sábado, 2 de maio de 2015

O qorpo maiz stranho da ludoteratura naceonal


Quando Glauber Rocha adotou uma nova forma de escrever alterando a ortografia
– substituía, por exemplo, a letra i por y quando em sílabas tônicas ou subtônicas
houve quem acusasse aquilo como mais uma prova de que o cineasta estava doido.

Glauber sofria com esse tipo de desqualificação, parte dela vinda dos próprios colegas do Cinema Novo, gente de esquerda com a cabecinha cartesiana de sempre, a qual não aceitava as opiniões pouco ortodoxas do cineasta baiano sobre a política nacional.


Glauber adorava poesia e música. Tinha bom ouvido musical e conhecimento sobre técnicas de poesia. Seus textos eram evocativos, dramáticos. Ele escrevia como falava, com toda intensidade característica de sua personalidade. Aquelas mudanças ortográficas eram para enfatizar isso.

Qorpo-Santo, como Glauber, procurou reinventar o idioma
Qual seja, tratava-se de um modo de escrever poético, mesmo que o texto não fosse propriamente poesia.

O mesmo disseram os intelectuais burocratas do regime soviético, no início do século XX, sobre Velímer Khliébnikov e outros poetas cubo-futuristas russos, dentre eles Vladimir Maiakóvski, quando inventaram a "linguagem transmental" zaúm.


Foram todos taxados de loucos, de "incompreensíveis para as massas".

Velimer Khliébnikov
James Joyce também foi chamado de doido por sua última e mais radical obra, Finnegans wake, na qual funde ao idioma inglês dezenas de outras línguas.

Antes de Joyce, o poeta inglês Gerard Manley Hopkins já havia estraçalhado o mesmo idioma de sua pátria a seu modo.


Gerard Manley Hopkins
Transformações das línguas por motivação estética são uma tradição tão antiga quanto a própria literatura. O poeta alemão barroco Qurinus Kuhlmann, por exemplo, fizera dela a marca de sua poesia no século XVII.

No Brasil também temos vários exemplos.


O poema épico Creação universal (1856), do poeta piauiense Leonardo Castello-Branco, publicado em 1856, mescla temas bíblicos com mitologia e ficção científica numa forma própria de escrever, também rejeitada na época.


Este foi o comentário de um conceituado crítico da capital federal (Rio de Janeiro) no ano em que a obra foi lançada: “Um livro ilegível, sem elevação de estilos, sem arte, cheio de pueridades. Não tem uma página, uma linha que possa merecer a posteridade.”

O nome do tal crítico é que não merece qualquer referência nos nossos dias. A obra de Castello-Branco, ao contrário, precisa ser recuperada.

Outro exemplo é o belíssimo poema Guesa errante, também épico, do seu vizinho maranhense Joaquim de Sousa Andrade, autodenominado Sousândrade, publicado em 1866.

A passagem chamada O inferno de Wall Street mescla ao português o inglês das ruas de Nova York no final do século XIX com idiomas indígenas, latim e espanhol.

Vejam a respeito do poeta maranhense o ótimo livro ReVisão de Sousândrade, de Augusto e Haroldo de Campos.

Sousândrade
Sousândrade morava em Nova York quando o escrevceu. Era republicano. Com a proclamação da República, retornou ao Maranhão, onde foi ignorado por todos e morreu na miséria.

Um pouco mais tarde, tivemos os idiotismos introduzidos por Oswald de Andrade nos romances Serafim Ponte Grande e
Memórias sentimentais de João Miramar, e de Mário de Andrade em Macunaíma. E, sobretudo, os de Guimarães Rosa no conjunto de sua obra.

Oswald de Andrade
Até no samba tivemos exemplos de deformações inventivas do idioma. Ouçam o genial Gago apaixonado, de Noel Rosa.



Mas um dos mais ousados e originais "deturpadores" do idioma foi a figura ímpar do poeta, dramaturgo, tipógrafo, jornalista, romancista e gramático gaúcho José Joaquim de Campos Leão (1829-1883), autodenominado Qorpo-Santo.


Qorpo-Santo não nos deixou apenas invenções linguísticas. Assim como os nomes acima citados, foi um dos autores mais inventivos da literatura brasileira. Um dos nossos melhores dramaturgos, ao lado de Nelson Rodrigues e Oswald de Andrade.


Sua obra satírica, avançada até para os nossos dias, compreende, além da dramaturgia, poesia, romances, ensaios sobre educação, política, filosofia e sua principal área de conhecimento: a gramática.


