segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Vestiu uma camisa listrada e foi tomar formicida

Os notáveis compositores baianos Assis Valente (1911-1958) e Batatinha (1924-1997) representam com suas canções e letras características opostas ao que foram como pessoas.

Assis com seu acervo em diversos gêneros – marchinhas, choros, sambas e até canções de Natal e de Festas Juninas – personifica o lado alegre da música popular brasileira, de exaltação.


A marca do sorriso no tempo de sucesso (ao lado de Carmen)
A indisfarçável marca da amargura nos últimos anos

Batatinha o lado triste, melancólico, sofrido.

Mas enquanto Assis, apesar de sempre aparecer nas fotografias com seu largo sorriso, era um homem de altos e baixos, com vida bastante conturbada, Batatinha foi um plácido e tranquilo funcionário público e pai de família.


O primeiro se suicidou aos 47 anos, enquanto que o segundo chegou aos 73 anos, numa trajetória das mais tranquilas.


Tudo na vida de Assis Valente era um tanto dissimulado. Havia sempre a preocupação de afastar da sua produção artística a amargura pessoal. 


Somente sua popular Boas festas! – a única importante canção natalina genuinamente composta por um brasileiro – revela a faceta triste do compositor.


Pelo tom das respectivas letras, Boas festas! e Todo mundo vai ao circo, de Batatinha, se parecem.

Boas festas!

Anoiteceu, o sino gemeu
E a gente ficou feliz a rezar
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar


Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
E assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel


Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem
 


A seguir, Boas festas! em apresentação ao vivo do mestre João Gilberto.


Todo mundo vai ao circo

Todo mundo vai ao circo
Menos eu, menos eu
Como pagar ingresso,
Se eu não tenho nada?
Fico de fora
Escutando a gargalhada


A minha vida é um circo
Sou acrobata na raça
Só não posso é ser palhaço
Porque eu vivo sem graça


A seguir, Todo mundo vai ao circo, de Batatinha, com Maria Bethânia.



Assis Valente compôs cerca de 150 canções, a maioria nos anos 1930, quando, juntamente com Ary Barroso e Joubert de Carvalho, formou o trio dos compositores que sustentou o repertório da cantora Carmen Miranda...


No auge do sucesso, Assis era tão fértil como compositor quanto Noel Rosa. Dizem que houve períodos que chegou a compor uma música por dia.

São canções inesquecíveis, melodiosas, contagiantes: Tem francesa no morro, Camisa listrada, Brasil pandeiro, Disseram que voltei americanizada, Adivinhação, Recenseamento, Cai, cai balão, E o mundo não se acabou, Acorda São João, Minha embaixada, Alegria, Uva de caminhão, Fez bobagem, entre outras.


Com exceção de Boas festas! todas são festivas.

Só para se ter ideia, ouçam a seguir o samba-exaltação Brasil pandeiro na ótima interpretação dos Novos Baianos, do álbum Acabou chorare, de 1972. A trupe de Moraes Moreira a gravou por sugestão de João Gilberto. 


Brasil pandeiro é uma canção tão grandiosa como hino do nosso cancioneiro quanto Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Mas foi a razão da ruptura de Assis com Carmen, sua principal intérprete.


Quando a cantora, no auge do sucesso em Hollywood, voltou ao Brasil em 1940, Assis a aguardava com várias canções e duas obras-primas: os sambas Disseram que voltei americanizada e... Brasil pandeiro.


A primeira Carmen gravou e foi grande sucesso. A seguir, Disseram que voltei americanizada na voz de Caetano Veloso:  



Mas Carmen recusou Brasil pandeiro e disse, do seu jeito desbocado e impulsivo, que “não prestava”.


Óbvio que se enganara redondamente, inclusive do ponto de vista comercial, tanto que a música fez grande sucesso, logo na sequência, na voz de outros intérpretes.


Mas Assis, que era tão genial quanto orgulhoso, ficou ofendido e nunca mais compôs nada para ela. Ocorre que Carmen era sua principal garantia de viabilizar a intensa veia criativa.


Outros intérpretes gravavam suas canções, mas não com a mesma frequência e identidade de Carmen, que se casava perfeitamente com a sua.


A recusa também não teve o efeito esperado. A começar porque a cantora contava agora com um time amplo de compositores, inclusive norte-americanos, e outro baiano de grande capacidade criativa: Dorival Caymmi.


Consequência: Assis Valente caiu no esquecimento que, somado aos três problemas que o atormentavam – o fim do seu casamento, a homossexualidade não assumida e as dívidas – o levou à morte por envenenamento, em 1959, após a terceira tentativa de suicídio.


Os três problemas estavam relacionados. Seu casamento chegou ao fim porque não conseguiu esconder da esposa e da filha seu lado obscuro.


Além de direitos autorais com música, era dono de uma clínica de próteses dentárias, desenhava para jornais e revistas e escrevia peças para teatro de revista.


Ganhava o suficiente para ter uma vida cômoda. Mas por ser um homem de vida pública numa época muito conservadora, os rapazes com os quais se relacionava passaram a extorqui-lo constantemente, mediante chantagem.

