quinta-feira, 23 de julho de 2015

Futurismo italiano e russo: vanguarda com ideologias opostas – 2ª parte

Manifesto futurista de Filippo Marinetti, publicado em Paris em 1909, teve grande repercussão por toda Europa, incluindo a grande Rússia.

Tanto é que logo depois esteve por lá em duas oportunidades: em 1910 e em 1914.

Trupe cubofutista reunida: Maiakóvski é o mais alto no centro
No início do século XX o caldeirão das transformações entrara em estado de fervura nos dois principais centros culturais da Rússia Moscou e Petersburgo nos quais o simbolismo ainda tinha fortes raízes.

O simbolismo russo e o alemão foram os mais ricos depois do francês, matriz deste movimento de vanguarda.

Mas o simbolismo era de meados do século XIX. Na virada para o novo século, era o momento de ser ultrapassado.

Em oposição a ele, por volta de 1905 surgiram na Rússia duas correntes literárias de vanguarda: o acmeísmo e o adamismo.

Ambas já continham alguns dos elementos apregoados pelo manifesto pioneiro de Marinetti, que abriu as portas para os vários movimentos de vanguarda modernistas.

No mesmo ano que o italiano publicou seu manifesto no jornal francês Le Figaro, em 1909, surgiram em Moscou e Petersburgo dois movimentos com características afins.

O egofuturismo de Igor Severjànin e o cubofuturismo de Vladimir Maiakóvski, David Burliuk, Vielímir Khlébnikov e Vassíli Kamiênski.

Burliuk costumava desenhar na própria face

Khlébnikov fotografado por Eisenstein

Vassíli Kamiênski, o "parafusador das nuvens"

Severjànin era uma figura debochada e festiva, como o italiano Marinetti. Em seus poemas satíricos, declamados nos salões, bradava provocações do tipo: "Ofereço à multidão de criados enquadrados/ a importância do meu ego libertário".

O quarteto cubofuturista de Moscou tinha propósitos bem mais ambiciosos do que escandalizar a burguesia e a nobreza. Sua intenção era lançar uma revolução estética à altura da ampla revolução social que se avizinhava.

Mas, qual Severjànin, eram também exibicionistas e debochados. Vestiam roupas espalhafatosas e coloridas que lembravam as que seriam usadas sessenta anos depois pela geração hippie e pelos músicos brasileiros do tropicalismo.

Seus eventos não chegaram a ser tão diversificados quanto os dos futuristas italianos, mas eram também animados e escandalosos. Deram muito o que falar no auge do movimento, de 1910 a 1915.

Entretanto, a identificação do quarteto moscovita com o futurismo de Marinetti durou pouco. Devido, em parte, a contratempos gerados pelo temperamento apimentado do italiano.

A antipatia começou a se constituir quando Marinetti fez sua primeira visita a Moscou, em 1910.

Em suas palestras e entrevistas para os jornais locais, ele não fez qualquer menção aos cubofuturistas, cuja existência tinha conhecimento inclusive fora visitado por Burliuk em Milão.

A antipatia se estabeleceu de vez quando, passados dois anos da visita, o italiano anunciou adesão ao ascendente Partido Nacional Fascista, de Benito Mussolini.

Como os cubofuturistas eram todos de esquerda – David Burliuk e Maiakóvski militavam pelo então clandestino Partido Bolchevique – logo tomaram providência de divulgar que seu movimento nada tinha a ver com o italiano.

Mas tinha sim, como veremos adiante.

A relação de Marinetti com os cubofuturistas se azedou de vez quando o Marinetti realizou sua segunda viagem a Moscou, em 1914.

No início daquele ano, Vladimir Maiakóvski e seus companheiros haviam feito uma grande turnê por várias cidades russas, para divulgar os objetivos do movimento com palestras e leituras de poemas.

Por meio de amigos russos, Marinetti estabeleceu contatos antecipados com Burliuk, nos quais manifestou o desejo de ver os cubofuturistas logo que chegasse a Moscou.

