segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

“Boca do lixo” que trouxe riqueza para o cinema nacional



A classe média mais ou menos letrada, de formação universitária, quando fala de música brasileira refere-se sempre à modorrenta música popular brasileira (MPB).


Qual seja, os protagonistas da Bossa Nova e seus sucessores: Chico, Caetano, Edu, Gil, Milton e tantos outros músicos de formação universitária, similar à de seu público preferencial, revelados a partir dos festivais de música dos anos 1960.


O restante da música popular produzida no país é visto com desdém, mesmo que para o mercado e para o restante de população brasileira represente muito mais que a MPB, essa Academia Brasileira de Letras da música popular nacional.


Com o cinema é o mesmo nabo. Se o papo são os filmes nacionais, só têm assunto para Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues e demais diretores do Cinema Novo ou seus sucessores.


Um dos mais vigorosos movimentos do cinema nacional, muitíssimas vezes mais importante para a indústria cinematográfica (e para o público em geral) que o velho Cinema Novo, surgiu a partir da “Boca do Lixo” de São Paulo.

Mas como não era vinculado ao Cinema Novo, é visto com desdém pela classe média universitária (a mesma que forma a elite de esquerda e de direita da política nacional).

A filmografia proveniente "Boca do Lixo" foi a sustentação do cinema brasileiro por pelo menos três décadas. Sem ela, sequer o Cinema Novo teria tido tanto espaço.

Foi de lá que saiu o cinema brasileiro que realmente chegou às salas de exibição, porque era o único com o qual o público tinha afinidades.

Diferente do pomposo o Cinema Novo e seus congêneres, que foram bancados pelo Estado, mas tiveram mísera exibição, os filmes produzidos pela "Boca" tinham míseros orçamentos e tinham que dar retorno econômico às produtoras.


Embora esse chamado “cinema marginal” tenha sido o único que representou alguma joça quanto à venda de ingressos para exibição da produção cinematográfica nacional, suas obras não foram destacadas nas páginas do Estadão, Folha, O Globo, Veja, etc.

Ocorre que toda imprensa brasileira (de qualquer matiz ideológico) sempre esteve voltada para a pequena fração da população brasileira que a ela tem acesso. Qual seja, a dita classe média universitária.

Para a qual o que importa é a MPB, o Cinema Novo, o último livro do Chico, o último lançamento do José Saramago e obviedades do tipo.
Filme produzido e exibido em cinema da "Boca" nos anos 1970

O dito “cinema marginal” se desenvolveu em São Paulo principalmente dos anos 1960 a 1980, na região da Luz, e em particular nas ruas Vitória e do Triunfo, hoje uma das partes mais decadentes do centro paulistano, onde se encontra a Cracolândia e o maior comércio de produtos eletrônicos da cidade.


Diretores, atores e técnicos que lá atuavam não eram só paulistas. Havia gente de todas as partes do Brasil, e também de outros países.


Oswaldo Massaini, com sua Cinedistri, teria sido o primeiro a se instalar-se por lá, isso em 1949.

Nos anos 1960, a Cinedistri conseguiu um dos maiores feitos do cinema brasileiro: nossa única Palma de Ouro em Cannes, como filme O pagador de promessas, dirigido por Anselmo Duarte...


Depois que a Cinedistri de Massaini se mudou para lá no final dos anos 1940, outras produtoras e distribuidoras fizeram o mesmo. Os motivos: locações baratas e facilidades de logística.


Os principais meios de distribuição e recebimento de rolos de filmes na época ainda eram os ônibus e os trens. E as estações rodoviárias e ferroviárias de São Paulo estavam ali, na "Boca", a poucos quarteirões de onde as produtoras e distribuidoras estavam instaladas.


Por esse mesmo motivo, nas décadas de 1920 e 1930, distribuidoras norte-americanas vinculadas à Paramount, à Fox e à Metro já haviam funcionado na região.


Naqueles anos, era comum ver homens guiando carroças carregadas de latas de filmes pelas vias públicas da região.

Carroças com rolos de filmes

A produtoras e distribuidoras também atraíram para as redondezas as fábricas de equipamentos especializados, os serviços de manutenção técnica e outras empresas do ramo cinematográfico.

De modo que a "Boca" se transformou em um verdadeiro reduto do cinema independente brasileiro, desvinculado dos incentivos governamentais.

Com o tempo, o quadrilátero da rua Triunfo atraiu gente do Rio de Janeiro e de outros estados. Vários diretores, atores e técnicos cariocas mudaram-se de mala e cuia para fazer cinema em São Paulo.


Nos anos 1970, o cinema produzido na “Boca do Lixo” se transformou numa indústria comercialmente muito rentável e chegou a ser responsável por 80% dos títulos lançados no país.


Por lá era produzido todo tipo de filmes. Até a joça do “cinema de arte” tão associada ao Cinema Novo. Os filmes de forte apelo erótico representaram apenas uma pequena parcela do que saiu dos seus estúdios.