Mas sua vida, como a dos seus contemporâneos Leonardo Castello-Branco e Sousândrade, não foi nada fácil...



A trajetória de Qorpo-Santo foi, desde de cedo, turbulenta.

Deixou o vilarejo de Triunfo, interior do Rio Grande do Sul, após o assassinato do pai em uma emboscada em 1839, e partiu para Porto Alegre, a fim de estudar gramática e conseguir emprego na capital, pois se tornara arrimo da família.


Em Porto Alegre, trabalhou no comércio e habilitou-se para o exercício do magistério.


Em 1851, criou seu primeiro grupo de teatro. Na mesma época iniciou suas atividades como jornalista.


Após se formar, passou a dar aulas em vários colégios.


A certa altura mudou-se para Alegrete, cidade situada a mais de 500 quilômetros da capital, onde fundou sua própria instituição de ensino. Não se sabe como, nesta cidade conciliou as funções de educador com os cargos públicos de delegado de polícia e de vereador.


Ao ser abandonado pela esposa em 1861, sua vida passou por nova reviravolta.


Retornou a Porto Alegre, onde prosseguiu a carreira de professor, jornalista e diretor de teatro. Começou também a escrever os nove volumes de sua Ensiqlopèdia ou seis mezes de huma enfermidade, na qual reuniu toda sua obra.


Caricatura dele apoiado num volume da Ensiqlopèdia
Comprou uma gráfica para publicar seu jornal de sátira política, A Justiça, e os volumes da Ensiqlopédia.

Tal como ocorreu com Glauber Rocha em nossos dias, a capacidade inventiva de Qorpo-Santo foi tachada de "loucura" pelos seus contemporâneos. Proibiram-no de dar aulas e, por fim, foi interditado judicialmente a pedido da ex-esposa e dos filhos.


No documento no qual se baseia sua interdição são feitas referências aos seguintes sintomas da doença: "monomania", "superexcitação de atividade cerebral" e "compulsão por escrever".


Qorpo-Santo não aceitou calado o seu enquadramento psiquiátrico. Defendeu-se como pôde para comprovar que não era maluco.


Recorreu ao testemunho de professores, jornalistas, gramáticos e escritores de Porto Alegre que o respeitavam. Mas o juiz continuou insensível aos seus apelos.


Alguns médicos da capital gaúcha lhe deram razão e seu caso adquiriu notoriedade na província. Decidiu então recorrer à capital federal, Rio de Janeiro, para ser examinado por médicos da corte, os quais não endossaram sua interdição judicial.


Apesar da liberação pelos médicos considerados os maiores especialistas em saúde mental da época e do salvo conduto de João Vicente Torres Homem, médico pessoal do Imperador Dom Pedro II (o qual atestou "o paciente goza de boa saúde mental"), o juiz de Porto Alegre manteve a interdição.


O subtítulo de sua Ensiqlopèdia – "seis mezes de huma enfermidade" – é uma referência ao período conturbado em que investiu todos os esforços possíveis para comprovar que não era doente mental.


Mas o estigma já estava posto e o autor se viu cada vez mais isolado e rotulado. Perdeu toda a credibilidade, teve de fechar o jornal e vender a gráfica. Por fim, passou por dificuldades financeiras e morreu de tuberculose.


Toda a obra de Qorpo-Santo se encontra reunida na Ensiqlopèdia, editada em nove volumes pelo próprio autor em sua gráfica, dos quais só seis chegaram aos nossos dias.


A grafia da Ensiqlopèdia surgiu de uma reforma ortográfica proposta pelo autor e defendida em artigo no seu jornal, A Justiça, em 23 de outubro de 1868. Dessa reforma é que também surgiu a grafia para o seu nome literário: Qorpo-Santo.


O escritor, em seus textos, algumas vezes seguia seu projeto ortográfico e em outras a ortografia da época.


O impacto causado pela produção revolucionária de Qorpo-Santo na província riograndense foi muito além de suas invenções linguísticas.


Um de seus romances foi o primeiro da história da literatura brasileira a ter como trama central o amor romântico entre dois homens – o segundo é Grandes sertões: veredas, de Guimarães Rosa.


Noutro romance, Qorpo-Santo colocou um homem negro como o herói do enredo.

Além das montagens realizadas pelo próprio autor, nenhuma de suas peças foi encenada por outros diretores de sua época.


