sexta-feira, 8 de maio de 2015

O voo fatal do elétrico guitarrista de blues Stevie Ray Vaughan

Na madrugada de 27 de agosto de 1990, o texano Stevie Ray Vaughan (nascido em 1954) realizou o último show de sua vida ao lado de alguns dos principais amigos: Robert Cray, Buddy Guy, Eric Clapton e seu irmão Jimmy Vaughan.

Poucas horas depois, quando amanheceu, foi morto quando seu helicóptero se acidentou na espessa neblina, próximo do local do show, na pequena cidade de East Troy, Wiscosin.


Stevie Vaughan foi um dos músicos mais influentes dos anos 1980. Era o líder da célebre banda Double Trouble.


Stevie Ray Vaughan
Apareceu no cenário musical como um meteoro.

Ninguém imaginava que pudesse surgir alguém comparável a Jimi Hendrix como virtuose da guitarra. Entretanto apareceu Stevie Vaughan, um caipira do Texas.

Sempre com botas de salto alto, roupas ridículas e o inseparável chapéu preto. Mas tão bom instrumentista, compositor e cantor quanto Hendrix. E carisma similar.

Também tão doidão quanto o outro.



Imagens de Hendrix e Vaughan sobrepostas
Stevie Vaughan correu risco de morte várias vezes por causa das drogas.

Um mês antes de se acidentar, quando tocara na Suíça, teve uma overdose em plena rua. Foi levado a um hospital, reanimado, mas o médico o advertiu que não poderia mais fazer uso do aditivo de sua predição: a cocaína.


Teria de se manter limpo e sóbrio. Vinha seguindo um difícil programa de desintoxicação, com uma ou outra recaída. Sua saúde melhorou, voltou a ensaiar e a tocar divinamente bem.



Vaughan e Clapton
Segundo Clapton, que o convidara para aquele show, Stevie estava em seu melhor momento.

Apenas o chapéu preto foi reconhecido entre os destroços do helicóptero após a explosão...


Quatro helicópteros estavam à disposição dos músicos para a viagem durante a manhã, após o show. Stevie encontrou um lugar vazio em um helicóptero com alguns membros da equipe de Clapton e decidiu embarcar.


Show com os amigos pouco antes de morrer
O céu estava extremamente nublado e com forte névoa. Seu helicóptero virou-se para o lado errado e foi de encontro a uma pista artificial de esqui. Não houve sobreviventes.

Stevie Ray Vaughan nascera em Dallas, Texas. Começou a tocar por influência do irmão Jimmie, também guitarrista, cantor e compositor dos bons.


Curiosamente, Stevie não se interessou primeiramente pela guitarra. Aprendeu bateria, depois saxofone e contrabaixo. Tocou os três instrumentos com o grupo do irmão. Finalmente migrou para aquele que o celebrizou: a guitarra.

O motivo, segundo ele próprio: os músicos de sua preferência eram todos guitarristas. Jimmy Reed, Albert King, B.B. King, Kenny Burrell, Albert Collins, Charlie Christian, Django Reinhardt e, entre tantos, sua principal influência, Jimi Henrdrix.


Veio 1969. Impulsionado principalmente pela força de Jimi Hendrix, Stevie Vaughan comprou sua primeira Stratocaster, que passou a usar enquanto fazia parte do grupo Cast of Thousands.

No início da década de 1970, Austin, a capital do Texas, era também a capital do blues no estado. Jimmie foi para lá e conviveu com Johnny Winter, que estava no topo.



Johnny Winter e Stevie Vaughan
Também teve por lá marcante encontro com um de seus maiores influenciadores, o guitarrista de blues Albert King. Três anos mais tarde, já dividia o palco em igualdade com o ídolo.

Stevie Vaughan e Albert King
Em 1973, Stevie entrou para os Nightcrawlers, uma boa banda de rhythm and blues.

Em 1975, entrou para a banda Los Cobras e se tornou também cantor.


Naquele ano, seu irmão Jimmy Vaughan fazia sucesso com sua banda The Fabulous Thunderbirds.



Jimmy Vaughan
Em 1977, Stevie deixou Los Cobras. Com o baterista Chris Layton, a vocalista Lou Ann Barton e o então baixista W.C. Clark, montou o grupo Triple Threat Revue.

Com egos maiores que seus talentos musicais, Vaughan e Barton viviam às turras. O guitarrista queria uma boa cantora, não uma estrela. A cantora queria um guitarrista que segurasse as pontas, não um virtuose que dividisse a atenção da plateia.


Lou Ann Barton
Em 1979, Vaughan criou a banda Double Trouble, nome inspirado em uma composição de Otis Rush. Ele na guitarra e no vocal, Chris Layton na bateria e Tommy Shannon no baixo.

Começou então a mágica sonora que as fronteiras texanas não conseguiram conter. A fama do grupo transbordou para fora até dos EUA. No ano seguinte, Stevie e grupo já eram a principal atração do Festival de Jazz de Montreaux, na Suíça.


O cantor inglês David Bowie estava por lá e convidou Stevie para tocar em algumas faixas do disco Let's dance, bem como abrir os shows da turnê decorrente do trabalho.



David Bowie e Stevie Vaughan
Vaughan cumpriu a primeira parte do acordo. Não chegou a participar da turnê porque não podia dar entrevistas falando de seu trabalho com o Double Trouble. Só estava autorizado a responder perguntas sobre as gravações que fizera com Bowie.


Double Trouble
Em 1983 veio o primoroso disco de estúdio Texas flood. Uma fusão dos estilos de Albert King, B.B. King, Otis Rush, T-Bone Walker, Buddy Guy, Eric Clapton, Albert Collins e, acima de tudo, Jimi Hendrix.