No dia em que se matou, 6 de março de 1950, estava desesperado à cata de recursos para manter um deles de boca fechada.


Assis Valente foi no início da tarde ao escritório de direitos autorais, na esperança de conseguir adiantamento em dinheiro para amenizar as pressões. Mas só conseguiu uma oferta de calmante da secretária da entidade.


Depois que saiu de lá telefonou aos empregados da clínica, instruindo-os no caso de sua morte. Estes avisaram seus amigos, que não conseguiram encontrá-lo a tempo.


A essa altura, Assis já ingerira formicida misturada com guaraná em um banco de praça. No bolso da camisa encontraram um bilhete destinado à polícia e outro ao seu amigo Ary Barroso, para pedir que este pagasse dois meses de aluguel atrasados.


O bilhete para Barroso terminava com a despedida:


"Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo."
Uma despedida parecida com a deixada por outro compositor brasileiro, Torquato Neto, em seu suicídio ocorrido em 9 de novembro de 1972:

“Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar".
Thiago era seu filho, então com apenas dois anos.

Além de Carmen Miranda, a principal intérprete, e dos já citados Novos Baianos, as músicas de Assis Valente foram também gravadas por Francisco Alves, Orlando Silva, Altamiro Carrilho, Marlene, Carlos Galhardo, Anjos do Inferno, Quatro Ases e um Coringa, Nara Leão, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque, Aracy de Almeida, Elza Soares, Isaura Garcia, Clara Nunes e, entre tantos, Aracy Cortes, que registrou seu primeiro samba, Tem francesa no morro, em 1932, com grande sucesso.

Ouça a gravação de Tem francesa no morro com Aracy Cortes, no show Rosas de ouro, de 1965.


É uma de suas letras mais inventivas. Mescla perfeitamente rimas em francês com termos populares em português e com gírias das cocottes comuns naquela época no Rio de Janeiro.


Cocottes eram dançarinas populares de cabarés que se diziam francesas, mas muitas eram alemãs, polacas, russas ou de outras nacionalidades. Como eram um misto de dançarinas com prostitutas, usavam o francês para dar mais prestígio à “profissão”.

Tem francesa no morro

Donnez-moi s'il vous plaît l'honneur de danser avec moi
Danse Ioiô
Danse Iaiá


Si vous frequentez macumbe entrez na virada e fini pour sambá
Danse Ioiô
Danse Iaiá


Viens
Petite francesa
Dansez le classique
Em cime de mesa


Quand la danse commence on danse ici on danse aculá
Dance Ioiô
Dance Iaiá


Si vous ne veux pas danser, pardon mon chéri, adieu, je me vais
Danse Ioiô
Danse Iaiá
 


Assis foi o único compositor da primeira metade do século XX a expor a homossexualidade nas letras. Dizem que Ismael Silva era também gay, mas o próprio nunca assumiu e nem deixou que transparecesse em suas canções.

Embora de forma dissimulada, Assis expôs seu outro lado em Camisa listrada, E o mundo não se acabou, Alegria, Eu dei, Fruta de caminhão e Fez bobagem.


Camisa listrada e E o mundo não se acabou são explícitas.


Camisa listrada trata de um sujeito que toma todas e solta a franga durante o Carnaval.

Camisa listrada

Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí
Em vez de tomar chá com torrada ele tomou parati
Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão
E sorria quando o povo dizia: sossega leão, sossega leão

Tirou seu anel de doutor pra não dar o que falar
Saiu dizendo eu quero mamar,
Mamãe eu quero mamar, mamãe eu quero mamar
Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão
E sorria quando o povo dizia: sossega leão, sossega leão

Levou meu saco de água quente pra fazer chupeta
Tirou minha cortina de veludo pra fazer uma saia
Abriu meu guarda-roupa e arrancou minha combinação
E até do cabo de vassoura ele fez um estandarte para o seu cordão

Agora que a batucada já vai começando
Não quero e não consigo meu querido debochar de mim
Porque se ele pega as minhas coisas vai dar o que falar
Se fantasia de Antonieta e vai dançar no Bola Preta até o sol raiar


A seguir, na voz de Carmen Miranda.



E o mundo não se acabou é sobre um sujeito que também solta a franga mediante a possibilidade catastrófica de o mundo se acabar. O que acaba não ocorrendo, mas daí já é tarde para voltar atrás.

E o mundo não se acabou

Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso
Minha gente lá de casa
Começou a rezar
E até disseram que o sol
Ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite
Lá no morro
Não se fez batucada

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando
De aproveitar
Beijei a boca
De quem não devia
Peguei na mão
De quem não conhecia
Dancei um samba
Em traje de maiô
E o tal do mundo
Não se acabou

(Refrão)
Anunciaram e garantiram...

Chamei um gajo
Com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele mais de quinhentão
Agora eu soube
Que o gajo anda
Dizendo coisa
Que não se passou
E vai ter barulho
E vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou

(Refrão)
Anunciaram e garantiram...



A seguir, na voz de Ney Matogrosso.