Contava, como isso, ser recebido como o grande inspirador dos vanguardistas russos quando descesse na estação de trens da capital.

Mas os russos resolveram dar o troco à desfeita da visita anterior, quando foram ignorados pelo italiano. Marinetti desceu na estação e não havia nennhum acólito à sua espera.

Deparou-se com autoridades, jornalistas, os puxa-sacos de sempre e uma multidão de pessoas curiosas, que queriam apenas saber quem era o cidadão ilustre.

Marinetti aproveitou a concentração de populares e a presença de jornalistas para dar seu show. Recitou poemas e soltou declarações bombásticas em francês (a segunda língua da Rússia na época) que tiveram lá seu efeito.

Kamiênski e Khliébnikov foram designados a entregar ao italiano, no hotel onde se encontrava hospedado, uma carta na qual reafirmavam não haver qualquer vínculo entre o futurismo e o cubofuturismo.

A elite moscovita preparou uma recepção para Marinetti num teatro da cidade. Khliébnikov chegou às pressas ao local para distribuir panfletos difamatórios contra o visitante.

O italiano, que na certa não entendeu o que estava se passando, achou tudo aquilo muito divertido. Começou a discursar com entusiasmo, depois declamou poemas, representou um monólogo e, logo que surgiram as primeiras vaias, se sentiu em casa.

Afinal, receber vaias era o que mais o motivava.

Kamiênski, que também estava presente, gritou: “Viva Maiakóvski!” Era uma clara afronta a Marinetti. Mas este aproveitou a deixa e também gritou: “Viva Maiakóvski!” E foi bastante aplaudido por dar apoio a um prata da casa.

Na semana que o italiano permaneceu em Moscou, em nenhum momento houve o pretendido encontro tête-à-tête com os cubofuturistas. Suas arlequinadas e bizarrices fizeram com que os jornais todos os dias soltassem alguma matéria a seu respeito, mesmo que pejorativa.

Seu modo fanfarrão e extrovertido, parecido com o do cidadão moscovita mediano, também festivo e piadista, acabou por torná-lo popular até para os que não faziam a menor ideia do que era futurismo.

O que, obviamente, deixou os cubofuturistas ainda mais furiosos, pois quanto mais destratavam aquele gringo verborrágico, mais ele se dava bem em sua própria terra.

Na verdade, as principais diferenças (e semelhanças) entre o futurismo italiano e o cubofuturismo russo não foram ideológicas e muito menos resultantes dos desencontros folclóricos provenientes das duas visitas de Marinetti a Moscou.

Embora inicialmente inspirado no movimento italiano, o cubofuturismo foi, a meu ver, o mais fecundo movimento de vanguarda moderno.

Dele saíram o suprematismo, o construtivismo e a escola de pensamento denominada formalismo russo. Estas três correntes influenciaram (e continuam a influenciar) a produção artística e os estudos sobre linguagem mais avançados do nosso tempo.

No artigo que se segue, espero ser capaz de deixar para vocês noções genéricas do que representa o cubufuturismo russo para toda arte moderna que o sucedeu...


Filippo Marinetti
Inicialmente, os manifestos do cubofuturismo tinham a mesma linguagem libertária e afrontosa do futurismo de Marinetti.

Havia, claro, aspectos próprios da cultura eslava, que contrastava com a dos italianos.

Embora tivesse negado afinidades com os italianos e destratado Marinetti no episódio descrito acima, em artigo publicado em 1923 na revista LEF Maiakóvski reviu sua posição e afirmou existirem entre os dois movimentos várias semelhanças.

Especialmente no tocantes aos métodos de elaboração formal. Mas as diferenças realmente eram maiores.

O movimento italiano, de curta duração, produziu ideias altamente inovadoras, mas suas obras mais importantes foram as dos artistas plásticos.

Marinetti deixou propostas seminais, mas sua obra poética, dramática e em prosa não estiveram à altura do que sugeriu para a posteridade.

