segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Um personagem de HQs sem preocupação de agradar

Em direção oposta à consensual opinião pública "politicamente correta" das últimas décadas, o roteirista de histórias em quadrinhos francês Sanchez Abuli, radicado na Espanha, criou vários personagens despidos de qualquer pendor à bondade ou pretensão de querer consertar o mundo.

Um deles é o assassino de aluguel Torpedo, cujo nome verdadeiro é Luca Borelli. Cresceu no submundo, onde se tornou um “prestador de serviços”.


Quanto me pagam para aparecer neste artigo?
Os gestos típicos do personagem – desenhado pelo catalão Jordi Benet – é cuspir no chão, pôr o cigarro no canto da boca, dar uma talagada nalguma bebida forte e executar a ação. Ou seja, matar quem estiver encomendado.

Torpedo não é nada generoso. Bate em mulheres e despreza homossexuais.


Nasceu na Sicilia, em 1903, em uma família pobre e bastante problemática.


Seu pai alcoólatra constantemente espancava os filhos e a mulher. Em um de seus ataques causados pela bebida, acabou matando seu filho mais velho.


Luca, por vingança, participou do assassinato do próprio pai.


Fugindo dos possíveis problemas advindos do crime, migra, ainda bem jovem, para Nova York, onde trabalha inicialmente como engraxate.


Com o tempo, vai se metendo com a bandidagem novaiorquina e praticando pequenos delitos até se tornar um conhecido assassino de aluguel.


"Torpedo" é a gíria para assassinos pagos na década de 1920...




Valendo-se de flashbacks e narrativa não linear, Abulí cria um universo que retrata bem a Nova York corrupta, social e economicamente instável depois da crise 1929, mostrando, concomitantemente, a ascensão de Luca dentro da hierarquia do crime na grande metrópole.

A ambientação lembra O poderoso chefão - parte II, principalmente quando Francis Ford Coppola mostra a trajetória de Vito Corleone, da Itália até ganhar a América.


Apesar disso, psicologicamente os dois personagens guardam pouca ou quase nenhuma semelhança. Luca Torelli é frio, calculista, cruel e com honra dubitável, características não associadas ao lendário chefe da família Corleone.


Página de uma das edições nacionais

Enfim, é um quadrinho excepcional e sem dúvida o melhor sobre máfia e gangsters. No Brasil, entre outras publicações a série foi lançada em cinco volumes pela Martins Fontes, entre 1988 e 1990.

Evidente que Abuli e Benet, os criadores de Torpedo, não são nenhuns filhos dumas putas. São excelentes profissionais, isso sim, e de maneira alguma devem ser avaliados pelo caráter do seu personagem.


“Apesar de meus personagens violentos, canalhas e cínicos, sou um homem basicamente pacífico. Uma coisa é o que escrevo e outra, muito diferente, o que vivo”, diz Abuli.


Da mesma forma não podemos avaliar a obra de grandes autores como Ezra Pound e Lous-Ferdinand Céline pelas suas crendices ou asneiras políticas.


Pound é o principal poeta épico moderno. Céline o principal romancista pós-Joyce. Suas posições pessoais questionáveis de modo algum devem pôr em questão a alta qualidade de suas obras.


Torpedo é um desenho de HQ de alta resolução técnica. É uma das séries recentes mais apreciadas por Sergio Bonelli, um dos criadores do clássico herói de faroestes italianos Tex Willer.


Torpedo em momento de reflexão

O humor "politicamente incorreto" de Torpedo é especialíssimo, à altura dos melhores autores de HQs que foram por essa linha, como os italianos Tanino Liberatore e Stefano Tamburini, que criaram o excelente Ranxerox, nos anos 1970.

A começar, ele é um gangster ítalo-americano – um marginal apátrida. O desenhista das duas primeiras histórias, o americano Alex Toth, largou a série justamente por achá-la muito violenta e amoral.


Bernet, o segundo e definitivo parceiro de Abuli, acompanhou o personagem até o fim, em 2001, quando os dois brigaram e a série estacou.


O pai de Abuli era novelista, poeta e, entre outras coisas, roteirista de quadrinhos. Também escrevia romances populares, para vender em bancas de revistas, como fazia entre nós o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues.


Torpedo
conta com 15 álbuns publicados (cinco deles lançados no Brasil) e uma edição especial com contos.

Uma das poucas ocasiões que Torpedo perdoou e foi gentil

Para se ter ideia da importância do desenho, a versão integral da série saiu na Espanha em cinco volumes encadernados, pela Glénat Espanha, e num único volume de 690 páginas, pela Vents d’Ouest, na França.

Houve negociações por parte do ator e diretor norte-americano Clint Eastwood para levar o personagem para o cinema. Abuli seria o roteirista e Bernet o diretor de arte.


Mas o projeto gorou pelos motivos já citados. Os investidores acharam que a imagem do personagem não era apropriada. Ou seja, os patrocinadores também já se dobraram à grande vertente ditatorial "politicamente correta".

Segundo Abuli, o público feminino é o que mais detesta Torpedo. Pois considera o personagem extremamente durão, machista e sexista. “Mesmo assim, todas as mulheres que o leem riem muito”, assegura o roteirista.



Enquadramentos e efeitos similares aos de The Spirit de Will Eisner

Abuli quer dizer com isso que a truculência de Torpedo é, acima de tudo, humor. Como era a de Ranxerox.

Vida de quadrinhista não é fácil. No Brasil então, nem se fala, é pedreira total. O bom Lourenço Maturelli que o diga. Sobrevive porque é polivalente: escreve para jornais, publica romances populares, faz roteiros para cinema e escreve peças de teatro.


Apesar da popularidade de Torpedo e de outros seus personagens, Sanchez Abuli diz que exerce outras atividades para se somarem ao que ganha com suas histórias. Trabalha como tradutor de historietas de outros autores.


... é protetor...

Sobre a falta de uma certa ambição intelectual em grande parte dos autores de quadrinhos, Abuli é certeiro.

“Claro que sim, pois quadrinhos é arte popular e as poucas HQs intelectualizadas que existem são de uma chatice infinita. Aprecio quadrinhos inteligentes, mas não intelectualizados.”


... trabalhador...

Mas há, segundo ele, sofisticação construtiva nas HQs à altura de outros tipos de ficção, inclusive literária.


“Quadrinhos que se preze tem histórias bem construídas, bem contadas, com bons diálogos e, até, com bons silêncios. E, se possível, com bons finais. E é fundamental que sejam bem desenhados. Há autores do mundo inteiro que fazem HQs de alta qualidade.”

Ora, precisamos reconhecer as qualidades de Torpedo

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