segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Nau dos insensatos

No artigo Artes e manhas do diabo na literatura, postado em 8 de fevereiro de 2014, tratei do mito de Mefisto (ou Mefistófeles), associado à lenda alemã de Fausto, um alquimista da Idade Média que teria feito um pacto com o “coisa ruim”.

O enredo do mito reverberou por várias obras da literatura e inspirou o grande poema dramático Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1853).

Neste artigo, tratarei de outro mito medieval que também inspirou muitas obras (não só literárias): narrenschiff ou "nau dos insensatos", também conhecida como "navio fantasma".


Ambos os mitos – Mefisto e narrenschiff  – vêm da Alemanha.

Narrencshiff em ilustração de Gustave Doré (1832-1883)
A primeira obra com registro literário sobre narrenchiff foi criada por Sebastian Brant (1457-1521), um poeta da Alsácia que publicou, em 1494, o poema satírico Das narrenschiff. Mas a partir de uma lenda popular já existente em sua época.


Retrato de Sebastian Brant
Trata-se de um poema alegórico, pré-barroco, que narra o episódio de um navio lotado por idiotas pestilentos que ruma para o Paraíso dos Tolos, a Narragônia.

Brant expõe com delicioso deboche as fraquezas e vícios do seu tempo. Qual Dante Alighieri (1265-1321) com a Divina commedia, também insere nos episódios narrados vários personagens reais do seu tempo, em especial os seus desafetos.

A obra de Brant, como a lenda de narrencshiff, remete à pandemia da chamada “peste negra”, que dizimou cerca de um terço da população mundial no século XIV...


A respeito da doença, corriam histórias assombrosas.

Dizia-se, por exemplo, que havia navios fantasma à deriva, por ter perecido toda a tripulação. Falava-se ainda de mendigos que assaltavam cadáveres, roubando ouro e joias, e tornando-se riquíssimos... por um dia somente. E mil coisas mais.

Na Idade Média, atribuía-se o surgimento da peste a causas das mais diversas. Até os astrólogos tiveram suas hipóteses sobre a doença: surgira por influência maléfica de Júpiter, de Saturno e de Marte, porque esses planetas estavam próximos uns dos outros.

Hoje sabemos que a “peste negra” era a peste bubônica, doença dos ratos transmitida ao homem pela pulga. Embora não tenha desaparecido, já temos meios de controlá-la.

Antes de Brant, a “peste” já havia sido detalhadamente narrada por Giovanni Boccaccio (1313-1375) nos contos de sua excelente obra Decameron.


Retrato de Giovanni Boccaccio
A alegoria de narrenchiff foi muito utilizada na cultura ocidental, em diferentes épocas, não só na literatura, como também na pintura e no teatro.


Recentemente, o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez (1927-2014) criou para o público juvenil a série de histórias curtas denominada A última viagem do navio fantasma.

Um dos fundadores do romantismo na Inglaterra, o poeta Samuel Coleridge (1772-1834) produziu o longo poema Balada do velho marinheiro, também baseado no mito medieval.


Retrato de Samuel Coleridge
São muitas as referências. Até Hollywood entrou na dança com a série de filmes comerciais de humor Piratas do Caribe.

Em composições literárias e artísticas dos séculos XV e XVI, o motivo cultural da "nau dos insensatos" se constituía numa paródia da "arca de salvação" (como a Igreja Católica era simbolicamente identificada).

Michel Foucault (1826-1894), em sua obra Folie et déraison. Histoire de la folie à l'âge classique, via na "nau dos insensatos" um símbolo da consciência viva do pecado e do mal na mentalidade medieval.

Michel Foucault

No século XVII, a lenda na qual Sebastian Brant se inspirou foi sucedida por outra similar: a do fluyt ou "holandês voador".

Tratava-se de um navio fantasma amaldiçoado, obviamente de origem holandesa, que supostamente vagaria pelos mares até o fim dos tempos, sem nunca poder aportar.

Conforme reza esta lenda de origem flamenga, era um veleiro que navegava contra o vento (ou seja, uma miragem naval de má sorte). Se saudado por outra embarcação, sua tripulação tentava mandar mensagens para a terra, mas tais  missivas eram destinadas a pessoas mortas há muito tempo.

