quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Filhos de Rousseau




O iluminismo, movimento cultural que representou a elite intelectual europeia do século XVIII – sobretudo francesa – procurou mobilizar o poder da razão, a fim de reformar a sociedade e o conhecimento herdado da tradição medieval.


Abarcou inúmeras tendências. Entre elas a que buscava um conhecimento apurado da natureza, com o objetivo de torná-la útil ao homem moderno.


Embora o centro tenha sido a França, o movimento foi despertado por um holandês – Baruch Spinoza (1632-1677) – e três ingleses – John Locke (1632-1704), Pierre Bayle (1647-1706) e o matemático e físico Isaac Newton (1643-1727).

Retrato de Rousseau

Na França, o iluminismo culminou com a publicação dos fascículos da Encyclopédie (de
1751 a 1772), editada por Denis Diderot (1713-1784) e Jean Le Rond d'Alembert (1717-1783), com contribuições de centenas de intelectuais, dentre eles Voltaire (1694 -1778), Montesquieu (1689-1755) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).

O movimento foi dominante até o final do século XVIII, dando lugar ao romantismo, cuja influência persiste até nossos dias.




Diferente de Diderot, d'Alembert e Voltaire, Rousseau não era da nobreza ou apadrinhado por ela. Provinha de uma família pequeno burguesa da Suíça (nasceu em Genebra).


Mas entre os filósofos e escritores iluministas foi aquele cuja influência mais se alastrou. Para o bem e para o mal...



Para início de conversa, quase todas as constituições modernas, inclusive a brasileira, inspiraram-se em sua obra Do contrato social, publicada pela primeira vez em 1762.

Dois dos princípios elementares da Revolução Francesa – liberdade e igualdade – vêm dela, se propagando por quase todo pensamento jurídico ocidental.


Rousseau considerava a liberdade um direito e um dever ao mesmo tempo.


Um dos sintomas das falhas da civilização em atingir o bem comum, segundo ele, era a desigualdade, que podia ser de dois tipos: a que se devia às características individuais de cada ser humano e aquela causada por circunstâncias sociais.

O conceito tão em evidência em nossos dias da “democracia participativa”, qual seja, um governo movido pela vontade geral, é roussauniano da gema

Mas a influência do suíço foi muito além da política e do pensamento jurídico.


O idealismo romântico, movimento que veio a ocupar o lugar do iluminismo, surgiu, como visão do mundo, com a publicação de uma obra de Rousseau: Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de 1775.



Rousseau foi o pioneiro da sensibilidade romântica revolucionária. Não só para os franceses.


Sua obra encontrou eco, sobretudo, entre os alemães Friedrich Schiller (1757-1805), Friedrich Schlegel (1772-1829), Friedrich Hegel (1770-1831), Friedrich Hölderlin (1770-1843) e Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), os ingleses Percy Bysshe Shelley (1782-1822), William Blake (1757-1827), Samuel Taylor Coleridge (1772-1834) e, mais tarde, Charles Dickens (1812-1870).


Retrato de Hegel
Na América Ibérica, entre os muitos idealistas românticos influenciados pelo iluminista de origem suíça estavam o poeta brasileiro Castro Alves (1847-1871), o poeta argentino José Hernández (1834-1836) e o poeta e revolucionário cubano José Martí (1853-1895).


José Martí

Mas os primeiros a serem influenciados por Rousseau e os ideais do iluminismo no Brasil foram os poetas inconfidentes radicados em Minas Gerias.

Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), Tomás Antonio Gonzaga (1744-1810), Silva Alvarenga (1749-1814) e Alvarenga Peixoto (1744-1792), sobretudo.
 

Referência rousseauniana na bandeira de Minas
O emocionalismo, em Rousseau, assume também o caráter de rebelião, associado aos protestos contra a desigualdade social e ao culto à natureza – com ênfase no ideal do “homem natural”.


Esse seu primitivismo traz a herança do ideal arcádico, que proliferou durante um período de exaustão da cultura grega clássica.


Para Rousseau, o homem culto era um homem degenerado e toda história da civilização era uma traição ao destino original da humanidade. O progresso, portanto, representava uma farsa.

A Rousseau está diretamente vinculada a tendência do romantismo que se põe contra a mecanização e a racionalização, em defesa dos valores sociais e morais do naturalismo.


Paradoxalmente, essa aparente proposta de regresso ao passado está voltada para um futuro comunitário utópico, que ao longo dos séculos alimentou as várias correntes socialistas, entre elas o anarquismo e o marxismo.

As enxurradas de lágrimas provocadas por romances, poemas, peças teatrais e composições musicais inspiradas na obra de Rousseau, representam radical mudança no padrão de gosto e radical deslocamento dos valores estéticos até então dominantes nas artes.


