segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Mortos sacramentados

Os cidadãos referenciados neste artigo são os das fotos abaixo: os poetas Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto e Torquato Neto, o cineasta Glauber Rocha e os índios kreen akraori.

Todos mortos. Uns mais, outros menos.

Manoel de Barros
João Cabral de Melo Neto
Torquato Neto
Glauber Rocha


Armas deixadas pelos kreen aos Villas-Boas

Comecemos pelo primeiro, morto mais recente. O mato-grossense Manoel de Barros (1916-2014) teve uma vida das mais longevas para um poeta: 96 anos.

Ninguém sobrevive de poesia. Nem Manoel, ora tão aclamado, declamado e citado.


Seus livros, como os da maioria dos bons poetas brasileiros, foram publicados com recursos próprios.

No final da longa jornada, já contemplado por dois Prêmios Jabuti e plenamente reconhecido, alguns foram republicados por editoras e podem ser adquiridos em livrarias.

Manoel foi pecuarista. Qual seja, criava bois para o abate. Seus admiradores vegans e de outras vertentes vegetarianas certamente não gostarão de saber disso.


Aliás, pecuarista dos mais eficientes. Seu pai era administrador de fazenda. Ao final da vida recebeu do latifundiário seu quinhão de terra, em reconhecimento aos serviços prestados.

Deste pedaço de terra do pai, Manoel herdou uma parte e quadruplicou o patrimônio, no Pantanal do Mato Grosso do Sul, deixando aos descendentes senhora herança.

Fazendeiro exemplar, cujo manejo do gado e das pastagens seguiu com rigor recomendações técnicas para manter mais ou menos intactas as condições de permanência da farta fauna terrestre e aquática da região.


Vinte e tantos livros e alguns bons poemas.


Claro que poesia não se produz às toneladas, como carne bovina. Um livro seria suficiente para reunir o que de melhor versou.

Mas essa é uma questão que não diz respeito só a ele.


Aplica-se também a Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e outros poetas igualmente aclamados, declamados e numerosas vezes citados. Todos produziram muito.

A poesia de Manoel associa-se mais aos modernistas de primeira hora que à chamada Geração de 45, à qual corresponde cronologicamente.


A Geração de 45 se insurgiu contra os avanços modernistas. Tida como retroativa, portanto. Manoel, não, seguiu modernista.


Se bem que da "retrógrada" Geração de 45 saiu o melhor poeta brasileiro do século XX: o pernambucano João Cabral de Mello Neto (1920-1999), superior aos três aqui citados (Drummond, Bandeira e o próprio recém-falecido).


Ainda assim Cabral também produziu muito. Menos que os três, mas muito. Um volume também seria suficiente para reunir sua melhor poesia.

Poesia é uma arte do rigor (ou pelo menos deveria ser). O mais conciso dos gêneros literários. Uma arte mais de recusas que de aceitação.


Não por acaso seu nome vem de poética (ποιητικός), segmento da estética que trata dos modos de produção artística em geral. Especificamente na literatura, poética é a parte que lida com as normas construtivas dos textos. Inclusive em versos. Mas não só.

Qual seja, poesia vem de técnica. O principal livro de Cabral chama-se, adequadamente, O engenheiro. Cabral foi, mesmo, um poeta altamente técnico, um "engenheiro". Bons poetas têm mais a ver com esses profissionais do que com homens afetados de bons sentimentos...


Poesia também não é uma arte com propósitos de agradar, embora poetas altamente admirados – como o chileno Pablo Neruda (1904-1973) – a tenham produzido para isso.

Os poetas também não costumam ser santos, embora o bom barroco espanhol Juan de La Cruz (1542-1591) tenha sido canonizado. Mas em vida pode crer que não foi santo. Nem Teresa de Ávila (1515-1582), que também foi cononizada.


Poetas lidam com a transgressão. Não raro extrapolam as medidas socialmente aceitáveis e são uns sujeitos até bastante inconvenientes. Na mitologia cristã, estariam mais para anjos caídos (como Lucífer) do que para porta-vozes divinos.

O poeta piauiense Torquato Neto (1944-1972) foi bastante coerente ao proclamar que um “anjo torto” soprara-lhe no ouvido a bela letra da canção Let's play that, musicada por Jards Macalé. Vejam a letra e a gravação no link.



Desconheço bons poetas que flertem com anjos centrados que flanem nas alturas como seres apolíneos e confiáveis.

Com bem disse o
paranaense Paulo Leminski (1944-1989), não convide um poeta para o seu piquenique. No mínimo ele derrubará o frango com farofa, deixará a garrafa de coca-cola aberta (vazando todo o gás) e ainda dirá coisas que desbaratarão de vez o clima festivo.

Paulo Leminski
Os poetas, esses filhos de umas putas de uma figa, têm vidas nada exemplares e são dados a perseguir os lados mais negros da realidade, que em nada correspondem àquilo que as pessoas de bem ostentam e querem para o bem-estar de rotina.

