quarta-feira, 18 de março de 2015

Marcel Duchamp significa alto repertório, concepção, invenção – signo fica

Toda generalização é burra. Superlativos idem.

Mas se for relacionar os mais representativos artistas modernos, alguns nomes sempre me vêm à mente.


Na prosa, James Joyce.


Na poesia, Ezra Pound, Vladimir Maiakovski, Velímir Khlebnikov, Fernando Pessoa e, mais moderno que todos, o simbolista Stéphane Mallarmé, este do século XIX.

Na música, o trio Arnold Schönberg, Anton Webern e Alban Berg.

No cinema, Seguei Eisenstein.

No teatro, Vsevolod Meyerhold.

Nas artes plásticas, o "não-artista" Marcel Duchamp (1887-1978).

Não sou louco de declarar que a arte moderna se resume a esses cabras. Mas foram essenciais, imprescindíveis. 


Um irlandês, um norte-americano, um português, quatro russos, três alemães e dois franceses. Mas os dois franceses (Mallarmé e Duchamp) representam muito. Muito mesmo!

Foram (e continuam a ser) determinantes para o que se produziu a partir deles.

Ainda escreverei sobre Mallarmé, como já fiz com seu colega simbolista Paul Verlaine.


O papo aqui é sobre Marcel Duchamp, referência conceitual para toda arte contemporânea, inclusive para a literatura.

Embora tenha sido pedra de toque de três movimentos de vanguarda – cubismo, dadá e surrealismo – e participado indiretamente de outros (expressionismo, fauvismo, simbolismo, impressionismo e surrealismo), Duchamp sempre foi avesso aos "ismos" e não firmou identidade com nenhum.

Viveu de forma modesta, quase anônimo. Nunca vendeu uma só de suas obras. Todas foram doadas a colecionadores, com a condição de que fossem expostas ao público e jamais viessem a ser comercializadas.


Nu descendant l'escalier nº 2
Abandonou  a pintura, na sua decisiva virada contra a arte "retiniana". Nunca se acomodou. Foi um misto de artista e inventor da modernidade mais próximo do que representou Leonardo da Vinci para o renascimento...

Antiartista? Não. Também recusava qualquer tipo de classificação.

"Sou contra a palavra anti. É um pouco como ateu comparado a crente. Todo ateu é tão religioso quanto o crente. Todo anarquista é tão impositivo quanto o autoritário. Em vez de antiartista, talvez eu seja não-artista. Não faço a menor questão de ser considerado artista."
Dualidades sempre estiveram presentes em sua vida e obra.

Ao mesmo tempo que algumas de suas produções foram altamente meticulosas, levando décadas para serem concluídas, mediante alta sistematização técnica e intelectual, também realizou trabalhos casuais, com mínimo esforço e até certo desdém.


Embora tenha sido o mais conceitual dos artistas plásticos modernos, seus interesses sempre estiveram voltados para outro universo das artes: a literatura.


Suas principais referências foram escritores: o novelista renascentista François Rabelais (1494-1553), os poetas simbolistas Sthéphane Mallarmé (1842-1898), Jules Laforgue (1860-1887) e Raymond Roussel (1877-1933), e o poeta, dramaturgo e romancista Alfred Jarry (1873-1907).


Raymond Roussel
Jarry, como Duchamp, viveu livre, como quis. Ele, sua bicicleta e seu revólver. A obra de Jarry – ironicamente denominada "patafísica" – não é classificável em qualquer escola ou estilo.
Alfred Jarry
Durante a 2ª Guerra, Duchamp sobreviveu vendendo obras de outros artistas europeus nos EUA, para onde imigrou.

Recebia-as como consignação dos próprios artistas, que eram seus amigos. Ao vendê-las, enviava a maior parte da grana aos próprios e ficava com uma parcela.


Depois passou a ganhar a vida como Jorge Luis Borges em Buenos Aires: tornou-se bibliotecário em Nova York.


Sem depender de comercializar o que produzia, pôde dedicar-se com total liberdade às suas obras e às suas outras duas paixões: o xadrez e as mulheres.


Foi um respeitável enxadrista.


Quanto às mulheres, além dos dois casamentos, teve uma infinidade de casos, dentre eles com uma brasileira.



Como bem diz o poeta e crítico Augusto de Campos, muitos conhecem Duchamp, mas poucos o conhecem bem. “Muitos fizeram Duchamp, sem saber que o estavam fazendo.”

Duchamp, ao fundo, na Factory de Andy Warhol
As primas-donas da pintura moderna foram, principalmente, Pablo Picasso (1881-1973) e Salvador Dalí (194-1989).

Embora Paul Klee (1879-1940), Wassily Kandinski (1866-1944), Piet Mondrian (1872-1944) e Kasimir Malevitch (1879-1935) tenham sido muito mais representativo que os dois espanhóis.

Mas o principal inventor, o que mexeu mais radicalmente com os parâmetros formais e construtivos, foi Duchamp. Qual Mallarmé para a poesia, Schöenberg para a música e Joyce para a prosa.


Também foi o mais literato dos artistas plásticos modernos – o que se reflete nos títulos e geniais trocadilhos de suas obras.


Moustiques domestiques demistock.


Échercs – palavra que contempla duplo significado: fracasso e xadrez. L.H.O.O.Q. (elle a chaud au cul) – reprodução da Monalisa, de Da Vinci, de bigode.

L.H.O.O.Q.
Entre suas marcantes realizações estiveram as "não-obras" chamadas ready made.

Trabalhos sobre coisas já prontas encontradas a esmo, ao acaso, em datas pré-determinadas de cada ano. Como Wanted. Belle Heleine – eau de voilette e a já citada L.H.O.O.Q.


Wanted com foto do seu amigo Francis Picabia
O acaso submetido a determinação numérica rigorosa: dois a três ready mades por ano e só.

Escolhas mediante neutralidade. Com distanciamento. Aparentemente despidas de qualquer pretensão estética. Algumas como esboços de ideias, outras como projetos de projetos.


Ready made Roda de bicicleta
Ready made Gaiola
Ready made Porta garrafas
Algumas em forma de evento. Como o balé Rélache, em parceria com o compositor Erik Satie (1866-1925), de 1923. E outra parceria com o próprio Satie: Música de mobiliário, do mesmo ano.
Cena de Rélache
 Ainda com Satie participou do filme Entre'acte, dirigido por René Clair, em 1924.

Duchamp não tinha predileção por se expor. Dizia preferir fumar e jogar xadrez que polemizar para fazer efeito:



Fotos, feitos e fatos. O rosto coberto de creme de barbear e os cabelos em formato de chifres de fauno.
Fauno com creme de barbear
O artista que desapareceu para dar lugar a heterônimos: R. Mutt e Rrose Sélavy (nome-trocadilho de arrose, c’est la vie ou eros, c’est la vie).

Na pele de Rrose Sélavy
O artista que cessou com a pintura retiniana para se expor como designer da linguagem. "Não-pintor, não-tintor."

Corpopintura
O artista pesquisador de mecanismos óticos com Man Ray (1890-1976) prenunciando a op art.

Discos óticos
Rotative pláque verre (optique de précision). Escrito na borda: rrose sélavy ET moi esquivons les ecchymoses des esquimaux aux mots exquis. De 1925.

Nous nous cajolions (também de 1925).


Anemic cinema (de 1926).


Tratavam-se de 10 discos concêntricos que em movimento elétrico produziam a ilusão de espirais em profundidade, sob inscrições espiraladas do tipo: bains de gros the pour grains de beauté sans tropes de bengué.

Conhecedor da especialíssima obra dos poetas Mallarmé, Jules Laforgue e Raymond Roussell, com trânsito constante do verbal para o não verbal.


Sua busca da precisão remete mais a Mallarmé que às artes plásticas.


Nova sequência de discos em 1935: Rotoreliefs.


Ainda em 1935 o design da capa da edição de Ubu Rei, de Alfred Jarry. Com a letra U estourada na capa e na contracapa, lembrando coisas de Kurt Schwitters na Alemanha e de Alexander Rodchenko na Rússia.


Capa de Ubu Rei
Images domages fromages ramages plumages hommages.

Armadilhas visuais. Porta que abre para um quarto e fecha outro: porte: 11, rue larrey.


Caixa para uma valise (de 1941) como um museu portátil. Objet-dard (de 1951).
Objet-dard
Duplos sentidos:

Rousseau/roux sot. Vers, envers, divers, hivers.

Vers de circonstance: des champs/Duchamp, l’ire/lire, qu’est-ce?/caísse, condense/qu’on danse, vis-à-vis/avis, l’une/lune, rit à/Rita, et va/Eva, m’amenez-y/ma amnesie, pis qu’habilla/Picabia, lits et ratures/littérature.

Morceaux choisis d’aprés courbert (de 1968).


Renvoi miroirique (de 1964).


Anagramas escatológicos dispersos nos títulos. Como no ready-made Un robinet original revolutionnaire renvoi miroirique. Implícita a palavra urine.


Durante 20 anos, de 1946 a 1966, trabalhou em sua obra Étant donné: 1. la chute d’eau / 2. le gaz d’éclairage. Em vez de um quadro, um quarto no qual ninguém pode entrar.
Ao espectador cabe a condição de voyeur: vê as cenas por um orifício.


A obra se encontra exposta em um museu da Filadélfia (EUA).

Étant donné
Uma mulher nua em tamanho natural. Deitada. Pernas abertas. Segura uma lâmpada. O sexo exposto. Leito de galhos e folhas secas. Paisagem verdejante ao fundo. Cascata.

Enigma/imagem. Ilusão hiper-real. Visível e imprevisível.

Duchamp foi elementar para artistas de fundamental importância que o sucederam. Como nossos Hélio Oiticica e Lígia Clark. Só para exemplificar.


Com a cabeleira esculpida
Idem o compositor e poeta norte-americano John Cage (1912-1992), que sobre ele compôs em 1963 a peça 26 statements re duchamp. Idem o diretor de teatro, também norte-americano, Bob Wilson.

De onde veio o homem?


Marcel Duchamp nasceu em 1887, em Blainville-Crevon, próximo de Rouen, na França.


Entre 1904 e 1905 estudou em Paris, na famosa Academia Julian.

A partir de 1905 executou inúmeros desenhos humorísticos para jornais.


Em 1908 participou de várias mostras.


Para além dos desenhos, produzia aquarelas e pinturas alinhado aos princípios estilísticos do movimento impressionista, como é testemunha a tela Église à Blainville, datada de 1902.


Posteriormente enveredou na tendência pós-impressionista de Paul Cézanne, realizando em 1910 o quadro Portrait de l'artiste.

Portrait de l'artiste
No mesmo ano, experimentou uma linguagem mais livre, de registro fauvista, pintando então o retrato Dr. Dumonchel. O fauvismo era uma derivação do impressionismo.

Em 1911 juntou-se aos irmãos, o escultor Raymond Duchamp-Villon e o pintor Jacques Villon, desenvolvendo atividades artísticas em conjunto.

Marcel Duchamp (à dir.) e os irmãos
Pioneiro nos princípios estéticos do cubismo e do futurismo, Marcel Duchamp realizou uma série de pinturas de grande originalidade, dentre as quais uma se tornou particularmente famosa: o Nu descendant l'escalier.
Ensaio fotográfico para Nu descendant l'escalier
Clique aqui e veja entrevista do próprio Duchamp a respeito da concepção de Nu descendant l'escalier. A legenda está em inglês.


Esta obra que teve duas versões. Uma realizada em 1911 e outra no ano seguinte. Por meio delas, procura introduzir na imagem uma noção de movimento, de acordo com os pressupostos futuristas.

A pintura foi apresentada publicamente na exposição Armory Show, de Nova Iorque, em 1913, e teve um efeito duplo: se por um lado escandalizou fortemente o público, por outro, foi um importante meio mediático para a internacionalização do artista.


Nesta altura firmou duradoura amizade com o pintor franco-cubano Francis Picabia (1879-1953) e o fotógrafo e pintor norte-americano Man Ray (1890-1976).

Duchamp em fotomontagem de Man Ray
Em meados da década de 1910, Duchamp começou a série de objetos que designou por ready-made.

Peças escultóricas constituídas por objetos banais esvaziados de função prática e retirados dos seus contextos habituais.

Alguns ready-mades foram assinados com os pseudônimos R. Mutt e Rrose Sélavy.

Ready made Fonte assinado por R. Mutt
Dentre a série de ready-mades eleitos como "obras": um urinol de porcelana; uma roda de bicicleta fixada sobre um banco individual; um porta garrafas; uma pá de neve; uma gaiola de passarinhos com cubos de mármore dentro imitando pedras de açúcar; um tubo com 50 centímetros cúbicos do ar de Paris; uma tábua de passar roupas cujo tecido era uma tela de Rembrandt; um ferro de passar roupas ao qual foram fixados pregos; uma porta para o nada; etc.

Por que produzia os ready-mades? Respondia do seu jeito lacônico e debochado:
"Para exercitar o senso de ironia e malícia. E também porque não havia mais ninguém que se propusesse a fazê-los."
De todos os movimentos de vanguarda pelos quais flanou, o que mais tinha a cara de Duchamp era Dadá, lançado, simultaneamente, em 1916, por Hugo Ball (1866-1937), Tristan Tzara (1896-1933), Hans Arp (1886-1966) e Richard Huelsenbeck (1892-1974), em Zulrich (Suíça), e Kurt Schwitters (1877-1948), em Hanover (Alemanha).

"O que me atraía em Dadá era o espírito inconformista. Que existiu em todas as épocas, desde que o homem é homem."
Instalado nos EUA, Duchamp coordenou, em 1919, a publicação da revista The Blindman, porta-voz do dadaísmo, juntamente com Man Ray.

Uma das pinturas mais conhecidas desta fase é o já mencionado quadro L.H.O.O.Q., de 1919, que apresentava uma reprodução da Monalisa (do renascentista Leonardo da Vinci) com bigodes e barbicha.


Na década de 1920, Duchamp criou o conjunto de peças que denominou Rotatives e Rotoreliefs, por meio dos quais abordou o tema recorrente em sua obra: a máquina inútil.


A partir de 1927 juntou-se ao movimento surrealista, realizando um vasto conjunto de trabalhos dentre os quais se destacaram as cenografias para as exposições deste movimento realizadas em Paris em 1938 e em 1947.


Duchamp foi ainda responsável pela organização da mostra First Papers of Surrealism, apresentada em Nova Iorque em 1942.


Entre 1936 a 1941 produziu inúmeras caixas, denominadas Boîte en valise, nas quais reuniu reproduções de pequena dimensão das suas principais obras, distribuindo-as a seus amigos – dentre eles a referida amante brasileira.

Boîte en valise
Boemia e xadrez

Sua obra está vinculada, de algum modo, ao seu modo de vida boêmio, propiciado pelo convívio com pessoas do meio artístico out norte-americano.


Num de seus acessos de iconoclastia e irresponsabilidade, lançou na cena artística nova-iorquina a figura da mundana Madame Rrose Sélavy (cujo nome se assemelha à palavra francesa heuireusee, "feliz", e o sobrenome à expressão francesa c'est la vie, "é a vida", resultando na frase "feliz é a vida").


Tratava-se de uma "artista" dotada de uma ironia profunda, bem como de uma paixão por trocadilhos (evidentemente, aspectos oriundos da personalidade do próprio Duchamp).


Rrose também assinou uma parte dos ready made, podendo ela mesma ser considerada um ready-made duchampiano, na medida em que era uma espécie de transfiguração artística de uma personalidade real do artista.


Duchamp sempre foi entusiasta do xadrez, tendo se filiado a vários clubes e participado com relativo êxito de torneios mundo afora.


Com duas de suas paixões: mulheres e xadrez
Num desses torneios, foi parar em Buenos Aires, onde permaneceu por meses na residência de uma amante argentina.

Pode-se dizer que uma parte da sua vida foi consagrada ao estudo desse jogo.


Dedicou-se ao estudo da "quarta dimensão" do jogo, o que, de alguma forma, orientou a sua criatividade artística para problemas óticos.


Os Rotoreliefs, discos coloridos que, quando girados com extrema rapidez, produziam efeitos óticos, é mais uma de suas tentativas de se aproximar das pesquisas que fazia.


O estudo do olhar sobre a arte interessou muito a Duchamp, que se opunha àquilo que ele próprio dizia ser a "arte retiniana", ou seja, uma arte que agrada à vista.


Pode-se, de certo modo, compreender toda a arte de Duchamp como um esforço para se afastar da "arte retiniana" e passar para uma arte mais "cerebral", que ressalta os aspectos mais intelectuais do labor artístico.


Dessa forma, os ready made, inclusive, são tentativas de escapar da "arte retiniana", uma vez que confrontam o público, oferecendo-lhe algo que ele próprio já vira algures, forçando-o a pensar e a refletir sobre a questão da arte enquanto linguagem.


Grande vidro


Durante décadas, Duchamp trabalhou em uma de suas obras mais meticulosas: o Grande vidro, a noiva desnudada por seus celibatários mesmo.


A obra foi iniciada em 1912.


A partir de várias fontes de inspiração, sobretudo literárias, mas cujo propósito era chegar a algo que jamais tivesse sido tentado.


Grande vidro
A motivação inicial foram os costumes dos casamentos rurais existentes na França, nos quais as crianças jogavam grandes bolas na noiva, com o propósito de derrubá-la em tom de troça.

Mas a obra tinha também fortes referências eróticas. Seus intrincados mecanismos simbolizam o coito. Também representava uma complexa teoria de Duchamp segundo a qual toda obra de arte tem de ser projetada para morrer.


"A obra de arte só deve ser obra de arte por um período curto, de preferência menor que o da vida de um homem. Vinte anos já é muito. Uma pintura impressionista, por exemplo, perde toda sua função devido ao material. A cor escurece de tal forma que perde qualquer relação com o artista que a fez. Então, acho eu, toda obra deve ser projetada para ter um fim condizente com sua corrosão material e intelectual."
Quando, ao ser transportado para uma exposição, uma das chapas do Grande vidro se partiu, a curadora da mostra ficou desesperada.

Não sabia como dar a Duchamp a péssima noticia. Mas quando finalmente decidiu contar, sua reação foi oposta ao que ela imaginara. O artista ficou radiante:

"Que bom! Algo de novo aconteceu!"
De modo que a rachadura do vidro foi, por obra do acaso, naturalmente incorporada ao produto final.

A seguir, um texto sucinto de Duchamp sobre a arte "retiniana" e o futuro das artes, de 1961, com tradução do artista plástico brasileiro Luciano Figueiredo:


Daqui, para onde vamos?


Para imaginar o futuro, devemos talvez começar pelo passado mais recente que nos parece hoje ter começado com o realismo de Courbet e Manet. O realismo que parece estar de fato no centro de liberação do artista como um indivíduo e a cujo trabalho o espectador ou colecionador adapta-se, às vezes com dificuldade, tem uma existência independente.


Esse período de liberação gerou, rapidamente, todos os "ismos" que se seguiram durante o último século – em média um novo "ismo" para cada quinze anos. Creio que para tentar adivinhar o que ocorrerá amanhã, precisamos agrupar os "ismos" pelo que têm em comum, ao contrário de diferenciá-los.


Dentro da estrutura de um século de arte moderna, os recentes exemplos de abstracionismo expressionista claramente mostram a culminância da questão retiniana iniciada pelo impressionismo. Com "retiniano" eu quero dizer que o prazer estético depende quase que inteiramente da impressão da retina, sem apelar para nenhuma outra interpretação auxiliar.


Vinte anos antes o público ainda exigia da obra de arte algum detalhe representativo para justificar seu interesse e admiração. Hoje, o oposto é quase verdade. O público é consciente da existência da abstração, compreende-a e até mesmo exige-a do artista.


Eu não estou falando de colecionadores, que vêm mantendo há já quase cinquenta anos esta progressão dirigida ao total abandono da representação nas artes visuais. Assim como os artistas, eles têm sido levados pela correnteza. O fato de o problema dos últimos cem anos ter girado quase que completamente em torno de um único dilema – o "representativo ou o não-representativo" – me parece reforçar a importância que de agora há pouco ao aspecto completamente retiniano da produção total dos diferentes "ismos".


Janela do fenômeno cerebral


Depois deste exame do passado, estou portanto inclinado a acreditar que o jovem artista de amanhã se recusará a basear seu trabalho em uma filosofia e em uma questão tão simplificada como esta do dilema do "representativo ou não-representativo".


Estou convencido de que, tal como
Alice no país das maravilhas, ele terá de passar pelo espelho da retina para alcançar uma expressão mais profunda.


Estou bem convencido que, dentre os "ismos" que mencionei, o surrealismo introduziu a exploração do inconsciente e reduziu o papel da retina ao de uma janela no fenômeno cerebral.


Acredito que o jovem artista de amanhã terá que ir mais além, nesta mesma direção, e trazer à luz surpreendentes novos valores, que são e sempre serão base de revelações artísticas.


Se podemos agora antever o lado mais técnico de um possível futuro, é bem provável que o artista, cansado do culto à pintura a óleo, se veja abandonando este processo de quinhentos anos, que restringe sua liberdade de expressão por meio das amarras acadêmicas.


Outras técnicas apareceram recentemente e podemos prever que, tal como a invenção de novos instrumentos musicais muda a sensibilidade de uma era, o fenômeno da luz, devido ao seu presente progresso científico, possa, entre outras coisas, vir a ser uma nova ferramenta para o novo artista.


Superdesenvolvida vulgaridade


Por meio de sua estreita conexão com a lei da oferta e da procura, as artes visuais passaram a ser uma commodity; a obra de arte é agora um produto trivial tal como um sabonete ou uma apólice de seguro.


Daí, podemos perfeitamente imaginar  criação de uma corporação que lidaria com todas as questões econômicas que dizem respeito ao artista. Podemos imaginar esta corporação decidindo sobre os preços das obras de arte tal como um sindicato determina o salário de um trabalhador. Podemos até imaginar esta corporação forçando o artista a abandonar a sua identidade, até mesmo a ponto de não mais ter direito de assinar sua oba. Seria possível que a totalidade da produção artística controlada por uma corporação desta natureza pudesse vir a formar uma era comparável às das catedrais anônimas?


Esses variados aspectos da arte de hoje nos fazem olhar para ela como um todo, em termos de uma superdesenvolvida vulgaridade. E com isto quero dizer que o público em geral aceita e exige muito da arte, exige demais, acho eu; o público de hoje que procura satisfação estética embrulhada em um grupo de valores especulativos e materiais, está afundando a produção artística em uma enorme diluição.


Essa diluição, que leva à perda de qualidade o que se ganha em quantidade, é acompanhada de uma baixa no gosto presente. O seu resultado imediato será cobrir o presente próximo de mediocridade.


Como conclusão, espero que essa mediocridade, condicionada por fatores alheios à arte, pelo menos traga per si uma revolução em nível ascético que o público nem notará e na qual apenas alguns iniciados se desenvolverão, à margem de um mundo cego por fogos de artifícios econômicos.


"The great artist of tomorrow will go underground." 


O que ler sobre Marcel Duchamp no Brasil?

Marcel Duchamp: Engenheiro do tempo perdido. Conversações com o jornalista francês Pierre Cabanne, nas quais Duchamp comenta com maior amplitude e descontração seus atos, suas reações, seus sentimentos e suas opções. Livro traduzido por Paulo José Amaral, arquiteto e intelectual brasileiro admirador da obra do grande artista francês, e publicado pela coleção Debates, da Editora Perspectiva.

Marcel Duchamp ou o Castelo da pureza. Esclarecedor e sucinto texto do poeta e crítico mexicano Octavio Paz sobre o espírito de vanguarda, discurso, concepções, invenções, formas e linguagens artísticas presentes na obra de Marcel Duchamp. Também publicado pela Editora Perspectiva.

2 comentários:

  1. O incrível é que a obra de Bispo do Rosário se inscreve a Duchamp e seguidores. Inclusive com a roda de bicicleta. O livro de Luciana Hidalgo sobre o Bispo nos permite a aproximação.

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  2. Sim, sem dúvida. Conheço parte da obra de Bispo do Rosário. Para os leitores que se interessarem pelo toque do Edmar, o nome do livro da Luciana: "Arthur Bispo do Rosário – O senhor do labirinto".

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