sábado, 30 de maio de 2015

Soul Brasil

Patriotada é treta. O Brasil é a minha, a tua, a nossa cara. Ou pelo menos a maneira mais prática de mostrá-la. Mundo aqui ou mundo afora, somos sempre nós mesmos. Por isso, soul Brasil.

Falam do Tim Maia como um pai do balanço soul cá entre nós. Por conta de sua estadia na Gringolândia, no início dos anos 1960, numa época em que o ritmo rolava quente por lá. E também porque Tim é Tim. Dispensa apresentações.



Grande Tim
O soul nasceu de elementos do rhythm’n’blues e do gospel no final da década de 1950.

Como outros ritmos curtidos ou inventados pela negrada da Griongolândia nos idos anos 1960, o soul refletiu as questões preponderantes para a comunidade de afrodescendentes: luta antirracial (violenta na época), drogas, criminalidade, movimentos antiguerra, etc.


Mas no geral era uma música alegre, intensa, altamente envolvente, emotiva e sensual. Propícia para a dança em curtição coletiva.


Sempre ornamentada por improvisos vocais, instrumentais e novos passos de dança. E sob forte variação rítmica. cujas passagens quase sempre eram marcadas por metais (instrumentos de sopro).


Outra de suas características importantes era o “diálogo” entre o cantor solista e o grupo vocal. Daí por que surgiram vários cantores tiveram os nomes associados aos seus vocais.


Como o do noviorquino Thomas August Darnell Browder, conhecido como Kid Creole (ele próprio) and the Coconuts (suas vocalistas).


A música soul também veio com um peso instrumental poderoso. Normalmente os cantores eram acompanhados por uma banda composta de vários naipes rítmicos e de metais, ao estilo das antigas big bands do jazz.


As canções tinham refrões marcantes. No Brasil, tanto Tim Maia quanto Jorge Benjor foram criadores de inesquecíveis refrões.


Uma das vertentes de origem do soul foi a tradicional música gospel norte-americana, mesclada ao rithim’n’blues. Da qual provêm grandes artistas como Ben E. King, Ray Charles, Solomon Burke, Jackie Wilson e Sam Cooke.


A seguir, os principais hits do pianista, cantor e compositor Ray Charles.



Outra vertente veio dos negrões que inventaram o rock’n’roll: Little Richard e Chuck Berry, principalmente.

A seguir, Chuck Berry canta sua balada Johnny B. Good, de 1955.

 

Quando Tim Maia aportou (e aprontou) nos EUA, a música soul não só era a mais popular entre negros, como já tinha numerosos ouvintes brancos por todo o mundo, inclusive no Brasil.

Aretha Franklin, Esther Phillips e James Brown arrebentavam nos palcos e nas rádios. No vácuo dos quais mais tarde veio Stevie Wonder.


A seguir, James Brown canta Sex machine, por ele composta em 1970.



A seguir, Aretha Franklin canta A say a litle prayer, de Burt Bacharach e Hal David, em show ao vivo de 1970:


A seguir, Stevie Wonder canta a linda balada The secret life of plants, de 1979.




Outros importantes músicos também se destacaram no mundo soul. Entre eles Bobby Bland, Otis Redding, Wilson Pickett e Joe Tex.

A seguir, Redding canta a melódica Sittin' on, de 1967:




Apesar de todo o sucesso dos Beatles e dos Rolling Stones, o soul invadiu Londres com tudo e contaminou dezenas de músicos brancos.

Quem ouvisse a voz e os trejeitos dramáticos de Eric Burdon, vocalista do The Animals, sem saber que ele era um baixinho inglês branco, diria na lasca: é um negrão.


A seguir, Burdon interpreta a canção Devil run, do álbum Soul of a man, de 2006.




Mais tarde os Rolling Stones entrariam firme na onda dançante do soul, com Miss you, Brown sugar e outros hits.



Voltemos a Tim Maia e ao soul Brasil...



segunda-feira, 25 de maio de 2015

Louis-Ferdinand Céline, o proscrito

A literatura francesa é pródiga de grandes autores avessos ao consenso. E, por isso, estigmatizados como marginais e malditos.

Um deles foi o canoro das putas, dos pequenos ladrões e dos assassinos François de Villon (1431-1463). Que também foi um poeta de primeira e um dos últimos mestres chansonère da tradição satírica provençal.

François Rabelais (1494-1553), criador das grandes novelas picarescas Pantagruel e Gargântua, foi outro. Exalava escatologia até pelos poros.

