terça-feira, 16 de junho de 2015

Parceria de Bertolt Brecht com Kurt Weill, seu teatro, sua poesia e sua época


Recentemente um padre goiano obteve notoriedade passageira por entrar com um recurso judicial para prender José Celso Martinez Corrêa, Tony Reis e Mariano Mattos Martins, do Grupo Oficina, como decorrência de uma apresentação ocorrida na PUC-SP em 2012.

Tratava-se da peça Acordes, baseada em texto do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). O padre assistiu a um vídeo sobre a apresentação pelo Youtube, considerou-a ofensiva aos dogmas católicos e entrou com ação judicial contra os artistas.


Foi dado espaço noticioso ao tal religioso porque, a um só tempo, causou problemas a um dos grupos mais importantes da história do teatro brasileiro e à memória de um dos autores de teatro mais inventivos e influentes do século XX.


Bertolt Brecht
Chega de dar espaço ao fundamentalismo religioso!

Vamos ao que interessa: por que Brecht foi, é e continuará importante?

Talvez por ter sido um dos principais artistas de orientação marxista do século XX. Em parte, sim. Mas tivemos vários outros, porém nenhum tão influente quanto ele.


Por ter nos deixado a dramaturgia mais instigante e dessacralizadora do século? A resposta também é sim. Mas não foi só por isso.


Aliás, não produziu apenas peças polêmicas. Como Maiakóvski, que trabalhou com propaganda estatal na URSS, Brecht escreveu e encenou série de peças didáticas para o governo da então Alemanha Oriental, inclusive trabalhos para crianças.


Foi influente por ter deixado ideias que mudaram a dramaturgia, a encenação e a própria maneira de os atores representarem? Também, claro. Mas esse é um território delimitado e a admiração que se tem por Brecht é muito mais abrangente.


Por ter sido um dos principais poetas satíricos modernos de língua alemã? Decerto que sim, porém a poesia foi apenas uma parte de sua obra.


Por ter nos legado maravilhosas canções líricas e satíricas sobre vagabundos, bêbados, putas, golpistas, assassinos e a escória social em geral? Claro que sim. Também.


Enfim, Brecht foi influente por tudo isso.


Já escrevi sobre um dos seus aspectos revolucionários: o comportamental. Uns trinta anos de Marlene Dietrich, Marlon Brando, Mick Jagger, David Bowie, Lou Reed e outros artistas sexualmente ambíguos, Brecht era declaradamente bissexual.


Aliás, fissurado por sexo. Além da mulher, manteve sempre um séquito de amantes (mulheres e homens). Leiam a respeito meu artigo O apetite sexual do camarada Bertolt Brecht. Além deste artigo, faço referências a Brecht em outros 12 postados no blog.


Desta feita começarei por outra de suas facetas importantes: a de letrista de canções populares, produzidas para suas peças, as melhores das quais compostas em parceira com Kurt Weill (1900-1950).


Brecht e Kurt Weill
A lista de cantores e músicos populares de diferentes nacionalidades, e de diferentes épocas, influenciados por Weill/Bretcht e sua principal intérprete, a cantora Lotte Lenya, é enorme.

Lotte Lenya e Kurt Weill
Citarei alguns: Chico Buarque, Arrigo Barnabé, Cida Moreira e Suzana Salles no Brasil, Serge Gainsbourg na França, David Bowie, Eric Burdon, Brian Ferry e Marianne Faithfull na Inglaterra, Lou Reed, Bob Dylan, Jim Morrisson e Tom Waits nos EUA.

Vamos viajar um pouco no universo paralelo de Kurt Weill e Bertolt Bretcht? Se toparem, darei como brinde neste artigo introduções ao seu teatro e à sua poesia.



A simpatia pelo marxismo levou Bertolt Brecht a se aproximar dos movimentos de vanguarda que rolavam na primeira pátria do comunismo: a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), parte da qual compõe hoje a grande Rússia.

Seu “teatro épico” provém dos experimentos do seu conterrâneo e contemporâneo Erwin Piscator (1893-1966) e do russo Vsevolod Meyerhold (1874-1940).


