segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Lili Marleen, a canção que encantou os dois lados do front na 2ª Guerra

Uma das canções mais populares de todos os tempos foi a alemã Lili Marleen, com letra de Hans Leip (1893-1983) e melodia de Norbert Schultze (1911-2002).

Durante a 2ª Guerra Mundial a música foi ouvida por milhões de soldados dos dois lados do front nas gravações de suas duas principais intérpretes: Lale Andersen (1905-1972) e Marlene Dietrich (1901-1992).


Reza a lenda que batalhas foram interrompidas momentaneamente quando alguma rádio a sintonizava, para que os soldados dos dois lados pudessem ouvir.


Lale Andersen
Marlene Dietrich

A primeira gravação foi a de Lale Andersen, em 1939. Marlene gravou a canção em 1941. Mais tarde também a gravou em inglês, para atender aos insistentes pedidos de soldados norte-americanos e britânicos.

De início o ministro da propaganda do governo nazista, Joseph Goebbels, não gostou de
Lili Marleen e ordenou às rádios alemãs que não a retransmitissem mais.

Um dos senões que levara Goebbels a ser contra a gravação fora o fato de a primeira intérprete, Lale Andersen, ter vindo de ambientes considerados por ele como degenerados, num dos quais se envolvera com um músico judeu (Rolf Liebermann).

De fato Lale, antes de fazer sucesso como cantora, fora estrela de cabarés, assim como outra grande cantora alemã da época, Lotte Lenya (1898-1981), que também se envolveu com um músico judeu (Kurt Weill).

Por imposição de Goebbels, Lale não pôde aparecer em público por um longo período. Em desespero, ela chegou a tentar o suicídio.


Quando voltou a se apresentar, em 1941, as autoridades exigiram várias condições. Uma delas é que não poderia mais cantar Lili Marleen.


Mas foram tantas as cartas dos soldados alemães às rádios, pedindo que voltassem a tocar a canção, que Goebbels acabou por ceder.


Ele então ordenou que a canção fosse regravada pela cantora com uma versão militarista, o que foi feito em junho de 1942.

Sua popularidade cresceu ainda mais. Em pouco tempo tornou-se a música-tema do exército alemão. Nem por isso soldados norte-americanos, ingleses, russos e de outras nacionalidades deixaram de ouvi-la.


Nos últimos tempos da guerra, Lale Andersen também foi obrigada a aparecer em vários filmes de propaganda do regime nazista.

Quando a guerra estava quase no fim, também surgiu na Itália uma gravação de Lili Marleen por um coro de soldados, com a letra adaptada à propaganda pró-Mussolini.

Na URSS Lili Marleen também foi gravada por um coro de soldados, com a letra em russo, devidamente modificada para atender aos interesses da propaganda soviética.

Nos EUA foi produzido um desenho animado pró-Aliados tendo a música como fundo.

Depois da Guerra, Lale disse ter sido coagida a fazer propaganda para o regime, foi perdoada e prosseguiu carreira na Europa e nos EUA como cantora e compositora...


A letra original de Lili Marleen é singela e melancólica. Gira em torno das lembranças de um soldado no front que costumava se recordar dos encontros com a namorada sob um poste de luz em frente ao quartel e sonha reencontrá-la no mesmo local quando a guerra terminar.

Independente das ideologias pelas quais lutavam, os soldados eram uns coitados destroçados pela violência de que eram artífices. Por isso, todos (de qualquer nacionalidade) se emocionavam e derramavam lágrimas ao ouvir a canção.


A letra foi escrita, em 1915, durante a 1ª Guerra Mundial, e tinha outro nome Das lied eines jungen soldaten auf der Wacht (A canção de um soldado jovem em Watch).


Somente em 1938 Norbert Schultze a musicou e pôs o título definitivo de Lili Marleen.


A gravação da canção por Marlene Dietrich tinha, inicialmente, o objetivo de desmotivar os soldados alemães, já que a cantora passara para o lado do inimigo (as tropas aliadas).


Para diferenciar da gravação de Lale, Marlene registrou-a como Lili Marlene, remetendo o título da canção ao seu próprio nome. Durante décadas o público americano se referia à atriz, que fez sucesso em vários filmes de Hollywood, como “Lili Marlene”.


Todas as tentativas de usar a canção politicamente foram quase nulas. Como no caso da gravação de Lale Andersen, a de Marlene, por exemplo, fez grande sucesso, indiscriminadamente, nos dos dois lados do front.


