segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Marxismo com tintura anarquista

Muito antes do Muro de Berlin ruir, em 1989, com todo o poder simbólico ou real que havia por trás dele, o marxismo – sustentação ideológica para os regimes do lado oriental do muro  teve quebras de dogma. Várias.

Por
conta delas muitos militantes e dirigentes comunistas caíram em desgraça. Foram expatriados ou meramente eliminados, a mando dos seus ex-companheiros.

O maior dos expurgos ocorreu na União da República Socialista Soviética (URSS) quando uma ação persecutória violenta movida pelo ditador Josef Stalin (1879-1953) contra seus opositores liquidou cerca de dois terços dos quadros do Partido Comunista, cerca de 5 mil oficiais do Exército Vermelho acima da patente de major e 13 dos seus 15 generais.

Uma limpa total, para não sobrar alma viva do contra.


Por fim, o próprio criador do Exército Vermelho e um dos principais líderes da revolução bolchevique de 1917, Leon Trotsky, foi assassinado no exílio, no México, em 21 de agosto de 1940.

Neste artigo, vou me limitar a duas quebras de dogma do marxismo. Como mencionado no título, ambas com tinturas anarquistas.


Paul Lafargue e Laura Marx
Antonio Gramsci
Mas não o anarquismo sectário da ação direta – que motivou atos terroristas porra-loucas muito parecidos aos dos radicais islâmicos atuais – e, sim, o da corrente libertária humanista, democrática e igualitária, à qual se alinhava o ativista russo Piotr Alexeyevich Kropotkin (1842-1921) e o brasileiro Maurício Tragtenberg (1929-1998).

A primeira quebra de dogma do marxismo a que me refiro neste artigo – a do médico e ativista político franco-cubano Paul Lafargue (1842-1911) – ocorreu bem nas barbas de Karl Marx (1818-1833).

Posto que Lafargue era casado com a segunda filha de Marx, Laura, e era também um dos principais colaboradores do sogro, tanto como pesquisador quanto agitador político.

A outra foi a de Antonio Gramsci (1871-1937), um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (PRI) e seu primeiro dirigente...



O importância de Paul Lafargue vai muito além de ter sido genro de Karl Marx.

Nasceu em Santiago de Cuba, uma das principais cidades da Ilha. Foi para a Europa muito jovem, onde adquiriu consistente formação.

Foi um dos mais importantes jornalistas de esquerda vinculados à II Internacional Comunista, dirigida por Karl Marx. Por muito tempo era o homem de confiança dos partidos comunistas francês e espanhol na entidade.

Ajudou nas pesquisas para a elaboração do principal volume de O Capital – o 1º – e, mais tarde, fez uma sinopse da obra capital do marxismo para edição popular, a pedido do próprio sogro.

Também traduziu textos de Marx e Engels para o francês e o espanhol. Sua intenção era verter a obra completa de ambos para os dois idiomas. Mas seu trabalho foi interrompido pelos motivos descritos adiante.

De própria lavra, Lafargue escreveu dezenas de ensaios sobre temas diversos relativos às relações entre o capital e o trabalho.

Mas o que mudou sua vida foi o despretensioso panfleto Direito à preguiça (em francês Le droit à la paresse), publicado no jornal socialista L'Égalité, em 1880, que trouxe série de dissabores para seu sogro, por tudo que representava, e, principalmente, para o próprio Lafargue.

O movimento comunista sempre procurou dignificar o trabalho. Lafargue questionava esse enobrecimento oportunista. Para ele, o trabalho era necessário para prover a humanidade, mas o que deveria vir à frente eram os benefícios obtidos a partir dele.

Em seu panfleto criticou os companheiros por ter um conceito mitificador do trabalho, não muito diferente do moralismo tacanho a respeito pregado pela burguesia e pelas religiões cristãs.


Entre outras coisas, acusou os comunistas seus contemporâneos de "santificar" o trabalho.

O problema é que suas críticas foram muito bem redigidas, porém em tom de ironia e deboche, tornando o panfleto bastante popular.

