segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Um Éden bárbaro chamado Brasil

Povos europeus – quando ainda semitribais – passaram por dois fluxos expansionistas que foram fundamentais para encontrarem as trilhas do processo civilizatório que os levou à supremacia cultural contemporânea.

O primeiro, mediterrâneo, proveniente das clássicas culturas grega, judaica e romana.
Isso de 650 aC ao início da era cristã, que coincide com a decadência do Império Romano.


Com o fim da coesão romana, houve nova dispersão e então sobreveio o segundo fluxo, com a ocupação islâmica, a partir da Espanha – em 711 dC – a qual levou para a Europa um poderoso time de artistas, filósofos e cientistas persas, árabes e turcos.


Esses muçulmanos de alto repertório induziram os europeus de volta às culturas clássicas (grega, judaica e romana), que resutou no Renascimento, no século XIV.


Daí por diante, mediante ciclos de guerras, revoluções e acordos de paz que resultaram na formação das várias nações europeias qual as conhecemos hoje, as coisas mais ou menos entraram nos eixos a caminho da modernidade.


Curiosamente, os muçulmanos, que exerceram papel de vanguarda e deflagraram parte desse processo civilizatório durante séculos, voltaram-se para eles próprios e, hoje, adotam postura política agressiva, reativa e retrógrada.


O Alcorão, um livro religioso proveniente da cultura oral e, como tal, escrito para declamação, não se presta apenas à difusão das jihads atuais. Contém também belíssimos cantos de elogio à parcimônia, à compreensão entre os homens, à preservação da sabedoria e da paz.


O nacionalismo xenófobo predominante nos países de vertente ibero-americana (a chamada América Latina) mais ou menos converge para o irracionalismo irado que contaminou os povos muçulmanos.


É xenófobo e procura, como os grupos islâmicos radicais, salientar a importância dos artífices locais contra a influência estrangeira.

Mapa ilustrativo do Brasil colonial

São muitas as influências externas. Inclusive contemporâneas.

Por exemplo, a esquerda latino-americana sustenta por décadas sua aversão aos EUA, assim como os muçulmanos radicais, mas seus intelectuais mais sofisticados continuam sendo formados por universidades norte-americanas ou europeias.


Neste artigo vou me deter apenas a uma das vertentes estrangeiras que trouxeram grandes influências para nos constituirmos como nação e como povo, qual nos identificamos hoje: os viajantes europeus que aqui estiveram e deixaram relatos a respeito do que viram.


Muitos desses relatos foram aqui traduzidos e utilizados como referência para a formação dos intelectuais brasileiros...




Os primeiros relatos de viajantes europeus que vieram ao Brasil começaram a aparecer no século XVI. Eram pessoas de ambos os sexos, de classes sociais variadas, profissões e formação intelectual diversificada.

Descreveram aspectos do Brasil por meio de crônicas, relatos de viagem, correspondências, memórias, diários e álbuns de desenhos.


O conjunto de obras deixadas por eles integra a chamada literatura de viagem e se constitui em testemunhos, registros e observações determinantes para conhecer a realidade do Brasil de cada época.


Existem mais de 260 obras, em várias línguas, nas quais os autores abordam os habitantes das capitanias que constituíam então nossa pátria, vida social, usos e costumes, fauna, flora e outros aspectos da antiga colônia portuguesa.


O auge da produção dessas obras ocorreu durante o século XIX.


Principalmente após Dom João VI ter sido expulso de Portugal por Napoleão e se fixar por aqui.


Curiosamente, o monarca importou da corte napoleônica em declínio a nata dos artistas que dariam uma nova cara cultural à capital do Império, Rio de Janeiro.

Quando a corte portuguesa se instalou no Rio de Janeiro, em 1808, a expressão artística brasileira, essencialmente voltada para o domínio religioso, ainda se submetia ao regime de associações de artesãos.


Preocupado em atrair talentos estrangeiros para a colônia agora elevada à condição de reino, o príncipe regente D. João VI recorre ao seu representante em Paris, o marquês de Marialva e trouxe para cá, como já disse, artistas vinculados justamente ao imperador que o expulsara de Portugal.


Assim, vieram para a nova capital do império vários artistas franceses: o pintor acadêmico Nicolas-Antoine Taunay, seu irmão escultor, Auguste, o pintor Jean-Baptiste Debret, o arquiteto Auguste-Henri-Victor Grandjean de Montigny e o gravurista Charles Simon Pradier.


Também fazia parte da comitiva um grande contingente de engenheiros, técnicos e artesãos.