Na verdade a produção de filmes pornôs pela “Boca” se deu mais durante a decadência do polo cinematográfico, quando, no início dos anos 1980, houve o boom dos filmes de sexo explícito no vácuo do sucesso do franco-japonês O império dos sentidos, dirigido por Nagisa Oshima.


Mas nessa época as melhores produtoras da "Boca" já haviam fechado suas portas e se instalado em outros locais com estrutura mais profissional.


O polo de cinema da rua do Triunfo, enquanto durou, se resumia a um quarteirão de uns 250 metros, com quatro bares.
Dois deles eram frequentados pelos profissionais de cinema e dois pelos bandidos locais que davam proteção a eles. Graças a essa conivência, houve raros casos de furtos de equipamentos ou assaltos às produtoras.


O respeito entre a turma do cinema, os bandidos e as prostitutas era mútuo.



O marco final da "Boca do Lixo" foi a extinção da lei de obrigatoriedade do cinema nacional, que determinava que as salas de cinema exibissem uma quantidade mínima de filmes brasileiros.


No início dos anos 1990, essa lei foi extinta pelo então presidente Fernando Collor.





Desde os anos 1990, parte do quadrilátero da rua Triunfo veio a ser chamada de Cracolândia e se tornou uma da regiões mais degradadas da cidade de São Paulo.


Pichação local de usuário de crack

Voltemos à importância da "Boca" para o cinema brasileiro...

O polo da "Boca do Lixo", no seu auge, chegou a produzir, sem apoio da Embrafilme, de 120 a 130 filmes por ano.

A "Boca" legou ao cinema brasileiro vários diretores importantes.

Dentre eles: Rogério Sganzerla, Luís Sérgio Person, José Mojica Marins, Anselmo Duarte, Sílvio Back, Tony Vieira, Sílvio de Abreu, Osvaldo Candeias, Ody Fraga e até Carlos Coimbra e Walter Hugo Khouri.

Estes dois logo migraram para o cinema de elite e passaram a contar com verba da Embrafilme.


Mas quando as companhias da "Boca" conseguiam verba no Rio de Janeiro, onde ficava a sede da Embrafilme, eram obrigadas a depositar no Banco do Brasil parte de seus lucros.

Ou seja, a Embrafilme acabava aproveitando o sucesso do cinema oriundo da "Boca" para financiar os filmões “de autores” do Cinema Novo, que davam prejuízo sempre, por não despertar o menor interesse do público.


Os filmões do presumível “cinema de arte” ficavam mofando nas prateleiras das distribuidoras, até encontrarem um festival ou uma exibição especial.


No entanto, muitos cineastas da "Boca" como Carlos Reichenbach, Luiz Castelini, Luis Sérgio Person, Rogério Sganzerla, Alfredo Sternheim, Juan Bajon, Cláudio Cunha, Walter Hugo Khouri e outros tinham clara proposta autoral em seus filmes.

Mas sempre mantiveram identificação com as características das produções pé no chão da "Boca", com seus orçamentos limitados, atentas aos riscos do mercado.


Equipes enxutas e estrito controle de gastos eram regras na "Boca"

A "Boca" produziu a maioria dos filmes de pornochanchada dos anos 1970, nos quais estrelaram musas como Helena Ramos, Sandra Bréa, Vanessa Alves, Patrícia Scalvi, Nicole Puzzi e Zilda Mayo.



Todos os gêneros tinham espaço na "Boca", desde que fosse de baixo orçamento. Necas de usar recursos de produção para festas, compra de drogas e outros gastos adicionais que nada tivessem a ver com o resultado final pretendido.

Comédias, dramas, policiais, faroestes, filmes de ação e de kung fu, terror, entre outros, foram outros gêneros populares explorados pelo cinema da "Boca", mas sem deixar de lado o erotismo.


Produtores como Antônio Polo Galante, David Cardoso, Nelson Teixeira Mendes, Juan Bajon, Cláudio Cunha, Aníbal Massaini Neto, entre outros, ficaram milionários com esse tipo de cinema.


Alguns filmes tiveram muito sucesso de bilheteria, entre os quais A viúva virgem, de Pedro Carlos Rovai, e Giselle, de Victor di Mello.


Esses filmes sequer eram mencionados pela crítica.

A qual, como já escrevi, preferia os filmes mais voltados às questões sociais, de diretores surgidos no Cinema Novo ou similares, integrados à Embrafilme, que produzia filmes com incentivo estatal, chatos, pretensiosos, que acabavam mofando nas prateleiras.



Quem viveu a movimentação da indústria cinematográfica nacional na "Boca", no seu auge, diz que a efervescência cultural foi inesquecível.


Os profissionais da "Boca" foram até homenageados na cerimônia do Oscar, por causa da produção local de Beijo da mulher aranha, dirigido pelo imigrante argentino Hector Babenco. O longa rendeu a William Hurt o prêmio de melhor ator.


