo News produzido por Edney Silvestre, no qual entrevistou personalidades internacionais como o economista John Kenneth Gailbraith.


Escreveu os seguintes livros: Opinião pessoal (Civilização Brasileira, 1966), Certezas da dúvida (Paz e Terra, 1970), Nixon x McGovern: as duas Américas (Francisco Alves, 1972), Paulo Francis nu e cru (Codecri, 1976), Cabeça de papel (Civilização Brasileira, 1977), Paulo Francis – uma coletânea de seus melhores textos já publicados (Editora Três, 1979), Cabeça de negro (Nova Fronteira, 1979), O afeto que se encerra (Civilização Brasileira, 1980), Filhas do segundo sexo (Nova Fronteira, 1982), O Brasil no mundo (Paz e Terra, 1985) e Trinta anos esta noite – 1964: o que vi e vivi (Companhia das Letras, 1994).


O jornalista Daniel Piza reuniu frases e artigos de Francis no livro Waaal – o Dicionário da Corte de Paulo Francis (Companhia das Letras, 1996).


Em 2008 foi lançado um romance póstumo, Carne viva (Companhia das Letras, 2008).


A seguir, o artigo que gerou a polêmica com Caetano Veloso:
 

Caetano, pajé doce e maltrapilho
 

Se a intelectualidade oficial no Brasil é representada por bacharéis como Roberto Campos, e é, não é difícil entender por que a juventude se rende a alguém como Caetano Veloso. Tudo é preferível ao pedantismo, à autossatisfação mascarada de bonomia e humor, à cara selvagem de Campos. Crianças, como animais, sabemos “sentem” os bichos ainda que não saibam o que pretendem.

Caetano, claro é um compositor de talento, ainda que não crie músicas que sobrevivam sem ele, como Tom Jobim e Chico Buarque fazem. E é, na minha opinião, um cantor que sabe como ninguém unir e valorizar ritmos brasileiros e os subprodutos populares que vieram do “jazz cool” e do “bebop”, esses dois marcos da história da música popular.
Quando não o vejo, gosto. E até vendo no palco, nos tempos pós-golpe de 1964-1968, era uma presença poderosa, naquela minirrenascença que foi a reação das chamadas classes artísticas ao advento do urubu Campos e outros tecnocratas pela mão militar. Nada saiu que perdurasse dessa “mini”, talvez porque o Brasil seja um país de “máxis”. Mas a “mini” foi “legal”. Quem viveu, sabe.


Mas Caetano não era então um totem. Não falava de tudo com autoridade imediatamente consagrada pela imprensa, que é mais deslumbrada do que o público em face dele. É evidente, por exemplo, que Mick Jagger zombou várias vezes de Caetano na entrevista na TV Manchete. O pior momento foi aquele em que Caetano disse que Jagger era tolerante e Jagger disse que era tolerante com latino-americanos (sic), uma humilhação docemente engolida pelo nosso representante no vídeo. E não só ele. Li duas matérias, uma na “Folha” e outra no “Jornal do Brasil”, em que as duas repórteres prostradas como sempre ficam diante de Caetano, citaram essa resposta ofensiva sem acharem nada de mais. O totem não pode errar. É Deus na carne humana, Daí a origem tribal de Jesus Cristo.


O primeiro totem foi Frank Sinatra. Não quero dizer que antes dele (década de 1940) não houvesse cantores, sem falar de estrelas de Hollywood, que o público jovem não adorasse. Mas Sinatra literalmente iniciou o fenômeno de adolescentes tendo ataques de histeria em público, para horror do filósofo Theodor Adorno, exilado nos EUA, que viu nisso uma forma de totalitarismo cultural, em que a massa se submerge sensorialmente a um ruidoso cavalheiro de microfone, como alemães caíram sob a “hipnose” de Hitler. E Adorno só pegou o início da histeria dos anos 60. John Lennon, filósofo, eros encarnado, Paul McCartney, escritor, o rock como filosofia de vida, etc. O pobre Caetano não é bem dessa corrente (que deverá chegar ao Brasil pelos meus cálculos em 1990).