Erwin Piscator
Vsevolod Meyerhold
Seu conceito de interpretação – o “distanciamento” (crítico) – provém do conceito de “estranhamento” do formalista russo Viktor Chklovski (1893-1984), bem como do teatro chinês e da biomecânica de Meyerhold e seu principal pupilo, Serguei Eisenstein (1898-1948), que se tornaria um dos principais diretores da história do cinema.


Serguei Eisenstein
Brecht veio da burguesia alemã. Seu pai era um industrial católico conservador. Nasceu em berço de ouro, mas desde jovem entrou em colisão com sua origem social.

Suas primeiras peças – Baal (1918/1926) e
Trommeln in der nacht (Tambores na noite) (1918-1920) –, encenadas em Munique, eram insolentes, anárquicas e mostram claros sinais de ruptura.

Sua adesão ao marxismo se deu quando passou a trabalhar com o diretor de teatro e de cinema Erich Engel (1891-1966), com quem manteve parceira até o fim da sua vida.


Erich Engel
Quando Hitler foi eleito, em 1933, Brecht já era conhecido como um importante artista de esquerda. Iniciou-se, então, sua longa trajetória de exílios: Áustria, Suíça, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Inglaterra, URSS e, finalmente, EUA.

Terminada a guerra, voltou para Berlim Oriental, onde fundou e comandou a companhia Berliner Essemble até o fim da vida.


Kurt Weill era filho de um músico judeu. Na juventude quis ir para Viena estudar com Arnold Schöenberg (1874-1951), mas a situação financeira da família não permitiu.


Seu aprendizado se deu num contexto mais cosmopolita que nacionalista, no qual se desenvolveu musicalmente com a abertura, a liberdade e a inovação vigentes em Munique e Berlim, cidades entre as quais transitava.


Ele e Brecht se conheceram em Berlim, no período entre as duas guerras mundiais, quando esta era uma cidade de possibilidades ilimitadas.


Por lá conviviam comunistas, nazistas, social-democratas, nacionalistas, junto com artistas expressionistas, dadaístas, entre outras correntes.

A cultura popular também rolava solta pela cidade nos inúmeros cabarés.


Havia inclusive clubes de jazz com músicos negros norte-americanos que para lá migraram, além daqueles com músicas populares da rica tradição alemã, num dos quais Weill descobriu a cantora e atriz Lotte Lenya, que viria a ser sua esposa.

A seguir, Lotte Lenya canta a canção Mack the knife song (Canção de Mack, o Navalha), de Ópera dos três vinténs:




Weill fazia parte de um grupo de músicos berlinenses eruditos vinculados à escola de vanguarda de Viena (de Schöenberg, Anton Webern e Alban Berg), mas que, ao mesmo tempo, queriam efetuar a união da música erudita com a vida moderna.

Também foram importantes para sua formação a complexa linguagem sinfônica de Gustav Mahler (1860-1911) e os vínculos entre o erudito e o popular na obra do russo Igor Stravinsky (1872-1971).


Weill sempre manteve proximidade com o cinema e o teatro. Desenvolveu inclusive uma teoria do caráter gestual da música – o “gestus” – uma espécie de linguagem musical a ser complementada pela pantomima e pela fala.

Luiz Tatit, compositor e linguista paulista, tem estudo sobre a música popular brasileira que converge para este viés.

Jenny, a prostituta execrada


A partir de 19270, Brecht e Weill – que já se conheciam de longa data – começaram a criar suas óperas memoráveis.


O Brecht do início era menos dogmático. Apreciava mais os foras da lei em geral – corruptos, putas, ladrões, assassinos pervertidos, pessoas sem princípios, cruéis – que os políticos de esquerda.

São foras da lei os personagens principais da Ópera dos três vinténs e de Ascenção e queda da cidade de Mahagonny. Brecht, mesmo no período de sua conversão ao comunismo, manteve essa obsessão pelas figuras do mau. 


Ópera dos três vinténs foi inspirada numa obra de sátira política da dramaturgia inglesa: a
The beggar´s opera (Ópera dos mendigos), de 1728, escrita por John Gay e Pepusch.

A qual tem como protagonista o capitão Macheath, pessoa sem escrúpulos, conquistador de mulheres e um gênio do crime de caráter audacioso. Macheath acaba traído pelas prostitutas Jenny e Sukey e condenado à morte.

