segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Sob o som da viola caipira

Cresci ao som da prima-dona da cultura sertaneja (a viola caipira) em um sítio do noroeste paulista, quase na barranca do rio Grande, na divisa com o Triângulo Mineiro, a cerca de 600 quilômetros da capital São Paulo.

Fiquei por lá até os 10 anos. Depois fui me urbanizando, me tornando caipira da cidade. Mas isso aos poucos. E nunca totalmente.

Hoje fico parte do meu tempo no campo, onde cultivo seringueiras e plantas de várias espécies, outra na cidade, onde cultivo literatura, também de variadas espécies.


Na minha infância (anos 1960) só via televisão nas visitas a parentes que moravam em cidades maiores, onde o sinal das poucas emissoras existentes era próximo do razoável.

Ainda assim não me entusiasmava muito pelo veiculo.

Meu meio de comunicação predileto continuou sendo o rádio, por muito tempo, mesmo quando passei a residir na cidade.

Por meio dele ouvi muita música popular de todos os gêneros, jogos de futebol, radionovelas, programas de humor e o noticiário de rotina.


Quando residi em São José do Rio Preto, a maior cidade da região, havia um único televisor na casa. Sempre sintonizado nas detestáveis telenovelas e programas de auditório.

Saía de casa para não ouvir aquilo. Até hoje detesto macarrão com frango. Pois era o que minha tia servia aos domingos, enquanto o desgraçado do Sílvio Santos pipocava seu falatório pelo televisor da sala, com o volume no máximo. Dava uma indigestão das brabas.


De modo que continuei ouvinte de rádio. Até que entraram em minha vida o jornalismo escrito, os livros, o cinema e, com eles, a literatura, a política e uma diversidade cultural maior do que o rádio me proporcionara até então.

Mas ainda tenho apego especial por esse meio de comunicação. Especialmente porque continua sendo o principal divulgador de um gênero de canção popular que sempre ouvi com prazer e admiração: a "moda de viola".

Neste artigo, darei algumas pinceladas sobre o instrumento no qual se ampara essa antiquíssima tradição do cancioneiro popular e uns leves toques sobre artistas de diferentes épocas que nela se inseriram.

Calcula-se que a "moda de viola" exista no país há mais de três séculos. É muito anterior ao samba.


A chamada “música sertaneja”, contexto no local se situa a "moda de viola", propaga muita porcaria. Mas continua formando as chamadas duplas “de raiz”, ou seja, aquelas que fundamentam seu trabalho nessa rica tradição.


Não vou relacionar aqui todos os grandes instrumentistas, intérpretes e compositores que utilizaram e utilizam a viola caipira e fazem "moda de viola".

Isso porque o universo de referências é gigantesco, talvez o mais rico, diversificado e numeroso da música popular brasileira.

É também muito descentralizado. Há ótimas duplas em grandes, pequenas e médias cidades de quase todo o Brasil.


Me limitarei a alguns exemplos antigos e recentes dos estados do Sudeste e do Centro-Oeste, que sustentam os pilares da tradição da boa "moda de viola". Se bem que hoje em dia existam bons compositores e intérpretes de "moda de vila" até nos estados nordestinos e em grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.

Por falar no Nordeste, vou ter de deixar de fora uma outra grande tradição de música rural amparada na viola caipira, a da música repentista. Esta é, igualmente, muita rica e fica para uma próxima oportunidade.

Estes são alguns dos cabras que tratarei neste artigo:

Cornélio Pires, o maior divulgador da cultura caipira


Viola caipira, a estrela da "moda de viola" e da música repentista
Dois grandes compositores de "moda de viola"

A soberba violonista Helena Meirelles
O virtuose Renato Andrade


Mas entram na lambança abaixo vários outros nomes além destes...


"Moda de viola" não é o mesmo que “música sertaneja”, um gênero difuso que hoje reúne a maior movimentação de grana e de porcarias da música popular brasileira.


O que gosto mesmo é das duplas – sem grupos musicais de apoio – com repertório criterioso, responsáveis não só por duetos vocais de qualidade, mas também pelos acompanhamentos e solos da sofisticada viola caipira.


A viola caipira de 10 cordas procede dos mesmos instrumentos populares de corda da Idade Média que deram origem ao violão ou guitarra espanhola.


Esses instrumentos de corda populares apareceram na Europa por meio de duas vertentes.


A latina – os romanos já tinham instrumentos similares à rabeca e outros parecidos – e a moura, cuja ocupação da Espanha e de Portugal popularizou série de instrumentos de corda de origem persa e árabe.