Rabelais é pouco conhecido entre nós como poeta. Artesão de técnicas de impressão, produziu poesia visual, que inspiraria um século depois os autores barrocos e, nos tempos modernos, tendências como o concretismo.

Os poetas simbolistas Lautréamont (1846-1870), Arthur Rimbaud (1854-1891), Paul Verlaine (1844-1896) e Tristan Corbière (1845-1875) morreram à margem da cultura francesa. Apenas Verlaine teve algum reconhecimento em vida.

Alfred Jarry (1883-1907) era quase um fora da lei. Misto de pensador utopista (criou a patafísica, a “ciência das invenções imaginárias”), foi poeta, romancista e importante dramaturgo.

Viveu com o desprendimento dos beatnicks norte-americanos, que apareceriam meio século depois, com sua bicicleta, seu revólver e seu absinto.

Da mesma forma que já Jarry viveu seu contemporâneo Raymond Roussel (1877- 1933), escritor, teatrólogo e pintor de escola indefinida.

Com seu caráter imprevisível e desconcertante – mesmo para os ambientes mais liberais de Paris – e sua poesia de alta elaboração linguística.

Jean Genet (1910-1986), poeta e dramaturgo de origem marginal, era filho de prostituta, ladrão e homossexual violento. Não fosse Jean-Paul Sartre, que o estimulou a escrever enquanto se encontrava preso, talvez nem tivesse se revelado para a literatura.

Entre tantos franceses que foram não só cobras venenosas, mas cobras das letras, há Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), um sujeito que esteve à beira de ser linchado ou mandado para o paredão de fuzilamento por seus conterrâneos.

Lois-Ferdinand Céline
Nos vários textos escritos por intelectuais contra ele há toda uma diversidade de adjetivos nada elogiosos.

“Truculento”, “cínico”, “grosso”, “amoral”, “obsceno”, “demente”, “louco”, “visionário”, “monstro”,  “reacionário”, “racista”, “pró-nazista”, “antissemita”, “tarado”, “criminoso”, “pornográfico”, “paranoico”, etc.

No entanto, é o mais inventivo prosador francês depois de Marcel Proust (1871-1922) e o único, da era moderna, a fazer páreo à prosa revolucionária em língua inglesa de James Joyce (1882-1941)...

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O voo fatal do elétrico guitarrista de blues Stevie Ray Vaughan

Na madrugada de 27 de agosto de 1990, o texano Stevie Ray Vaughan (nascido em 1954) realizou o último show de sua vida ao lado de alguns dos principais amigos: Robert Cray, Buddy Guy, Eric Clapton e seu irmão Jimmy Vaughan.

Poucas horas depois, quando amanheceu, foi morto quando seu helicóptero se acidentou na espessa neblina, próximo do local do show, na pequena cidade de East Troy, Wiscosin.


Stevie Vaughan foi um dos músicos mais influentes dos anos 1980. Era o líder da célebre banda Double Trouble.


Stevie Ray Vaughan
Apareceu no cenário musical como um meteoro.

Ninguém imaginava que pudesse surgir alguém comparável a Jimi Hendrix como virtuose da guitarra. Entretanto apareceu Stevie Vaughan, um caipira do Texas.

Sempre com botas de salto alto, roupas ridículas e o inseparável chapéu preto. Mas tão bom instrumentista, compositor e cantor quanto Hendrix. E carisma similar.

Também tão doidão quanto o outro.



Imagens de Hendrix e Vaughan sobrepostas
Stevie Vaughan correu risco de morte várias vezes por causa das drogas.

Um mês antes de se acidentar, quando tocara na Suíça, teve uma overdose em plena rua. Foi levado a um hospital, reanimado, mas o médico o advertiu que não poderia mais fazer uso do aditivo de sua predição: a cocaína.


Teria de se manter limpo e sóbrio. Vinha seguindo um difícil programa de desintoxicação, com uma ou outra recaída. Sua saúde melhorou, voltou a ensaiar e a tocar divinamente bem.



Vaughan e Clapton
Segundo Clapton, que o convidara para aquele show, Stevie estava em seu melhor momento.

Apenas o chapéu preto foi reconhecido entre os destroços do helicóptero após a explosão...


sábado, 2 de maio de 2015

O qorpo maiz stranho da ludoteratura naceonal


Quando Glauber Rocha adotou uma nova forma de escrever alterando a ortografia
– substituía, por exemplo, a letra i por y quando em sílabas tônicas ou subtônicas
houve quem acusasse aquilo como mais uma prova de que o cineasta estava doido.