A peça de Gay e Pepusch satiriza o interesse das classes altas pela ópera italiana. Também ataca estadistas, regimes corruptos e criminosos conhecidos. Um prato cheio para ser encenada no Brasil dos dias atuais.


O Macheath de Weill/Brecht chama-se Mack, o Navalha. É um psicopata encantador que mata por prazer, dinheiro e mero sadismo.


Mack the Knife song entrou para o repertório da música popular norte-americana, ganhando variantes nas vozes de Louis Armstrong, Frank Sinatra e outros.


A seguir, a canção interpretada por
Louis Armstrong:


Jenny, a prostituta de Ópera dos três vinténs, sonha em vingar-se dos homens que a exploraram. Com a chegada de um navio de piratas, alia-se a eles e pede que destruam essas pessoas.

No início do anos 1960 a peça foi apresentada em Greenwich Village, Nova York, em forma de teatro de revista. Na plateia se encontrava um jovem cantor e compositor de Minnesota, até então chamado Robert Zimmerman.


Zimmerman, que viria a se tornar Bob Dylan, se encantou com a canção Pirate Jenny, na qual a prostituta revela seu desejo de se vingar dos exploradores.


Outra canção-tema da peça que ficou famosa foi a Balada do assassinato, na qual são relatados homicídios como o desaparecimento de homens ricos, sete crianças mortas num incêndio, uma jovem estuprada e a morte de Jenny com uma facada no seio.


Se observarem a obra de Bob Dylan, encontrarão várias letras dele com este formato, com narrativas de supostas passagens factuais.


A Jeni de Weill/Brecht inspirou a Geni de Ópera do malandro, de Chico Buarque de Holanda, dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa em 1978.

Cena de Ópera do malandro
Geni e o zepelim – em versos heptassílabos metrificados e rimados – é uma das belas canções de Chico.

A seguir, a canção interpretada pelo próprio:




Weill e Brecht tinham personalidades fortes. Embora apareçam rindo na foto postada no início deste artigo, não se entendiam e sequer eram amigos fora do trabalho.

Como a dupla Lennon/McCartney, dos Beatles, nos últimos anos de parceria os dois artistas alemães se tornaram quase inimigos. Nem se falavam. Os encontros tinham de ser intermediados por terceiros.

Mesmo com a convivência totalmente desgastada, em 1931 os dois nos legaram sua obra prima: a ópera Ascensão e queda da cidade de Mahagonny.


As boas senhoras de Mahagonny
Recheada de foras da lei, esta ópera conta a história da viúva Begbick e seus comparsas, acusados de fraude e lenocínio, que estão fugindo da polícia quando seu caminhão tem uma pane em pleno deserto.

Resolvem, então, fundar ali uma cidade. Trata-se de uma referência a Las Vegas, a cidade dos jogos dos EUA. Logo chega até eles uma horda de péssimos elementos.


Entre os quais a prostituta Jenny (a mesma de Ópera dos três vinténs) e seus companheiros mal-encarados. O vício e a corrupção prosperam em Mahagonny e dão lugar a fortunas.


Após um furacão que quase destrói a cidade, o lenhador Jim Mahony proclama nova lei de caráter eminentemente anárquico: cada um deve fazer o que quiser. Mas Jim, acusado de nunca pagar suas contas, é condenado à morte e a cidade chega à ruína.


Ópera do malandro, de Chico Buarque, mescla os enredos de Ópera dos três vinténs e Mahagonny, mas com um enfoque mais convencional à esquerda, colocando os grandes capitalistas como o lado ruim da humanidade.


A Opera dos três vinténs e a Mahagonny, de Weill/Brecht, são menos dogmáticas e apresentam os conflitos sob a visão dos marginais.


A Geni de Chico luta contra o opressor. A Jenny de Weill/Brecht é do lado do mal.


Brecht criou Jenny inspirada na bíblica Lilith, símbolo de mulher sedutora, desafiadora e má. Segundo o livro religioso judaico Talmud, ela teria sido a primeira esposa de Adão.


Lilith deixou o primeiro homem e partiu do Paraíso para regiões ignotas por não aceitar a obrigação de se submeter ao marido, uma vez que era feita da mesma matéria que ele. Há o mito de que Lilith, na forma de serpente, teria dado a Eva a maçã proibida.