Nossa atual viola caipira formou instrumentistas por todo o país. Mas o instrumento tem variações. A começar pelo número de cordas. Há, por exemplo, violas de doze e onze cordas.


Também varia muito conforme a caixa acústica – e a madeira utilizada para construí-la –. bem como o tamanho do braço do instrumento e disposição dos trastes, o tipo de metal usado nas cordas e, sobretudo, a afinação.


Existem diversos tipos de afinações.As mais conhecidas são quatro: a cebolão, a rio abaixo, a boiadeira e a natural.

A afinação denominada paraguaçu é a mais utilizada pelos repentistas nordestinos. Mas também é encontrada entre os violeiros da região do Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo.


Algumas afinações são específicas das duplas de cantadores, que as adaptam ao seu timbre de voz e, em alguns casos, às características próprias das modas que irão interpretar. Ou seja, para cada moda executada reafinam o instrumento.


A disposição das 10 cordas da viola caipira comum corresponde a cinco pares de cordas com tons similares.


Os dois pares mais agudos são afinados na mesma nota e altura, enquanto os demais pares são afinados na mesma nota, mas com diferença de alturas de uma oitava. Estes pares de cordas são tocados sempre juntos, como se fossem uma só corda.


Uma característica que destaca a viola dos demais instrumentos é que no característico ponteio do instrumento utiliza-se muito as cordas soltas, o que resulta em um som forte e sem distorções. Por isso sua afinação tem de ser precisa.


Violeiro que não tiver bom ouvido para afinação, é bom desistir do instrumento.

As notas ficam com timbre ainda mais forte pelo fato do instrumento exigir o uso de palheta, dedeira ou principalmente unhas compridas e fortes, já que todas as cordas são feitas de aço e algumas são muito finas e duras.


O instrumento é tocado há séculos, de norte a sul do país. Nos estados do Nordeste, associado aos diversos gêneros de música repentista, de improviso.


Nos estados do Paraná, Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e parte de Tocantins, em especial, a viola é a base da “moda de viola”, que passa de geração em geração e, qual o repente nordestino, mantém viva a tradição.


Como nos casos dos grandes instrumentistas dos primórdios do blues norte-americano, paira em torno da viola série de crendices acerca das habilidades dos grandes instrumentistas.


Acredita-se que para tocar bem a viola o músico tenha dom divino ou que tenha feito pacto com o diabo.


Há também a lenda nacional do sujeito que aprendeu a tocar daquele jeito porque enrolava uma cobra entre os dedos.

Essa mesma estória da cobra era contada pelo grande compositor de blues Robert Johnson (1911-1938), para explicar aos contemporâneos como desenvolvera sua primorosa técnica de violonista.

Robert Johnson

Em certas regiões brasileiras, por tradição as violas carregam pequenos chocalhos feitos de guizo de cascavel que, segundo a lenda, têm poder de proteção para o instrumento e o instrumentista.


Ainda há violeiros que sustentam que o poder do guizo evita que as cordas arrebentem.


Uma característica dos violeiros nordestinos são os duelos de tocadores. O violeiro se autoafirma o melhor de sua região. Daí o outro violeiro também se intitula o melhor da sua e mais um duelo tem início para comprovar quem pode mais.

Na verdade, trata-se apenas de uma artimanha de ambos para despertar a atenção do público. Ou seja, a “disputa” serve apenas para criar um clima de tensão, em meio ao qual cada músico exibe seu virtuosismo técnico no instrumento e no improviso dos versos.


A viola está integrada às várias manifestações da cultura popular interiorana do Sudeste e do Centro-Oeste.

Dentre elas o catira (dança na qual o sapateado tem função percussiva complementar ao som das violas), fandango, Folia de Reis, entre outras.


A "moda de viola" teve como primeiro grande estudioso e divulgador o jornalista e humorista paulista Cornélio Pires (1884-1958).

Jornalista e comediante Cornélio Pires

Pires Iniciou sua carreira viajando pelas cidades do interior do Estado de São Paulo e estados vizinhos como humorista caipira. Fez muito sucesso com seu espetáculo Teatro Ambulante de Cornélio Pires.

Tratava-se de um show muito atrativo, com grande variedade de números e de artistas, similar ao vaudeville canadense e norte-americano da passagem do século XIX para o início do século XX.

Do vaudeleville saíram Charles Chaplin, Buster Keaton, Irmãos Marx e outros grandes comediantes do cinema mudo. Leiam a respeito o artigo Buster Keaton, o comediante que nunca ria, postado na última edição deste blog


O espetáculo de Cornélio Pires reunia catireiros, cururueiros, duplas de cantadores do interior, ilusionistas, bailarinas, artistas circenses, atores e vários humoristas.