Abrem caminho, inclusive, para políticas culturais populistas (que priorizam os valores populares) e também para os apelos da cultura de massas dos nossos dias, dos dramalhões da TV Globo a quaisquer filmes de entretenimento de Hollywood.


Essa predominância do emocional, logicamente, vinha muito antes de Rousseau, desde a Idade Média. Mas foi ele quem a sintonizou e deu forma, para que fosse copiada, século após século, até os nossos dias.


Com Rousseau começa também o culto ao irracionalismo, tão em evidência em movimentos de vanguarda modernos como o surrealismo.



Rousseau comprou briga com seus colegas enciclopedistas, sobretudo Diderot e Voltaire, ao acusá-los de defender um formalismo mecânico que, segundo ele, se opunha à ideia do espontâneo, do simples, orgânico – em outras palavras, no que seus herdeiros de esquerda modernos denominam “cultura popular”.


Ele apontava nos enciclopedistas o antagonismo entre espírito e forma. Em desprezo ao rigor da alta cultura, defendia a espontaneidade da tradição.

Voltaire passou a combatê-lo com suas características tiradas irônicas: “Ele pretende fazer com que a humanidade volte a andar de quatro”, afirmou.


Mas os ânimos se esquentaram e seus colegas passaram a acusá-lo de “charlatão”, “perigoso aventureiro”, “criminoso” e por aí afora. Mas quanto mais atacado, mais crescia o prestígio do oponente.


O naturalismo de Rousseau envolve a negação de tudo que seu colega Voltaire considerava essencial à civilização. Este, ao contrário, execrava o subjetivismo emocional na literatura.


Rousseu, com sua obra Os devaneios de um caminhante solitário,  pôs em evidência, pela primeira vez, uma literatura fundamentada na experiência, em tom de confissão, que influenciará toda produção de romances de folhetins, do período romântico ao atual.


De certa forma, todos os livre pensadores românticos, pré-modernos e modernos são herdeiros de Rousseau.


Só para citar algumas obras confessionais influenciadas por ele: Os sofrimentos do jovem Werther (Goethe), Pequenos poemas em prosa (Baudelaire), Temporada no inferno (Arthur Rimbaud), Em busca do tempo perdido (Marcel Proust), Confissões de um comedor de ópio (Thomas De Quincey) e os sete livros do mais importante memoralista brasileiro, Pedro Nava.


Modernos dados a descrever as experiências pessoais, como a franco-cubana Anaïs Nin, o norte-americano Henry Miller, o francês Louis-Ferdinand Céline, bem como toda chamada geração beat norte-americana, são também herdeiros da obra confessional de Rousseau.


A influência de Rousseau modificou a forma de sentir e pensar de milhões de pessoas, inclusive de artistas atuais, e continua a modificar.


Com ele todos os proscritos e desajustados encontraram seu lugar ao sol.


Como disse no início: para o bem e para o mal. Ele foi o primeiro a se designar como representante do povo e dos marginalizados. E o primeiro a instigar abertamente a rebelião por meio da produção literária.


Influência na educação


O princípio fundamental de toda obra de Rousseau é que o homem é bom por natureza, mas está submetido à influência corruptora da sociedade.


É o que explicita a canção Chico Brito, do grande sambista carioca Wilson Batista:


Chico Brito


Lá vem o Chico Brito
Descendo o morro nas mãos do Peçanha
É mais um processo!
É mais uma façanha!
Chico Brito fez do baralho seu melhor esporte
É valente no morro
Dizem que fuma uma erva do norte
Quando menino teve na escola
Era aplicado, tinha religião
Quando jogava bola era escolhido para capitão
Mas, a vida tem os seus revezes
Diz sempre Chico defendendo teses
Se o homem nasceu bom, e bom não se conservou
A culpa é da sociedade que o transformou


A gravação a seguir é de Paulinho da Viola, de seu ótimo álbum Zumbido:



Rousseau causou outra importante revolução, quando, em 1762, publicou Émile, ou da educação. Para muitos, por esta obra ele deve ser considerado o “pai da pedagogia moderna”.

Nela crítica o sistema educativo predominante na França em meados do século XVIII, no qual, segundo ele, os alunos repetiam aquilo que aprendiam e não refletiam diante do conhecimento.


Dizia que em tal sistema educativo não havia uma preocupação de fato com a relação entre o conteúdo que o aluno estava entrando em contato, sua faixa etária e o estrato social a que pertencia.


Antenado às ideias de Rousseau, o pedagogo pernambucano Paulo Freire postulou que os conceitos devem ser assimilados pelos alunos de modo que tenham a possibilidade de resolver questões práticas a partir desses conhecimentos.


Embora tenha sido um importante teórico da educação, Rousseu foi péssimo pai. Teve cinco filhos com sua amante de Paris, mas acabou por abandoná-los num orfanato.


Principais obras










Os devaneios de um caminhante solitário

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