segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Importância de Pierre Boulez para a música erudita contemporânea

Os mestres orientadores da música erudita contemporânea continuam sendo, acredito, Edgar Varése (1883-1965), Claude Debussy (1862-1912), Arnold Schöenberg (1874-1951) e o principal pupilo deste, Anton Webern (1883-1945), o mais perfeccionista e inventivo de todos.

Webern aprofundou a revolução dodecafônica deflagrada por Schöenberg e teve como principais continuadores o francês Pierre Boulez, o alemão Karlheinz Stockhausen (1928-2007) e o norte-americano John Cage (1912-992
).

Pierre Boulez

Boulez (que continua na ativa) é, suponho, o mais importante herdeiro de Webern.

É com ele que vou encerrar a série de artigos sobre música de vanguarda moderna, que iniciei há cinco edições neste blog. Sobre Cage, Schöenberg e Webern já escrevi (bastar procurar
em artigos anteriores deste blog). Sobre Alban Berg, também. Stockhausen fica para outra ocasião.

Arnold Schöenberg


John Cage

Karlheinz Stockhausen

Anton Webern

Enfim, esses foram os principais cabras que trouxeram algo fundamental para os domínios da música erudita com bases racionalistas dos nossos dias.

A música serial, aleatória, eletrônica e concreta não constituem metas definitivas. Mas trazem os fomentos para a busca pelo desconhecido, com experimentação resultante de uma profunda renovação da consciência artística contemporânea...




A qual se deu nas artes plásticas (com Mondrian, Klee, Kandinski, Malevitch, Duchamp, Schwitters e, entre outros, Lygia Clark e Hélio Oiticica no Brasil), no cinema (com Eisenstein, Dziga Vértov, Gordard, Glauber, Orson Welles, entre outros), no teatro (com Meyerhold, Brecht, Artaud e outros) e na literatura (com James Joyce, Ezra Pound e outros).

Boulez, como dizia, procede da expressão de máxima exigência lançada por Anton Webern. Mas difere do seu mestre pela associação entre literatura e música, via Sthépane Mallarmé, pela aproximação com a música popular, via Frank Zappa, músicos de jazz e outros, e pelo constante exercício da crítica, por meio dos numerosos ensaios e artigos que escreveu.


Podemos dizer que Boulez é a última e decisiva etapa do dodecafonismo. Inclusive porque exerceu o papel de principal organizador e divulgador das obras dos três principais mestres do movimento: Schöenberg, Webern e Alban Berg.


Fez novos arranjos e regeu várias apresentações das obras dos três e as registrou em produção discográfica. Não fosse Boulez, muitas de suas peças estariam restritas às partituras.


Inicialmente o compositor francês estudou matemática em Lyon, antes de se dedicar à música no Conservatório de Paris, sob a supervisão de Olivier Messiaen (1908-1997).


Estudou dodecafonismo com René Leibowitz e continuou a escrever música atonal num estilo serial pós-weberniano.

Olivier Messiaen

Suas primeiras composições foram as cantatas Le visage nuptial e Le soleil des eaux, para vozes femininas e orquestra. Ambas do final da década de 1940 e revisadas muitas vezes desde então.


 

Em 1948, compôs a Segunda sonata para piano, uma obra de 32 minutos. A partir daí, sua produção convergiu para o serialismo. Estendeu a técnica dodecafônica para além do universo da organização do timbre, durações serializadas, dinâmica da música, acentos e assim por diante.

Boulez se tornou um dos líderes filosóficos dos movimentos de vanguarda pós-guerra nas artes, em favor de maior abstração e experimentação.


Muitos companheiros de geração de Boulez ensinaram na Escola de Verão de Nova Música em Darmstadt, Alemanha.


Os assim chamados compositores da Escola de Darmstadt foram fundamentais para criar um estilo que, por algum tempo, serviu como antídoto para a música de fervor nacionalista.


São todos internacionalistas, cosmopolitas. John Cage foi um dos que se formaram por lá. Assim como o brasileiro Rogério Duprat e
Stockhausen.

Entre as obras serialistas de Boulez estão incluídas Polyphonie X (1951), para 18 instrumentos, e Structures I & II, para dois pianos.



Structures causou controvérsias entre os compositores. A ponto de Boulez se ver obrigado a escrever o ensaio Para o mais longínquo alcance do país fértil, para responder às críticas recebidas.



A mais importante composição de Boulez dos anos 1950 foi Le marteau sans maître, para conjunto e voz.


Le mateau foi síntese surpreendente e revolucionária das muitas diferentes correntes na música moderna, da mesma forma que parece englobar os mundos sonoros da canção popular, como o jazz moderno, o gamelão balinês, as músicas tradicionais africanas e a cantigas japonesas.


Esta obra foi saudada por diversos músicos, dentre eles Igor Stravinsky (1872-1971).


Depois de Le marteau sans maître, Boulez fortaleceu a posição dos compositores da música pós-Segunda Guerra Mundial através da regência e da divulgação. E também começou a considerar novos caminhos para sua própria obra.


Com Pli selon pli – inspirada por um poema de Mallarmé sobre a incapacidade de um cisne alçar voo num lago congelado – para orquestra com soprano, começou a trabalhar com a ideia de improvisação e de finais abertos, qual no jazz.



Nesse sentido, aproximou-se do conceito das “formas móveis” de Stockhausen. Sravinsky, ao contrário de La marteau, detestou Pli selon pli.