Cornélio Pires escreveu mais de 20 livros, nos quais procurou registrar o vocabulário, as músicas, os termos e as expressões usadas pelos caipiras.


No livro Conversas ao pé do fogo faz uma descrição detalhada dos diversos tipos de caipiras. No final, publica seu "Dicionário do caipira", que traz um glossário de termos desconhecidos pela cultura urbana.


Seu livro Sambas e cateretês traz inúmeras letras de composições populares, muitas das quais hoje teriam caído no esquecimento se não tivessem sido por ele registradas.


As pesquisas de Cornélio Pires começaram a ser reconhecida nos meios acadêmicos por intermédio do estudioso de literatura Antonio Candido, na época professor na Universidade de São Paulo (USP), que se referenciou em sua obra para escrever o livro Os parceiros do Rio Bonito.

Antonio Cândido

Esta importante obra de Cândido sobre a cultura caipira foi publicada pela primeira vez em 1964.


Graças ao empenho de Cornélio Pires, a indústria fonográfica brasileira lançou as primeiras "modas de viola" em discos, nos anos 1920, quase concomitantes às primeiras gravações de samba.


Mas a música com acompanhamento de viola seguramente já existia há mais de três séculos antes disso. Sua tradição – tanto no Nordeste quanto no Sudeste e Centro-Oeste do país – é muito mais longeva que a do samba.


Um dos seus primórdios foram o cururu e o cateretê (dança ritual indígena que deu origem ao catira), utilizadas pelos missionários jesuítas para conversão dos indígenas no século XVI.


Ambas já utilizavam instrumentos de corda que foram os ancestrais da atual viola caipira.



Zé Carreiro e Carreirinho


Zé Carreiro e Carreirinho não eram, como dupla, tão bons quanto Tonico e Tinoco. Mas os dois foram exímios compositores e violeiros.

Compunham separadamente. Juntos fizeram poucas canções. No entanto, cerca de 80% das modas que gravaram foram compostas por um dos dois.


Carreirinho compôs aquela que é, para mim, a mais linda e perfeita canção do gênero: Ferreirinha. Os dois a gravaram no primeiro disco da dupla, em 1947, junto com a canção Canoeiro, de Zé Carreiro.


As duas são crônicas, como a maioria das letras de Bob Dylan, um compositor que deu projeção à música caipira norte-americana e a aproximou de outros gêneros, como o blues e o rock. Vejam a respeito o artigo Dylan lalinho, o caipira que pirou o mundo.


Ferreirinha, de Carreirinho, conta o episódio de um peão que procurava seu amigo desaparecido depois de sair para tocar uma boiada baguá. O encontrou morto e fez um malabarismo danado para levá-lo para um enterro decente.


Vejam a letra completa e ouçam a gravação original da dupla, mas sem uma das estrofes, que foi introduzida depois.

Esta é a melhor gravação de Ferreirinha, feita pela mais perfeita dupla de cantores/instrumentistas da "moda de viola", Tonico e Tinoco:


A moda Canoeiro, de Zé Carreiro, conta um causo de pescaria de final de semana. A seguir, também com Tonico e Tinoco:



Zé Carreiro e Carreirinho já tinham carreiras separadas, com outros parceiros, quando decidiram cantar juntos. Houve até concurso nas emissoras de rádio nas quais trabalhavam para escolher o nome da nova dupla.


O sambista Adoniran Barbosa, que era colega de ambos, foi um dos que palpitaram acerca do nome que deveriam adotar: Minguinho e Mingote. Mas sua sugestão, claro, não foi acatada.


Zé Carreiro e Carreirinho gravaram 110 discos RPM e 4 LPs. Atuaram por doze anos na rádio Record com audiência absoluta. Zé Carreiro teve de se afastar da vida artística devido a um problema de surdez, mas continuou a compor para o parceiro.


Carreirinho continuou fazendo duplas de sucesso com outros parceiros, incluindo a cantora Iracema Soares Gama, com quem formou a dupla Carreirinho e Zica Carreirinho, que durou 16 anos.


Depoimento de Carreirinho sobre a técnica de violeiro e cantador de "moda de viola":

"Pra tocar moda de viola só os anos. Não tem método, nem escola, nem professor. Sempre me segurei na voz, mas só o tempo faz um bom cantador e um bom violeiro. Àqueles que pretendem começar, se tiver talento, cantar bem e tiver muita vontade, comecem. Mas só se for por paixão. Quem quiser começar pra fazer sucesso ou ganhar dinheiro vai dar furo n'água. Além disso, a coisa mais importante que tem que saber é escolher um bom repertório. Isso vale pra qualquer gênero de música popular. Meus shows com Zé Carreiro eram totalmente improvisados. Saíamos para fazer uma apresentação, mas nunca tínhamos uma previsão do que iríamos cantar. Sempre procuramos atender aos pedidos da plateia, que era quem ditava o roteiro das músicas apresentadas. Mas tínhamos tudo muito bem ensaiado e qualquer coisa que pedissem do nosso repertório, sabíamos interpretar.”