Mas não pensem que poetas têm vida fácil. Manoel de Barros é um raro exemplo de um safado da categoria que teve uma existência equilibrada, como boa reputação, situação econômica estável, etc.


Por isso e mais aquilo os poetas, qual Torquato Neto e Paulo Leminski, tiveram vidas curtas.


Também é pouco comum um poeta ter reconhecimento público em vida.


Normalmente após anos (em alguns casos séculos) algum bom samaritano o descobre, compreende que aquilo que produziram foi essencial, único, determinante para toda produção cultural e tira sua obra do limbo.

Assim ocorreu com as obras dos trovadores provençais e do nosso Sousândrade.


Evidente que bons poetas também têm suas obras perdidas para sempre por não terem o privilégio de contar com um bom samaritano desses.

Poetas são “antenas” da civilização (palavras de Ezra Pound, um dos principais ressuscitadores de poetas de todos os tempos).


Enfim, poetas são uns desgraçados fazem o que fazem, como anjos tortos, transgressores, avessos à coerção social, justamente para despertar o senso comum para percepções mais sofisticadas, fora das amarras dos conceitos dominantes que mantêm o imaginário dos mamíferos que andam sobre duas pernas sob preconceituosos cabrestos.

Mas a redescoberta de um poeta é perigosa para o próprio.


Os lança às garras dos admiradores, a maioria dos quais reféns dos tais cabrestos da boçalidade. Com exorbitante entusiasmo e pouca sustância, os admiradores se apropriam do poeta e lhe dão um perfil muitas vezes nada condizente com aquilo que foi e pretendeu.


De modo que sua redescoberta e consecutiva sacramentação muitas vezes representa um segundo e definitivo enterro, desta feita nas catacumbas da mediocridade.


Sinto isso com a avalanche de notícias recentes alusivas à morte do aqui citado Torquato Neto, em novembro de 1972.


Muitas alusões a detalhes tolos da vida do poeta, fotos e mais fotos, exagerados elogios, citações de suas frases mais óbvias, mas nada de essencial sobre o que pretendeu e fez.

Torquato seguiu as pegadas do seu antecessor Mário Faustino (1930-1962), também piauiense. Deixou não só versos, canções, filmes, mas ideias claras sobre aquilo que tentou realizar.


Mário Faustino
Pertenceu a dois grupos sofisticados.No primeiro, foi um dos articuladores do tropicalismo, junto com Caetano Veloso, Gilberto Gil, José Carlos Capinan e outros. O segundo grupo, ao qual esteve vinculado nos seus últimos anos de vida, reunia uma turma eclética da qual faziam parte Hélio Oiticica, Waly Salomão, Ivan Cardoso, Jards Macalé, Rogério Duarte e outros.

Todos artistas de ideias. Algumas divergentes entre os próprios, o que é natural. Ideias transgressoras, mas bastante superiores ao repertório qualquer coisa dos brasileiros que dizem "adorar" arte, cultura, culinária, artesanato, crochê, feng shui ou coisas do tipo.


A contribuição maior dos que querem ressuscitar Torquato seria vasculhar a fundo o que ele pensou e fez e lançar tudo isso ao público maria-vai-com-as-outras para que possa digeri-lo à altura do que tentou representar.


Um trabalho que, em parte, já foi feito por seu amigo Waly Salomão, também falecido, ao editar o livro Os últimos dias de paupéria, em 1984, com apoio de editoração da própria viúva de Torquato, Ana Maria Duarte.

Saiba mais sobre Torquato Neto ao acessar este link.

Os que têm feito mais pela memória do poeta são os também piauienses George Mendes e Durvalino Couto. Os dois publicaram há dois anos dois livros inéditos com poemas de Torquato: O fato e a coisa e Juvenílias.

Mendes também é o idealizador do site sobre o poeta.

Durvalino Couto e o compositor Edvaldo Nascimento vêm apresentado por várias capitais do Nordeste o show O poeta desfolha a bandeira, com canções dos dois e de Torquato Neto com seus vários parceiros (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Jards Macalé e outros).
Durvalino Couto no show O poeta desfolha a bandeira
Agora essa tentação de transformar Torquato no “maior poeta piauiense” e mitificá-lo até não poder mais não traz qualquer contribuição.

Nesse sentido, melhor sorte teve seu conterrâneo Mário Faustino, tão bom poeta quanto Torquato, mas que não passou por essa idolatria idiota e é devidamente reconhecido por aqueles que realmente sabem o que é poesia.


Se transformarem Torquato em nome de evento, de biblioteca, academia, rua, praça ou coisa que o valha, será sua morte definitiva. Sacramentada.


Glauber Rocha (1939-1981), o principal cineasta brasileiro, foi mitificado em vida.


Em seus últimos anos esteve cercado por admiradores, em meio aos quais o artista padecia de uma solidão abismal.

Os companheiros do Cinema Novo – que tinham repertório afinado ao seu, ou seja, eram aqueles que realmente tinham o que conversar com ele, de igual para igual – o evitavam, por não suportar suas instigações e críticas.


