sábado, 20 de dezembro de 2014

Cultura selfie se desmancha no ar

Este blog foi disponibilizado em outubro de 2013 para oferecer uma oficina sobre produção literária, como contrapartida ao financiamento do romance O homem que sabia ouvir, cuja tiragem me foi entregue em dezembro do mesmo ano.

O projeto se encerrou. Centenas de exemplares do livro encalharam na sala de minha casa, sem qualquer perspectiva de distribuição.


Folder da época

Ficou este blog. Isso porque a diversidade de assuntos postados continua a despertar interesse de leitores cuja procedência desconheço.

Só continuo a produzir artigos porque sei que um número considerável de pessoas conferirá para saber do que tratam.

Dei exemplares do romance a vários conhecidos. Mesmo sabendo, de antemão, que poucos sequer iriam folheá-lo.

Uma das pessoas que o recebeu não me agradeceu e nem quis saber do que trata. O que mais importava para ela era uma dedicatória minha endereçada ao seu nome.

Ela me disse que também pretendia escrever um livro – afinal se eu tinha escrito um, claro que ela deveria fazer o dela – e me avisou que quando tivesse finalizado viria me procurar para que eu lhe “passasse os canais”.


É esse o contexto poluído da cultura selfie. Digo, cultura célere... que com um vago sopro se desmancha no ar.


As avalanches de citações de obras e artistas pelas redes sociais – no Facebook, em especial – não visam a qualquer qualificação. São meras apropriações cujo objetivo é dar destaque a quem as escolheu e as postou.

Cada qual procura mostrar que conhece mais coisas. Todos são doutos em tudo. E quase ninguém está interessado no que o outro tem a apresentar.


Vivemos sob essa supremacia do efêmero. As pessoas querem novidades e mais novidades, mesmo que a maior parte delas seja velhice requentada. O que importa é volume, quantidade.

O que o pensador marxista alemão Walter Benjamin  (1892-1940) previu em seu ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, vivenciamos com todas as letras nos dias atuais...

A obra de Benjamin tem duas versões. Uma de 1936 e a segunda publicada postumamente, em 1955, com adendos e atualizações feitas pelo autor no exílio.

Walter Benjamin
Benjamin antevê a influência avassaladora dos meios de reprodução em massa sobre a produção cultural como um todo.

Argumenta que, na ausência de qualquer valor ritual tradicional, a arte na era da reprodutibilidade técnica estaria estritamente associada ao aqui e agora.


Sem valor de culto, as obras de arte seriam drasticamente alteradas pelas tecnologias vigentes.
Com isso perderiam sua “aura”, ou seja, sua unicidade, singularidade e autenticidade.

Caminhamos, cada vez mais, para o que Andy Warhol (1928-1987) previu nos anos 1960: o público, em dado momento, deixaria de se interessar pelas obras e pelos artistas. Isso porque passaria, ele próprio (o público), a querer fama. A qualquer preço. Nem que fosse por alguns segundos.

Andy Warhol
O citado ensaio de Walter Benjamin provém dos textos críticos de Charles Baudelaire (1821-1867) sobre o advento da modernidade. Baudelaire foi um dos primeiros a pensar a respeito do que agora vivemos.

Nos anos 1950 e 1960, o canadense Marshall McLuhan (1911-1980) deu continuidade ao que fora esboçado por Benjamin e lançou obras capitais, dentre as quais destaco os excelentes livros A noiva mecânica (1951), A galáxia de Gutenberg (1962) e Os meios de comunicação como extensões do homem (1964).


Marshall McLuhan
McLuhan foi também um importante estudioso da obra do principal prosador moderno, o irlandês James Joyce (1882-1941).

O título deste artigo provém da obra de um sujeito cujas ideias se aproximaram das de McLuhan: o pensador marxista norte-americano Marshall Berman (1940-2013).


Marshall Berman
Sua obra mais conhecida – Tudo que é sólido se desmancha no ar – é uma frase pescada do panfleto Manifesto comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels.

Berman seguiu na trilha aberta por Baudelaire/Benjamin, depois aprofundada por McLuhan, e se tornou um importante estudioso da cultura contemporânea.


Sua obra é sobre o advento e decadência da modernidade. Por meio dela
lança pela primeira vez o conceito de pós-moderno.

O livro faz análises críticas de várias obras e das épocas em que foram produzidas. Começa pelos dois volumes do Fausto, de Wolfgang Goethe (1749-1832).


A primeira parte, o chamado Fausto I, foi concluída em 1806. Trata-se de um poema dramático alegórico, meio barroco e meio romântico, sobre um mito da Idade Média. Abarca múltiplos cenários e não se divide em atos, mas em cenas.