Maiakóvski, o líder do movimento russo, era também um homem de ação.No entanto, enquanto o italiano se consagrou por suas ideias e manifestos, o russo se consagrou, sobretudo, por sua obra poética e dramatúrgica de alta qualidade.

O movimento cubofuturista, embora viesse a ser massacrado pelo regime comunista – como o futurismo italiano foi pelo fascismo –, reuniu dezenas de grandes artistas das várias áreas: literatura, artes plásticas, design, cinema e teatro.

Em 1910, ano da primeira visita de Marinetti à Rússia, Maiakóvski e seu grupo haviam lançado em Moscou a primeira publicação do movimento: Sadók sudiéi (Armadilha para juízes). Tratava-se de uma antologia de poemas e artigos sobre estética ilustrados por eles próprios.


Ilustração de Maiakóvski para Sadók sudiéi

O grupo original que lançou o primeiro manifesto do movimento – Bofetada no gosto do público – em 1912 era pequeno: Maiakóvski, Khlébnikov, Burliuk e Kamiênski.

O nome do movimento nem foi uma escolha dos quatro. Por ter alguns aspectos em comum com o movimento italiano e, ao mesmo tempo, com o cubismo, os críticos o apelidaram “cubofuturismo”.

Khlébnikov, em tom de autodeboche, dizia que o verdadeiro nome do grupo era budietliánie (algo como seraismo).  O “sera”, na tradução literal, é o futuro do presente do verbo ser (será) + ismo. Qual seja, algo que está sempre para ser.

Os cubofuturistas eram multiartistas.

Maiakovski, Burliuk e Khlébnikov eram poetas e artistas plásticos. Khlébnikov era também músico.

Maiakovski tornou-se ainda um importante dramaturgo, escreveu roteiros para cinema, ensaios importantes sobre poesia, programas para rádios e coordenou a criação da agência de publicidade do governo soviético, após a revolução de 1917.

Aleksiéi Krutchônikh, que se agregou ao grupo a partir de 1912, além de poeta, era fotógrafo, design gráfico e cineasta.

Aleksiéi Krutchônikh

Boris Pasternak, inicialmente conhecido como poeta, tornou-se um dos mais importantes prosadores russos do século XX.


Boris Pasternak

O cubofuturismo, tanto plástico como literário, combinava o uso cubista das formas com o interesse futurista pelo dinamismo, velocidade e inquietação da vida moderna, porém com vários aspectos diferenciados.

Dentre eles a fixação por temas primitivistas derivados da arte popular.

Na pintura, Mikhail Larionov, Natalia Goncharova, Vladimir Burliuk (irmão de David Burliuk), Kazimir Malevich e Vladimir Tatlin propunham o retorno às formas de pintura tradicional russa.

Kazimir Malevich

Maleviktch criaria, a partir de 1915, seu próprio movimento: o supramatismo.

Quanto aos poetas, desenvolveram uma obra por meio da qual o elemento futurista, ou meramente experimental, vinha, muitas vezes, impregnado de uma vivência rural, como os casos de Khlébnikov e Krutchônikh.

Rapidamente o grupo cubofuturista foi se ampliando. Juntaram-se aos quatro poetas pioneiros Iliazd, Nicolai Asseiév, Boris Pasternak, Óssip Mandelstam e vários outros.

Iliazd

Vassíli Kandínski e Vladimir Tatlin aderiram ao grupo, mas, como Malevitchi, seguiram rumos próprios e fundaram, em 1919, o construtivismo.

Do teatro, Vsvolod Meyerhold e seu assistente Serguei Eisenstein, que se tornaria um dos mais importantes diretores de cinema de todos os tempos, também se juntaram ao cubofuturismo num primeiro momento.

Ambos viriam a se aproximar do construtivismo de Kandinski e Tatlin.

Zaum

A linguagem transmental zaum foi uma das importantes marcas do cubofuturismo russo.

