quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Orquestra Tabajara, Orquestra Imperial e outras big bands brasileiras

Big band é um termo de origem norte-americana para denominar grandes grupos instrumentais associados ao jazz.

Big Band

Uma história que começou no final do século XIX, quando negros norte-americanos criaram o ragtime.

Tratava-se do jazz dos primórdios que misturava música popular de domínio público, como canções rurais de acompanhamento ao trabalho, hinos religiosos, marchas militares a ritmos europeus como valsa, música irlandesa, polca, etc.


Começou como música rápida, para dança, como o tango e o samba. Ritmo sincopado, contagiante, com acentos melódicos entre as batidas métricas, o que lhe dava o característico swing.


Isso tudo teve início em cidades do sudeste dos EUA como New Orleans, Menphis e Saint Louis, que foram berço não só do jazz, como também do blues e do rock.

Scott Joplin (1868-1917) foi um dos principais compositores de ragtime. O jazz nasceria dessa fusão de estilos configurada por Joplin e seus contemporâneos na virada do século XIX para o XX.

Scott Joplin

Com o sucesso do ragtime começaram a se difundir as primeiras orquestras de rua que deram origem ao conceito e à estrutura das futuras big bands.

Na primeira metade do século XX essas orquestras, a maioria formada por músicos negros, deixaram as ruas e passaram a se apresentar em cassinos, bares, salões de clubes e de hotéis.


Até ambientes reservados a frequentadores brancos eram animados por essas big bands majoritariamente formadas por músicos negros.


Em meados dos anos 20 essas grandes orquestras já eram uma tradição.


Na década seguinte se popularizaram definitivamente, como resultado do interesse de músicos e arranjadores brancos pelo som dos crioulos.


Para se ter noção do ganho de popularidade, o swing das big bands foi a música oficial dos soldados norte-americanos no front da 2ª Guerra Mundial. Seu estímulo e identidade cultural.


Por décadas foram fundo musical dos filmes de entretenimento de Hollywood.


Compostas de 12 a mais músicos, basicamente as big bands antigas reuniam trompetes, trombones, saxofones, clarineta, piano, contrabaixo (ou baixo), guitarra, bateria, além de um crooner (cantor) e seus vocais.


Algumas tinham violino, viola e violoncelo. Ou instrumentos como flauta, clarinete e diversos de percussão.


Com base nessa estrutura de nipes de sons, existiram entre os anos 1930 a 1950 big bands enormes, com mais de 50 músicos.


As centenas de big bands de hoje, de qualquer país, mantêm mais ou menos essa composição. Todas continuam contando com arranjos personalizados, escritos para o conjunto de músicos que reúne.


Faz um tipo de música para instrumentistas “letrados”, que leem música.


Ao mesmo tempo os arranjos dão margem para improvisações. Não o tempo todo. Apenas em momentos especiais. E foi assim que há mais ou menos 90 anos surgiu a improvisação no jazz.

Em regra, as big bands têm seu band leader, qual seja, o artista – normalmente também arranjador – que determina a linguagem e a dinâmica da banda. Na tradição norte-americana, esse artista geralmente é o 1º trompetista.


Nos EUA, muitas big bands dos anos 1930 em diante eram identificadas com os músicos ou intérpretes para os quais tocavam: Maynard Ferguson, Dizzy Gillespie, Count Basie, Duke Ellington, Phil Collins, Glenn Miller, Benny Goodman, Frank Sinatra, etc.


Big Band de Dizzy Gillespie

A seguir, o som de Duke Ellington e sua big:


Inclusive nossa Carmen Miranda (1909-1955) teve sua big band quando era sucesso nos EUA.

As big bands se espalharam por todo o mundo – no Japão são numerosas – e também pelo Brasil.


Depois dos anos 1930, várias big bands nacionais surgiram para animar os antigos cassinos, gafieiras e salões de bailes das capitais brasileiras e das grandes cidades do interior. Aliás, animam até hoje.


Seu repertório inclui de tudo: de clássicos do jazz norte-americano a canções de sucesso com arranjos jazzísticos e, claro, muitas canções nacionais de Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, Ary Barroso, entre outros.