Para os que conheciam mais intimamente Assis Valente, sua morte trágica não se constituiu exatamente em surpresa. Já tentara suicídio duas vezes.

Nos últimos tempos adotara um tom de lamentação e acusação contra tudo e todos, vivia angustiado e atormentado, sentindo-se injustiçado e abandonado pelos amigos.


Para quem, como ele, fora um menino pobre que alcançou fama e sucesso nas vozes dos mais destacados cantores e cantoras brasileiros, cair novamente na pobreza e no esquecimento era insuportável.


Sua história de vida foi tão dissimulada quanto sua sexualidade. Seria natural de Santo Amaro, a mesma pequena cidade histórica do Recôncavo Baiano de onde vieram Caetano Veloso e Maria Bethania.


Teria sido adotado por uma família baiana que, ao se mudar para o Rio, o abandonou pelas ruas da capital Salvador.


Conseguiu ocupação, ainda garoto, como lavador de frascos na farmácia de um hospital, com cujos ganhos se manteve e conseguiu estudar.


Aproveitando o intervalo de uma apresentação circense em Salvador, subiu no picadeiro e começou a declamar versos. Agradou tanto que foi agregado ao circo, nele atuando durante um ano por cidades do interior baiano como orador e comediante.


Esta foi sua primeira aventura no meio artístico.


Na volta à capital, empregou-se como ajudante de farmácia e voltou a estudar. Concluiu, simultaneamente, os cursos técnicos de desenho e de prótese dentária.


Em meados de 1927 viajou para o Rio de Janeiro em busca da realização de seu sonho de se tornar artista. Para se sustentar na cidade, trabalhava como protético e vendia desenhos para as revistas Shimmy e Fon-Fon.


Em meados de 1930, descobriu uma nova aptidão: compor músicas, influenciado pelo início do “boom” por que passava a música popular brasileira.


No Rio de Janeiro, surgiram na época os nomes de Noel Rosa, Braguinha, Lamartine Babo, Ary Barroso, Joubert de Carvalho, Brancura, Baiaco, Ismael Silva, Almirante, Orestes Barbosa, Cristóvão Alencar, Cartola, Custódio Mesquita, Nilton Bastos, Bide e muitos outros.


Seu potencial logo foi reconhecido pelo compositor Heitor dos Prazeres (1888-1966), que o apadrinhou.


Introduzido no meio artístico pelo sambista, em 1932 a então poderosa cantora Aracy Cortes gravou seu primeiro samba, Tem francesa no morro, com grande sucesso.


Como confirmação de que seu nome começava a despertar a atenção de cantores famosos, ainda em 1932 Moreira da Silva gravou duas músicas de sua autoria: a marcha Pra lá de boa e o samba Oi, Maria.


A partir de 1933 tornou-se um dos principais compositores de Carmen Miranda. Dentre os principais sucessos da “Pequena Notável”, pelo menos 25 foram compostos por Assis.


O autor da marcha Alegria (na qual há o sugestivo verso hedonista “salve o prazer, salve o prazer!”) foi também o compositor de Tristeza (com Zequinha Reis).


Escreveu a maior parte de suas canções sozinho. Mas sobraram brechas para parceiros como Luiz Gonzaga (Pão duro), Ataulfo Alves (Batuca no chão) e Lamartine Babo (Bis).


A partir dos anos 1960 sua obra foi redescoberta. Nara Leão regravou Fez bobagem, Bethania reviveu Camisa listrada. As duas juntas, mais Chico Buarque, cantaram Minha embaixada chegou, no filme Quando o Carnaval chegar (1973), de Cacá Diegues.


Brasil Pandeiro virou um hino contemporâneo de afirmação da brasilidade por meio dos Novos Baianos (1972).


Maria Alcina reviveu Maria boa. Recentemente, Adriana Calcanhoto redescobriu E o mundo não se acabou.


Juntamente com a carreira de compositor e a clínica de prótese, na qual tinha como empregados outros protéticos, manteve durante a maior parte da vida suas atividades de desenhista ilustrador de várias revistas e jornais.


Também foi autor de peças para o teatro de revista, como Rei momo na guerra, de 1943, em parceria com Freire Júnior.


O desejo de “Boas festas!” de sua conhecida música de Natal, se comparado à letra, soa como ironia. A canção é, evidentemente, de crítica ao consumismo.


Afinal todo mundo pode ser filho de Cristo, a fantasiosa razão do Natal, mas o que interessa de verdade na tal data é o Papai Noel e seu saco de presentes.


Quem não pode recebê-lo, e no Brasil são muitos, aprende cedo que o "bom velhinho" só existe para alguns.


Mas nos vários corais que a cantam hoje em dia poucos prestam atenção nesse conteúdo.


Assim como poucos que ouvem Todo mundo vai ao circo, de Batatinha, notam o lado lado amargo da letra.

Com a mordacidade comum tanto a Assis Valente quanto ao também suicida Torquato Neto, lembrado em todo o país na data do seu falecimento (e aniversário), 9 de novembro, encerro este artigo da derradeira edição de 2014 com desbragados votos de...


Feliz Natal para todos!

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