A ação começa no Céu, onde Mefistófeles faz uma aposta com Deus: diz que poderá conquistar a alma de Fausto, um sábio que tenta aprender tudo que possa ser conhecido.


Não vou descrever o que vem pela frente. Leiam!


O Fausto II, publicado postumamente em 1832, é completamente diferente.  A começar pela temática, que abrange aspectos políticos da época em que foi escrito (de 1826 até a morte do poeta, em 1832).


Lembro que Goethe, como o poeta italiano medieval Dante Alighieri (1265-1321), era um homem público, um político.


Voltemos a Berman...


Em Tudo que é sólido se desmancha no ar ele também analisa o Manifesto comunista, de Marx e Engels, e as motivações que levaram a dupla a publicá-lo pela primeira vez em 21 de fevereiro de 1848.

Na sequência, analisa a prosa crítica de Charles Baudelaire. Além de a obra poética do francês ter sido o ponto de partida para o surgimento do simbolismo, ele foi, como já disse, o primeiro intelectual a teorizar com propriedade sobre o surgimento da era moderna.


Charles Baudelaire
Sua obra teórica, que influenciou toda produção cultural da passagem do século XIX para o século XX, foi, como também já disse, profundamente estudada pelo marxista alemão Walter Benjamin.

Em outro capítulo do seu livro, Berman analisa a ficção do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881).


Fiódor Dostoiévski
A família de Dostoievski era muito parecida com a do brasileiro Nelson Rodrigues (1912-1980), por seus vínculos com a imprensa.

O pai e o irmão de Dostoiévski eram donos de jornais e revistas na Rússia. E altamente envolvidos com política.

O escritor conta que suas primeiras reportagens foram escritas quando sequer tinha um fiapo de barba ou de bigode. Ou seja, ele foi praticamente criado nas redações.


Berman destaca a obra de Dostoiévski como “ficção de ideias” e a compara com a do poeta e contista romântico norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849).


Edgar Allan Poe
Um dos principais estudiosos e tradutores da obra de Poe na França foi Charles Baudelaire. O outro foi Sthéphane Mallarmé. Em Portugal, Fernando Pessoa.

Fiódor e seu irmão eram de esquerda. O escritor russo foi preso político do regime czarista na Sibéria. E quase fuzilado – o pedido de clemência chegou pouco antes de sua execução.


Foi um dos muitos intelectuais russos que arriscaram a vida na luta contra o déspota regime monárquico, derrubado pela revolução bolchevique de 1917.


No entanto, a absurda enciclopédia estatal da era soviética, a mesma utilizada nas bibliotecas de todos os estabelecimentos de ensino do regime comunista, citava o grande escritor como “expressão da ideologia reacionária burguesa individualista”.

Segundo a enciclopédia, “seu mal era uma doença chamada consciência”. Por fim, condena toda a obra de Dostoiévski por “exercer influência negativa no romance moderno, legando um estilo caótico, desordenado e que apresenta uma realidade alucinada”.


Será que o idiota que escreveu isto a serviço da burocracia soviética leu uma linha, que seja, de tudo o que Dostoiévski produziu?


Berman conclui Tudo que é sólido se desmancha no ar abordando as obras dos vários artistas de vanguarda do século XX e as mudanças determinantes no período.


Bom, meus car@s, este artigo é para anunciar que o blog segue por mais um ano, mas com algumas reformulações. Quem não modifica se trumbica.


Enquanto tiver quem leia os artigos aqui postados, prosseguirei com a meta pretensiosa de contrariar o preponderante culto ao efêmero. Ou seja, não me presto a lançar ao ar o que se desmanche fácil.

Minha opção não é pelo quantitativo nem pelo que seja facilmente digerível.


Como dizia o poeta brasileiro Torquato Neto (1944-1972), estou no time daqueles que se dispõem a criar dificuldades pelo menos maiores.

Esse é o perfil (oculto) do articulista. Sem self, portanto.

Vejam, a seguir, os links para baixar algumas das obras aqui citadas:

Tudo que é sólido se desmancha no ar

A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica

Os meios de comunicação como extensões do homem

A galáxia de Gutenberg

Fausto

Manifesto comunista

Quanto ao meu livro, tenho exemplares disponíveis para quem quiser lê-lo. Mas veja bem: para lê-lo de fato e não para encher espaço de estante.

