segunda-feira, 2 de março de 2015

Cesária Évora, a rainha de pés descalços

Cabo Verde é uma nação africana das mais destoantes. A começar por sua localização, em meio ao Oceano Atlântico, a mais de 500 quilômetros do continente.


Cantora cabo-verdeana Cesária Évora
Sua extensão territorial – apenas 4 mil quilômetros quadrados – também é contrastante com o imenso continente com mais de 30 bilhões de km².

O país é na verdade um arquipélago de origem vulcânica, composto por dez ilhas habitadas e várias ilhotas desertas.  




Do continente africano saíram os primeiros humanos para povoar os demais continentes. No entanto, Cabo verde não tinha um único habitante até os primeiros navegadores portugueses chegarem lá em 1480.

Ilhas vulcânicas normalmente têm origem recente. O arquipélago de Cabo Verde, não. Geólogos calculam que a maior parte de suas ilhas e ilhotas se formaram há mais de 20 milhões de ano.

Por que os habilidosos navegadores artesanais africanos não chegaram lá antes, se ocuparam ilhas bem mais distantes no Oceano Índico, algumas a milhares de quilômetros do continente africano? Mistério.

Com o tempo o arquipélago se tornou estratégico para os portugueses, como rota de passagem dos navios de comércio de escravos do continente para as Américas.

Alguns portugueses e escravos por lá permaneceram. Os escravos provinham de diferentes etnias africanas. Depois foram chegando aventureiros europeus: franceses, espanhóis, holandeses... A população atual, miscigenada, resulta dessa mistura.

O cabo-verdeano comum tem pele escura, mas não há negros puros no país. Todos são mulatos e trazem nos genes de várias etnias africanas misturados com europeus.

Situado na faixa saariana, o arquipélago tem baixa pluviosidade. Há pouca agricultura, a qual depende da dessalinização da água do mar, das poucas chuvas e das brisas que se sedimentam nas encostas férteis do vulcão da Ilha do Fogo.
Vulcão da Ilha do Fogo
Mas a última erupção do vulcão soterrou com lavas as plantações de uva e até a sede da vinícola da cooperativa local.

Há também cultivos de banana, de hortifrutis e a intenção de prospectar petróleo no fundo do mar.

Por enquanto, a economia cabo-verdeana é dependente do turismo – por sua privilegiada paisagem, bom clima e ótimas praiasda atividade portuária, da pesca e da riqueza cultural, sobretudo a música popular.

O país tem em torno de 450 mil habitantes. Devido às limitações econômicas, há tantos cabo-verdianos no país quanto espalhados pelos EUA, Portugal, França e Brasil.

A língua oficial é o português. Mas o português crioulo, com grandes variações locais, dado que se misturou aos vários dialetos dos antigos escravos e a outras línguas dos imigrantes europeus que por lá se fixaram.

Para se ter ideia, cada uma das 10 ilhas habitadas tem um dialeto próprio que mescla o português a dialetos africanos continentais e a outros idiomas europeus, especialmente o francês.

Os vários crioulos são as línguas faladas. O português culto, normatizado conforme as regras vigentes em Portugal, é o que se aprende nas escolas, ao lado do francês.

Essa mescla de idiomas fez com que, em média, a população cabo-verdeana seja bem instruída. Principalmente em música. A pujança musical nas 10 ilhas é superior até a de Cuba, outro país com vigorosa musicalidade popular.

Não é por acaso que Cesária Evora (1941-2011), a mais importante cantora luso-africana, veio de lá.


Cesária no palco, sempre descalça
As raízes da musicalidade cabo-verdeana são também de procedências diversas.

As influências principais vêm, por ordem de importância, de Portugal e da França, depois do Brasil, dos vários países africanos da costa atlântica, dos países antilhanos e dos EUA (principalmente com o jazz e o blues).

O principal ritmo local, a morna, é clara derivação do fado. Mas também tem influências do samba-canção brasileiro e do blues norte-americano, no tocante ao teor das letras.

Ouçam, a seguir, Cesária interpretando a morna Dor di sodade:




Os demais gêneros cabo-verdeanos: a kozomba, o funaná, a tabanca, o lundum, a coladeira e o batuque.

