segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Quatro compositores populares que não eram instrumentistas

Compositores populares que compuseram lindas melodias sem saber tocar nenhum instrumento são vários. Não só na música popular brasileira.


Um deles – Mick Jagger – é citado em outra matéria desta edição. Jagger sempre fingiu tocar guitarra nos shows dos Stones. Para mero efeito cênico, pois muitas vezes o instrumento sequer se encontrava plugado.


Não ser instrumentista não significa que os compositores em questão não são músicos. Evidente que conhecem música – pelos menos para o contexto popular.


Neste artigo me deterei a quatro grandes compositores que não foram instrumentistas: Paulo Vanzolini, Adoniran Barbosa, Lupicínio Rodrigues e o astro do rock norte-americano Jim Morrison.

Fotomontagem de Adoniran Barbosa com Paulo Vanzolini


Lupicínio Rodrigues
 
Jim Morrison
 
Vanzolini, um dos ícones do samba paulista, foi cientista respeitado internacionalmente. É considerado um dos mais importantes zoólogos brasileiros, especialista em répteis e batráquios.


Não se sabe como, conciliava perfeitamente a rotina de pesquisador com a de boêmio. Virava a noite nos botecos, mas no seguinte dava aulas e trabalhava full time em seu laboratório no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP).


Compôs mais de 70 canções — dentre as quais os clássicos sambas Ronda e Volta por cima — e escreveu cerca de 150 artigos científicos...



Alcançou reconhecimento em ambas as atividades, embora se visse antes zoólogo do que compositor. Dizia que fazia música para encher o tempo, exercitar a memória, fazer exercícios linguísticos. Mas que era, acima de tudo, um cientista.


Vanzolini em pesquisa de campo

Em uma das entrevistas, declarou:


“Nunca estudei música, não sei a diferença entre tom maior e menor. Meu professor foi o rádio. Sempre fui um grande ouvidor de rádio. Sou zoólogo e me dedico quase que exclusivamente à zoologia. Não sou músico, não tenho sentimento musical nenhum, sou duro de ouvido.”


Mentira! A seguir, o disco Paulo Vanzolini por ele mesmo. O homem não cantava muito, mas cantava sim senhor:


Lupicínio Rodrigues, o outro personagem deste artigo, se acompanhava com uma caixinha de fósforo e era bom cantor. Adoniran também era bom cantor – isso antes da birita e o cigarro terem arrebentado suas cordas vocais.



Vanzolini foi um compositor admirável e teve entre sua extensa roda de amigos figuras ímpares da música popular nacional como Pixinguinha, Ataulfo Alves e Paulinho da Viola – especialmente quando este residiu em São Paulo.


Também foram próximos de Vanzolini os irmãos Chico Buarque e Miúcha, graças à amizade antiga do zoólogo/compositor com o pai de ambos, o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Tanto Chico quanto Miúcha gravaram canções dele.


Como Adoniran, muitas das letras de Vanzolini são crônicas de personagens do cotidiano ou ocorrências da vida brasileira.


O cinegrafista Ricardo Dias acompanhou a trajetória de cientista e compositor de Vanzolini e produziu três documentários sobre ele: Os calangos do Boiaçu, No rio das amazonas e Um homem de moral.


A seguir, o documentário Um homem de moral, do qual participa Adoniran Barbosa:



Vanzolini viajava pelo interior do país para suas pesquisas científicas e aproveitava para pegar muitas músicas dos lugares por onde passava.


Assim, além de suas composições, deixou grande acervo de canções populares de vários gêneros e autores reunido em suas andanças pelo país.


Colaborou diversas vezes com a produção do programa Viola minha viola, de sua amiga Inezita Barroso, transmitido há mais de 30 anos pela TV Cultura, de São Paulo, sugerindo nomes de artistas populares que conhecera em suas viagens.


Adoniran Barbosa


O paulista João Rubinato foi um artista de múltiplos talentos. Começou como ator e humorista. Depois se tornou cantor e, por fim, compositor. E que compositor!


Era filho de imigrantes italianos. De família numerosa e pobre. Fez de tudo na vida até vir a ter reconhecimento no meio artístico. Primeiramente no rádio, depois no teatro e na televisão.


Durante décadas representou diversos personagens em programas de rádio de São Paulo, qual fazia Chico Anísio em rádios do Rio, antes de chegar à televisão.


Com o único instrumento que sabia tocar

Suas primeiras composições eram voltadas para os programas de humor do rádio. Aliás, Adoniran Barbosa, o nome por meio do qual se tornou conhecido, era inicialmente apenas um dos seus personagens.