Seus criadores foram os poetas Velimir Khlebnikov e Vassíli Kamiênski. Mas todos os participantes do movimento a praticaram, inclusive Maiakóvski.

Tratava-se de uma escrita impregnada de simbolismo fonético, aludindo a elementos populares da vasta herança cultural que formam o inconsciente coletivo russo.

Mas a pretensão de Khlebnikov e kamiênski era abarcar o inconsciente coletivo universal, bem como a elementos da moderna tecnologia industrial, com recursos visuais e grafismos, como fariam mais tarde os construtivistas, os dadaístas, a pop art e os concretistas.

Khlébnikov e Maiakóvski compuseram poemas na linguagem zaum trabalhando com a fragmentação e justaposição, à moda cubista. Vejam os exemplos dos dois poemas curtos abaixo:


Encantação pelo riso
(Vielímir Khlébnikov/tradução de Haroldo de Campos)

Ride, ridentes!

Derride, derridentes!

Risonhai aos risos, rimentes, risandai!

Derride sorrimente!

Risos sobrerrisos – risadas de sorrideiros risores!

Hílares esrir, risos de sobrerridores riseiros!

Sorrissonhos, rissonhos

Sorride, ridiculai, risando, risantes

Hilariando, riando

Ride, ridentes!

Derride, derridentes!


Balalaica
(Vladimir Maiakóvski/tradução Augusto de Campos)

Balalaica

(como um balido abala

a balada do baile

de gala)

(com um balido abala)

abala (com balido)

(a gala do baile)

louca a bala

laica


Utilizavam a técnica de montagem, a linguagem cotidiana, tentando compor em palavras as imagens urbanas de forma dinâmica, em movimento, aproximando-se esteticamente ao que Marinetti apenas defendeu programaticamente, mas não realizou.

Kamienski, dentre os poetas cubofuturistas, foi o que mais utilizou grafismos, bem como onomatopeias e linguagem popular.

Mais tarde, a linguagem poética zaum foi adotada pelos poetas Nicolai Asseiev e Iliazd.

Também surgiram experimentos inspirados na linguagem zaum nos movimentos dadaístas e surrealista.

Vejam neste blog um artigo específico sobre a linguagem transmental intitulado Zaum e Oberiu sobreviveram ao estalinismo.

Formalismo russo

Contemporâneo ao cubofuturismo, foi criado em Moscou um grupo de estudiosos de linguística e teoria literária que depois ficou conhecido por "formalismo russo".

Esse grupo de teóricos, críticos e linguistas fundou em 1914 o Círculo Linguístico de Moscou e passou a publicar série de estudos sobre a linguagem poética.

No ano da revolução, 1917, os formalistas criaram a Sociedade de Estudos da Linguagem Poética (Opoyaz), cuja interação com os poetas de vanguarda era constante.

Diferente dos teóricos marxistas do realismo socialista, os formalistas não tinham tanto em conta a história literária, mas os aspectos concretos da linguagem prática, refutando a história tradicional (biográfica, serial e cronológica).

Faziam parte do grupo Roman Jakobson, Boris Eikenbaum, Boris Tomachevski, Yuri Tynianov, Viktor Chklovski, Viktor Vinogradov, Ossip Brik e outros.

Roman Jakobson

Ossip Brik era o principal amigo de Maiakóvski. Os vanguardistas russos, como os italianos, eram favoráveis ao amor livre. Brik e Maiakóvski dividiam a mesma mulher: Lilia.

Ossip Brik, Lilia e Maiakóvski
Oficialmente, ela era casada com Ossip. Na prática, era mulher dos dois. Os três inclusive dividiram a mesma casa por um longo período.

Maiakóvski teve vários outros casos amorosos, porém o mais duradouro foi com Lilia.

A seguir,  o poema em forma de anel Liubliú (Amo), de Maiakóvski, de 1925, dedicado a Lilia Brik. O design gráfico é do construtivista El Lissitzki (1890-1941).