Assim como ocorreu com os poetas Leonardo Castelo-Branco e Sousândrade, o autor gaúcho morreu sem nenhum reconhecimento do valor de sua obra por seus contemporâneos.


Só seria valorizado a partir dos anos 1960, quando várias de suas peças foram encenadas. A crítica teatral brasileira do período as considerou precursoras do "teatro do absurdo" do romeno Eugène Ionesco, do irlandês Samuel Beckett e do espanhol Fernando Arrabal.


Eugène Ionesco
Samuel Beckett
Fernando Arrabal
O texto fragmentado, satírico e paródico de Qorpo-Santo retrata cenas prosaicas do cotidiano, colorindo-as com tons de um universo nonsense e satírico, por onde trafegam personagens alegóricos, sem uma linha lógica de ação, tempo e espaço.

Assim como no discurso de Glauber Rocha, há na sua dramaturgia um forte foco na representação, na cena propriamente dita. Suas rubricas são muito detalhadas, sugerindo aspectos complementares aos diálogos para possíveis atores e encenadores.


As imagens construídas vêm a partir da palavra falada, do discurso proferido, da narração das cenas de forma distanciada. Abarcam sentidos antagônicos num fluxo ininterrupto de ações não lineares que exigem do espectador atenção contínua entre o que se diz e o que se faz em cena.


Prepondera na dramaturgia de Qorpo-Santo a ideia do labirinto. Dentro desse contexto, há um propositado fluxo babélico, de confusão de línguas e discursos que parecem desencontrados.


Sua obra dramática destoa de tudo que era produzido no Brasil do século XIX e é muitíssimo mais avançada que a dos seus contemporâneos Martins Pena e José de Alencar.


Relações naturaes, de 1866, por exemplo, apresenta prostitutas como personagens, algo inaceitável para o teatro brasileiro da época.


Ainda em Relações naturaes, Qorpo-Santo usa de imagens surreais, como a de personagens que perdem partes do corpo no decorrer da peça.


Em comparação à dramaturgia brasileira do século XIX, seus enredos não tinham pé nem cabeça. Personagens apareciam e desapareciam com rapidez meteórica. A linguagem era violenta, mordaz, direta.


Com frequência as falas não se articulavam logicamente, ganhando uma poeticidade bem ao gosto moderno, mais uma vez associável ao discurso de Glauber Rocha, em especial dos seus últimos filmes: Leão de sete cabeças, DiGlauber e Idade da terra.


No livro Qorpo-Santo – Surrealismo ou absurdo (editora Perspectiva), o pesquisador Eudinyr Fraga associou-o ao surrealismo, como já ocorrera com o francês Alfred Jarry, figura totalmente desvinculadas das correntes literárias de sua época.


Mas há estudiosos da obra de Qorpo-Santo que questionam se não seria o caso de reconciliar o autor com a tradição brasileira.


Sustentam que seu teatro estava ancorado na tradição teatral brasileira do século XIX, na comédia de costumes, no teatro realista, sobretudo nas farsas portuguesas de Antonio José, o Judeu, que na época eram consideradas parte do teatro brasileiro.


Sinceramente, tais considerações não me parecem oportunas.


Outros o associam à tradição do romantismo jocoso, de humor negro, que remete principalmente ao norte-americano Edgar Allan Poe e ao francês Charles Baudelaire.


Também não me parece o caso. Continuo achando que Qorpo-Santo foi um autor dos mais peculiares, como o citado Alfred Jarry, indissociável a qualquer corrente ou influência do seu tempo.


Alfred Jarry
Ensiqlopèdia

A Ensiqlopèdia ou Seis mezes de huma enfermidade, conforme já observado, era composta por nove volumes impressos pelo próprio Qorpo-Santo, a partir de 1877, em sua tipografia. Os quais reuniram toda sua diversa produção.


Desta coleção são conhecidos seis volumes, que estão disponíveis para leitura, na íntegra, em versão fac-similar, no site da biblioteca da PUCRS (www.pucrs.br/biblioteca/qorposanto).


Volume 1 – Poesia e proza.


Volume 2 – Pensamentos e poemas.


