segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Um gringo muito louco e talentoso

O dramaturgo, contista, roteirista, ator e diretor Sam Shepard é, pelo menos na aparência, um norte-americano interiorano típico: alto, magro, pernas compridas, arruaceiro e um exemplar bebedor de bourbon, o uísque da Gringolândia feito de milho.

Sam Shepard

Bem parecido com seu conterrâneo Bob Wilson, este texano, que também tem um jeitão de caipira jeca.

Ambos figuras de proa do teatro de vanguarda norte-americano. Wilson como diretor e Shepard como ator, diretor e dramaturgo.

Nosso camarada nasceu Samuel Shepard Rogers III em Fort Sheridan, Illinois, em 1943. O primeiro Samuel Shepard foi o avô, o segundo seu pai, que se dividia entre as funções de professor e agricultor.


Na adolescência, quando o pai voltou fisicamente destroçado da Segunda Guerra Mundial, Sam trabalhou duro na propriedade rural da família para sustentar a ele, ao pai então inválido e à mãe.


Lembra-se do pai com carinho e ironia: "Era um alcoólatra dedicado."


Shepard estudou brevemente agronomia, mas desistiu de vez da carreira quando descobriu a obra do dramaturgo e prosador irlandês Samuel Beckett, o jazz e o expressionismo abstrato.


O expressionismo também foi âncora do principal dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues, figura igualmente criativa, inteligente e bem-humorada.

Depois que desistiu dos estudos, Shepard exerceu durante dois anos, ainda em Illinois, diversas profissões para sobrevier: guia de turismo, garçom, entre outras.


Até chegar em Nova York, onde logo se envolveu com teatro. Em pouco tempo o caipirão pernalta e magrelo de Illinois tornou-se um dos autores mais requisitado pelo circuito out do teatro noviorquino.


Várias de suas peças foram encenadas. Mas para públicos limitados, nos espaços restritos do teatro de vanguarda. Shepard nunca foi das esferas da Broadway e outras notadamente comerciais.


Sua primeira oportunidade como roteirista de cinema foi com o longa político Zabriskie Point, dirigido pelo italiano Michelangelo Antonioni em 1970.


Antonioni mistura as manifestações de rua com as canções das principais bandas de rock da época: Rolling Stones, Grateful Dead, Pink Floyd e outras . A seguir, o filme dublado em francês:



Para quem suporta a redundância do discurso político, antigo e atual, é um prato cheio.


Na ocasião, Shepard era habitué do famoso Chelsea Hotel, para onde foi a fim de manter contato com os diversos tipos de artistas que por lá moravam.

Nesse período, além de teatro, escrevia roteiros para shows – foi um dos autores do musical The rocky horror show, de Richard O'Brien – e compôs letras de música para a banda de folk psicodélico The Holy Modal Rounders.


Acompanhou Bob Dylan, em 1975, na turnê Rolling thunder revue, contratado para ser o roteirista de um documentário a ser produzido para divulgar o disco ao vivo lançado no final daquele ano.


Dylan e Shepard

Mas o filme foi totalmente improvisado e seus serviços não foram utilizados. Consta que Shepard, pago para nada fazer, bebeu quantidade incomparável de uísque durante a turnê.

Ainda em 1975 foi nomeado dramaturgo-residente do Magic Theatre, espaço de vanguarda de Nova York, onde suas peças mais importantes foram encenadas.

Shepard começou a sério, nesse período, sua carreira de ator e roteirista.


Desde então atuou em 48 filmes, foi roteirista de sete grandes filmes (incluindo Paris, Texas e Don’t come knocking, ambos com Wim Wenders) e dirigiu dois filmes, dos quais foi também o roteirista: Far North (1988) e Silent tongue (1994).


Shepard e Wenders

Sam está coroa – tem mais de 70 anos. Continua magrelão, mas grisalho e com a cara sulcada pelos anos de muita birita e outras coisitchas.

Quanto mais velho mais se sente "estranho, como se vivesse em lugares fraturados, com pessoas quebradas em pedaços, cujas peças realmente não se encaixam”.


A respeito dele próprio, brinca: “Sou como um Porsche... elegante, que faz exatamente o que as pessoas esperam que faça. E podem acelerar, que também mostro meus freios.”


Há dois anos lançou seu último livro: Day out of days. Segundo ele próprio, contos, poemas e desenhos narrativos de personagens e situações “ecoando como tomadas de filmes”.