As bigs nacionais adaptam-se ao que vier. Desde que tenham um pé no jazz e outro na dança. Quando é época de Carnaval, como nos próximos meses, tiram da cartola seu extenso repertório de marchinhas e animam folias de rua e de clubes por todo o país.


A Orquestra Tabajara, até hoje em atividade, é a principal referência do gênero no país, e a maior incentivadora da formação de novas gerações de big bands.


Neste artigo mencionarei algumas das bigs brasileiras na ativa, com destaque para a mais antiga delas (a Tabajara) e a mais jovem (Orquestra Imperial).


Isso dentre as bigs conhecidas, pois se sabe que há dezenas de outras espalhadas pelo país, conhecidas apenas localmente...


Como dizia, a grande estrela das big bands nacionais é a Orquestra Tabajara, recordista em apresentações nos palcos do país. Seu band leader foi, por mais de setenta anos, o saxofonista paraibano Severino Araújo (1917-2012).

A Tabajara foi fundada em 1934 em João Pessoa (PB) pelos irmãos Cláudio e Olegário de Luna Freire. Seu padrinho e principal estimulador foi um gringo que adorava jazz: o empresário e cônsul holandês Oliver Von Sohsten.


Orquestra Tabajara
Recebeu o nome Tabajara porque seu primeiro contrato de trabalho foi com uma rádio paraibana com o mesmo nome.

Em 1937, Severino Araújo foi convidado a integrar o naipe de saxofones da orquestra e, gradativamente, foi alçado à liderança, tornando-se também o arranjador.


Severino Araújo
Com pouco tempo de estrada, a orquestra migrou para o Rio de Janeiro, onde gravou e se apresentou com vários cantores famosos: Francisco Alves, Orlando Silva, Ciro Monteiro, Nelson Gonçalves, Moreira da Silva e muitos outros.

Fazia uma mistura de clássicos do jazz com extenso repertório de música brasileira com arranjo jazzístico. Sempre em ritmo dançante, de alto envolvimento.


A maior parte das apresentações da Tabajara ocorreu no eixo Rio e São Paulo. Mas a orquestra também fez sucesso em Montevidéu (Uruguai) e Buenos Aires (Argentina), capitais nas quais se apresentava com frequência.


A seguir, um álbum completo de Severino Araújo com a Orquestra Tabajara tocando apenas chorinhos:



Em 2006, Severino Araújo, devido a problemas de saúde, deixou o comando da Tabajara – após 74 anos de trabalho – e foi substituído por seu irmão Jayme Araújo. Severino Araújo morreu aos 95 anos em 2012.

Tive a sorte de assistir a um dos últimos shows de Nelson Gonçalves (1919-1998), meses antes do seu falecimento, acompanhado pela Tabajara, ainda sob a regência e liderança de Severino Araújo.


A seguir, a Orquestra Tabajara com Jards Macalé (ao violão) interpreta a modinha Garoto, do próprio Macalé.




Bigs mais recentes


Com 14 integrantes, a Banda Mantiqueira foi fundada em 1985, iniciando suas apresentações em bares e salões de baile de São Paulo.


Já acompanhou vários intérpretes em apresentações na capital paulista. Dentre eles João Bosco, Gal Costa, Guinga e Sérgio Santos. Participou de festivais de jazz internacionais e fez inclusive bem-sucedida turnê na terra das big bands, os EUA.

Banda Mantiqueira

Como a maioria das bigs nacionais, a Mantiqueira é influenciada pela Orquestra Tabajara, de Severino Araújo.

Seu repertório abrange grandes nomes do jazz internacional e compositores brasileiros como Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho, Tom Jobim e outros.


A Banda Soundscape foi fundada em 1999, em São Paulo. É formada por músicos profissionais que tocam com outros grupos.


Banda Soundscape
Razão pela qual suas apresentações em casas noturnas são sempre às segundas-feiras, quando seus integrantes não têm compromissos profissionais com as respectivas bandas.

Seu repertório inclui clássicos de jazz e composições dos próprios integrantes.


Criada em 1990 pelos compositores Arrigo Barnabé e Eduardo Gudin,
a Big Band Jazz Sinfônica foi Idealizada para dar tratamento sinfônico à musica popular brasileira.