Na mesma entrevista, ele fez uma pergunta que deve ter dado ao amável e brilhante Roberto D’Ávila vontade contida de matá-lo. É aquela de “como você situa o rock na história da música?”. D’Ávila e companheiros (Fernando Barbosa Lima e Walter Moreira Salles Jr.) afinal idealizaram a entrevista, um grande evento jornalístico em TV. Caetano é uma atração. Ninguém resistiria incluí-lo. Mas essa pergunta simplesmente não se faz em televisão, ou até em jornal. É de um amadorismo total. Só serve para seminários de “comunicação” no interior da Bahia. Não é uma pergunta jornalística. Jagger começou a debochar aí. Estava delicado com a figura década de 1960 de Caetano. A moda agora é a de Jagger, cabelo curto e roupa simples, sem adornos. Começou aqui e na Europa em 1970. No Brasil chegará também nos 1990 E foi nesse charme perverso que Jagger, que lê tudo, não disse a Caetano que rock não é música (ver obras completas de Ellen Willis, entrevistas com Janis Joplin, etc.), mas uma manifestação de vida, ou, clichê abominável, de estilo de vida. Willis sempre se refere desdenhosamente aos “music boys”. Uma leitura ocasional como a minha é do “Rolling Stone” deixaria claro. Mas no Brasil é difícil… Sabemos tudo.


Caetano é melhor compositor e cantor do que Jagger. Mas não fez nada comparável a “The Citadel”, cuja letra terrível foi adotada pelos soldados americanos no Vietnã, como hino de desespero. E por que não pode ? Quando me lembro que Caetano, esse doce de coco é conterrâneo de Antônio Conselheiro, tremo, tremeria, se ainda conseguisse. Mas ele prefere fazer o que chamei outro dia de “maltrapilho estilizado”. Simbolizar a miséria raquítica do baiano e interiorano brasileiro, para efeito de mero consumo visual, enquanto muito agradavelmente acaricia as fantasias de amor ilimitado que fazem o narcisismo da classe média confortável no Brasil, um conforto porque pagam cerca de 100 milhões de brasileiros no nosso “Alagados” nacional. Não é que eu queira que ele faça música “engajada”. A poesia nada faz acontecer, notou Auden, e concordo, sempre concordei, me forçando muito na época do meu engajamento. Mas isso, essa ciência, é bem diferente do que adular os privilegiados.


Jagger, é claro, é um farsante. Aquele sotaque de Londres (e não “cockney”, que é outra coisa) é pose, pois Jagger é de classe média e estudou na London School of Economics, onde se falasse assim seria rudemente corrigido. É uma pose, uma imitação de trash dos Beatles, estes sim, autenticamente proletários. Mas está zombando quando diz que subiu por sorte. Ninguém sobe por sorte. Não dá para escrever neste jornal de família como se sobe no mundo do “rock”. Jagger tem pelo menos 150 milhões de dólares, segundo meus banqueiros, mas fala de “algum dinheirinho”. Essa grana aplicada legalmente dá 1,5 milhão de dólares por mês, depois dos impostos, ou no “negro”, 1 bilhão e 200 milhões de cruzeiros por mês até a próxima desvalorização.


Mas talvez eu esteja errado em querer uma entrevista. D’Ávila prudentemente não prometeu nada (e a introdução deve ter sido gravada depois. Sempre é em TV). Está certo, porque o público em geral quer ver e consumir símbolos, totens sem tabus. Não é a toa que Jagger é tolerante com latino-americanos.


Caetano, atacado pela imprensa do Rio, num “show” no Canecão, declarou que nada vai mudar, mas que gostaria de mudar a imprensa. Tem toda a razão. Quem é a imprensa, que o adula dia e noite, à custa de consideráveis artistas não chegados ao “kitsch”, para de repente criticá-lo? Basta que Caetano apareça, no palco e no vídeo. Não precisa fazer nada. É para ser adorado. Deve ter havido um tempo em que ele foi um ser humano vulnerável, sensível, certamente foi esse o Caetano que parou na Polícia do Exército do Rio em 1968. Mas, se me permitem uma de Roberto Campos, pego uma paráfrase de Eliot de uma paráfrase de outro autor e encerro: “Mas isso foi em outro país e aquele rapaz morreu.”

2 comentários:

  1. em grande forma Aderval...depois de tantos anos aqui te encontro no etéreo da virtualidade e digo que minha admiração por ti continua intacta...abraço desde outra vida que tivemos...

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    1. Que bom "revê-lo", Ricardo. Passamos por situações bastante divertidas juntos. Grande abraço.

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