Com a Terceira sonata para piano (1955), Boulez experimentou o que ele chamou de “casualidade controlada”.


Escreveu a respeito o  artigo Aléa e sonata, que queres tu de mim?


Mas seu conceito de casualidade difere do de John Cage.


Enquanto na música de Cage é dado aos executantes a liberdade de improvisar e criar sons completamente novos, nas obras de Boulez eles somente podem escolher entre possibilidades que foram escritas em pormenores pelo compositor – um método que se aproxima mais da “forma móvel” de Stockhausen.

Nos anos 1970, alguns críticos acusaram Boulez de experimentar os modismos musicais, dentre os quais o minimalismo americano. O compositor se fechou depois de tais críticas e passou um longo período fazendo revisões de seus trabalhos já publicados.


Boulez sempre teve forte tendência a considerar todas suas peças como “trabalhos em andamento”, qual James Joyce considerava seu Finnegans wake “work in progress”.


A partir dos anos 1970, Boulez também começou a trabalhar mais com eletrônica em sua música, uma vez mais se aproximando de Stockhausen. Mas seguiu o caminho de figuras como Pierre Schaeffer e Edgard Varèse.


Em 1969, o presidente francês Georges Pompidou pediu a Boulez para criar e dirigir uma instituição para a exploração e desenvolvimento da música moderna.


Assim, surgiu o Instituto de Pesquisa e Coordenação Acústica/Música (Ircam), no qual Boulez fez avanços pioneiros na música clássica, na música eletrônica e na música por computador, e promoveu a ideia de que compositores devem trabalhar com assistentes tecnológicos, os quais tentariam tornar concretas as intenções musicais do compositor.


Um exemplo desse tipo de relacionamento pode ser encontrado em sua maior obra eletrônica, Répons, para orquestra e eletrônica.



Boulez trabalhou com Andrew Gerzso para criar uma obra em que a ressonância e a espacialização dos sons executados pelo conjunto fossem processados em tempo real (a música eletrônica era criada penosamente em situações controladas, e então gravada em fitas, e assim 'fixadas' em um substrato para poder fazer uma apresentação).


O compositor dirigiu o Ircam até 1992, tornando-o um dos mais bem-sucedidos centros de experimentação musical do mundo.


Boulez é também internacionalmente conhecido como grande maestro. Dirigiu a maioria das principais orquestras sinfônicas do mundo desde o final dos anos 1950.


Serviu, simultaneamente, à Orquestra Sinfônica da BBC  e à Filarmônica de Nova York.
Atualmente, é o principal maestro da Orquestra Sinfônica de Chicago.


Boulez é particularmente famoso por suas interpretações inventivas de compositores do século XX: Claude Debussy, Gustav Mahler, Arnold Schöenberg, Igor Stravinsky, Béla Bartók, Anton Webern, Alban Berg e Edgard Varèse.


Seu repertório do século XIX concentra-se em Ludwig van Beethoven, Hector Berlioz, Robert Schumann e especialmente Richard Wagner.


Nunca usa a batuta para reger. Conduz com as mãos somente.


Em 1984, colaborou com Frank Zappa e conduziu o Ensemble Intercontemporain, que tocou três peças de Zappa.



A contribuição dos artigos de Boulez para esclarecer aspectos da música erudita de vanguarda contemporânea é fundamental. Notadamente, Schoenberg está morto (de 1951), deliberadamente provocativo e direcionado para causar polêmica.


Redigiu outros artigos para tratar de questões da técnica e da estética, de maneira sempre profundamente reflexiva.


Seus escritos foram em sua maior parte reeditados com os títulos Notes of an apprenticeship (Notas de um aprendizado), Orientations: collected writings (Orientações: escritos colecionados) e A música hoje, que foi publicado no Brasil pela coleção Debates, da Editora Perspectiva.


Lista de suas principais composições


Sonata para piano nº 1 (1946)


Sonata para piano nº 2 (1947-1948)


Polyphonie X (1951)


Structures, livros I et II (2 pianos, 1952 e 1961, respectivamente)


Le marteau sans maître (para soprano, alto flauta, violão, vibrafone, xilorimba, percussão e viola, de 1953-1955)


Piano sonata nº 3 (1955 – obra inacabada, da qual somente dois de seus cinco movimentos foram publicados)


Pli selon pli (soprano e orquestra, 1957-1962)


Domaines (clarinete solo, 1968-1969)


Domaines (clarinete e conjunto, 1968-1969)


Cummings ist der Dichter (para coro e conjunto, 1970)


Rituel: In Memoriam Bruno Maderna (orquestra, 1974-1975)


Messagesquisse (sete violoncelos, 1976-1977)


Notations (versão para piano em 1945, versão orquestral em 1978)


Répons (dois pianos, harpa, vibrafone, sinos, címbalo, orquestra e eletrônica, 1980-1984)


Dérive 1 (para seis instrumentos, 1984)


Le visage nuptial (soprano, alto, coro feminino e orquestra, 1951-1989)


Dérive 2 (para onze instrumentos, 1990)


…explosante-fixe… (conjunto e eletrônica, primeira versão em 1972-1974, segunda em 1991-1993)


Sur incises (3 pianos, 3 harpas e 3 instrumentos de percussão e teclados, 1996-1998)


Anthèmes 2 (violino e eletrônica, 1998)

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