Brecht, depois de quebrar o pau de vez com Kurt Weill, teve vários outros bons músicos como parceiros. Assim com Weill compôs com outros bons letristas, dentre eles Jean Cocteau.


Weill fez sucesso nos EUA como compositor de Hollywood e até compositor de jazz. Brecht não foi bem-sucedido na Gringolândia. Suas tentativas de escrever roteiros para cinema deram em nada.


Weill e Brecht compuseram várias óperas além das duas citadas acima. Dentre elas a ótima Os sete pecados capitais. E no total compuseram cerca de 100 canções para suas várias peças, dezenas das quais se tornaram popular fora dos teatros.


Uma das mais conhecidas foi Alabama song, utilizada em duas óperas dos dois: Hauspostille, de 1927, e Mahagonny, de 1931.


Nesta última é cantada pela personagem Jenny e suas colegas prostitutas. A canção contém elementos de foxtrot e blues.


Mesmo que Mahagonny tenha sido escrita em alemão, a música foi cantada e escrita em inglês e tornou-se famosa, décadas mais tarde, ao ser regravada por David Bowie e The Doors.


Versão de David Bowie:


Versão do grupo The Doors:




No Brasil a cantora Suzana Salles, que trabalhou com Arrigo Barnabé, gravou um álbum só com canções de Weill/Brecht.

A seguir, Suzana canta a versão em inglês de Benares song:


Bertolt Brecht influenciou a maioria dos diretores e companhias de vanguarda do teatro mundial, em especial os surgidos nos anos 1960.

Dentre os quais o diretor Bob Wilson e o grupo Living Theatre nos EUA, o diretor Peter Brook na Inglaterra, o diretor franco-argentino Victor García, o grupo catalão La Fura dels Baus e os grupos brasileiros Arena, Oficina e Opinião.

As peças escritas por Brecht foram encenadas dezenas de vezes no Brasil e voltarão outras vezes aos palcos nacionais, dada a riqueza e atualidade de sua dramaturgia.

Entre os vários espetáculos nacionais montados sobre suas obras em parceria com Kurt Weill, destaco Teatro do Ornitorrinco canta Brecht e Weill, apresentado pelo Grupo Ornintorrinco, de São Paulo, no início dos anos 1980.

O Ornintorrinco foi criado em 1977 por Cacá Rosset, Luiz Galizia e Maria Alice Vergueiro.


Cartaz de uma das apresentações
Ouçam, a seguir, algumas das canções de Weill e Brecht que se tornaram populares nas vozes de diferentes intérpretes.

The ballad of the soldier’s wife com Marianne Faithfull:


What keeps mankind alive, de Ópera dos três vinténs, com Tom Waits:


Bilbao song, da peça Happy end, cuja perspectiva de fuga dos personagens inclui o Brasil, com Lotte Lenya:


Trechos da audição do espetáculo no qual o ator alemão Klaus Kinski interpreta poemas de Brecht e canções dele com Weill:


Pirate Jenny live, de Ópera dos três vinténs, com Nina Simone, em gravação de 1964:



September songs com Brian Ferry e, depois, com interpretação estilizada de Lou Reed:




Por fim, um álbum completo de Lotte Lenya cantando canções dos dois parceiros, de vários espetáculos, vertidas para o inglês:



Dentre os itens relacionados neste link (cliquem aqui), há várias canções com as letras vertidas para o português pelo blogueiro Nicola David.

Teatro de Brecht e lista de suas peças


Bertolt Brecht pertence à categoria de grandes poetas dramaturgos.


Da qual fazem parte o grego Eurípedes (480-403 aC), o inglês Willian Shakespeare (1564-1616), o também alemão Wolfgang Göethe (1749-1832), o russo Vladimir Maiakovski (1893-1930) e o brasileiro Oswald de Andrade (1890-1954). 

Apesar de o próprio Brecht ter escrito tantos ensaios e comentários sobre seu teatro, seus conceitos a respeito são complexos.


Para começar, ele era um pensador prático, que mudou de opiniões ao longo da vida e registrou essas mudanças nos textos de suas peças e nos próprios escritos teóricos.


Ópera dos três vinténs em cenário construtivista
Nem por isso o que deixou em épocas anteriores perdeu a importância por ter sido superado em novas etapas do seu trabalho.