Deste último, Vaughan copiou a energia, um jeito de se relacionar com a guitarra como quem quisesse espancá-la, fazê-la gritar e, em alguns momentos, sussurrar.


Influenciados por Stevie Ray Vaughan, uma geração de garotos brancos, em vez de enveredar pela batida trilha do rock, mergulhou de cabeça no blues.


Em 1984, quando lançou o disco Couldn't stand the weather, já era o consumado novo deus da guitarra e do blues. Gravou no disco uma bela versão de Voodoo Chile, do ídolo Hendrix.




Em 1985 o Double Trouble passou a ser integrado pelo órgão de Reese Wynans, que proporcionou um som mais amplo e consistente.


A carreira seguia ótima, mas começaram os problemas de Stevie com a cocaína.


Era companheiro de farras de Keith Richards, Mick Jagger, Ronnie Wood e, sobretudo, do saxofonista Bobby Keys, texano como ele, quando os Rolling Stones faziam turnês pelos Isteitis.


Vaughan com os Stones; ao fundo, de chapéu, Keys
Keith Richards, Stevie Vaughan e Chuck Berry
Em 1986 desmaiou em pleno palco durante uma apresentação em Londres.

Dias depois voltou para os EUA e internou-se num centro de desintoxicação, onde permaneceu durante meses. Passou o ano de 1987 combatendo a dependência, o que prejudicou muito a agenda de shows e ensaios do seu grupo.


Quando 1988 chegou Stevie já estava sóbrio e de volta à estrada. O resultado da saída do fundo do poço está registrado em In step, sua obra-prima. Ganhou o Grammy de melhor disco de blues contemporâneo.


Mas tinha novas recaídas com pó e, após cada crise, voltava a parar. Mesmo quando careta, era elétrico. Dizia que a cocaína apenas o equilibrava. Que seu estimulante não estava no pó, estava nos dedos.


Sua mística cresceu ainda mais com o acidente de helicóptero que pôs fim a uma das mais brilhantes carreiras da música popular norte-americana.


Guitarras preferidas


Stevie Ray Vaughan tinha uma coleção enorme de guitarras, a maioria presenteada por amigos.


Mas a seis delas tratava com especial deferência: a Number One, a Lenny, a Charlie, a Red, a Butter e a Main. Eram personalizadas, reconhecidas pelo público.


Number One, Charlie, Red e Butter (da esq. para a dir.)
Number One foi a mais famosa. Viveu um amor sofrido em suas mãos. Foi pisada, arranhada, surrada e jogada ao chão por ele em vários shows.

Era o seu amor porque era a única que se mantinha afinada depois de sofrer tantos abusos.
Tratava-se de uma Fender Stratocaster pré-CBS (da época antes da venda da Fender para a Columbia).


A Number One era constantemente reformada em virtude dos constantes maus-tratos.



Exibições malucas com a guitarra
Lenny era uma Fender Stratocaster de 1963, que foi presenteada por sua esposa Lenora Bailey (Lenny). Era uma guitarra de som brilhante, graças ao seu braço em "maple".

Com ela foram gravadas e tocadas ao vivo músicas mais calmas e jazzísticas, como a homônima Lenny e a linda Riviera Paradise.



Charlie foi construída e presenteada a Stevie por seu amigo Charlie Wirz. Era uma Stratocaster toda branca.

Tinha uma "pin-up" desenhada nas costas. Quando seu amigo morreu, Steve gravou em sua homenagem Life by the drop, encontrada em seu álbum póstumo The sky is crying.



Red era outra Fender Stratocaster pré-CBS. Originalmente era preta e foi pintada de vermelho pela Fender para Stevie. Seu braço foi trocado por um de canhoto, talvez em referência ao grande ídolo de Stevie, Jimi Hendrix.


Butter era uma Fender Strato.


Main foi presente de seu amigo Billy Gibbons. Era uma guitarra Custom construída pelo renomado luthier James Hamilton, com o nome de Stevie gravado no braço, e vários detalhes luxuosos.


Para encerrar, clique aqui para assistir a um vídeo divertido sobre os conflitos de Stevie Ray Vaughan com sua suposta esposa (uma atriz) por causa das guitarras. O link foi generosamente sugerido por Lima Cruz.

Principais discos

Texas flood (1983):




Couldn't stand the weather (1984):




Soul to soul (1985):




Live alive (ao vivo em 1986):




In step (1989):




Family style (com seu irmão Jimmie Vaughan, os The Vaughan Brothers, de 1990):




Last farewell (gravado durante a sua última turnê nos Estados Unidos, também de1990):




Lançamentos póstumos


The sky Is crying (1991)


In the beginning (1992 - gravado em 1980)


Live at Carnegie Hall (1997 - gravado em 1984)


Albert King with Stevie Ray Vaughan – In session (1999 - gravado em 1983)


Solos, sessions & encores (2007)


Compilações


Greatest hits (1995)


The essential Stevie Ray Vaughan and Double Trouble (1995)


Crossfire - Salute to Stevie Ray Vaughan (1996)


The real deal: greatest hits volume 2 (1999)


Blues at sunrise (2000)


SRV (Caixa com gravações antigas, raridades, hits, material ao vivo) (2000)


Live at Montreux 1982&1985 (2001)


Martin Scorsese presents the blues - Stevie Ray Vaughan (2003)




Vídeos


Stevie Ray Vaughan and Double Trouble - Greatest hits (Full Album):




Ao vivo em Nashville em 1987:



Texas food:


Em Montreux:


Horas antes de morrer:



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