9 comentários:

  1. Grande Aderval , como acho que ja havia comentado com voce kind of privadamente, virei fam imediato de "Homem que Sabia Ouvir". Dificil encontrar, tive que pedir para a minha mana caetana para encomendar na Livraria da Vila, e dai mandar para a Gringolandia. Mas dificil nada, nao e'? A Livraria da Vila encontra, e o correio Brasileiro envia. Piece o cake. Docaracoles. Muito bom mesmo. Como voce deve saber so escrevo emails quando doidao, mas como estou doidao sempre, dai escrevo emails o tempo todo, ou quase todo o tempo. Por exemplo, quando estou dormindo nao escrevo. Me arrependo as vezes, mas so de vez em quando. Foda-se. O que tenho a perder ou a ganhar nesta altura do campeonato? Nao vou me arrepender deste. Espero que voce tambem nao se arrependa de ter me conhecido um dia (aquele cara que so fala merda e que pelo menos um dia chamei de amigo? - antes deste email). Durante a leitura me perdi algumas vezes e acabei confundindo aonde eu estava. Maracaribo ou Nonada? Alta qualidade. Nao sei como comparar escritores, portanto nem devo tentar, mas a verdade e' que "O Homem que Sabia Ouvir" me fez ler de novo, depois de muitos anos, "Cem Anos de Solidao". Tem alguma coisa no meio. Ambas obras superiores de literatua. Agora, vamos e venhamos, pelo que entendo voce tem menos de 150 emails neste blog. E' isso, mesmo? Se for, dai faltam pelo menos 3 zeros no numero. Deveriam ser pelo menos 150000. 150 nao da. Como tambem acho que ja comentei privadamente com voce anteriormente, dada a qualidade dos artigos postados no teu blog, aqui na Gringolandia voce estaria rico, bem rico. Subdesenvolvimento e' foda. Tem que achar a audiencia appropriada. Amigos, conhecidos nao fazem verao. Muitos, quando tudo e' multiplicado e dividido, nao passam de cuzoes (vide me), tem que virar professional. Inicie uma start-up, se associe a pessoas que entendam de negocio. Cultura de alta qualidade e' negocio tambem, big busyness by the way. O circuito de palestras, conferencias pode tambem ajudar bastannte a promover um negocio nascente. Caia na estrada. Grande Abraco. Gui.

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  2. Nao, eu nao estou louco, pelo menos muito. Tudo que disse anteriormente, to the the best of my knowledge, holds true. Malucos sao voces que estao negligenciando uma obra literaria de primeira qualidade. Prestem atencao.

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  3. E agora, o que a gente faz? Tem um visionario (doido?) na linha.

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  4. Doido e' la puta que lo pario!!! Visionario e' melhor. Me desculpe pela ofensa anterior. Afinal a gente nnca sabe de aonde a gente vem.

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  5. Fiquem frios. Afinal estamos todos torcendo para tudo dar certo. Melhor receita: Drugs, sex, rock and roll, and algunas cosititas mas.

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  6. Salve, Gui. Concordo com tudo que você escreveu. Subdesenvolvimento é um cacete. Bota cacete nisso! Produzo blog e literatura qdo me dá tempo, em meio à briga pela sobrevivência lá nas seringueiras. É realmente um amadorismo dos mais besta me empenhar como a mula para produzir os artigos - alguns às vezes saem com erros tb por falta de tempo de corrigir lapsos bobos - e não ter uma consultoria à altura para a coisa ter projeção à altura. Idem pro livro. Pra vc ter ideia, tenho acessos no exterior (EUA, França e Alemanha, principalmente) quase equivalentes aos que tenho no Brasil. Fora vc nos EUA, os acessos daí vêm por sistemas de busca às figuras e assuntos postados. São ocasionais, porrtanto. Mas são muitos. Se tivesse melhor divulgação, esta joça teria um retorno considerável. Nem falo de grana. Retorno de leitura mesmo. Amigos daqui não leem o que escrevo nunca. Têm, sim, ciumeira infantil.
    Abraços

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  7. Grande Aderval, tem um dizer aqui, que numa traducao livre fica mais ou menos assim: Voce pode levar o cavalo sedento ate uma fonte de agua, mas voce nao pode obrigalo a bebe-la. Nao le quem nao quer ou nao consegue. Pau no cu deles/delas (para ser politicamente correto, deles/delas). De tudo, menos bola para a torcida. Detalhes sao irrelevantes. Erros/detalhes menos precisos sempre podem ser corrigidos posteriormente. O que importa e a qualidade e diversidade geral da informacao, a big picture. Grande, sempre grande, ambicioso. Corra risco sempre, e pau no cu da torcida. Grande bicho, continue metendo bala, meta mais. Abracos. Gui.

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  8. E ainda, como voce mesmo ja disse anteriormente "nenhum artista tem dominio sobre o futuro de sua obra".

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  9. Nessa discussão toda fiquei foi curioso para ler o livro, o Gui é de propaganda, pelo menos pra mim funcionou!

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