No texto, Lafargue acena para uma reaproximação com antigas correntes hedonistas gregas e latinas que influenciaram o anarquismo. Isso numa época em que o anarquismo era ferrenhamente combatido por seu sogro na Internacional Socialista.

Marx e os seguidores acabaram por expulsar os anarquistas da entidade. Chamava-os, pejorativamente, de “socialistas utópicos”.

Em referência às desfeitas do genro por meio do panfleto, Marx teria dito em pleno congresso da  Internacional: "Semeei dragões, mas colhi pulgas."

Marx afastou Lafarque da Internacional e proibiu que continuasse as traduções de suas obras. Ainda assim, por conta própria o cubano continuou na linha de frente do movimento socialista francês e espanhol.

Seu processo de marginalização se solidificou de vez quando ele e a esposa cometeram o suicídio em 1911.

Vladimir Lenin (1870-1924), o principal líder da revolução russa, estava exilado na Suíça quando recebeu a notícia do desfecho de Lafargue e sua esposa Laura Marx.


Vladimir Lenin
Comentou em tom de censura:
"Um socialista não pertence a si mesmo, mas ao partido. Precisa continuir útil à classe operária. Por exemplo, escrevendo nem que seja um artigo ou um apelo. Não tem direito a suicidar-se".
Depois de 1917, quando a Rússia e nações vizinhas já tinham sidos transformadas na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o próprio Lenin ordenou que a obra de Paul Lafargue fosse abolida do país.

Passados quase cem anos, o movimento comunista internacional decresceu, o próprio marxismo perdeu adeptos, mas certas proposições do amaldiçoado Lafargue, mesmo que seu nome não seja citado, encontram-se vivas nas obras de pensadores e correntes políticas contemporâneos.

A começar por um dos segmentos mais ativos da militância de esquerda atual, a ambientalista. O cubano foi um dos primeiros a defender o que ele chamava por “ecossocialismo”.

Em seu polêmico panfleto, Lafargue defendia o "ócio criador" – então tido como um privilégio da burguesia, que não precisava trabalhar.

Apontava a necessidade de que esse direito fosse também estendido à classe trabalhadora, para que tivesse tempo, como os burgueses, de aprimorar sua educação, produzir cultura, se dedicar às pesquisas e às novas descobertas.

Atividades essas que requeriam tempo, esforços e não podiam ser concebidas com vistas a resultados práticos. Ou seja, impensáveis no contexto convencional das atividades de trabalho, todas voltadas para resultados econômicos.

Mas Lafargue tinha uma fina veia satirista. Seu panfleto traz trechos jocosos, estritamente provocativos. Afirma, entre outras coisas, que o trabalho é um "dogma desastroso".

Imagine o que o sogro deve ter pensado sobre esta frase do panfleto: "Sejamos preguiçosos em todas as coisas, exceto em amar e beber."

O direito à preguiça, fora o fato de ser uma obra heterodoxa e irônica, com críticas àqueles que estimam o trabalho como uma virtude, incluindo os comunistas, foi uma obra com fortes reflexos sobre a produção de alguns pensadores que o sucederam, inclusive alguns que são nossos contemporâneas.

Dentre os quais: o francês Edgard Morin (nascido em 1921), o italiano Domenico De Masi (nascido em 1938), o canadense Marshall McLuhan (1911-1980) e o norte-americano Buckminster Fuller (1895-1983).


Edgard Morin
Di Masi entrevistado por Jô Soares
Marshall McLuhan
Lafargue, ainda quando trabalhava como pesquisador para o sogro, declarava suas afinidades com o pensamento de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), um dos políticos mais combatidos por Marx e seus seguidores dentro da Internacional Socialista.

Embora publicamente Marx e Proudhon se opusessem, nos bastidores os dois eram amigos e continuaram a trocar correspondências por décadas.

Só brigaram para valer quando Marx respondeu ao texto Sistemas de contradições econômicas ou Filosofia da miséria, de Proudhom, com outro provocativo intitulado A miséria da filosofia.

Lafargue, mesmo depois do racha com o sobro, manteve boas conexões com os socialistas espanhóis – até hoje é um intelectual de esquerda de referência no país – que, por sua vez, tiveram grande influência anarquista.