Cena doméstica do Brasil colonial pintada por Debret

Esse grupo desembarcou no Rio em 26 de março de 1816. No dia 12 de agosto foram assinados os contratos oficiais das pensões e promulgada a criação da Escola Real das Ciências, Artes e Ofícios, à qual foram se juntar alguns recém-chegados como o músico Sigismund Neukomm, e os escultores Marc e Zéphyrin Ferrez.


A  vinda de D. João VI para o Brasil também resultou na abertura dos portos, que proporcionou o incremento da navegação e o consequente aumento da presença estrangeira no país. E, com isso, vieram mais influências externas.


Vamos dar um breque nesse samba e voltar no tempo...


O primeiro viajante a narrar como era nossa terra nos primórdios do descobrimento foi um português – Pero Vaz de Caminha –, em carta enviada a D. Manoel I, então rei de Portugal, para contar o que encontrara na “Terra de Santa Cruz”.


Página do manuscrito de Caminha

Ainda do século XVI tivemos os relatos do aventureiro e mercenário alemão Hans Staden – Viagem ao Brasil (de 1557) – e do suíço Jean de Léry, que escreveu vários livros sobre o que viu em nosso território, dentre eles Viagem à terra do Brasil (de 1574).

Canibalismo tupinambá desenhado por Staden

Léry era um jovem sapateiro e seminarista quando, em 1556, decidiu acompanhar um grupo de ministros e artesãos protestantes em uma viagem à França Antártica, colônia francesa estabelecida na baía de Guanabara, atual cidade do Rio de Janeiro.

Imagem de selvagens no livro de Léry

Passou dois meses na região da Baía de Guanabara, acolhido pelos índios tupinambás. Depois de muitas peripécias, tomou um navio de volta à Europa.

A viagem foi arriscada, demorou mais do que o usual, e quase levou os passageiros e tripulantes a morrerem de fome. Ao final do percurso, Léry e os demais estavam comendo couro, papagaios, ratos e até mesmo mastigando o pau-brasil que levaram consigo.


Já se preparavam para tirar sorte para decidir qual deles morreria para servir de alimento aos outros quando chegaram à Europa.


Sem saberem, Léry e seus amigos conduziam na bagagem uma carta escrita pelo governante da França Antártica, Nicolas Durand de Villegagnon, ordenando a prisão e execução de todos eles.


Felizmente foram foram acolhidos na França por autoridades protestantes, que ignoraram a ordem. Após a publicação de sua obra principal, Viagem à terra do Brasil, Léry permaneceu trabalhando como pastor na Suíça até o fim de sua vida.


Da grande quantidade de estrangeiros, viajantes e aventureiros (ingleses, franceses, suíços, holandeses, alemães e portugueses), que escreveram suas impressões e crônicas sobre o Brasil, destaco alguns que estiveram no Nordeste brasileiro.


São deles os mais antigos relatos registrados para conhecermos como era a região.


Uma das melhores narrativas sobre o Nordeste antigo foi redigida na primeira metade do século XIX pelo inglês Henry Koster.


Trata-se do livro Travels in Brazil (de 1816), publicado em Londres e, depois, com tradução de Luís da Câmara Cascudo, editado por aqui como Viagens ao Nordeste do Brasil.

Ilustração do livro de Koster

Como uma complementação ao relato de Koster, o francês Louis François de Tollenare escreveu, entre 1816 e 1818, um diário no qual aborda aspectos importantes da vida social e política, usos e costumes, festas populares, escravidão, movimentos políticos e economia da sociedade nordestina da época.

As partes referentes aos estados de Pernambuco e da Bahia foram mais tarde traduzidas por Alfredo de Carvalho e publicadas sob o título de Notas dominicais, nas Revistas do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, em 1904, e do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, em 1907.


Outro relato importante é o de James Henderson, viajante e diplomata inglês que esteve no Brasil de 1819 a 1821 e escreveu o livro, ainda sem tradução para o português, A history of Brazil: comprising its geography, commerce, colonization, aboriginal inhabitants (Uma história do Brasil: compreendendo sua geografia, comércio, colonização, habitantes aborígenes).


O livro de Henderson foi publicado em Londres, em 1821.


O alemão Johan Moritz Rugendas deixou uma obra plástica (gravuras, desenho, pinturas) significativa para o estudo das características físicas, hábitos e costumes da população negra e índia, assim como dos mulatos e mestiços que formam hoje a população brasileira.


Seu livro foi traduzido para o português e publicado, em 1940, sob o título Viagem pitoresca através do Brasil.