Enfim, toda a carreira de Brecht é imperdível.


Escreveu série de peças sobre personalidades e fatos históricos. Algo muito parecido com o que fez Willian Shakespeare em sua época.


Ainda de forma similar ao dramaturgo inglês, Brecht deixou série de peças sobre personagens comuns: uma mãe, um soldado, um lenhador, um andarilho, uma puta, um ladrão, um assassino, etc.

Escreveu várias peças de agitação e propaganda de apoio ao comunismo.


E peças didáticas similares aos poemas e cartazes criados por Maiakovski no período de construção do socialismo na URSS.


Como Maiakovski, Brecht nunca abriu mão do rigor formal (construtivo) em toda sua obra. Lembre-se que Brecht foi um dos herdeiros do construtivismo russo na Alemanha.


Não só ele. A arte alemã foi fortemente influenciada pelo que ocorreu na Rússia nas duas primeiras décadas do século XX. Inclusive a grande escola de desenho industrial e arquitetura Bauhaus.

Por ser um artista prático, as peças e até os poemas de Brecht tiveram várias versões.


Abaixo relacionei as peças pelas datas nas quais apareceram pela primeira vez. Mas ele voltava a montá-las com novas versões. Opera dos três vinténs, por exemplo, tem pelo menos cinco versões conhecidas de épocas diferentes.

Há peças que foram transformadas em outras, bem como personagens que apareceram em várias de suas peças.

Além de dramaturgo e diretor, Brecht foi responsável por aprofundar o método de interpretação do "teatro épico", uma das grandes teorias de interpretação do século XX.


Uma das influências no desenvolvimento desta forma de interpretação foi a arte do ator chinês Mei Lan-Fang, cujas apresentações em Moscou em 1935 foram acompanhadas por Brecht.


Este ator representava papéis femininos. Mas não como imitador de mulheres. Nem como travesti. Havia dualidade nos papéis, associando masculino/feminino.

Mei Lan-Fang
Brecht sempre quis levar o público a exercer uma operação crítica do comportamento humano a partir do teatro.

No drama épico de Brecht a atitude dos atores, do cenário, da música, dos sons e até do silêncio se completam, a fim de causar o efeito desejado, o impacto devido.


Se algo não desse certo conforme pretendia, fazia de outra forma. Daí por que suas ideias e peças mudavam tanto.


Também ia incorporando coisas de outros artistas. Do seu contemporâneo Erwin Piscator (1893-1966), por exemplo. E da interpretação gestual do ator Peter Lorre. Ia dezenas de vezes às peças interpretada por Lorre só para observá-lo.


O grande ator alemão Peter Lorre
Afirmava que cada palavra em cena precisava encontrar um significado visual, por meio dos vários recursos do teatro, incluindo o público, que devia participar ativamente do espetáculo.

De acordo com Fernando Peixoto, um dos estudiosos do teatro de Brecht no Brasil, a interpretação gestual do teatro épico deve muito ao cinema mudo, principalmente a Charles Chaplin.


Em dado momento os conceitos de Brecht se aproximam do "gestus" de Kurt Weill, na elaboração dos textos, na interpretação dos atores e na montagem de suas peças. E, sobretudo, na relação com a música.


Apesar da incontornável dificuldade de relacionamento, ambos se respeitavam e admiravam os respectivos trabalhos.


O interesses de Brecht – e, por consequência, as influências – foram múltiplos.


Destacam-se entre eles a dramaturgia de Frank Wedekind, a prosa poética de James Joyce, as propostas cubofuturistas de Maiakovski, Meyerhold e Serguei Eisenstein e os procedimentos de colagem dos dadaístas.

Berliner Ensemble


Curiosamente, embora a companhia de teatro Berliner Ensemble esteja sempre associada ao nome de Bertolt Brecht, não foi por ela que produziu e encenou a maioria de suas peças. 


Teatro da Berliner Ensemble em Berlim
Berliner Ensemble foi a companhia de teatro berlinense fundada por Brecht e sua mulher, a atriz Helene Weigel, em janeiro de 1949, quando retornaram do exílio nos EUA.