Para os soldados o que prevalecia era o tom intimista/melancólico da letra e da melodia.


Segundo testemunhos dos que se encontravam no purgatório do front, a canção inspirava diferentes sensações: sensualidade e, ao mesmo tempo, tristeza, delicadeza, afetividade e esperança.


Depois da guerra, em 1961, Marlene voltou a interpretar a canção ao estrelar o filme Julgamento em Nuremberg, no qual encarnou a viúva de um general alemão condenado e executado.


A atriz também interpretou a canção em um musical encenado nos EUA na mesma época.


Vejam a seguir a letra, com a versão literal entre parênteses após cada verso. A seguir, vêm as duas principais gravações, a de Lale Andersen e a de Marlene Dietrich.

Lili Marleen

Vor der Kaserne (Diante do quartel)
Vor dem großen Tor
(Bem defronte do portão)
Stand eine Laterne
(Havia um poste com lanterna)
Und steht sie noch Davor
(Que deve continuar naquele mesmo lugar)
So woll'n wir uns da wieder seh'n
(Ali haveremos de nos encontrar um dia)
Bei der Laterne wollen wir steh'n
(Sob a luz daquela lanterna quero te ver outra vez)
Wie einst Lili Marleen
(Como antigamente, Lili Marleen)

Unsere beide Schatten
(As nossas duas sombras)
Sah'n wie einer aus (Pareciam uma só)
Daß wir so lieb uns hatten (Nós nos amávamos tanto)
Das sah man gleich daraus
(Qualquer um logo via isso)
Und alle Leute soll'n es seh'n
(Outras pessoas precisam conhecer aquele poste)
Wenn wir bei der Laterne steh'n
(Sob cuja lanterna ainda vamos nos encontrar)
Wie einst Lili Marleen
(Como antigamente, Lili Marleen)

Schon rief der Posten
(Logo chegou a sentinela)
Sie blasen Zapfenstreich (E nos flagrou naquele instante)
Das kann drei Tage kosten
(Disse que aquilo poderia me custar três dias)
Kam'rad, ich komm sogleich
(Camarada, disse eu, irei imediatamente)
Da sagten wir auf Wiedersehen
(Então dissemos um ao outro até breve)
Wie gerne wollt ich mit dir geh'n
(Ah, como gostaria de ter ido contigo)
Mit dir Lili Marleen
(Junto contigo, Lili Marleen)

Deine Schritte kennt sie
(Aquela luz conhece bem teus passos)
Deinen zieren Gang
(Assim como teu lindo caminhar)
Alle Abend brennt sie
(Toda as noites ela se acende)
Doch mich vergaß sie Lang
(Sem que eu esteja lá)
Und sollte mir ein Leids gescheh'n
(Penso agora com amargura)
Wer wird bei der Laterne stehen (Quem estará sob a lanterna)
Mit dir Lili Marleen?
(Junto contigo, Lili Marleen)

Aus dem stillen Räume
(Do quarto silencioso)
Aus der Erde Grund
(Como que surgido do chão)
Hebt mich wie im Träume
(Emerge-se do meu sonho)
Dein verliebter Mund
(Tua boca apaixonada)
Wenn sich die späten Nebel drehn
(E quando as nuvens tardias se moverem)
Werd' ich bei der Laterne steh'n
(Eu estarei junto à lanterna)
Wie einst Lili Marleen
(Como antigamente, Lili Marleen)


A primeira gravação com Lale Andersen:



A segunda com Marlene Dietrich:





Em 1981, o cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder lançou o filme Lili Marleen, sobre o sucesso da canção, tendo como pano de fundo o romance de Lale Andersen com o músico Rolf Liebermann.

No filme Lale chama-se Willi e Rolf chama-se Robert. Foram interpretados pela atriz polonesa Hanna Schygulla e pelo ator italiano Giancarlo Giannini.


Veja um trecho do filme no qual Lale (na pele e voz de Hanna Schygulla) canta a canção para a tropa alemã enquanto a guerra entra em seu auge:



Um comentário:

  1. Pois e', parar uma guerra, mesmo que por alguns minutos apenas, nao e' para qualquer um. O nosso Pele tambem parou uma nos 70. A guerra civil da Nigeria, quando as partes beligerantes pararam de se matar por 90 minutos para curtir um jogo de futebol no qual o Deus do futebol jogava. Enter as pernas do Pele e as pernas da Lale e da Marlene, bem, me desculpe Deus do Futebol.

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