Em documentos da época são, inclusive, encontrados registros de um navio, supostamente real, que zarpara de Amsterdã, em 1680, e foi alcançado por uma tormenta no Cabo da Boa Esperança.

Como o capitão insistiu em dobrar o cabo, foi condenado a vagar para sempre pelos mares, atraindo outros navios e causando sua consecutiva destruição.

Há uma terceira lenda sobre "navio fantasma", esta do século XVII, igualmente documentada, sobre um navio também holandês, comandado por um capitão chamado Bernart Fokke, o qual teria insistido, a despeito dos protestos de sua tripulação, em atravessar o conhecido Estreito de Magalhães, na região do Cabo Horn, no ponto extremo sul do continente americano.

A região, desde sua primeira travessia, realizada pela navegador português Fernão de Magalhães, era famosa por seu clima instável e sua geleiras, os quais tornam a navegação no local extremamente perigosa.

Ainda assim, Fokke teria conduzido seu navio pelo estreito, com funestas consequências. Ele teria escapado mediante um pacto com o Diabo, em uma aposta de jogo de dados que o capitão venceu, utilizando dados viciados.

Desde então, o navio e seu capitão teriam sido amaldiçoados, condenados a navegar perpetuamente e causando naufrágios de outras embarcações que porventura o avistassem.

O navio teria sido visto pela última vez em 1632 no Triângulo das Bermudas. O capitão e os tripulantes, segundo os marujos que disseram ter testemunhado o encontro, tinham a aparência de peixes nos corpos de homens.

Vários relatos sobre o tal navio foram considerados miragens, embora haja uma grande variedade de detalhes descritos pelas muitas testemunhas que asseguram tê-lo visto.

Evidente que toda essa balela provém de uma mesma lenda. Tanto é que história similar ao do fluyt foi narrada pelo grande poeta português Luís de Camões (1524-1580) no episódio sobre o gigante Adamastor, de Os lusíadas, poema épico publicado quase um século antes, em 1556.

A lenda do "navio fantasma" serviu de inspiração também para o compositor alemão Richard Wagner criar a ópera de mesmo nome, em 1840, e para o escritor norte-americano Edgar Allan Poe, produzir seu romance The narrative of Arthur Gordon Pym (de 1838).


Richard Wagner
Edgar Allan Poe
As duas obras têm como pano de fundo a doença – “peste negra” – que deu origem ao mito no século XIV. Ainda sobre a "peste", Edgar Poe escreveu o conto de suspense A morte púrpura.


A doença é um elemento desorganizador por excelência.

Escrevendo sobre uma grave epidemia que abateu sobre Atenas por volta de 430 aC, o historiador grego Tucídides conta que, por conta da doença, modificaram-se todos os costumes em relação às sepulturas. Muitos simplesmente atiravam os corpos sem vida em uma pira que outro havia erguido e desapareciam.

Nos nossos tempos, temos a Aids (síndrome da imunodeficiência adquirida), identificada em 1981, e, mais recentemente, o ebola.

Evidente que outras “pestes” virão, talvez não tão lendárias quanto a medieval, que deu origem a narrencshiff, mas tão pavorosas e devastadoras quanto.

A despeito de todos os avanços tecnológicos na medicina e na biologia, vírus, fungos e bactérias continuarão representando séria ameaça para a saúde humana.

Surtos epidêmicos relacionados a eles representam um desafio constante para os médicos, para o poder público e para as pessoas de modo geral, das quais se exigem mudanças de comportamento, novos cuidados e medidas preventivas.

De modo que o assunto foi e continuará presente na produção cultural em geral.


O Triunfo da morte, de Pieter Bruegel
Pieter Bruegel (1525-1569), pintor holandês do século XVI, foi um dos artistas plásticos que melhor retrataram a "peste". Sobretudo no quadro O triunfo da morte.

Inspirado no mito medieval da “nau dos insensatos" ou navio fantasma, compus um conto em versos chamado Maleita. Não se passa no mar, mas em um rio amazônico. A doença, no caso, é a malária (utilizo aqui seu nome popular: maleita).