Big Band Jazz Sinfônica

É formada por 26 músicos, regidos pelo maestro João Maurício Galindo, também instrumentista, que atua ainda como diretor da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo.

Seu repertório inclui clássicos tocados pelas bigs norte-americanas e obras de vários compositores populares brasileiros.


A Orquestra Tom Jobim foi fundada em julho de 2001, no Rio de janeiro, por alunos do Departamento de Música Popular do Centro de Estudos Musicais Tom Jobim.


Seu objetivo inicial era o aperfeiçoamento dos vários instrumentistas que integram o grupo. Mas logo deslanchou e tiveram de encarar a coisa profissionalmente.


Orquestra Tom Jobim

O repertório da orquestra, hoje com 17 músicos, inclui clássicos do jazz dos anos 1930 e 1940 até clássicos nacionais e sucessos atuais.

Suas apresentações têm caráter didático, com o propósito de atrair jovens para o mundo da música. O band leader é o maestro Roberto Sion.


A seguir, entrarei em detalhes sobre a caçula das big bands nacionais conhecidas: a Orquestra Imperial.


Veja bem, reitero que há dezenas de bigs constituídas por bons músicos por todo o país. Provavelmente, toda capital brasileira tem pelo menos uma.


Já estive em bailes animados por big bands de cair o queixo até na minúscula cidade onde tenho sítio – Indiaporã (SP) –, com cerca de 6 mil habitantes.


Isso sem contar que vários grandes intérpretes nacionais constituíram bandas cujo naipe instrumental foi inspirado na estrutura das big bands.  Dentre eles Tim Maia, com sua Banda Vitória Régia e Jorge Benjor, com a Banda do Zé Pretinho.

Banda Vitória Régia de Tim Maia

Jorge Benjor e Banda do Zé Pretinho

Orquestra Imperial

A Orquestra Imperial, do Rio de Janeiro, tem algo do rock de garagem, só que é um troço maior do que meia dúzia de músicos dividindo guitarras, baixo, bateria, teclado (quando tem) e vocais.


Toca e canta sambas, boleros, rumbas e outros gêneros dançantes com arranjos jazzísticos. Sobretudo aquilo que casa bem com os ambientes dos bailões de gafieiras. Sua principal inspiração, claro, é a Orquestra Tabajara.


É a caçula das big bands aqui citadas. Começou há 13 anos. Uns músicos tiveram a ideia e a eles foram se juntando outros que eram amigos.


Orquestra Imperial

No início era uma grande farra de músicos que se reuniam para tocar o que gostavam, com alegria e desprendimento.

Grana não foi a motivação principal, até porque é um grupo numeroso – 18 pessoas, incluindo os vários músicos e cantores
– e como a Orquestra Imperial se apresenta pouco, na hora de dividir cachê não deve sobrar muita coisa para cada um.

Em seus shows a Imperial toca canções de vários compositores e intérpretes antigamente venerados nas gafieiras: Wilson Baptista, Geraldo Pereira, Kid Pepe, Billy Branco, Moreira da Silva, Miguel Gustavo, Monsueto Menezes e muitos outros.


No entanto, o principal fator que a difere da Tabajara é o time de compositores.


O que tem de melhor (e mais surpreendente) são as canções compostas por eles próprios. Com ótimo humor cafajeste, mistura de ironia e deboche em tom de molecagem.


Há um samba sobre a dança que causa “ereção”. Ouçam a seguir:



 Uma rumba sobre uma “garota de Cuba” que, em lugar de exportar a guerrilha guevarista, faz streep mundo afora.



Um samba que tem como mote a afirmação: “Artista é o caralho!” Nos dois sentidos: vida de artista é um “caralho” de difícil e, por outro lado, o que há de artistas chatos “pra caralho” não é mole. Ouçam a seguir:



De resto, em quase tudo a Orquestra Imperial lembra o bom-humor e o descompromisso do rock de garagem.

Mantém como marca o tom de improviso, com um som espontâneo que não parece feito para se tornar algo redondinho como as coisas mais chatas dessa academia brasileira da música popular chamada MPB.