As primeiras produções da Berliner foram apresentadas no Deutsches Theater, em Berlim. Apenas em 1954 a companhia conseguiu um teatro próprio, mudando-se para o Theater am Schiffbauerdamm.


O Theater am Schiffbauerdamm fora importante na vida teatral alemã pré-nazista pela qualidade de seu repertório.


Principalmente pelas produções de Max Reinhardt, seu diretor judeu-austríaco entre 1903 a 1933, e pelas estreias de importantes peças de Bertolt Brecht: Ópera dos três vinténs (1928), Happy end (1929) e A mãe (1932).

Entre a equipe que trabalhou bem próxima a Brecht, após a curta mas vertiginosa parceria com Kurt Weill, estavam os compositores Paul Dessau e Hanns Eisler, assim como a dramaturga Elisabeth Hauptmann.


Outros colaboradores do Berliner foram Benno Besson, Egon Monk, Peter Palitzsch e Manfred Wekwerth, que dirigiram peças que Brecht ainda não havia encenado.


Os cenógrafos do Berliner nessa época foram Caspar Neher e Karl von Appen.


Entre as técnicas de trabalho conhecidas da Berliner Ensemble estavam um longo e meticuloso período de ensaios, frequentemente durando muitos meses.


Cada produção era documentada com fotos para um Modellbuch (cadernos de direção) contendo 600 a 800 fotografias da cena.


Brecht também instituiu uma espécie de observador que assistia à montagem para discutir os signos e a interpretação que se desenvolviam e os significados obtidos nos ensaios em relação aos objetivos iniciais.


Brecht não escreveu nenhum texto para a Berliner Ensemble, mas remontou pela companhia suas peças Mãe coragem e seus filhos, Círculo de giz caucasiano e A vida de Galileo.


Depois da morte de Brecht, três peças suas foram montadas pela Berliner: A resistível ascensão de Arturo Ui, Schweik na Segunda Guerra Mundial e As visões de Simone Machard.


Sua esposa Helene Weigel o substituiu na direção da Berliner Ensemble, até o falecimento desta em 1971. Assumindo então Manfred Wekwerth e, depois, Ruth Berghaus.


Brecht e Helene Weigel
Em 1992, depois da queda do Muro de Berlim, a prefeitura da cidade indicou cinco diretores para servirem como os diretores gerais da companhia: Peter Zadek, Peter Palitsch, Heiner Müller, Fritz Marquardt and Matthias Langhoff.

Em 1993 a companhia foi privatizada, mas continua a receber subsídios públicos.


Peças de teatro de Brecht


Baal – 1918


Der Bettler oder Der tote Hund (Os mendigos) – 1919


Die Kleinbürgerhochzeit (O casamento do pequeno burguês) – 1919


Er treibt einen Teufel aus – 1919


Lux in tenebris – 1919


Der fischzug – 1919


Trommeln in der nacht (Tambores na noite) – 1920


Im dickicht der städte (Na selva das cidades) – 1921


Leben Eduards des Zweiten von England (A vida de Edward II da Inglaterra) – 1924


Mann ist mann (O homem é um homem) – 1924


Das elefantenkalb (O elefante Calf) – 1924


Der untergang des egoisten Johnann Fatzer (não concluída) – 1926


Die Dreigroschenoper (A ópera dos três vinténs) – 1928


Der oOzeanflug (O voo no oceano) – 1929


Badener Lehrstück vom Einverständnis – 1929


Happy end – 1929


Der jasager, der neinsager (Aquele que diz sim, aquele que diz não) – (1930)


Die maßnahme (A decisão) – 1930


Die ausnahme und die regel (A exceção e a regra) – 1930


Aufstieg und fall der stadt Mahagonny (Ascensão e queda da cidade de Mahagonny) –1931