Até seus últimos dias, Lafargue escreveu ensaios para jornais socialistas da França, Espanha e Inglaterra. Todos sobre temas relativos à economia e ao trabalho.

Um desses artigos, sobre a evolução do capitalismo norte-americano, chegou às mãos do poeta e revolucionário cubano José Martí (1853-1895), que o publicou num dos jornais norte-americanos para os quais escrevia.

José Martí
Segundo os mais próximos, o suicídio de Paul Lafargue e Laura Marx não teve nada de fatalista. Haviam decidido que teriam esse fim quando ainda eram jovens.

Era um casal de revolucionários, sem reservas econômicas e, como tal, não pretendiam chegar à velhice inativos, passando a depender dos companheiros.

Esta foi a carta de despedida por ele deixada:

"Estando são de corpo e espírito, deixo a vida antes que a velhice imperdoável me arrebate, um após outro, os prazeres e as alegrias da existência, e que me despoje também das forças físicas e intelectuais; antes que paralise a minha energia, que quebre a minha vontade e que me converta numa carga para mim e para os demais. Há anos que prometi a mim mesmo não ultrapassar os setenta; por isso, escolho este momento para me despedir da vida, preparando para a execução da minha decisão uma injeção hipodérmica com ácido cianídrico. Morro com a alegria suprema de ter a certeza que, num futuro próximo, triunfará a causa pela qual lutei durante 45 anos. Viva o comunismo! Viva o socialismo internacional!".
Quando o fundador do Partido Comunista Italiano (PCI), Antonio Gramsci foi preso de 1926, já era um intelectual respeitado, inclusive nos círculos não marxistas.

Sua obra escrita é normalmente dividida cronologicamente em antes e depois da sua prisão pela ditadura fascista italiana.

No período pré-cárcere, Gramsci escreveu ensaios sobre literatura, teoria política e educação, publicados sobretudo em jornais operários e socialistas, alguns dos quais vinculados a correntes anarquistas.


No Brasil, uma parte desses textos foi publicada no livro Escritos políticos.

Do período passado no cárcere, há duas obras principais.

As Cartas do cárcere, contendo mensagens escritas a parentes ou amigos, que foram posteriormente reunidas para publicação, e os 32 Cadernos do cárcere, reunindo 2.848 páginas.

Esses cadernos trazem reflexões e anotações redigidas entre 8 de fevereiro de 1929 e agosto de 1935, quando seus problemas de saúde se agravaram.

Foram mais tarde publicados em seis volumes, ordenados por temas, com os seguintes títulos:

    Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce (publicado em 1948)
    Gli intellettuali e l'organizzazione della cultura (1949)
    Il risorgimento (1949)
    Note sul Machiavelli, sulla política e sullo Stato moderno (1949)
    Letteratura e vita nazionale (1950)
    Passato e presente (1951)

Desde suas primeiras obras, antes de ser preso, Gramsci defendia a autonomia dos intelectuais na sociedade. Diferente dos seus camaradas, apontava a necessidade de que os diversos segmentos sociais tivessem seus representantes intelectuais na sociedade.

Foi um dos primeiros políticos comunistas a preconizar a atuação dos seus partidos em um ambiente democrático. Negando, assim, o conceito marxista-leninista do partido único.

isso que na sua época soou como heresia para o movimento comunista, hoje é uma realidade comuníssima à maioria dos partidos de esquerda, que concorrem aos pleitos eleitorais com partidos de outras vertentes ideológicas.

A classe intelectual, segundo Gamsci, deve ser heterogênea, para refletir as diversas esferas que representa. Também difere das opiniões em voga entre os comunistas de que a função do intelectual é estar a serviço da classe trabalhadora e do partido que a representa.

Para ele, a função primordial dos intelectuais é inovar. Não só no âmbito das disputas políticas, mas na fomentação às novas tecnologias, à renovação da produção cultural e de ideias que influam na história e no desenvolvimento da sociedade como um todo.

Segundo Gramsci, é também função dos intelectuais romper com as tradições, abrindo espaço para as novas conquistas.