O ditador Joseph Stalin destroçou os movimentos de vanguarda e também o círculo de estudiosos do "formalismo russo", cujos estudos resultaram no estruturalismo surgido mais tarde em Paris.

Com o passar dos anos, Maiakóvski se tornou cada vez mais racionalista.

Na verdade, o poeta adotou uma postura de afirmação e negação própria, independente, que nem sempre era apoiada pelos companheiros.

Quanto mais isolado se via, tanto pelos companheiros quanto pelo regime soviético, mais radicalizava suas opiniões. Algo parecido com o que se deu com o brasileiro Glauber Rocha nos últimos anos de vida em relação aos colegas do Cinema Novo.

A radicalização de Maiakóvski não era contra os colegas, mas principalmente fruto de sua decepção com os rumos da revolução bolchevique, na qual se empenhara de corpo e alma.

Como a maioria dos seus colegas do movimento cubofuturista, Maiakóvski bandeou para o construtivismo, que, por sua vez, tinha estreitos vínculos com os estudiosos do formalismo russo.

Ambos os movimentos tiveram grande influência sobre vanguarda alemã.

Vejam neste blog artigo específico sobre o formalismo russo, intitulado Forma é informação.

Construtivismo

O construtivismo russo foi um movimento estético-político iniciado na Rússia a partir de 1919, como parte do contexto dos movimentos de vanguarda no país, porém mais vinculado à arquitetura e à arte industrial.

Negava uma "arte pura" e procurava abolir a ideia de que a arte é um elemento especial da criação humana, separada do mundo cotidiano.

A arte, inspirada pelas novas conquistas do novo Estado soviético, deveria, assim, se inspirar nas novas perspectivas abertas pelas técnicas e materiais modernos, para colocá-los a serviços dos objetivos sociais e da construção de um mundo socialista.

Suprematismo, de Malevitch, de 1916

O termo "arte construtivista" foi introduzido pela primeira vez pelo artista plástico Kazimir Malevich para descrever o trabalho do artista plástico, fotógrafo e designer gráfico Alexander Rodchenko, vinculado ao grupo cubofuturista.

Design gráfico de Rodchenko para poema de Maiakóvski

O construtivismo como movimento ativo durou até os anos 1930, tanto na União Soviética como na República de Weimar (Alemanha), para onde imigraram Vassíli Kandínski e outros de seus integrantes.

Quadro Fuga, de Kandinski, de 1914
Caracterizava-se, de forma bastante genérica, pela utilização constante de elementos geométricos, cores primárias, fotomontagem e a tipografia sem serifa.

O construtivismo teve influência profunda no design moderno e está inserido no contexto de toda vanguarda estética europeia do início do século XX. Seu auge foi a escola alemã de design e arquitetura Bauhaus.

No teatro, um de seus principais nomes foi o diretor Vsvelod Meyerhold – e mais tarde o encenador alemão Bertolt Brecht. No cinema o grande nome foi Serguei Eisenstein, com suas teorias sobre a montagem cinematográfica.

Vsvolod Meyerhold

Serguei Eisenstein

Um grande poeta considerado construtivista foi Nicolai Asseiev, que pertenceu inicialmente ao grupo cubofuturista. As últimas obras de Maiakóvski também se encontram na esfera estética do construtivismo.

A partir do Congresso dos Escritores de 1934, a única forma de arte admitida na URSS seria o realismo socialista. O cubofuturismo, o construtivismo e outras tendências de vanguarda passaram a ser rotuladas como "formalistas" e foram proibidas.

Mesmo procedimento adotou Mussolini na Itália em relação ao grupo futurista liderado por Marinetti, que a essa altura já havia sido extinto.

A seguir, farei breves apresentações sobre cada um dos fundadores do movimento cubofuturista: Vladimir Maiakóvski, David Burliuk, Velímir Khlébnikov e Vassíli Kamiênski.

Mas saliento que nos anos posteriores o movimento incorporou autores tão ou mais importantes que os quatro.

Vladimir Maiakóvski (1893-1930)

Maiakóvski é, certamente, o mais popular dos poetas modernos, ao lado do português Fernando Pessoa, do alemão Bertolt Brecht, do norte-americano Ezra Pound e do galês Dylan Thomas.

Cresceu numa reserva florestal da Geórgia, da qual seu pai era inspetor. Mudou-se para Moscou após o falecimento do pai e, desde cedo, trabalhou para manter a mãe e a irmã.

Desde jovem tinha estatura dos jogadores de basquete dos dias atuais: mais de dois metros de altura. Em Moscou, tornou-se carne e unha dos irmãos Burliuk (David e Vladimir).

Graças a David Burliuk, com apenas 14 anos se tornou militante do então clandestino Partido Bolchevique, que daria origem ao Partido Comunista da URSS.

Na cola dos irmãos Burliuk, que eram pintores, tornou-se estudante de artes plásticas.

David costumava apresentá-lo às pessoas como o “maior poeta russo”. O curioso é que até então Maiakóvski não havia escrito um só verso. Quando finalmente decidiu escrever, comprovou a intuição do amigo.

Ao liderar a criação do movimento cubofuturista, em 1910, o jovem Maiakóvski já era poeta consagrado; mas não tanto por ter se tornado popular e, sim, porque seu “mestre”, Vielímer Khlébnikov, já o considerava como tal.

Após a Revolução de 1917, todo o grupo cubofuturista manifestou adesão ao regime soviético.

Durante a Guerra Civil, Maiakóvski se dedicou a desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início da consolidação do novo Estado, ajudou a criar a agência de propaganda estatal.

Fundou em 1923 a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), que reuniu a “esquerda das artes”, isto é, os escritores e artistas que pretendiam aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social.

Fez inúmeras viagens pelo país, aparecendo diante de vastos auditórios para os quais lia os seus versos e defendia sua estética revolucionária.

Viajou também pela Europa Ocidental, México e EUA para defender suas ideias.

Com a pintora Frida Khalo (vestida de bandoleira) no México

Foi um homem de grandes paixões, arrebatado e lírico, épico e satírico ao mesmo tempo.

Embora tivesse estatura de jogador de basquete, era fanático por futebol. Torcia pela equipe do Spartak Moscou, um dos times mais antigos da história deste esporte.

Oficialmente, suicidou-se com um tiro em 1930, sem que isto tivesse relação alguma com sua atividade literária e social.

Sabe-se, no entanto, que na época o poeta vinha sendo altamente pressionado pelos programas oficiais soviéticos que desejavam instaurar uma literatura simplista e dita realista.

Sua obra poética emprega a linguagem do dia a dia, sem nenhuma consideração pela divisão em temas e vocábulos “poéticos” e “não-poéticos”, a par de uma constante elaboração, que vai desde a minuciosa invenção vocabular até o inusitado arrojo das rimas.

Tinha gosto pelo desmesurado, o hiperbólico, aliando em sua poesia a dimensão crítico-satírica.

Era um poeta rigoroso, que chegava a reescrever sessenta vezes o mesmo verso. Recolhia muito material informativo e linguístico para posterior uso nos seus poemas.

Deixou ensaios sobre a arte poética e centenas de artigos curtos.

Foi um dos principais dramaturgos russos do seu tempo. Deixou roteiros de cinema arrojados e fantasiosos e vários filmes de propaganda, por ele próprio dirigidos. 

Vielimir Khlébnikov (1885-1922)

Embora pobre e maltrapilho, Khlébnikov, dentre os quatro cubofuturistas pioneiros, era o de mais densa formação e com mais rica produção literária quando o primeiro manifesto do movimento foi publicado em 1912.

Teve formação superior em ciências naturais, física e matemática. Como o irlandês James Joyce, tinha grande facilidade com idiomas. Além do russo, dominava o francês, o árabe, o persa, o turco e idiomas regionais do vasto território russo.

Passou boa parte de sua curta vida vagando como andarilho pela Rússia e pelos países do Oriente Médio, sobretudo a antiga Pérsia, hoje Irã.

Conta-se que guardava seus versos numa fronha de travesseiro enquanto viajava.

Tinha o hábito estranho de ficar de pé sob uma perna só, por isso os amigos o apelidaram com o nome de uma ave pernalta do Báltico.

Seu desprezo pelos aspectos práticos da vida o levaram a se confrontar com os dirigentes da revolução bolchevique, que viam nele um vagabundo repreensível. No entanto, esse homem com aparência de mendigo era o poeta mais técnico do cubofuturismo.

Com Kamiênski criou a linguagem poética zaum, adotada pelos demais companheiros cubofuturistas.

Concebeu uma série de utopias e invenções, algumas com humor nonsense muito próximo dos dadaístas.

Desenvolveu pesquisas sobre as correspondências numéricas entre os acontecimentos históricos.

Chegou a sugerir aos dirigentes soviéticos que introduzissem os símios na categoria de humanos e lhes dessem o direito de cidadania.

Para acabar com as guerras, propôs que a Islândia fosse transformada em um campo de batalha permanente entre os que tivessem o propósito de guerrear, evitando assim danos a outras partes do planeta.

Projetou um veículo global de tramitação de conhecimentos muito parecido com o que é hoje a internet.

Apregoou um governo planetário – o que não difere muito das políticas globalizadoras do mundo atual.

Khlebnikov foi pintor, ilustrador e compositor. Maiakóvski o considerava o “mestre” do cubofuturismo.

David Burliuk (1882-1967)

No início exerceu o papel de líder do cubofuturismo, mas aos poucos a personalidade de Maiakóvski naturalmente se impôs.

Burliuk era uma figura que espantava os militantes de esquerda, pelo seu temperamento intempestivo, gosto por provocar escândalos, sempre com seu monóculo, sua cartola e a face pintada por arabescos primitivos.

Foi um misto de pintor, mecenas de arte, escritor, agitador, poeta e dramaturgo.

Sendo os seus pais ricos, teve a oportunidade de estudar em países como a França, a Alemanha e a Grécia.

Retrato de Eisenstein, de 1914, feito por Burliuk

Depois que deixou a URSS, em 1922, seu trabalho aproximou-se do expressionismo e do abstracionismo.

Deixou um legado de incontáveis obras, dentre elas a série de retratos, vinculadas a diferentes movimentos artísticos de vanguarda.

Vassili Kamiênski (1884-1961)

Era o poeta comportamental do grupo, um misto de revolucionário e anarcoindividualista.

Apaixonado por aviação, foi um dos primeiros pilotos do país. Projetou e construiu o primeiro planador russo.

De infância e juventude difíceis, perdeu os pais aos cinco anos de idade, indo viver com uma tia, entre trabalhadores rudes. Teve de abandonar os estudos com 16 anos para trabalhar e sobreviver.

Como trabalhador, foi preso por participações de greves, tornando-se, posteriormente, aviador e envolvendo-se nos eventos literários mais importantes de sua época.

Seus poemas estão frequentemente no limite entre a fala e o canto. Utilizou grafismos à maneira do futurismo italiano e à linguagem zaum, explorando a fala cotidiana e rural.

Publicou poemas épicos celebrando três rebeliões camponesas russas e deixou extensa obra de memórias sobre seu tempo, na qual aborda em detalhes a criação do movimento cubofuturista.

Traduções dos cubofuturistas e obras sobre eles no Brasil

As duas principais traduções dos poetas cubofuturistas foram realizadas pelo trio Augusto de Campos/Haroldo de Campos/Boris Schnaiderman, que resultaram nos livros Poesia russa moderna e Poemas de Maiakóvski, ambos pela editora Perspectiva.

O primeiro livro é uma seleção de obras dos principais poetas de vanguarda russos. Inclui simbolistas, acmeístas, adamistas, cubofuturistas, construtivistas e outros que os sucederam.

