segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A boa prosa de Scott, o escriba movido a scotch

Dizia-se que, sóbrio, era um doce de pessoa. Mas, bêbado, era mesmo infernal. O problema é que dificilmente estava... sóbrio. Ainda mais quando acompanhado por sua esposa Zelda ou pelo amigo Henry Louis Mencken (1880-1956).

Dizia-se ainda que Zelda era uma flor da alta sociedade. Mas cuja pele exalava mais cheiro de uísque que de perfumes.


Scott e Zelda em Paris
Mencken garantiu que não era nada disso. Que seu amigo na verdade se fingia de bêbado quando queria aprontar. Que nem era tão beberrão assim. Se bem que Mencken, como Zelda, não era lá flor que se cheire.

Mencken foi uma espécie de Paulo Francis da primeira metade do século XX nos EUA. Um satirista político da pesada.


Segundo as más línguas, o jornalista que mais teve inimigos na história da imprensa norte-americana. Como Francis, escrevia sobre quase tudo: política, cena social, literatura, música, etc.

Era muito cético em relação a teorias econômicas. Também era anti-intelectual, antipopulista, anticristão (dizia que Deus fora a pior piada da humanidade) e anticapitalista – embora nunca tenha militado em nenhuma organização de esquerda.


Certa vez Scott, acompanhado por Mencken, perdeu o controle do carro e foi parar dentro de uma agência bancária da Filadélfia. Estavam tão bêbados que dormiram no local do acidente, em meio a estilhaços de vidro. A polícia teve de levá-los desmaiados para o xilindró.


Scott, Mencken e um amigo num momento de descontração
Scott Fitzgerald integrou a chamada “geração perdida” de escritores norte-americanos que migraram para Paris na passagem do século XIX para o século XX. Dela também fez parte Ernest Hemingway (1899-1961), que não se dava com Scott.

Aliás, quase nenhum dos norte-americanos residentes em Paris na época se dava bem com Scott. Gertrude Stein (1874-1946) e sua companheira Alice Toklas tinham uma paciência de Jó com Hemingway. Várias vezes o escritor grandalhão foi curar os porres na casa das duas.


Mas Scott e Zelda não queriam ver nem pintados. Gertrude, em sua autobiografia, se referiu aos dois como “aqueles bárbaros”...


Francis Scott Fitzgerald (1896-1940) era filho de imigrantes irlandeses. Mas diferente dos Kennedy, que também têm origem irlandesa, não flertava com o poder. Pelo contrário, se dedicou, por meio da literatura, a revelar os despudores do poder.

Sua origem social também era bem diferente da dos Kennedy. Vinha de família de classe média e sequer teve formação universitária. Formou-se como autodidata, na luta para ganhar a vida. Mas como escrevia!


Zelda, sim, era filha da elite irlandesa. Scott era perdidamente apaixonado por ela. Os dois formavam um casal dos mais malucos até para os dias atuais.


"Aqueles bárbaros" adoravam automóveis
Quando lhes dava vontade, transavam onde estivessem. Sobretudo nas muitas festas das quais participaram, inclusive na frente das pessoas.

Tinham prazer por correr riscos Chegaram a fazer sexo dentro de um carro sobre uma linha de trem.


Mas Zelda pirou e as coisas se complicaram de vez para Scott. O sentimento de culpa o abateu profundamente. Sentia-se responsável pela loucura da mulher.


Não aceitava o diagnóstico dos médicos de que Zelda era portadora de esquizofrenia e, portanto, não havia perspectivas de cura.


Até sua morte, acreditou que Zelda haveria de se recuperar e voltariam a aprontar juntos, como nos bons tempos em Paris. Como isso não ocorreu, afundou-se de vez no álcool e pouco conseguiu escrever após a internação da esposa.


Não chegou propriamente a concorrer com Hemingway. Este é que concorria com ele.