A embarcação tem dois tripulantes fantasmas: o próprio narrador e uma suposta moça por ele salva de um acidente aéreo.

Maleita

Relato de Roberto Ruiz, barqueiro morto pela malária no rio Madeira, em Rondônia. O corpo foi encontrado no próprio barco, de borco, nas proximidades da localidade de Caiama. Ruiz conta que presenciou a queda de um avião em meio à mata, da qual teria sobrevivido uma moça. Não há indícios de que o acidente relatado tenha de fato ocorrido. Pela narrativa, nota-se que sabia que estava delirando e desconfiava inclusive que a presença da moça, a quem supostamente teria salvo, pudesse ser apenas mais uma das visões provocadas pela febre. Descreve encontro com uma patrulha do Exército. Também não há evidência de que tal encontro tenha mesmo ocorrido. O comando militar regional nega a existência de algum barco naquela região e naquele período. De acordo com o relato – composto em versos – o objetivo de Ruiz era chegar a Trindad, na Bolívia, e de lá seguir aos Andes para encontrar Paititi, a cidade mítica dos Incas construída com ouro. Deixemos as demais considerações para o leitor, já que tudo que foi por ele relatado dificilmente poderá ser comprovado.

“O barco deslancha lento
Invento velas rumo ao vento
Meus olhos se focam nágua
Tu, crápula do Madeira
Quase me tomba em desondas
Rá! Pensas que por acaso
Estando um homem no rio
Possa o rio levar o homem?
Calma, lágrima gigante!
Cá estamos os dois a fio
Teme tu ao servil desastre
Tremo eu de temor febr’alto
Então quieta tuas ancas
Basta de... Ei! Que é aquilo?
Um meta raio cai na mata!
Que delírio vivo eu, rio?
Será efeito da maleita?!
Verterei o barco até lá
Quero ver a causa prima
Do roncorrombo aeronáutico
Barco ancoro, encaro a mata
Quilômetro me separa
Do objeto acidentado
Não serei trouxa de rasgar
O corpo no verde constrito
Como se verte a realidade
Qual a versão da ideia dada
Nestes versos inusitados
Me lanço ao local visado
Cena ulula óbvia à vista
Vejo brasas metálicas
Entre corpos em detritos
Mente minha, ouve o que ouço
Um chorolouco de horror!
Vem dali, vou ao que há
Vulto cinza em pé pasmada
Cai tropedesengonçada
Viva está, um pouco lesada
Olho mais ao redor e nada
Como escapou a danada?!
Num outro verso sem eira
Desço a sã desfalecida
Ao pouso do barco ancorado
De vida é que necessita
O organismo das potências
O instinto à lida habilita
Com os trunfos da força física
Fui um vagal da cidade
Mesbancário atarefado
Hoje velejo a Hileia
Me transdrogando em viagem
Cochas lábios nus dormentes
Ó sancta mia simplicitas!
Não sou só um cauto erário
Três dias e noites sem fim
Eu cá no barco à vela vento
Cala-te, pois, ignorância!
Por que motivo ela iria
Quedar do céu ao continente
Bem no ponto onde me encontro?
Privilégio é onipotência
Para os fortes minoritários
Eis o Madeira, audac’imenso
Me imerso nele co’as mágoas
Quero achar ao que não se acha
Esquecer o que está perdido
Jovens veneram e desprezam
Os benefícios da vida
Pagam por isso altos preços
Se opondo ao que é sabido
Não suporto a inclinação
À falsidade gane’fácil
Desnecessário julgar
À moral abnegada
É preciso que se intente
Ao que atenta à falha ativa
Avocatus dei sem nexo!
E à meia-viva dormente
Me vem um só pensamento:
Se lhe dou forma plausível
Contra tudo que é falsidade
Há despudor em mim por isso?
Que durma o insonso sono
No móvel leito dos sonhos
Deus me está refutado
Demônios nem vêm ao caso
Céu e inferno se emulam
Ante o grande Madeira
E já há dias acordada