A bossa nova e o samba tradicional brasileiros, o jazz, o  blues e o hip-hop norte-americanos, a cúmbia colombiana, o reggae jamaicano, a rumba cubana, o zouk das ilhas antilhanas têm numerosos intérpretes no país.

A identificação com o Brasil é tão grande que Cabo Verde comemora festejos carnavalescos chamados “Brazilim”, ou seja, “pequeno Brasil”...


O sucesso internacional de Cesária Évora fez com que outros artistas cabo-verdianos, ou descendentes de cabo-verdianos nascidos em Portugal, ganhassem espaço no mercado musical.

Dentre outros, as cantoras Sara Tavares e Lura, e o compositor Antonio Vicente Lopes, mais conhecido como Travadinha.





Quanto aos bons músicos profissionais cobo-verdeanos, é impossível estimar quantos são. Há centenas deles atuando nos bares e hotéis do país ou espalhados principalmente pelos países europeus e pelos EUA – alguns inclusive trabalhando com música norte-americana.

Na instrumentação predominam o violão e a guitarra elétrica, as violas de 10 e 12 cordas (similares à nossa viola caipira), o cavaquinho e o violino (chamado por lá de rabeca).

Há, como em Cuba, ótimos pianistas, saxofonistas, clarinetistas e trompetistas cabo-verdeanos.

O acordeom é o instrumento mais usado no acompanhamento ao funaná. Trata-se de um gênero musical especialíssimo, que usa apenas escalas diatônicas e não escalas cromáticas.

A linha melódica do funaná varia muito ao longo da composição, com muitas séries de notas ascendentes e descendentes.

Os cantores de funaná ocasionalmente utilizam a técnica do sforzando em determinadas notas, sobretudo quando elas se prolongam mais, para imitar o som do acordeom.

As letras do funaná geralmente abordam situações do cotidiano. Também trazem críticas sociais, reflexões sobre a vida e situações idílicas.

Uma característica das letras do funaná tradicional é que a poesia não é feita de um modo direto. Usa frequentemente figuras de estilo, provérbios e ditados populares.

Há também na música cabo-verdiana, como na maioria da música africana, grande riqueza de instrumentos de percussão. É enorme a diversidade de tambores, idiofones e “ferrinhos” (instrumentos de metal similares ao nosso triângulo) com vários timbres.

Mas por que esse país de estritas dimensões geográficas e pequena população é tão prolífero musicalmente?

Resposta da própria Cesária Évora:


“Ora, em um lugar com tão pouca abundância de recursos naturais, nos restam as expressões artísticas. A música está no nosso dia a dia. Todo cabo-verdiano toca algum instrumento ou canta.”

Só de bons compositores recentes, veja a lista:

O já citado Travadinha, Armando Zeferino Soares, Amândio Cabral, Fulgêncio Tavares (Ano Nobo), Francisco Xavier da Cruz (B. Leza), Adalberto Silva (Betú), Gregório Vaz (Codé di Dona), Daniel Rendall, Eugénio Tavares, Frank Cavaquim (Francisco Vicente Gomes), Jorge Fernandes Monteiro (Jotamont), Carlos Alberto Barbosa (Kaká Barbosa), Carlos Alberto Martins (Katchás), Luís Rendall, Daniel Spencer Brito (Nhelas Spencer), Paulino Vieira, Orlando Monteiro Barreto (Orlando Pantera), Renato Cardoso, Manuel de Jesus Lopes (Manuel d' Novas), Manuel Tomás da Cruz (Lela Violão) e Vasco Martins.

Cesária consagrou-se principalmente interpretando as letras lentas e tristes de morna.

Para quebrar o clima intimista das mornas que interpretava, em seus shows volta e meia inseria alguma coladeira ou outro gênero alegre e dançante, e algum número instrumental de apelo jazzístico, executado pelos excelentes músicos que a acompanhavam.

Era conhecida com a "diva descalça", pois não gostava de usar sapatos enquanto estava no palco. Dizia que em sua terra aprendera a cantar descalça, caminhando pelas praias. Para se remeter emocionalmente às origens, em qualquer palco se apresentava com os pés livres.



Cesária em praia de Cabo Verde

Apesar da aparência simplória, era uma mulher orgulhosa, com grande conhecimento musical. Participava diretamente dos arranjos e das escolhas do seu repertório.