Uma das raras fotos dos rivais juntos
Hemingway não aceitava que um sujeito tão inseguro e amalucado como Scott, vindo da ralé, pudesse produzir obras superiores às suas.

Os dois eram muito diferentes. Scott, apesar de bonitão, era tímido e não tinha o mínimo talento para se fazer benquisto.


Hemingway era a aparente simpatia e segurança. Tão seguro que seu último ato foi meter uma bala no crânio. Scott, sem sua Zelda, era a fragilidade em pessoa.


Hemingway era o queridinho dos poderosos, inclusive de esquerda.


Fidel Castro concedeu a ele uma casa só para as eventuais pescarias em Cuba.


Nas duas vezes que o escritor apareceu por lá, tomou o ótimo rum da ilha acompanhado pelos irmãos Castro (Fidel e Raul) e por dirigentes do alto escalão do Partido Comunista Cubano, dentre eles Che Guevara.

Fidel e Hemingway
Hemingway era também querido na URSS stalinista, onde vários escritores carros-chefe do realismo socialista, a serviço do Estado, procuraram imitá-lo.

Mas Leon Trotsky (1879-1940), o único líder bolchevique que conhecia cadinho de literatura, considerava O grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, o melhor retrato da alta burguesia feito por um escritor moderno.


Leon Trotsky
Trotsky também preferia Scott a John Reed, Jack London e John Steinbech, os escritores norte-americanos mais admirados pela esquerda.

Embora pouco integrado, Scott não só tinha um texto brilhante, como era um observador agudo.


Deixou cinco romances, seis livros de contos, três peças de teatro, duas obras autobiográficas e vários roteiros de cinema nunca filmados.


Seu primeiro romance, Este lado do Paraíso (This side of Paradise), publicado em 1920, foi sucesso imediato.


Em pouco tempo vendeu 50 mil exemplares – quantidade fantástica para a época. Scott logo se tornou o autor mais bem pago de seu tempo.


Lançou, em 1922, os ótimos Seis contos da era do jazz. Foi outro grande sucesso de venda. Três anos depois surgiria sua obra-prima, O grande Gatsby (The great Gatsby).


Para mim, Scott Fitzgerald e Willian Faulkner (1897-1962) são os grandes prosadores norte-americanos da primeira metade do século XX. A tentativa de Faulkner de se tornar roteirista de cinema em Hollywood também foi um fiasco.


Willian Faulkner
Em sua decadência, Scott deixou Paris (a cidade já não o interessava depois que Zelda fora internada na clínica psiquiátrica) e retornou aos EUA, onde sobreviveu como escritor de crônicas e ensaios, publicados em revistas.

Somente em 1934 publicaria o romance Suave é a noite (Tender is the night), friamente acolhido pela crítica da época, mas hoje tido como um de seus melhores trabalhos.


Entregue ao alcoolismo, Fitzgerald amargou uma fase de ostracismo em Hollywood, escrevendo roteiros de filmes – todos rejeitados.


Mesmo encharcado de uísque, dia e noite, continuava um homem bonito. Várias mulheres tentaram conquistá-lo. Uma delas até tentou se casar com ele.  Mas Scott perdera o interesse por sexo. Sexo e afetividade para ele só tinham a ver com uma dama: Zelda.


No ano de sua morte, 1940, deixou sem concluiu o romance O último magnata (The Last Tycoon), que muitas décadas depois foi transformado em filme de sucesso por uma produtora de Hollywood.

Edmund Wilson
O romance foi editado e publicado pelo crítico e romancista Edmund Wilson (1895-1972), que o considerava o melhor livro de Scott, mesmo que inacabado.

Como todos os livros de Scott Fitzgerald, seu último romance lida com a desconfiança sobre si mesmo, num mecanismo de construção e desconstrução.


Todas as suas histórias são doentias e perigosas. Mas num estilo fluente, com preciso domínio técnico e construtivo. Paradoxalmente, Scott buscou a perfeição à beira do abismo.


Uma das últimas imagens do escritor

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