A "Boca" também formou grande parte da mão de obra especializada do cinema e da TV nacional, incluindo atores, parte da qual migrou mais tarde para os estúdios e novelas da TV Globo e de outras emissoras.



Entre as centenas de filmes saídos da "Boca do Lixo", apresento, a seguir, uma relação de dez para exemplificar a diversidade de produções geradas pelo polo cinematográfico:


O bandido da luz vermelha – Filme de 1968, dirigido por Rogério Sganzerla, que conta a história real de um bandido catarinense, interpretado por Paulo Vilaça, que atacava casas luxuosas em Santos, sempre usando uma lanterna vermelha e travando longas conversas com suas vítimas. A partir deste filme surgiu o chamado cinema “udigrudi” (referência a underground) que revelou também cineastas como Júlio Bressane, Neville d’Almeida e Ivan Cardoso. Veja um dos episódios do filme de Sganzerla no vídeo a seguir:


À meia-noite levarei tua alma – Este foi o primeiro grande sucesso do personagem Zé do Caixão, de José Mojica Marins, uma das mais emblemáticas figuras de nosso cinema. Para realizá-lo, Mojica vendeu até os móveis de sua casa. Apesar do imenso sucesso que o filme teve, não lhe rendeu quase nada, pois já havia vendido suas cotas a outro produtor. Mojica conta a história do sádico coveiro, temido e odiado numa cidadezinha, obcecado por gerar um filho perfeito, para lhe dar a continuidade de sangue. Para isso, estupra a mulher de um amigo, que promete se matar e voltar dos mortos para amaldiçoá-lo. Veja um vídeo do próprio Mojica sobre seu filme seminal.

Independência ou morte – Produção oficiosa dirigida por Carlos Coimbra, aproveitando os 150 anos da proclamação da independência. Conta a vida de Dom Pedro I – interpretado por Tarcísio Meira – da infância até a abdicação do trono, passando pelos problemas políticos, amorosos e, claro, pelo grito da independência. Foi um dos maiores sucessos de bilheteria da "Boca do Lixo. Mas era uma bosta de filme.


Mulher objeto – Filme dirigido por Silvio Abreu, o mesmo que hoje escreve telenovelas para a TV Globo, com grande sucesso. O filme teve mais de 2 milhões de espectadores. Helena Ramos interpreta uma mulher casada reprimida e submissa, que só encontra o prazer nos fetiches que não saem da sua cabeça e só se concretizam em seus sonhos. Veja o filme neste link.

Convite ao prazer – Filme de Walter Hugo Khouri. Um empresário milionário e casado dedica seu tempo a fazer sexo com várias mulheres. Quando encontra um amigo dentista, que não vê há anos, o convida para participar de orgias num apartamento que usa para este fim. Por conta disso, seus respectivos casamentos – com Sandra Bréa e Helena Ramos – acabam entrando em crise. Veja o filme neste link.

A noite das taras – Pornochanchada sobre histórias de marinheiros, contadas por três diretores (John Doo, David Cardoso e Ody Fraga), envolvendo, obviamente, muito sexo. Na primeira, o marinheiro conhece uma mulher misteriosa, para quem tem que entregar uma carta. Teve mais de 2 milhões de espectadores e até uma continuação. Veja o filme neste link.

A ilha dos prazeres proibidos – Uma assassina profissional, disfarçada de jornalista, é designada por uma organização de extrema direita para uma missão na Ilha dos Prazeres, para invadir e eliminar um grupo subversivo. Quando consegue acaba se envolvendo com os prazeres revolucionários. Dirigido por Carlos Reichenbach, que utiliza da pornochanchada para denunciar os abusos do poder. Veja o filme neste link.

O olho mágico do amor – Uma jovem secretária de 17 anos – interpretada por Carla Camurati novinha em flor – trabalha num escritório na "Boca do Lixo", quando descobre na parede um pequeno buraco que dá para um quarto de hotel, onde vive uma prostituta – interpretada por Tânia Alves – que recebe os mais diversos clientes ao longo do dia. Fascinada, a secretária muda seu cotidiano para espiar. Filme dos diretores José Antônio Garcia e Ícaro Martins. Veja, a seguir, programa do Canal Brasil sobre o filme:

 
A dama do Cine Shangai – Outro filme sobre a própria "Boca". É uma homenagem aos personagens locais. Dirigido por Guilherme Almeida Prado, trata-se de um filme de suspense sobre um corretor de imóveis – interpretado por Antônio Fagundes – que entra num cinema decadente do centro de São Paulo e conhece uma linda mulher – interpretada por Maitê Proença – que é idêntica à atriz do filme em cartaz. Atraído por ela, acaba se envolvendo num jogo complexo e perigoso. Veja o filme a seguir:


Coisas eróticas – Filme de sexo explícito em três episódios. Um na cidade, um na praia e outro no interior. Este filme, dirigido por Raffele Rossi e Laente Calicchio, teve um dos maiores públicos da história do cinema brasileiro. Veja, neste link, vídeo a respeito produzido posteriormente pela Isto é.

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