Nesse sentido, aponta a necessidade de que cada intelectual esteja ciente de que, em grande medida, seu papel é proporcionar as bases necessárias para promover mudanças subsequentes.

Ou seja, que seu trabalho não é um fim em si.

Para Gramsci cada ser humano é, em alguma medida, um intelectual – embora apenas em potencial. “Todos os homens são intelectuais. Mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais.”

Em suas cartas encontramos referências recorrentes à diversidade de suas leituras e escritos: história, filosofia, história das religiões, educação, filosofia, política, desenvolvimento tecnológico, literatura e artes em geral, linguística, psicologia, astronomia, etc.

Diferente do que se configurava no primeiro país sob regime comunista de sua época, a URSS, dizia que o conhecimento de um contexto histórico concreto só é possível a partir de teias de relações nas quais nada deva ser desprezado.

O contrário, segundo ele, resulta em "autoritarismo e doutrinação ideológica rançosa e estúpida". Saliento que escreveu isto muito antes de ocorrerem os expurgos contra opositores na URSS e nos países comunistas aliados.

Gramsci era leitor de vários autores anarquistas. Seu próprio pai fora anarquista.


Mas os conceitos relacionistas de sua obra vêm, sobretudo, dos ciclos históricos descritos na obra Scientia Nuova, do seu conterrâneo Giambattista Vico (1668-1774).

Lembremos que as complexas construções da prosa do escritor irlandês James Joyce (1882-1941) também se amparam nas ideias de Vico.

Capa da 1ª edição da obra de Vico
Finnegans wake, de Joyce, baseia-se Scientia Nuova
Gramsci pinçou conceitos do pensamento de Vico e os transformou em instrumental analítico-teórico. Por ser um homem que pensava em termos de relações, seu entendimento sobre a formação social era mais global que o dos demais marxistas seus contemporâneos.

No movimento comunista, sempre lutou contra a ortodoxia, o sectarismo, o autoritarismo e a fragmentação.

Dizia que o propósito do comunismo não era criar sociedades fechadas, como ocorria na URSS, mas “proporcionar liberdade a todos os homens".

Dizia mais: “O propósito da política é melhorar as condições para que o Estado promova o progresso social. Por isso, quanto menos a política interferir na dinâmica de uma nação e na da sociedade, melhor.”

E advertia: "Quando a política é o assunto preponderante de uma nação e do cotidiano das pessoas, é porque as coisas não vão bem."


Em 1926, as manobras de Stalin dentro do Partido Comunista da URSS levaram Gramsci a escrever uma carta ao Komintern, na qual deplorava os erros políticos da oposição de esquerda (dirigida por Lev Davidovitsch Bronstein e Zinoviev), mas apelava ao grupo dirigente para que não expulsasse os opositores.

Um dirigente do PCI recebeu a incumbência de entregar a carta diretamente a Josef Stalin (1879-1953). Mas ao abri-la durante a viagem e lê-la, o tal dirigente decidiu não entregá-la ao destinatário. Este fato deu início a um complicado conflito entre Gramsci e seu partido.

Esse mesmo dirigente, em discurso na sede do partido logo que Gramsci faleceu, em abril de 1937, ao falar sobre sua vida política, não fez qualquer menção à simpatia do homenageado pela alemã Rosa de Luxemburgo (1871-1919) e pelo líder soviético banido Leon Trotsky.


Rosa de Luxemburgo
Leon Trotsky
Muitas das ideias de Rosa de Luxemburgo e Gramsci são coincidentes. A militante alemã foi defensora intransigente da "democracia universal". Para ela o socialismo só seria viável se democrático.

E democracia, para Rosa de Luxemburgo, implicava em "saber ouvir sobretudo aqueles que pensam diferente de nós".

Qual o atual presidente do Uruguai, José Mujica, que talvez seja o único governante de esquerda latino-americana que conta com a simpatia de pessoas que não são de esquerda, Antonio Gramsci foi um dos raros pensadores de esquerda fartamente referenciados por intelectuais que não são de esquerda.

No Brasil, por exemplo, li referências a Gramsci
no bom livro de memórias Lanterna na popa, do mato-grossense Roberto Campos (1917-2001), que era um liberal.

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