Glauber sofria com esse tipo de desqualificação, parte dela vinda dos próprios colegas do Cinema Novo, gente de esquerda com a cabecinha cartesiana de sempre, a qual não aceitava as opiniões pouco ortodoxas do cineasta baiano sobre a política nacional.


Glauber adorava poesia e música. Tinha bom ouvido musical e conhecimento sobre técnicas de poesia. Seus textos eram evocativos, dramáticos. Ele escrevia como falava, com toda intensidade característica de sua personalidade. Aquelas mudanças ortográficas eram para enfatizar isso.

Qorpo-Santo, como Glauber, procurou reinventar o idioma
Qual seja, tratava-se de um modo de escrever poético, mesmo que o texto não fosse propriamente poesia.

O mesmo disseram os intelectuais burocratas do regime soviético, no início do século XX, sobre Velímer Khliébnikov e outros poetas cubo-futuristas russos, dentre eles Vladimir Maiakóvski, quando inventaram a "linguagem transmental" zaúm.


Foram todos taxados de loucos, de "incompreensíveis para as massas".

Velimer Khliébnikov
James Joyce também foi chamado de doido por sua última e mais radical obra, Finnegans wake, na qual funde ao idioma inglês dezenas de outras línguas.

Antes de Joyce, o poeta inglês Gerard Manley Hopkins já havia estraçalhado o mesmo idioma de sua pátria a seu modo.


Gerard Manley Hopkins
Transformações das línguas por motivação estética são uma tradição tão antiga quanto a própria literatura. O poeta alemão barroco Qurinus Kuhlmann, por exemplo, fizera dela a marca de sua poesia no século XVII.

No Brasil também temos vários exemplos.


O poema épico Creação universal (1856), do poeta piauiense Leonardo Castello-Branco, publicado em 1856, mescla temas bíblicos com mitologia e ficção científica numa forma própria de escrever, também rejeitada na época.


Este foi o comentário de um conceituado crítico da capital federal (Rio de Janeiro) no ano em que a obra foi lançada: “Um livro ilegível, sem elevação de estilos, sem arte, cheio de pueridades. Não tem uma página, uma linha que possa merecer a posteridade.”

O nome do tal crítico é que não merece qualquer referência nos nossos dias. A obra de Castello-Branco, ao contrário, precisa ser recuperada.

Outro exemplo é o belíssimo poema Guesa errante, também épico, do seu vizinho maranhense Joaquim de Sousa Andrade, autodenominado Sousândrade, publicado em 1866.

A passagem chamada O inferno de Wall Street mescla ao português o inglês das ruas de Nova York no final do século XIX com idiomas indígenas, latim e espanhol.

Vejam a respeito do poeta maranhense o ótimo livro ReVisão de Sousândrade, de Augusto e Haroldo de Campos.

Sousândrade
Sousândrade morava em Nova York quando o escrevceu. Era republicano. Com a proclamação da República, retornou ao Maranhão, onde foi ignorado por todos e morreu na miséria.

Um pouco mais tarde, tivemos os idiotismos introduzidos por Oswald de Andrade nos romances Serafim Ponte Grande e
Memórias sentimentais de João Miramar, e de Mário de Andrade em Macunaíma. E, sobretudo, os de Guimarães Rosa no conjunto de sua obra.

Oswald de Andrade
Até no samba tivemos exemplos de deformações inventivas do idioma. Ouçam o genial Gago apaixonado, de Noel Rosa.



Mas um dos mais ousados e originais "deturpadores" do idioma foi a figura ímpar do poeta, dramaturgo, tipógrafo, jornalista, romancista e gramático gaúcho José Joaquim de Campos Leão (1829-1883), autodenominado Qorpo-Santo.


Qorpo-Santo não nos deixou apenas invenções linguísticas. Assim como os nomes acima citados, foi um dos autores mais inventivos da literatura brasileira. Um dos nossos melhores dramaturgos, ao lado de Nelson Rodrigues e Oswald de Andrade.


Sua obra satírica, avançada até para os nossos dias, compreende, além da dramaturgia, poesia, romances, ensaios sobre educação, política, filosofia e sua principal área de conhecimento: a gramática.


Mas sua vida, como a dos seus contemporâneos Leonardo Castello-Branco e Sousândrade, não foi nada fácil...