Antes de fazer sucesso com seus sambas bem-humorados repletos de neologismos, consagrou-se como intérprete paulista de sambas de Ismael Silva e Noel Rosa.


Era ele quem recebia Ismael quando o grande sambista carioca vinha dar seus shows em São Paulo.


A partir das participações nos programas de humor surgiu aos poucos o grande compositor com apurada percepção das construções linguísticas, pontuadas pela escolha exata do ritmo da fala paulistana, na contramão da própria história do samba.


Os sambistas sempre procuraram dignificar sua arte com um tom sublime, o emprego da segunda pessoa, o tom elevado das letras, que sublimavam a origem miserável da maioria, e funcionavam como a busca da inserção social.


Adoniran como humorista

Mesmo um letrista tão inventivo como Ismael Silva, pecou nesse aspecto em algumas de suas composições.


Tudo por necessidade. Ismael, como a maioria de compositores de origem humilde, utilizou o samba para ascensão social e às vezes tinha de esconder as gírias e o comportamento do antro da malandragem de onde proviera.


Entre uma parceria vendida aqui e outra ali, dava o testemunho da importância que a linguagem assumia como veículo social.


Mas a escolha de Adoniran foi outra. Aproveitou-se da linguagem popular dos imigrantes e figuras populares, de modo que sua música é um retrato dos tipos humanos que a gerou.


Qual seja: os despejados das favelas, os caipiras, os engraxates, a mulher submissa que se revolta e abandona a casa, o homem solitário, social e existencialmente, entre outros.


Seu primeiro sucesso como compositor foi Trem das onze. É bem possível que todo brasileiro conheça, senão a música inteira, ao menos o estribilho, o que a torna um dos sambas mais populares em todo o Brasil.


A seguir, Trem das onze com os principais intérpretes de Adoniran: o grupo vocal e instrumental Demônios da Garoa.


Em qualquer roda de samba pelo país – inclusive na capital do samba, Rio de Janeiro –, basta alguém tocar Trem das onze que certamente achará alguns por perto que a conheçam para acompanhá-lo.


O sucesso de Adoniran como compositor se deveu também à grande popularidade do grupo vocal e instrumental Demônios da Garoa, surgido em São Paulo na década de 1950, que gravou a maioria de suas composições.


Com o surgimento da televisão, Adoniran passou a conciliar o trabalho de cantor (em casas noturnas) com participações em programas de humor e nas primeiras telenovelas.


Nos últimos anos de vida, com o enfisema pulmonar avançando e a impossibilidade de sair de casa pela noite, dedicou-se a gravar suas dezenas de músicas ainda inéditas.


Mas com dificuldade. A respiração e o cansaço não lhe permitem muita coisa. Como nesta gravação de Tiro ao álvaro, em curto dueto com Elis Regina.



Para driblar o tédio doméstico – imposto pelos problemas de saúde – dedicou-se ao trabalho de artesão, inventando cenários em miniatura com pedaços velhos de lata, de madeira, movidos a eletricidade: rodas-gigantes, trens de ferro, carrosséis...


O humor era a marca dos seus sambas, aliado à observação da linguagem e dos fatos trágicos do cotidiano.


Lupicínio Rodrigues


Lupicínio Rodrigues (1914 - 1974) foi o principal compositor popular do Rio Grande do Sul.


Compôs de tudo: marchinhas de carnaval, sambas-canção, músicas regionais e até os hinos dos dois principais times da capital gaúcha, Grêmio e Internacional. Mas era torcedor do primeiro.


Seus sambas-canção, que fizeram sucesso nos anos 1950 nas vozes de cantores do Rio de Janeiro e de São Paulo, levaram à criação do termo dor-de-cotovelo.

Referente à prática de quem crava os cotovelos em um balcão ou mesa de bar, pede uma birita forte e chora pela perda da pessoa amada.

A seguir, Lupicínio canta Vingança:



Pelas letras sofridas de muitos dos seus sambas, pressupõe-se que Lupicínio fora um homem sempre abandonado pelas mulheres, que buscou em sua própria vida a inspiração para suas canções, onde a traição e o amor andavam sempre juntos.


Nada disso. Embora negro em uma capital com maioria de descendentes europeus, era muito bem relacionado – principalmente com as mulheres. Na capital gaúcha, durante décadas foi o principal cantor (e compositor) das noites.