Adalto Ezequiel, o Carreirinho, faleceu em março de 2009 aos 87 anos.


Helena Meirelles


Sobre a mato-grossense Helena Meirelles, leiam neste blog meu artigo A dama do puteiro, postado 08/02/2014.

Renato Andrade

O mineiro Renato Andrade (1932 - 2005) foi foi um dos maiores mestres da viola caipira instrumental. Teve formação de conservatório, em Belo Horizonte (MG), no qual estudou violino.

Mais tarde apaixonou-se pelo som da viola caipira e dedicou-se completamente ao instrumento. Tornou-se um virtuoso. Mesclava o erudito ao popular. Foi o primeiro a introduzir o instrumento nas salas de concerto.

Ouçam, a seguir, Siriema no campo, de sua autoria.


Seu principal trabalho solo, A fantástica viola de Renato Andrade, foi lançado em 1977.

Safra mais recente



O carioca Teófilo Augusto de Barros Neto, mais conhecido como Théo de Barros, elevou a técnica da viola caipira à condição de instrumento de elite da música popular, incluindo a de suporte jazzístico.


Não propriamente com o instrumento, já que Théo toca violão de sete cordas. Entretanto, seus ponteios e arpejos, ao violão, vêm da viola caipira. Théo também toca viola caipira.



Théo formou juntamente com Heraldo do Monte, Airto Moreira e Hermeto Pascoal o grupo Quarteto Novo, que gravou um único LP em 1967.



Ouçam a seguir o excelente álbum do grupo:






O instrumentista notabilizou-se por parcerias com Geraldo Vandré, como Disparada (empatada com A banda, de Chico Buarque, em 1º lugar no II Festival de Música Popular Brasileira - 1966, da Rede Record, defendida por Jair Rodrigues) e pela canção Menino das laranjas, gravada por Elis Regina naquele mesmo ano.



É dele o som da viola na apresentação de Edu Lobo e Marília Medalha de Ponteio, que foi a vencedora do III Festival de Música Popular Brasileira em 1967.

A música do compositor e violeiro mato-grossense Almir Sater agrega influências das culturas fronteiriças do seu estado, como a música paraguaia e andina. Como o mineiro Renato Andrade, mescla traços populares e eruditos.

A seguir, Sater interpreta Tocando em frente (feita em parceria com Renato Teixeira):

O músico também aproximou o instrumento dos gêneros da música popular internacional – blues, rock e folk. Seu CD 7 sinais (de 2006) traz participações do grande sanfoneiro pernambucano Dominguinhos.

Uma das grandes contribuições para a preservação e propagação da viola caipira vem da cidade de Campinas (SP), por meio do instrumentista Paulo Freire e sua Orquestra Filarmônica de Violas.

A seguir, vídeo de apresentação da orquestra no Rio de Janeiro, em 2012:


Os instrumentos utilizados por Freire são a tradicional viola caipira de 10 cordas e a viola de cocho – um instrumento rústico encontrado apenas no Pantanal Mato-grossense.

O paulista Renato Teixeira aproximou a “moda de viola” da chamada MPB (denominação genérica para a música popular brasileira produzida em meio urbano).

Composições suas foram gravadas por Elis Regina (Romaria), Maria Bethânia (Tocando em frente, feita em parceria com Almir Sater), Gal Costa (Dadá Maria), entre outros intérpretes.

A seguir, o compositor interpreta sua canção Romaria:


Seu instrumento é o violão, mas como no caso de Théo de Barros, a técnica e timbres vêm da viola caipira.
 
Há centenas de duplas sertanejas, violeiros e compositores "de raiz", digo, de qualidade por todo o país. Isso significa que a tradição continua viva, latente.

Compositores urbanos, da chamada MPB, também entraram no terreno da "moda de viola". Vários deles.

Só para citar alguns dos que compuseram canções dentro da velha tradição: Noel Rosa, Ismael Silva, Ataulfo Alves, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Paulo Vanzolini... e, pasmem!, Antonio Carlos Jobim.

Confiram no link, a seguir, a canção Dinheiro em penca, nas vozes de Tom, Chico Buarque e Miúcha. A letra é de Cacaso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário