sábado, 18 de abril de 2015

Roberto Murolo, la prima voce del canzone napoletana

Napoli, com cerca de 1 milhão de habitantes, é a terceira maior cidade da Itália, depois de Roma e Milão.

É um porto importante, bem como o principal centro industrial e comercial do sul do país. É, também, um centro turístico, pois nos seus subúrbios localizam-se o vulcão do monte Vesúvio, as ruínas de Pompeia e de Herculano, as ilhas de Capri e de Ísquia.

Parte histórica de Napoli
O clima é tipicamente mediterrânico, com invernos moderados e chuvosos, verões quentes e secos.
Vista panorâmica da cidade e o Vesúvio ao fundo
Mas é conhecida principalmente pela sua história, seus encantos naturais, por ser a terra natal da pizza, por sua música e teatro, pelo espírito festivo, irreverente e, ao mesmo tempo, briguento do seu povo.

“Villanella alla napoletana” é uma expressão popular conhecida na Itália, que significa bom humor e otimismo, bem como gosto pelo trabalho, porém associado à fartura, para que seus resultados sejam sempre comemorados de forma festiva.


Enfim, o povo napolitano é a cara da Itália: brincalhão, alegre, desbocado e de sangue quente.


É impossível falar de música popular italiana sem citar uma tradicional canção napolitana. A popular tarantella – composição musical associada à dança de mesmo nome – é apenas um dos vários gêneros locais.

Há registros de canções napolitanas do século XIII associadas à rica poesia trovadoresca da Provença, no sul da França.


A importância da música popular napolitana é tal que o dialeto local era a língua dos compositores do fim do século XIV.


No século XV apareceram as primeiras tarantellas. Nessa época também surgiu a “ópera buffa” – operetas sarcásticas de mal-dizer sobre política e costumes – que influenciou não só o canto, mas a teatralidade da música de Napoli.


Mesmo durante a Segunda Guerra Mundial foram compostas várias canções satíricas, mostrando que, como sempre, o povo napolitano consegue fazer humor mesmo nos momentos mais difíceis e trágicos.


Os instrumentos clássicos da canção napolitana são o bandolim, o violão, o calascione (uma espécie de baixo) e vários instrumentos de percussão só encontrados por lá (triccheballacche, tamorre, tamburelli, caccavella e outros).


Muito da história e sobrevivência das centenas de canções tradicionais napolitanas se devem ao talento e esforço do violonista, cantor e compositor Roberto Murolo (1912-2003).


Roberto Murolo
Graças às suas pesquisas e gravações, são ainda hoje fartamente ouvidas canções inesquecíveis – a maioria satíricas – como Anema e core, Funiculi funiculà (que, obviamente, trata de sacanagem), Lacreme napulitane, Luna rossa, Santa Lucia Luntana, O sole mio, À tazza e café, Torna a suriento, Tu vuo’ fa’ l’americano e muitas outras.

A seguir, Santa Lucia Luntana, com a voz e o violão de Murolo:



O próprio pai de Murolo – o poeta e “maestro” Ernesto Murolo – foi importante compositor de canções populares napolitanas.

Mas o início de carreira de Murolo não esteve associado às artes. Na juventude, ele foi importante esportista, tendo representado a Itália em provas internacionais de natação e atletismo.


Mais tarde, disse que sua capacidade pulmonar notável como cantor se devia à dedicação aos esportes quando jovem.


Estudou violão clássico. Suas primeiras performances como cantor e instrumentista foi tardia, com cerca de trinta anos, no grupo vocal Midas Quartet, inspirado no grupo norte-americano Mills Brothers.


O repertório: números jazzísticos para vaudeville e cabaret.


O grupo se deu melhor no exterior que na Itália. Durante a Segunda Guerra, o Midas Quartet tocou em teatros e clubes da Alemanha, Bulgária, Grécia, Hungria e Espanha.


Quando voltou para casa após a guerra, Murolo começou sua carreira solo como instrumentista.


Mas sua voz, quando falava ao microfone, causava impacto e logo passou a cantar algumas canções napolitanas tradicionais para distrair o público. O sucesso foi imediato.


Qual Bola de Nieve, quando teve de substituir às pressas a cantora Rita Montaner, durante um temporada de shows pelo México. O cubano, como Murolo, era então apenas instrumentista (tocava piano para a referida cantora).


Murolo adotou, desde o início da carreira de cantor, o critério de mesclar canções tradicionais com canções novas (algumas das quais de lavra própria), qual faz entre nós o cantor e também violonista João Gilberto.


Murolo, como Gilberto, tocava violão e cantava de forma intimista, embora a voz do italiano fosse grave. Suas gravações das antigas canções napolitanas têm roupagem que só se ouve sob sua voz e instrumento.


Entre suas primeiras gravações, duas canções sempre fizeram parte dos seus shows: Munasterio 'e Santa Chiara (Galdieri – Barberis), de 1945, e Scalinatella (Cioffi – Bonagura), de 1948.


Ouçam Munasterio è Santa Chiara com o próprio intérprete ao violão:



E Scalinatella:



Em pouco tempo a voz e o violão de Murolo chegaram às principais rádios italianas e ele se tornou um dos intérpretes mais populares do país. Participou de dezenas de filmes. Compôs temas musicais para o diretor Vittorio de Sica.


Atuou ao lado de grandes atores, como Amedeo Nazzari, Yvonne Sanson, Nilla Pizzi , Yves Montand , Giorgio Consolini e Gino Latilla.


Mas Murolo, apesar da aparência plácida nas fotografias, era um sujeito briguento,
como todo bom napolitano. Tinha inimigos dentro e fora do meio artístico.

Em 26 de outubro de 1954, um dos adversários armou-lhe uma armadilha daquelas e ele foi preso sob a denúncia de corromper menores.


O delator apresentou testemunhas e “provas” cuidadosamente plantadas, o que lhe custou a condenação a três anos e oito meses de prisão. À qual recorreu e, em novo julgamento, provou sua inocência.


Mas sabia que para um artista popular como ele, mesmo absolvido pairaria a suspeita de ter algo a ver com a grave suspeita de pedofilia. Acreditava que o estrago era irreparável.


Chocado e triste, decidiu abandonar a carreira. Para sua surpresa, uma grande rádio fez campanha nacional por sua volta e milhares de fãs escreveram à emissora para apoiá-lo. Figuras importantes do meio artístico também se posicionaram a seu favor.


O retorno do artista se deu num grande show, com a participação de vários artistas, o que comprovou para ele que seu país felizmente não engolira a artimanha da qual havia sido vítima.


A partir de meados dos anos 1950, Murolo se decidou a estudar o cancioneiro napolitano de 1200 até aquele momento, iniciando suas inesquecíveis gravações das canções recuperadas com ele na voz e no violão, acompanhado pelos solos do violonista Eduardo Caliendo.


O trabalho dos dois músicos resultou na série de discos Napoletana. Antologia cronológica de canções napolitanas, cujas gravações foram realizadas de 1956 a 1963.


Paralelo a esse trabalho de recuperação do acervo mais antigo de canções de sua terra, Murolo passou por período de intensa produção em parceria com vários músicos.


Alternava, assim, gravações do cancioneiro tradicional com canções atuais, que incluíam vários gêneros musicais, inclusive jazz, boleros e outros.

Em 1969, lançou uma antologia de canções napolitanas contemporâneas – A grande canção napotiliana –, com obras suas, de Salvatore Di Giacomo, Erneto Murolo (seu pai), Libero Bovio e E.A. Mario.


A partir de então, passou a produzir álbuns cada vez mais esporádicos, mas continuou a rotina de shows. Suas últimas apresentações ocorreram com mais de 80 anos.


Um dos grandes admiradores de Murolo no Brasil é Caetano Veloso, que gravou Luna Rossa, entre outras canções de seu repertório.



O guarracino e outras canções tradicionais recuperadas por Murolo


No geral, as letras de canções napolitanas são mais sofisticadas que as das canções brasileiras.


Somente letristas brasileiros com melhores conhecimentos de poesia, como Torquato Neto, Newton Mendonça, Caetano Veloso, Chico Buarque, Noel Rosa, Tom Zé e Lupicínio Rodrigues se aproximam da qualidade das letras do cancioneiro napolitano.


Uma das importantes canções recuperadas por Murolo foi a divertidíssima trova O guarracino (nome de um peixe), que vem do repertório da já citada “ópera buffa” – gênero de opereta satírica dos séculos XV e XVI.


O guarracino é uma das primeiras tarantellas de que se tem conhecimento.


Algumas “óperas buffas” foram escritas em variações do dialeto napolitano que já nem existem mais. Todas tratam de situações da vida cotidiana, com referências veladas (por causa da censura da época) a eventos políticos.


Os libretistas escreviam os textos e as letras das canções populares. Algumas “óperas buffas” eram representadas nas ruas, em locais públicos, clandestinamente, como o “teatro de guerrilha” dos anos 1960.


Avisados da chegada da polícia, os atores tinham de recolher o cenário às pressas e se esconderem para não serem presos.


O autor de O guarracino é desconhecido. O texto narra o amor entre guarracino (o referido peixe) e uma sardinha, que era namorada de outro peixe. O peixe concorrente, que é ciumento, desencadeia uma briga entre facções adversas de peixes.


O significado literal provavelmente se refere a alguns personagens reais, pessoas de carne e osso da época, representadas pelos peixes.


Postarei a canção na íntegra para que tenham ideia da riqueza das aliterações, assonâncias e jogos de palavras do cancioneiro napolitano, os quais são reproduzidos com perfeição por Murolo – embora a qualidade da gravação disponível seja horrível.


É dificílimo repetir todas as variações fonéticas da letra. A canção é um “travalínguas” (brincadeiras populares com jogos de palavras bolados para confundir que tentar reproduzi-los).


As letras das antigas canções napolitanas trazem, séculos depois, aspectos da riqueza da poesia trovadoresca provençal, da qual se originou.


Lembrem-se de que a poesia provençal preponderou entre os séculos XI e XIII, tendo influenciado grande poetas italianos como Dante Alighieri, Guido Cavalcanti e Francesco Petrarca. Postei vários artigos sobre grandes poetas provençais neste blog.


A seguir, o link para ouvir a canção, seguido da longa letra na íntegra. Observem que a letra tem forte apelo teatral, já que foi composta para uma representação cênica.


A qualidade da gravação disponível pelo Youtube, como já disse, é sofrível, ainda assim é preferível ouvir a de Roberto Murolo do que as outras disponíveis.



O guarracino


Lo Guarracino che jeva pe mare
le venne voglia de le ‘nzorare,
se facette no bello vestito
de scarde de spine pulito pulito
cu na perucca tutta ‘ngrifata
de ziarelle ‘mbrasciolata,
co lo sciabò, scolla e puzine
de ponte angrese fine fine.


Cu li cazune de rezze de funno,
scarpe e cazette de pelle de tunno,
e sciammeria e sciammereino
d’aleche e pile de voje marino,
co buttune e bottunera
d’uocchie de purpe, secce e fera,
fibbia, spata e schiocche ‘ndorate
de niro de secce e fele d’achiate.


Doje belle cateniglie
de premmone de conchiglie,
no cappiello aggallonato
de codarino d’aluzzo salato,
tutto posema e steratiello,
ieva facenno lu sbafantiello
e gerava da ccà e da llà;
la ‘nnammorata pe se trovà!


La Sardella da lu Barcone
steva sonanno lo calascione;
e a suono de trommetta
ieva cantanno st’arietta:
«E llarè lo mare e lena
e la figlia da sià Lena
ha lasciato lo nnamorato
pecché niente l ha rialato».


Lo Guarracino ‘nche la guardaje
de la Sardella se ‘nnamoraje;
se ne jette da na Vavosa
la cchiù vecchia maleziosa;
l’ebbe bona rialata
pe mannarle la mmasciata:
la Vavosa pisse pisse
chiatto e tunno nce lo disse.


La Sardella ‘nch’a sentette
rossa rossa se facette,
pe lo scuorno che se pigliaje
sotto a no scuoglio se ‘mpizzaje;
ma la vecchia de la Vavosa
subbeto disse: «Ah schefenzosa!
De sta manera non truove partito
‘ncanna te resta lo marito.


Se aje voglia de t’allocà
tanta smorfie nonaje da fa;
fora le zeze e fora lo scuorno,
anema e core e faccia de cuorno».
Ciò sentenno la sié Sardella
s’affacciaje a la fenestrella,
fece n’uocchio a zennariello
a lo speruto ‘nnammoratiello.


Ma la Patella che steva de posta
la chiammaje faccia tosta,
tradetora, sbrevognata,
senza parola, male nata,
ch’avea ‘nchiantato l’Alletterato
primmo e antico ‘nnamorato;
de carrera da chisto jette
e ogne cosa ‘lle dicette.


Quanno lo ‘ntise lo poveriello
se lo pigliaje Farfariello;
jette a la casa e s’armaje e rasulo,
se carrecaje comm’a no mulo
de scopette e de spingarde,
povere, palle, stoppa e scarde;
quattro pistole e tre bajonette
dint’a la sacca se mettette.


‘Ncopp’a li spalle sittanta pistune,
ottanta mbomme e novanta cannune;
e comm’a guappo Pallarino
jeva trovanno lo Guarracino;
la disgrazia a chisto portaje
che mmiezo a la chiazza te lo ‘ncontraje:
se l’afferra po crovattino
e po lle dice: “Ah malandrino!


Tu me lieve la ‘nnammorata
e pigliatella sta mazziata”.
Tuffete e taffete a meliune
le deva paccare e secuzzune,
schiaffe, ponie e perepesse,
scoppolune, fecozze e conesse,
scerevecchiune e sicutennosse
e ll’ammacca osse e pilosse.


Venimmoncenne ch’a lo rommore
pariente e amice ascettero fore,
chi co mazze, cortielle e cortelle,
chi co spate, spatune e spatelle,
chiste co barre e chille co spite,
chi co ammennole e chi co antrite,
chi co tenaglie e chi co martielle,
chi co torrone e sosamielle.


Patre, figlie, marite e mogliere
s’azzuffajeno comm’a fere.
A meliune correvano a strisce
de sto partito e de chillo li pisce
Che bediste de sarde e d’alose!
De palaje e raje petrose!
Sarache, dientece ed achiate,
scurme, tunne e alletterate!


Pisce palumme e pescatrice,
scuorfene, cernie e alice,
mucchie, ricciole, musdee e mazzune,
stelle, aluzze e storiune,
merluzze, ruongole e murene,
capodoglie, orche e vallene,
capitune, auglie e arenghe,
ciefere, cuocce, tracene e tenghe.


Treglie, tremmole, trotte e tunne,
fiche, cepolle, laune e retunne,
purpe, secce e calamare,
pisce spate e stelle de mare,
pisce palumme e pisce prattielle,
voccadoro e cecenielle,
capochiuove e guarracine,
cannolicchie, ostreche e ancine,


vongole, cocciole e patelle,
pisce cane e grancetielle,
marvizze, marmure e vavose,
vope prene, vedove e spose,
spinole, spuonole, sierpe e sarpe,
scauze, nzuoccole e co le scarpe,
sconciglie, gammere e ragoste,
vennero nfino co le poste.


Capitune, saure e anguille,
pisce gruosse e piccerille,
d’ogni ceto e nazione,
tantille, tante, cchiu tante e tantone!
Quanta botte, mamma mia!
Che se devano, arrassosia!
A centenare le barrate!
A meliune le petrate!


Muorze e pizzeche all’Alletterato!
A delluvio li secozzune!
Non ve dico che bivo fuoco
se faceva per ogne luoco!
Ttè, ttè, ttè, ccà pistulate!
Ttà, ttà, ttà, ccà scoppettate!
Ttù, ttù, ttù, ccà li pistune!
Bu, bu, bu, llà li cannune!


Ma de cantà so già stracquato
e me manca mo lo sciato;
sicché dateme licienzia,
graziosa e bella audenzia,
nfi che sorchio na meza de seje,
co salute de luje e de leje,
ca se secca lo cannarone
sbacantánnose lo premmóne.


Na sequência, outras canções tradicionais recuperadas por Roberto Murolo.


A linda Luna rossa, agora com a voz e violão de Murolo:

O zampugnaro nnammurato:


O marenariello:


Malafemmena:


Reginella:


Lu cardillo:


Casa sulitaria:


N accordo in fa
:


Por fim, uma canção do próprio Murolo com arranjo contemporâneo:
Ammore scumbinato.

Língua napolitana


O napolitano é uma língua românica, falada na cidade e na região de Napoli (Campânia) e também em parte do sul da Itália, incluindo algumas zonas do Lácio, Abruzos, Molise, Basilicata, norte da Calábria, e o norte e centro de Apúlia.


Estimativas mais recentes mostram que cerca de 8 milhões de italianos falam napolitano.


As diversas variações desta língua incluem o napolitano típico, o irpino, o cilentano, o lacial meridional, o molisano, o dauno-apenínico, o gargânico, o ápulo-barês, o lucano norocidental, o lucano nororiental, o lucano central, o arcaico lucano-calabresa e o calabrês setentrional.


Mas todos são mutuamente inteligíveis com o napolitano.


O napolitano e o italiano não são totalmente compreensíveis, com algumas diferenças gramaticais, como os substantivos em sua forma neutra e em seu plural.


Muitas construções e palavras em napolitano (assim como ocorre com o catalão e o provençal) são mais próximas do nosso português que o idioma italiano.

A evolução do napolitano foi similar à do Italiano e das outras línguas românicas desde suas raízes do latim vulgar.


Existe uma rica história literária, musical e teatral em napolitano.


A língua não tem estatuto legal dentro da Itália, de modo que não pode ser ensinada em escolas do Estado.


Existem esforços para mudar esta situação, incluindo uma tentativa de incluir o napolitano no currículo da Università Federico II, em Napoli.


Mas esta tentativa foi recusada com a justificativa de o napolitano ser uma língua de "menor importância".


Existem também tentativas legislativas de seu reconhecimento como uma língua de minoria.
Em situação similar se encontram o provençal, falado na região sudeste da França, e o catalão, falado na região da Catalunha, Espanha.

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