Ela se dana e nada fala
Ingá, açaí, tucunarés
Trouxe do igarapé
Asso o peixe em brasa branda
Ela anda e nada fala
Rebole bamba ancadência!
Até o sexo há de deter nexo
Se for para não ter a mulher
Que o gozo em mim só se faça
Falta calor, o amor passa
Mas que o quê, o raios!
O que quero, pois, de fato
É sexo indevido, a caralho
Que venha a ser carnal
Com amor ou sem o tal
Ela come, anda e não fala
Perco o apetite e me calo
Assim vamos os dois em um
No mesmo barco furado
Fosse o barco a realidade
Estaríamos afundados
Profunda menção disfarce
Ódio e amor com mesma face
De que vingança sou cúmplice
Por ter salvado a beldade?
Que máscara há por trás
Desse rosto que me apraz?
Dissimula teus olhos belos
Ó punhal astuto, fera!
O certo é que bem no fundo
A máscara faz o espírito
Quando a farsa determina
O enredo da própria vida
Eis um motor-som em órbita
Ruindo farto em meio à mata
Fim ao sexo do insucesso!
Somos logo abordados
Pela patrulha do Exército
Irá s’embora, ó frouxa muda
Para destino ignorado?
Louco de raiva e vontade
Canto à beldade calada:
Ó gostosa merda fula
Já que não me quer, te anulo
Embora, vá, tu com eles
Seguirás de antão pra onde
Te levaria a aeronave
Vá, cocozinho de família!
Vá dar aos finos da puta
Quem sou eu para desejá-la?!
Destinada estás às picas
Não de um ex-servilizado
Mas dos brotaços de bom trato
Venha, barca-rota maligna
Leve consigo essa ingrata
Deveria tê-la deixado
Se consumindo na mata
Agora é tarde, está viva
Com vida será levada
Aponta a barca dos botas
Me pedem os docs, mesmices
Sou traficante de nada
Tenho no barco uma puta
Ei! Cadê ela, a vigarista?
O guarda inseto ri sem nexo
‘Que vagabundo trapalha
O barco só tem tu e mais nada’
Bestamebas vão a largo
E fico tonto ali de impacto
Pois só agora percebi
Tal delírio encantado
Será, enfim, que a belezoca
Me era estrabismo do cérebro?
Será a coca com conhac?
Pavão de zelosa cauda!
Cruel polido destino
Do imaculado desatino
Que fogueira branca aflita
Exulta a bela em revés
Será ela besta fera do delírio?
Cesse co’essa muda imagem!
Só beberei d’água pura
E inspirarei ar da mata
Sai pra lá, cinema antigo!
Uma voz: ‘Ao rio suas águas
Ao mato o ar e aqui, o fato
Não sou muda nem delírio
Vê meu corpo, apalpe ao vê-lo
Sou fantasma de não crer?’
Tateio de leve as curvas
Que bem me concernem à frente
Num só tempo macias e tenras
Certas mulheres provocam
Mel amargo dúcil fel
Secretos são seus laceres
Eros todo incandescente
Potente pavio vibrante
Intensas cores do incêndio
Veja o que diz o compêndio:
‘Foi de algum deus, Lilith
Eva diva do demônio
Sua boceta, catacumba
Do cemitério de amantes’
Eis que decerto sou bobo
Ou demasiado humano
Já que me encontro em riste
Lascivamente vibrante
‘Olhe esta pica, princesa
Nunca houve erro tão certo’
Se certo estou vou decerto
Entrar conciso na bela
Estando errado, só quero
Provar meus erros nos dela
Atraquem eixos, veículos!
Cessem vislumbres faróis!
Abafem ânsias buzinas!
As distâncias dobram à vista
Se a pessoa tem sua paixão
Não serei preso à minha terra
Não ao sentido da prisão!
Vou m’embora pra Trindad
Madeira-Mamoré, evoé!
Eu cá na burlinda toda
Tu lá, vela vindo a barco
Morrerei logo, quem sabe?
Parto, desde já, ao Paititi
Venha, cadela, se agache!
Co’os lábios me cerre o músculo
Cavalo macro que encolhe
Troa asna afanada da ilusão!
Ruge pandora traição!
Doura enfim meu ser ao sol
Como a mundana noite
Que denigre a escuridão

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