Também foi bem-sucedido como empresário. Foi proprietário de diversos bares, churrascarias e restaurantes com música.


Foi um dos letristas mais inventivos da música popular brasileira. Não vou me estender mais sobre ele, porque em janeiro deste ano postei a respeito de sua obra o artigo Lupicínic@ Rodrigues.


Enfim, o grande Lupe – como era conhecido – deixou cerca de 150 canções e pelo menos umas vinte que poderiam ser incluídas entre as melhores do nosso cancioneiro.


O único instrumento que tocava com alguma desenvoltura era a caixa de fósforo na qual batucava seus sambas.
A seguir, Arrigo Barnabé canta ao vivo Nervos de aço, de Lupicínio:




Jim Morrison


James "Jim" Douglas Morrison (1943-1971) estudava cinema em Los Angeles no início dos anos 1960. Sua turma de faculdade incluía, entre outros, os jovens Francis Ford Coppola e Ray Manzarek.


Coppola se tornou um dos maiores diretores de cinema norte-americanos e Manzarek o tecladista do grupo The Doors, do qual Morrison seria a principal atração, como vocalista e compositor.


Morrison e os músicos do The Doors


Filho de militar, Morrison teve formação conservadora e rigorosa. Mas acabou por tomar para si pontos de vista antagônicos aos da família.


Era fixado no livro As origens da tragédia, de Friedrich Nietzsche, no qual o autor alemão traça definições sobre estética a partir da dualidade apolínea e dionisíaca estabelecida pela cultura grega antiga.


Morrison deplorava a retidão e equilíbrio apolíneos e optou, desregradamente, pela transgressão dionisíaca.


A formação de Morrison antes de se integrar aos Doors era toda literária ou voltada para o cinema. Sempre quis fazer cinema.

Música era para ele uma segunda opção, muito embora fosse bem informado e conhecesse bastante a música popular norte-americana, sobretudo jazz e blues.


Coppola recorda dele na faculdade, sempre com algum livro de poemas dos simbolistas franceses, especialmente Arthur Rimbaud. Já tinha fama de emérito biriteiro e de criador de situações embaraçosas.


Morrison usou as drogas disponíveis em sua época – maconha, LSD, heroína, cocaína, mescalina e outras – mas sempre se sentiu mais atraído pelo álcool. Assim como outro grande compositor de sua época, o nova-iorquino Lou Reed.


Reed sempre teve fama de heroinômano. Mas a verdade é que abandonou a famosa droga pelo velho uísque e, no final das contas, o que o matou foi o hábito de beber diariamente durante décadas.


Voltemos a Morrison...


Manzarek gostava muito dos poemas do amigo e ambos eram profundos conhecedores de blues. Morrison passou a apresentar ao músico as melodias que criava para seus poemas.


O tecladista fez arranjos para algumas e estimulou Morrison a aprender a cantar. A essa altura, Manzarek – que participara da formação de várias bandas – tentava formar um trio instrumental com John Densmore (bateria) e seu irmão.


Morrison começou a ensaiar com os três. Mas o irmão de Manzarek não era um bom guitarrista. Logo se juntou a eles o ótimo Robby Krieger, que já tocara com Densmore em outra banda.


Assim surgiu, em 1965, uma das mais importantes bandas da história do rock’n’roll.


O nome veio de um verso de um dos poetas preferidos de Morrison, o inglês William Blake: "...If the doors of perception were cleansed/ every thing would appear to man as it is: infinite..."


The Doors não tinha uma formação comum à maioria dos grupos de rock – assim como o grupo brasileiro Os Mutantes. Não tinha baixo nas apresentações ao vivo, nas quais Manzarek fazia o baixo no teclado. Mas nas gravações utilizavam baixistas.


As composições das canções do grupo começavam com improvisos melódicos. Na sequência, o grupo delegava o trabalho a Morrison, que se isolava, punha as letras e voltava com a canção completa para o grupo lapidar e pôr os arranjos.


Embora as melhores canções dos Doors tenham sido compostas por Morrison – sozinho ou em dupla com Manzarek –, o primeiro grande sucesso da banda foi Light my fire, cuja letra e melodia foram criadas por Robby Krieger.



Além da qualidade das canções do grupo – principalmente pelas excelentes letras de Morrison –, The Doors começou a ganhar projeção com as performances ao vivo do seu vocalista, rapidamente eleito o sex symbol do rock’n’roll.


Mas Morrison não fazia aquilo para se exibir. Logo se cansou da condição de estrela e passou a provocar escândalos atrás de escândalos, movidos por consumo exacerbado de álcool, o que encurtou bastante a existência do grupo – e dele próprio.