Sua voz e seu porte no palco eram de uma rainha. Quando cantava, qualquer chefe de Estado se sentia seu súdito, a ponto de lhe fazer reverências por onde passasse.

Há improvisos dela com músicos brasileiros, nos quais inclui extenso repertório de fado, muita música brasileira antiga e até blues interpretados Billie Holiday, a quem adorava.

Sua identificação com Billie Holiday estava relacionada aos períodos difíceis de sua vida, quando cantava em bares portuários para ajudar a manter a família, em ambientes de muita bebida e prostituição, nos quais Cesária teve sérios problemas com álcool.

No Brasil, tinha especial adoração pela cantora Ângela Maria, em quem dizia ter se espelhado na adolescência, quando aprendera a cantar. Gravou dois grandes sucessos de Ângela: o samba-canção Negue e o bolero Beijo roubado, ambos de Adelino Moreira.





A paixão pela música brasileira a levou a convidar o carioca Jaques Morelenbaum para fazer arranjos de alguns de seus álbuns.

Cesária Évora gravou 24 álbuns, todos com belíssimos repertórios. O sucesso para ela, como para nossa Clementina de Jesus, veio tarde, aos 47 anos.

Três canções ela nunca deixava de cantar em seus shows: Sodade (de Armando Cabral/Louis Morais), Mar azul (de B. Leza) e Angola (Pedro Rodribues), todas do álbum Miss perfumado, de 1992.

Sodade:

Mar azul com participação da brasileira Marisa Monte:


Angola:


Dizia:

“Não é o público que exige que eu as cante. Preciso cantá-las por mim mesma. Se não as interpreto em um show é como se algo ficasse a faltar.”

Depois de ter brilhado triunfalmente por todo o mundo, sobretudo na Europa, aos 70 anos concedeu entrevista ao jornal francês Le Monde para declarar que uma doença cardíaca a levava a ter de se afastar dos palcos.

Retornou então à sua Cabo Verde e, de pés descalços, viveu seus últimos dias a caminhar vagarosamente pelas praias. 

Álbuns

1965 - Mornas de Cabo-Verde & Oriondino

1987 - Cesária

 1988 - Cesária Évora, la diva aux pieds nus

 1990 - Distino di Belita

 1991 - Mar azul

 1992 - Miss perfumado

 1994 - Sodade - Les plus belles mornas de Cesaria (Best of)

 1995 - Cesária

 1995 - Cesária Évora à L'Olympia

 1997 - Cabo Verde

 1998 - Best of Cesária Évora

 1998 - Nova Sintra

 1999 - Le monde de Cesária Évora

 1999 - Café Atlântico

 2001 - Cesária Évora: L'essentiel

 2001 - São Vicente di longe

 2002 - Anthology

 2002 - Anthologie: Mornas & coladeras (LP duplo)

 2002 - The very best of Cesária Évora

 2003 - Voz d'amor

 2004 - Les essentiels

 2006 - Rogamar

 2008 - Rádio Mindelo (early recordings)

 2009 - Nha sentimento

Para encerrar, um vídeo com show completo de Cesária Évora e seu excelente grupo em Paris, em abril de 2004:




3 comentários:

  1. Tenho um amigo de Cabo Verde. Trabalhamos juntos no Rio. Dele ganhei além de Cezaria, claro, Colé de Dona, B.Leza, entre outros. A aridez da terra a seca constante e alguns ritmos se parecem com o nordeste.

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    1. Sim, além da aridez têm em comum com o Nordeste a grande diversidade étnica e o enorme leque de influências culturais. Há também nítidos elementos da música popular nordestina em alguns dos ritmos locais, sobretudo os mais festivos. Como ouvem muita música brasileira, músicos nordestinos certamente integram o repertório. Sobre canções praieiras, Cesária, por exemplo, gravou músicas de Caymmi

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  2. Esta bela sugestão é do meu amigo André Prada, com a versão de Carlinhos Brown à canção Direito di nasce, cantada por Cesária Évora no álbum Miss perfumado. A versão é a interpretação do Carlinhos Brown é também muito bonita. Dá um sentido mais leve, carinhoso à letra, que na sua origem é mais política. A gravação do Carlinhos encontra-se no link http://daivarela.blogspot.com.br/2014/09/carlinhos-brawn-cantor-brasileiro.html

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