A Orquestra Imperial é uma saudosa algazarra constituída por várias mesclas. A começar pelos músicos: instrumentistas sofisticados misturados a músicos populares de formação mais de ouvido.


Canções intimistas mescladas com canções mais envolventes, participativas. Porém tudo tem de ser dançante, qual a Orquestra Tabajara, para animar os bailões da vida.


Também mescla arranjos. Em meio ao clima predominantemente popular insere tons dissonantes, colagens e citações, tiradas minimalistas, entre outros troços, e até o bom e  velho rock’n’roll.


Seus shows cumprem duplo propósito: são ótimos como animação de bailes, para quem só quer dançar, mas para aqueles de cintura dura ou de bons ouvidos, a orquestra tem seus atrativos à parte, com direito a destaques solos de cada músico e cantor. 


No final da apresentação se desmancha aos poucos, ficando os instrumentos de percussão até o definitivo silêncio do grupo, quando o público impera e pede bis.


Então a orquestra volta, mas não para executar um número ou dois. Desembesta a tocar coisas atrás de coisas, como que disposta a fazer todo o show outra vez.


A carioquíssima Orquestra Imperial foi criada em 2003 por Berna Ceppas, Kassin, Nelson Jacobina, Moreno Veloso (filho de Caetano), Domenico Lancelotti, aos quais foram se agregando novos integrantes – a maioria músicos e cantores amigos de cada um deles.


Antes de Nelson Jacobina falecer, em 2012, normalmente esta era a constituição do grupo: Thalma de Freitas (cantora), Nina Becker (cantora), Moreno Veloso (voz e percussão) , Wilson das Neves (voz e percussão), Duani Martins (voz e cavaquinho), Nelson Jacobina (violão e guitarra), Bartolo (guitarra), Pedro Sá (guitarra), Rubinho Jacobina (teclado), Kassin (baixo), Berna Ceppas (sintetizadores e percussão), Domenico Lancelotti (bateria), Stephane San Juan (percussão), Leo Monteiro (percussão eletrônica), Felipe Pinaud (flauta e arranjos de sopro), Bidu Cordeiro (trombone), Mauro Zacharias (trombone) e Altair Martins (trompete).


Um dos padrinhos da orquestra é um senhor hoje com cabelos grisalhos curtinhos, meio calvo, que esbanja saúde, simpatia e sabedoria: o paulista Jorge Mautner, atualmente aportado no Rio, onde mora sua filha Amora, uma das diretoras da TV Globo.


Para quem não sabe, Nelson Jacobina, um dos fundadores da Imperial, foi parceiro e principal músico de Mautner por décadas.


Jacobina e Mautner
Outro padrinho é Rodrigo Amarante, guitarrista e vocalista da banda Los Hermanos, que em seus shows sempre divulgou a orquestra.

Até quando a Imperial vai durar? É difícil responder, já que ela não é a principal atividade profissional da maioria dos 18 integrantes. Reúne-se, ensaia e se apresenta quando as agendas livres coincidem.


Mas quando a orquestra entra em cena lota qualquer biboca, seja no Rio ou em São Paulo.


Na capital paulista reuniu milhares de pessoas em suas duas apresentações ao vivo na tradicional Virada Cultural Paulistana, em maio de cada ano.

Já excursionou pelos EUA, Portugal, Inglaterra, Dinamarca e Espanha.


Na Inglaterra chegou a contar com participação da ex-exposa e musa do compositor francês Serge Gainsbourg, a cantora inglesa Jane Birkin.


Seus shows sempre são recheados por canjas de outros artistas. Além de Mautner e Amarante, que são padrinhos, a Imperial já recebeu Ed Motta, Marcelo Camelo, Fernanda Abreu, Andreas Kisser, Elza Soares, entre outros.


Até o momento, que eu saiba, lançou três álbuns: Orquestra Imperial (2006), Carnaval só ano que vem (2007) e Fazendo as pazes com o swing (2012).


Segue o DVD de um show ao vivo, ainda com o bom Nelson Jacobina, no qual foram feitas as apresentações de cada um dos músicos, cantores e compositores, o que dá uma boa ideia de como a
big band é constituída.


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