Volume 3 – (não foi encontrado nenhum exemplar)


Volume 4 – Romances e as seguintes comédias: Matheus e Matheuza; Relações naturaes; Hoje sou hum e amanhã outro; Eu sou vida, eu não sou morte; A separação de dois espozos; O marido extremozo ou o pai cuidadozo; Hum credor da fazenda nacional; Hum assovio; Lanterna de fogo; Certa entidade em busca de outra; Uma pitada de rapé; Hum parto; O hóspede atrevido ou O brilhante escondido; A impossibilidade da santificação ou A santificação transformada; O marinheiro escriptor; Duas pajinas em branco; Dous irmãos: notas para uma comédia.


Volume 5 – (não foi encontrado nenhum exemplar)


Volume 6 – (não foi encontrado nenhum exemplar)


Volume 7 – Justiça e saúde (ensaios).


Volume 8 – Micelânia qurioza (ensaios sobre educação, filosofia, costumes e gramática)


Volume 9 – Pelas próprias palavras do autor:

"Interpretaçoes de pontos qe parecem qcontraditorios no novo testamento de nosso senhor Jezusqristo. Alguns pençamentos esqritos por mim nestes últimos tempos. Restos qe qreio, julgo ou pênso não terem sido impreços em algum dos meus oito livros."
Clique aqui para acessar os textos na íntegra da Enziqlopèdia.

Obras de Qorpo Santo disponíveis no portal Domínio Público.


Poesia

Apenas como exemplo do nonsense e da veia satírica do autor, em alguns momentos muito próximos do estilo sincrético e entrecortado do simbolista francês Tristan Corbiére, seguem alguns versos extraídos do livro Poemas de Qorpo-Santo, organizado por Denise Espírito Santo e publicado pela editora Contracapa.

Tripas

Chiam-se as tripas,
Quais as fritas
Em frigideiras
Carnes terneiras!
Ou qual caldeirão
De grão camarão,
Ao fogo fervendo,
Barulho fazendo!

Ou qual de água,
Mareta em praia,
Sempre rolando,
Rumores causando!

Ou qual o vapor
Águas sulcando!
Águas saltando,
Rodas molhando!

Ou qual de vapor
Grande estridor,
Águas sulcando
As rodas saltando!

Livros

Se os meus livros – abrires,
Muito acharás – para rires;
Muito também tem – para chorar;
E muitíssimo – pra lamentar!
Algum tanto há que aprender;
E muito talvez para saber!

Vida moral

Estou sempre estudando,
Estou sempre gozando,
Estou sempre nadando
Em mares extensos,
Em mares suspensos,
Em mares imensos

Mulheres extravagantes

Só sabem gastar;
Não sabem encher,
Ao fogo botar
– Panela a ferver!

Só sabem comer,
Não sabem fazer:
Ao fogo botar
Arroz temperar!

Só sabem sujar,
Não sabem lavar;
A roupa bater,
E branca fazer!

Só sabem beber:
Não sabem encher,
Ou potes botar
De água a fartar!

Sabem servir-se
- Facas, colheres,
Estas mulheres
E depois, rir-se.

Deixando ficar
Na cinza; criar
Grossa ferrugem,
Que as mãos sujem!

Pratos se servem,
Mas não se os lavam;
Antes os babam!...
– Coisa incrível!

Chão não se varre,
Menos soalho.
Filhas, bandalho,
É vosso viver!

A este traste,
Cujo engaste,
– É pele de cão.
– Corro a tição!

Dar-lhe-ei com pau,
A ver se o mingau
– Das ventas tira:
Longe atira!

Nesta suvela,
Toco chinela;
Não se derreter;
Trabalhar, cozer!

Esta gamela
Sempre à janela
Prostituta está.
Mister levará

Bons socos, tantos,
Com os longos mantos,
Finos bordados,
Se façam picados!

A esta rota,
Que anda de toca.
Meto taboca
Dentro da boca!

Da outra que tem
A boca torta,
Bato na porta
Cabeça morta!

A tal corruíra,
– Parece mentira!
A saia vestira
– Ornada de embira!

A boca de lontra,
Quando se encontra
Com cheia tigela,
A mete na goela!

A língua de trapo,
De cobra ou sapo;
– Está sempre palrando,
– Está taramelando!

Dito

Antigo é o dito;
– Sempre ri-se o diabo,
Quando infeliz pobre
– Ao feliz dá; ao rico!

Vida

Dizem que – viver é doce;
Dizem que viver é acre!
– É ilusão,
Em que vivem tantos entes;
Eu digo – impertinentes –
Campos Leão

Viver – é doce:
E sempre – doce!
Se assim não fosse,
Tudo se – ia!
Ninguém se ria!
Ninguém vivia!

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