O segundo livro é uma antologia com alguns dos principais poemas de Maiakóvski.

Sobre o cubofuturismo, as principais obras publicadas no país são: Vanguarda europeia e modernismo brasileiro (de Gilberto Mendonça Teles), pela editora Record, A poética de Maiakóvski (de Boris Schnaiderman), Maiakóvski e o teatro de vanguardas (de Angelo Maria Ripellino), Linguística, poética e cinema (de Roman Jakobson), os três pela editora Perspectiva.

Para encerrar, dois belos poemas sobre a importância de Maiakóvski para a vanguarda russa.

O primeiro é da acmeísta Marina Tzvietáieva (1892-1941) e o segundo do seu amigo e colega do cubofuturismo Boris Pasternak (1890-1960), sobre o efeito devastador do suicídio do poeta em maio de 1930.


A Vladímir Maiakóvski 

(Marina Tzvietáieva/tradução de Haroldo de Campos)

Acima das cruzes e dos topos,

Arcanjo sólido, passo firme,

Batizado a fumaça e a fogo –

Salve, pelos séculos, Vladímir!

Ele é dois: a lei e a exceção,

Ele é dois: cavalo e cavaleiro.

Toma fôlego, cospe nas mãos:

Resiste, triunfo carreteiro!

Escura altivez, soberba tosca,

Tributo dos prodígios da praça.

Que trocou pela pedra mais fosca

O diamante lavrado e sem jaça.

Saúdo-te, trovão pedregoso!

Boceja, cumprimenta – e ligeiro

Toma o timão, rema no teu voo

Áspero de arcanjo carreteiro.


A morte do poeta
(Boris Pasternak/tradução Haroldo de Campos)

Não queríamos crer – delírio!

Mas dois, três, todos, incessantes,

O repetiam. Ajustados no trilho

Do instante, estacavam os domicílios

De burocratas e comerciantes.

Áreas e árvores, e no alto sobre os galhos

Corvos no fumo do sol fogo

Ralhavam com esposas-gralhas:


Que não metessem o nariz no pecado

As tolas! Todas ao diabo!

Mas nos rostos, um úmido decomposto

Como nas pregas de uma rede rota.

Um dia inócuo, inócuo, mais inócuo

Que uma dezena de teus dias passados,

No vestíbulo, a turba se coloca

Em fila, premida por um disparo.

Como um jorro de lúcios e de bremas

Achatados, cuspidos das maremas

Pelo estouro de um petardo entre caniços,

Como um suspiro de tiros não-fictícios

O leito armado sobre a maledicência,

Você dormia, agora plácido, em paz.

Vinte e dois anos (*), belo, e a pré-ciência

De tudo isto em teu poema quadriparte!

Você dormia, rosto preso no travesseiro,

Dormia, a plenas pernas, a plenos tornozelos,

Penetrando de novo, de um só golpe,

No fabulário das legendas jovens.

E procurando da maneira mais direta

Porque nele você entrava de um salto.

Teu disparo parecia um Etna

Sobre encostas de covardes e fracos.

* Refere-se ao grande poema A nuvem de calças, composto por Maiakóvski em 1915, aos 22 anos. O poema era dividido em quatro partes. 

Maiakóvski morto em maio de 1930

2 comentários:

  1. Lição de que os movimentos culturais não podem se deixar prisioneiro ao movimento político partidário. E que não cabem dentro de ditaduras de esquerda ou direita.

    ResponderExcluir
  2. Concordo plenamente, Edmar. Há também a questão de se confundir as opções políticas dos artistas com o que realizaram. Acho a grandeza de Maiakóvski e de Brecht, como artistas, muitíssimo mais importante do que o fato de terem sido de esquerda. Assim como o que Marinetti, Pound, Fernando Pessoa, Céline pensaram ou realizaram é muitíssimo mais importante do que o fato de terem se identificado com a direita da sua época.

    ResponderExcluir