Die heilige Johanna der Schlachthöfe (Santa Joana do Matadouros) – 1931


Die mutter (A mãe) – 1931


Die sieben todsünden der kleinbürger (Os sete pecados capitais) – 1933


Die rundköpfe und die spitzköpfe (Cabeças redondas, cabeças pontudas) – 1934


Die Horatier und die Kuriatier (Horácios e Curiácios) – 1934


Furcht und elend des Dritten Reiches (Terror e miséria no Terceiro Reich) – 1935


Die gewehre der Frau Carrar (Os fuzis da senhora Carrar) – 1937


Leben des Galilei (Galileo Galilei) – 1937


Was kostet das eisen? (Quanto custa o ferro?) – 1939


Dansen – 1939


Mutter Courage und ihre kinder (Mãe Coragem e seus filhos) – 1939


Das verhör des Lukullus (O julgamento de Lucullus) – 1939


Herr Puntila und sein knecht Matti (O senhor Puntila e seu criado Matti) – 1940


Der aufhaltsame aufstieg des Arturo Ui (A resistível ascensão de Arturo Ui) – 1941


Der prozess der Jeanne D'Arc zu Rouen (O julgamento de Joana D'Arc) – 1941


Der gute mensch von Sezuan (A boa alma de Setsuan) – 1942


Die gesichte der Simone Machard (As visões de Simone Machard) – 1942


Schweyk im Zweiten Weltkrieg (Schweik na Segunda Guerra Mundial) – 1943


Der kaukasische kreidekreis (O círculo de giz caucasiano) – 1943


Die Antigone des Sophokles –1947


Die tage der Commune (Os dias da Comuna) – 1948


Der hofmeister – 1950


Herrnburger bericht – 1951


Coriolanus – 1951


Don Juan – 1952


Pauken und trompeten (Trumpetes e tambores) – 1955

Poesia de Brecht e lista de suas obras em português


A obra poética de Brecht, produzida ao longo da vida, é também muito variada.


Compreende baladas, sátiras, canções de amor, versos para crianças, exortações à luta pelo comunismo, louvações e elegias.

Também na poesia seguiu à risca o lema do cubofuturismo russo implícito no manifesto Botefatada ao gosto do público, publicado em 1912 por Velimir Khlebnikov, Vladimir Maiakóvski, Aleksei Krutchônikh e David Burliuk:

“Não há arte revolucionária sem forma revolucionária.”

Da mesma maneira que escreveu textos teóricos sobre teatro, deixou-os sobre poesia, salientando os aspectos formalistas e sincréticos desta arte.


A fim de dar uma leve noção da bela poesia de Brecht, segue o Poema da rosa, traduzido por Augusto Boal e transformado em modinha por Jards Macalé:




Para Brecht havia uma gramática da língua e uma gramática da poesia, que seguia regras próprias, mais estritas e complexas que as da outra.

Contrastes da chamada gramática da poesia serviam constantemente de apoio às divisões dos seus poemas, inclusive métricas.


Também fez uso frequente do paralelismo comum à literatura chinesa, da qual importou elementos construtivos também para o teatro.


Parte das concepções poéticas de Brecht foram analisadas pelo formalista russo Roman Jakobson no ensaio A construção gramatical do poema Wir sind sie (Nós somos o partido).


Esse ensaio foi traduzido no Brasil por Haroldo de Campos/Boris Schnaiderman e publicado no livro Linguística, poética e cinema, da Editora Perspectiva, que reúne outros excelentes textos de Jakobson.


Roman Jakobson foi um dos expoentes estudiosos do chamado “formalismo russo”, ao lado de Viktor Chklovsky, Vladimir Propp, Yuri Tynianov, Boris Eichenbaum e Grigory Vinokur.


Mais informações sobre o “formalismo russo” podem ser encontradas no artigo Forma é informação deste blog.


Obras de Brecht traduzidas para português


Bertolt Brecht teatro completo, Editora Paz e Terra


Brecht – Seleção de poesias, textos e teatro, Editora Dinossauro


Sete pecados mortais dos pequenos burgueses, Editora Afrontamento


Círculo de giz caucasiano, Editora Cosac Naify


Da sedução (vários autores), Editora Bizâncio


Declínio do egoísta Johann Fatzer, Editora Cosac Naify


Diário de trabalho, Editora Rocco


Estudos sobre teatro, Editora Nova Fronteira


Histórias do senhor Keuner, Editora 34


Um homem é um homem, Editora Autêntica


Poemas de Bertolt Brecht, Editora Campo das Letras


Poemas de 1913-1956, Editora 34


Processo do filme A ópera dos três vinténs, Editora Campo das Letras


Santa Joana dos Matadouros, Editora Cosac Naify

Livro Poemas e canções no site Estante Virtual

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