A prosa de Shepard é sucinta, direta, crua. Lembra a objetividade dos ótimos contos curtos do escritor e dramaturgo russo Anton Tchekhov (1860-1904).


Infelizmente, uma das poucas pessoas que ouvi comentar que conhece os contos de Shepard foi o jornalista Paulo Reda, residente em Campinas. Eu, que também os li, posso afirmar que os muitos que não os leram não fazem ideia do que estão perdendo.


Shepard faz menos coisas atualmente, claro, mas continua produzindo suas histórias, escrevendo para teatro e dirigindo espetáculos. Atua em pelo menos um filme por ano.
Porém não quer mais voltar a dirigir cinema. Prefere ser diretor de teatro.


Suas paixões da vida privada são, principalmente, duas: jazz e mulheres.


Já passaram pelos seus lençóis as atrizes Joyce Aaron, Jessica Lange (mantiveram um caso durante décadas) e, entre tantas, a poetisa roqueira Patti Smith, interiorana como ele, a quem namorou sob o nome falso de Obie Award.

Shepard (já de caldo entornado) e Jessica

Ambos viviam no Chelsea Hotel na época, se entupindo de LSD e outras drogas. Patti andava carente, pois seu namorado Robert Mopplethorpe começara a guinar, obviamente sem perspectivas de volta, para o homossexualismo sadomasoquista.

Shaped (como Obie Award) e Patti

Tempo depois Patti recebeu o convite – que aceitou – para atuar numa das peças de Shepard. Qual não foi sua surpresa quando descobriu que o dramaturgo/diretor e seu antigo namorado Obie Award, do Chelsea, eram a mesma pessoa!

Dentre suas várias manias, houve época que Shepard se meteu a dirigir aviões. Mas se acidentou gravemente ao pilotar um durante umas filmagens no México.


Depois disso, deixou de usar aviões até como meio de transporte. Passou a transitar de norte a sul, de leste a oeste dos EUA dirigindo carros, motocicletas ou viajando de ônibus, quase sempre com um surrado chapéu texano enterrado na cabeça.


Costumava dirigir seus carros em alta velocidade. Ultimamente tem posto os pés no freio – como brincou na declaração citada neste artigo – depois de ter sido preso em Illinois com o carro acima da velocidade permitida e, o que foi pior, completamente bêbado.


Foi condenado a 24 meses de liberdade condicional. Teve de passar por um curso cacete de reabilitação de motoristas e a 100 horas de serviço comunitário.


Nesse aspecto o ator decadente de Don’t come knocking, dirigido por Wim Wenders e interpretado por Shepard, é parecidíssimo com ele próprio: doidão, meio imaturo e irresponsável, apesar de coroa.


Vejam o filme, a seguir, com roteiro de Shepard e o próprio no papel título do decadente ator de faroestes Howard Spence. As legendas estão em espanhol:



O filme recebeu, no Brasil, o título idiota de Estrela solitária. Mas é ótimo. A meu ver, melhor até que a parceria anterior dos dois (Paris, Texas). A fotografia também é de primeira.

Don’t come knocking passou despercebido no Brasil. Poucos o viram nas curtas temporadas em salas especiais.

André Prada, amigo de Campinas, me deu o toque de onde o estavam exibindo na cidade. Eu, minha mulher e mais meia dúzia de gatos pingados o vimos em plena segunda-feira à tarde, num horário morto de uma sala de cinema de um shopping.

O principal amigo de Shepard é o ator e comediante Johnny Dark. Uma amizade de 50 anos, regada a muitas farras,
bebedeiras e viagens de motocicletas.

A amizade rendeu o tema do documentário Shepard & Dark, dirigido pela linda Treva Wurmfeld, produzido em 2013.

Treva Wurmfeld

Vejam o trailer do documentário:


Ao longo dos anos, Shepard tem trabalhado como professor, ensinando jovens a escrever peças e outros aspectos do teatro. Suas aulas e seminários ocorrem em oficinas oferecidas em espaços culturais e universidades do seu país.


Dentre os muitos artistas influenciados pelo seu trabalho, um dos mais significativos foi o ator e diretor Joseph Chaikin , um veterano do Living Theatre que ajudou a fundar o grupo Open Theatre.


Os dois, que se conheceram durante as filmagens de Zabriskie Point, de Antonioni, em 1970, cujos atores foram ensaiados por Chaikin, trabalharam juntos em vários projetos.

Shepard e Chaikin

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