terça-feira, 16 de junho de 2015


Recentemente um padre goiano obteve notoriedade passageira por entrar com um recurso judicial para prender José Celso Martinez Corrêa, Tony Reis e Mariano Mattos Martins, do Grupo Oficina, como decorrência de uma apresentação ocorrida na PUC-SP em 2012.

Tratava-se da peça Acordes, baseada em texto do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). O padre assistiu a um vídeo sobre a apresentação pelo Youtube, considerou-a ofensiva aos dogmas católicos e entrou com ação judicial contra os artistas.


Foi dado espaço noticioso ao tal religioso porque, a um só tempo, causou problemas a um dos grupos mais importantes da história do teatro brasileiro e à memória de um dos autores de teatro mais inventivos e influentes do século XX.


Bertolt Brecht
Chega de dar espaço ao fundamentalismo religioso!

Vamos ao que interessa: por que Brecht foi, é e continuará importante?

Talvez por ter sido um dos principais artistas de orientação marxista do século XX. Em parte, sim. Mas tivemos vários outros, porém nenhum tão influente quanto ele.


Por ter nos deixado a dramaturgia mais instigante e dessacralizadora do século? A resposta também é sim. Mas não foi só por isso.


Aliás, não produziu apenas peças polêmicas. Como Maiakóvski, que trabalhou com propaganda estatal na URSS, Brecht escreveu e encenou série de peças didáticas para o governo da então Alemanha Oriental, inclusive trabalhos para crianças.


Foi influente por ter deixado ideias que mudaram a dramaturgia, a encenação e a própria maneira de os atores representarem? Também, claro. Mas esse é um território delimitado e a admiração que se tem por Brecht é muito mais abrangente.


Por ter sido um dos principais poetas satíricos modernos de língua alemã? Decerto que sim, porém a poesia foi apenas uma parte de sua obra.


Por ter nos legado maravilhosas canções líricas e satíricas sobre vagabundos, bêbados, putas, golpistas, assassinos e a escória social em geral? Claro que sim. Também.


Enfim, Brecht foi influente por tudo isso.


Já escrevi sobre um dos seus aspectos revolucionários: o comportamental. Uns trinta anos de Marlene Dietrich, Marlon Brando, Mick Jagger, David Bowie, Lou Reed e outros artistas sexualmente ambíguos, Brecht era declaradamente bissexual.


Aliás, fissurado por sexo. Além da mulher, manteve sempre um séquito de amantes (mulheres e homens). Leiam a respeito meu artigo O apetite sexual do camarada Bertolt Brecht. Além deste artigo, faço referências a Brecht em outros 12 postados no blog.


Desta feita começarei por outra de suas facetas importantes: a de letrista de canções populares, produzidas para suas peças, as melhores das quais compostas em parceira com Kurt Weill (1900-1950).


Brecht e Kurt Weill
A lista de cantores e músicos populares de diferentes nacionalidades, e de diferentes épocas, influenciados por Weill/Bretcht e sua principal intérprete, a cantora Lotte Lenya, é enorme.

Lotte Lenya e Kurt Weill
Citarei alguns: Chico Buarque, Arrigo Barnabé, Cida Moreira e Suzana Salles no Brasil, Serge Gainsbourg na França, David Bowie, Eric Burdon, Brian Ferry e Marianne Faithfull na Inglaterra, Lou Reed, Bob Dylan, Jim Morrisson e Tom Waits nos EUA.

Vamos viajar um pouco no universo paralelo de Kurt Weill e Bertolt Bretcht? Se toparem, darei como brinde neste artigo introduções ao seu teatro e à sua poesia.