Exuberância da Mata Atlântica desenhada por Rugendas

Outro relato importante sobre o Nordeste brasileiro, também do século XIX, é o da inglesa Maria Graham, que escreveu o Diário de uma viagem ao Brasil, após ter estado na região em três oportunidades: em 1821, 1822 e 1823.

Dois cientistas alemães, Johan Baptist von Spix e Karl Friedrich Philip von Martius,  realizaram uma grande viagem pelo interior do Brasil, entre os anos de 1817 e 1820, percorrendo várias províncias, seguindo o rio São Francisco, por Minas Gerais e Bahia, passando pelo sertão de Pernambuco, Piauí e Maranhão, analisando e fazendo anotações sobre as populações rurais.


Ilustração de árvore gigantesca na obra de Spix e Martius

Suas anotações foram traduzidas para o português e publicadas pela Imprensa Nacional, sob o título Viagem pelo Brasil, em 1938.

Richard Francis Burton foi um dos maiores viajantes ingleses do século XIX. Em 1865, foi nomeado cônsul britânico em Santos e, em 1867, conseguiu permissão para uma viagem pelo Brasil, que durou cinco meses.


Embarcação com peles no Rio São Francisco no livro de Burton

Burton visitou o Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paulo Afonso, na Bahia, indo até Penedo, em Alagoas, seguindo pelo rio São Francisco, que denominou de “Mississipi brasileiro”.

Suas observações foram registradas no livro Explorations of the highlands of the Brazil, publicado em Londres, em 1869, e traduzido para o português com o título Viagens aos planaltos do Brasil (mas só publicado em 1941).


As narrativas dos viajantes, reunidas em livros, impressos às vezes em mais de uma edição e em diversas línguas, fizeram muito sucesso na Europa em sua época, sendo disputados pelo público interessado pelas descrições de povos e costumes exóticos.


Resumindo, caros xenófobos patrícios, os viajantes europeus foram os grandes cronistas da vida brasileira dos séculos XVI a XIX, descrevendo em suas obras aspectos da terra, da gente, dos usos e costumes do Brasil.


Procurando marcar as diferenças entre uma Europa já civilizada e uma terra virgem e verde, os viajantes produziram uma literatura que refletiu imagens de um mundo novo de fato. Com o tempo, alguns aspectos dessas descrições, obviamente, se tornaram estereótipos, mitos. 


Nesses relatos, o Brasil quase sempre aparece como um misto de paraíso e terra repleta de perigos, onde a selva (e a selvageria) se sobrepõe à realidade civilizada.


Misturando literatura ficcional com narrativa documental, a maioria desses livros é ricamente ilustrada. Os mais antigos trazem imagens (muitas vezes irreais) de animais bizarros, florestas infindas e estranhos habitantes nus.


Em parte a nova terra era vista como um Éden, um novo paraíso. Ao mesmo tempo há todo o peso dos relatos nos quais se registra o espanto diante dos ritos canibalescos dos selvagens, por exemplo.


Ora, por que tanto espanto? Sob todos os aspectos, aqui era tão comum homens comerem outros homens. O bom escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, falecido recentemente, escreveu a esse respeito o delicioso conto Enrabadiços.


Brincadeiras à parte, para os europeus os nativos eram um povo sem fé, sem rei e sem lei. A verdade é que ainda somos um pouco assim, meio “bárbaros, animais, demônios”, como dizia um dos cronistas do século XVIII.


Daí, claro, os franceses acharam por bem tentar abocanhar parte das terras dos portugueses, para colonizá-las com modos mais civilizados. Tentaram o Rio de Janeiro em 1555 e São Luís do Maranhão em 1612.


A França não manteve a ocupação desses territórios, mas “colonizou” culturalmente nosso país, e a América Latina, influenciando-nos enormemente em todas as áreas do saber, em especial nas ciências humanas.


Bom, a presença francesa está inclusive na nossa língua falada. Os erres arrastados que pronunciamos no Rio de Janeiro, estados nordestinos e na maior parte do país vêm do idioma francês.


No sentido contrário aos que os antigos viajantes franceses viam, o Brasil imaginário apresentou-se – creio que até para o “viajante” belga Claude Lévi-Strauss, no século XX – como uma terra onde as utopias poderiam ser implantadas.


Lévi-Strauss bem à vontade com indígenas do Brasil central

Visto que a influência da cultura francesa foi grande também no Velho Mundo – vide a Rússia, na qual o francês era o segundo idioma no período dos czares – a França acabou exportando para as demais nações europeias as visões fantasiosas que construiu do Brasil.

Nesse contexto mais ou menos imbecil, a América do Sul e, sobretudo o Brasil, surgiram como lugares onde a novidade radical, herdada obviamente do ideário europeu (positivista, anarquista, liberal, marxista ou o raio que o parta). 