A esquerda nacional, que já caminhava para a miasma atual, também já não o via com bons olhos. Os estalinistas de plantão o consideravam "maluco". Sobrou-lhe o convívio das bestas que o idolatravam.

Em 1980, creio, retornei a Brasília para visitar amigos e resolver pendências que por lá deixara. Era semana do Natal.


Meu querido José Pereira, produtor cultural, me levou até o apartamento de alguém, onde um grupo de pessoas auxiliava Glauber a fazer a edição de Natal do suplemento cultural do jornal Correio Braziliense.


No tal apartamento encontramos um frenesi danado de pessoas e só Glauber trabalhando.

Descabelado, muito magro, com aparência de quem não dormia há dias. O ambiente estava pesado e pedi a Pereirinha para déssemos o fora dali o quanto antes.

No dia seguinte – pleno Natal – retornei de ônibus a São Paulo e comprei o jornal para ver no que aquilo resultara. Lá estava unicamente um texto de Glauber sobre Prometeu, com os deformações ortográficas (reproduzindo associações fonéticas) que utilizava na época.


O texto era um misto de poesia com manifesto, em torno do argumento mitológico do emissário dos deuses que teve o fígado devorado por abutres. Era, provavelmente, como o próprio Glauber estava se sentindo.

Durante a viagem escrevi um poema não sobre Glauber, mas sobre nosso amigo Quim, seu sobrinho, que era quem ajudava o cineasta a segurar as barras do processo autodestrutivo que o estava matando.

Hoje falam que o que matou Glauber foi a ditadura militar. Tudo balela. Esta já havia ruído. O que matou Glauber foi solidão. Muita solidão.

Para um homem afetivo e hiperativo como ele, não ter amigos e, sobretudo, não ter com quem discutir a avalanche de coisas passavam por sua cabeça, era morte certa.

Na mesma edição do jornal havia referências aos “índios gigantes” kreen akarore, então altamente ameaçados de extinção. Glauber encontrava-se em situação parecida com a daqueles índios.


Um ano depois o cineasta estava morto. Os kreen quase haviam desaparecido, vítimas do extermínio empreendido por pistoleiros, a mando dos madeireiros e criadores de gado do sul do Pará.


Graças aos irmãos Villas-Bôas (Claudio e Orlando) foram contatados e transferidos para o Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso. Sobreviveram, mas nem de longe preservaram a estirpe de povo guerreiro, digno, que tiveram no passado.

Em situação similar à dos kreen se encontram hoje os avás-canoeiros, que também foi no passado um povo guerreiro, habilidoso no manejo de suas canoas de casca de jatobá (daí o codinome) e bons agricultores.

Cultivavam diversas variedades de milho e mandioca, bem como plantavam pomares de frutas nativas em meio à mata.

Remanescentes dos avás-canoeiros

Os avás, para não serem definitivamente exterminados por pistoleiros, se dividiram em pequenos grupos que ainda vagam clandestinamente em meio às fazendas de Goiás, Pará e Tocantins.

Alguns vivem de pequenos furtos, o que dá mais motivo para serem caçados.

Esse foi o fim de dois dos grupos indígenas mais orgulhosos do Brasil.

Segue o referido poema que compus Quim (associo seu nome aos dos kreen) e seu então destroçado xamã Glauber Rocha.

Quim akraore

de todos que viveram sua dor
e a eloquência do pensamento
fui talvez o único que suportou
do ardor à lástima sem fingimento
astros inflados encheram-lhe o peito
em desprezo ao ser iridescente
porém o céu, ovário cósmico
foi pequeno ao universo de sua mente
viveu em toda parte e em parte alguma
se escondeu em disfarces
se rendesse ao metal doente
aí, sim, lhe louvaria certa gente
mas o anjo gauche da Contrarreforma
lançou ácido na cara de Lutero
foi profeta da patética Idade Mídia
domou películas sem sequência
e lançou-se dos abismos à vida
todos o mataram, todos choraram
todos louvaram sua demência
ah, não me apresentei: sou Quim
meu xamã de todo foi-se co’o corpo
magro estava como este dedo aqui
dobrava-se no fio da navalha
em cujo corte já se afiava
por querer ser o que foi, só e doente
morreu no embate justo contra a morte
viveu a morte motivado pelo presente
viveu todos os tempos num só tempo
ao aceno do cosmos preferiu o caos
ao modelo do Criador preferiu a dor
abriu-se aos caminhos de espinhos aqui
no cenário frio do imago mundi
subestimou o já feito por fazer
empreendeu na massa opaca do ser
expressões com violência e entusiasmo
assim se fez de modo pleno e farto
assim viveu com o eu exposto o Prometeu
não julguem-no com atributos ou dúvidas
um xamã não tem vícios nem virtudes
sua função é ser modelo de outras vidas
mesmo que as viva das partes aos pedaços
um xamã é mônada que transcende
um mundo de outros signos e existências
onde, talvez, nova moral se faça

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