As aprontações de Morrison nos palcos, que muitas vezes surpreendiam seus próprios companheiros, foram, por ironia, fechando portas atrás de portas para o grupo.


Até o ponto de nenhum empresário se dispor a contratá-los, porque sabia que Morrison faria confusão, que resultaria em prejuízos para quem resolvesse investir neles.


Morrison fichado pela polícia após mais uma prisão

Mas também colaborou para a dissolução do grupo a competição entre os três integrantes e Morrison, que os menosprezava.


Tudo bem que ele compunha as canções, e era a alma e o corpo do grupo. Mas quem formatava suas músicas e sustentava suas apresentações eram eles.


Morrison debochava dos colegas em público. Mudava propositadamente o tom das canções durante as interpretações ao vivo para confundi-los.


O grupo alugou, em 1971, uma casa na Califórnia para trabalhar no penúltimo álbum, Other voices. Morrison exigia que os colegas fizessem silêncio para trabalhar nas composições.


Mas sua maneira de se dirigir a eles não era nada diplomática: “Carinhas, vou gerar coisas para vocês ganharem grana. Portanto calem as bocas e tratem de não me importunar.”


O conflito chegou ao ponto de o expulsaram.


A seguir, Morrison e a incendiária canção Roadhouse blues:


Ocorre que, realmente, a identidade do The Doors para o público era Morrison, com suas letras barra pesada, de um lirismo arrebatador, com fortes alusões a imagens – vindas de sua paixão pelo cinema – e suas interpretações viscerais.


Sem Morrison, o público deu as costas para Manzarek, Krieger e Densmore – embora os três fossem excelentes instrumentistas.


Após a dissolução da banda no início da década de 1970, e especialmente depois da morte de Morrison, em 1971, o interesse pelas músicas do The Doors se manteve elevado.


Mas somente aquelas compostas e cantadas por Morrison. Os discos do grupo sem ele foram ignorados pelo público.


Em todo o mundo, os discos com Morrison – The Doors (1967), Strange days (1967), Waiting for the sun (1968), The soft parade (1969), Morrison Hotel (1970), L.A. Woman (1971), Other voices (1971) e Full circle (1972) – vendem milhões de cópias até hoje e dezenas de suas canções continuam a contagiar as novas gerações.


A seguir, a canção The end, utilizada como tema de Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, durante apresentação dos Doors no Festival da Ilha de Wight, em 1970. Morrison já se encontrava bastante destroçado pelo alcoolismo.


Após a morte de Morrison, um advogado contratado pela família veio procurar os integrantes da banda para fazer um inventário dos bens deixados pelo compositor e vocalista.


Os três músicos riram à beça. Manzarek explicou ao advogado que Morrison nunca teve nenhum bem. O que ganhava, gastava nas farras, até o último centavo. Suas posses se limitavam às roupas que vestia, aos discos que ouvia e aos livros que lia.


Não tinha imóveis, pois vivia em hotéis. Aliás, um dos discos da banda é, por isso, ironicamente denominado Morrison Hotel.



Além da produção musical, Morrison publicou em vida dois volumes de sua poesia: The lords e Notes on vision e The new creatures. Os dois livros foram depois combinados em um único volume intitulado The lords and the new creatures.


Tentou fazer cinema em parceria com seu principal amigo, o poeta beat Michael McClure. Elaboraram vários projetos de filme e, inclusive, uma peça de teatro na qual Morrison interpretaria o assaltante Billy the Kid.


Morrison e seu amigo Michael McClure

Depois de sua morte, dois volumes da poesia de Morrison foram publicados por McClure: The lost writings of Jim Morrison e The american night.


Morrison gravou sua própria poesia em um estúdio profissional de som em duas ocasiões. A primeira em 1969 e a segunda em 1970.


A última sessão foi assistida por amigos pessoais de Morrison e incluiu uma gama de peças esboçadas. Ambas foram posteriormente utilizadas como parte do álbum do The Doors An American Prayer, produzido pelos seus companheiros do grupo e lançado em 1978.


Morrison morreu em 3 de Julho de 1971 numa banheira de hotel (claro), em Paris, aos 27 anos. Havia bebido muito naquele dia. Mas é provável que tenha morrido por parada cardíaca, pois seu corpo já andava no limite há muito tempo.


Em sua lápide, em um cemitério parisiense, está escrito em grego: "Queime seu demônio interior”.

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