Vivemos ainda esse tormento do país idealizado, por compensação, para suprir talvez os seguidos fracassos das aventuras ideológicas em países europeus ocidentais e orientais.


Sérgio Buarque de Holanda, no livro Visão do paraíso, afirma que a percepção que os viajantes europeus tinham da América estava ligada à interpretação quase literal que faziam dos textos bíblicos durante os descobrimentos e até no período colonial.


Esses viajantes do Velho Mundo acreditavam, então, na existência de uma Idade de Ouro perdida, crença que havia marcado o espírito europeu desde a Antiguidade.


O padre capuchinho francês Claude d’Abbeville organizou, em 1612, uma expedição pretensiosa para colonizar o Maranhão. Essa tentativa burlesca e tão brasílica resultou na obra História da missão dos padres capuchinhos na Ilha do Maranhão e terras circunvizinhas.


Capa do livro de Abbeville

Bem, cá persistimos todos na terra imaginária onde imperam a abundância, a ociosidade, a juventude e a liberdade. Afinal, esse foi um dos mitos medievais projetados sobre o Novo Mundo (América). Sob o qual chegamos ao extremo de dizer até que Deus é brasileiro.

Somadas as impressões reais e imaginárias, o Brasil continua “uma grande floresta”, como menciona o frade francês André Thévet no livro As singularidades da França Antártica, de 1555.


Barbárie no Éden brasilis segundo Trèvet

Nosso caráter supostamente bárbaro é atestado no relato de Abbeville a respeito da população maranhense. Continuamos mesmo uns bárbaros uns com os outros, só que nas nossas “florestas” atuais há mais edifícios que árvores.

No “século das luzes”, nossa imagem foi amaciada por um dos ideólogos iluministas, o suíço Jean-Jacques Rousseau. De modo que cada um de nós passou a ser o “bom selvagem”, ou seja, o homem livre da civilização que o corrompe.


Enfim, de uns facínoras cruéis possuídos pelo demônio, os iluministas nos transformaram em seres simpáticos, afáveis, receptivos, livres, felizes fornicadores e fumadores de maconha, dignos do nosso éden repleto de mulheres bundudas e muriçocas.


Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro acreditaram na patranha iluminista de que o brasileiro teria herdado do bom selvagem os traços de afabilidade e descontração, além de uma tendência a viver em harmonia com a natureza.


Será mesmo? Eu, que sou um cético fadado a jogar merda no ventilador dos outros, acho abobrinha as teorias de Holanda, Freyre e Ribeiro a respeito do que somos ou deixamos de ser.


A partir do século XVIII, os europeus sacaram que o Brasil, com sua imensa quantidade de florestas, era ambiente ideal para pesquisas e descobertas. Muito melhor que isso: que nosso subsolo tinha ouro e outras riquezas incalculáveis.


De “terra prometida”, passamos então a paraíso da fortuna fácil.


Amazônia


Desde o Renascimento, os mistérios da vasta região amazônica sempre excitaram a imaginação dos viajantes estrangeiros. Era um reservatório de sonhos, berço de muitas fantasias.


A Amazônia segue fascinando os estrangeiros – hoje em dia sobretudo os da Gringolândia, daquele país da América do Norte que nos legou o rock’n’roll, o gosto pelo dinheiro e os preceitos do "politicamente correto" atualmente tão em voga.


Engraçado, mas a Amazônia (ama zona ou coisa que o valha), e o país em si, faz do real o imaginário. Nessa imensidão cada vez mais destroçada que nós, os bons selvagens, habitamos, as fronteiras entre ambos nem sempre são nítidas.


Daí que um dos últimos viajantes, o escritor austríaco Stefan Zweig, chamou essa nossa pátria de muvucas e diatribes políticas de nada para coisa alguma de “país do futuro”.


 
Zweig e esposa se suicidaram em Petrópolis (RJ), em 1942

O que Zweig terá querido dizer com isso?

O que o bom austríaco não sabia é que isso aqui também é um lugar perigoso. Tanto é que ele e a esposa, após muitos dissabores, tiveram o fim que tiveram.


Alguns de nós, nacionalistas cá gestados, crescidos e devidamente moldados também fizemos nossos registros de viagem sobre as terras brasílicas. Mas não com a competência dos viajantes europeus.


Enfim, graças aos deuses da cultura – que servem a todos os homens – esses malucos europeus por aqui estiveram e, apesar de suas fantasias e equívocos, colaboraram enormemente para que hoje entendamos um pouquinho porque somos o que somos.

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