domingo, 9 de agosto de 2015

Um homem com muitas qualidades chamado Robert Musil

Dos sete melhores romances europeus do século XX, três foram escritos em alemão: O processo (de Franz Kafka), Doutor Fausto (de Thomas Mann) e O homem sem qualidades (de Robert Musil).

Os outros quatro são: Ulisses e Finnegans wake (do irlandês James Joyce), Viagem ao fim da noite (do francês Louis-Ferdinand Céline) e Petersburgo (do russo Andrei Biéli).

Embora tenha nascido na Áustria, um país pródigo de grandes escritores, Robert Musil (1880-1942) morreu em Genebra, Suíça, durante a II Guerra Mundial, pobre, esquecido e dependendo da ajuda de amigos.



Robert Musil na velhice
De família humilde, aos dez anos foi enviado pelo pai para uma escola militar, única forma de um garoto austríaco pobre ter formação educacional consistente na época.

Aos 21 anos, quando conseguiu se diplomar em engenharia, largou a carreira militar. Mas logo foi convocado pelo exército de seu país para combater na I Guerra Mundial, de 1914 a 1918.

Ao final dos combates chegou a capitão, condecorado com a principal ordem de guerra do moribundo Império Austro-Húngaro.

Em 1923 mudou-se para Berlim, Alemanha, onde teve rápido reconhecimento como dramaturgo, prosador e crítico literário. Mas veio a ascensão do nazismo, em 1933, e teve de fugir para Viena.

Nesse período, vivendo na penúria como refugiado de guerra, escreveu a maior parte de sua grande obra, O homem sem qualidades, que permaneceu inacabada quando o autor faleceu em 15 de abril de 1942, em Genebra...



Musil começou a escrever O homem sem qualidades em 1922.

Robert Musil

Publicara em 1906 o romance O jovem Törless, cujo clima de sadismo e opressão antecipava a ascensão do nazismo. Obra que foi enaltecida por vários críticos de esquerda.

Também publicou a novela As reuniões (1911) e o livro de contos Três mulheres (1924), ambos com boa acolhida.

Suas peças Os entusiastas (1921) e Vicente ou a amiga dos homens importantes (1923) foram encenadas com sucesso de público.

Mas essas cinco obras foram para o autor como uma espécie de preparação para realizar O homem sem qualidades.

Sua vida parecia direcionada para a produção final do romance, no qual trabalhou obsessivamente até o dia de sua morte, em 1942.

Musil o escreveu e reescreveu por vinte anos. Quando morreu, de uma súbita hemorragia cerebral, o romance estava longe de ser concluído.

O primeiro e o segundo livros, que totalizam mais de mil páginas, foram publicados em 1930 e 1933, respectivamente, em Berlim.

Vinte capítulos foram humilhantemente suprimidos do segundo volume por imposição do editor, por achar o livro demasiado extenso e, em razão disso, pouco viável comercialmente.

De 1933 até a data de sua morte, Musil trabalhou no terceiro volume.

Em 1943, em Lausanne, Suíça, sua viúva, Martha, publicou uma coleção de 462 páginas deixadas pelo marido, incluindo os 20 capítulos retirados do segundo volume e os rascunhos dos capítulos finais inacabados.

Martha Musil

A dedicação de Musil à sua grande obra, escrevendo-a por duas décadas quase diariamente, acabou por deixar sua família em sérias dificuldades financeiras.

O livro não lhe trouxe nem fama nem fortuna. Este foi um dos motivos pelos quais sentiu-se amargurado e injustiçado nos últimos anos de sua vida.

Até hoje o romance é visto pelos críticos – muitos dos quais comentam as obras sem lê-las – como autobiográfico, supondo-se que as ideias e as atitudes dos protagonistas expressem as do próprio autor.

O que apenas em parte é verdade.

Aspectos da vida vienense apresentados no romance são realmente baseados na trajetória e nas experiências do autor.

Embora a trama (com exceção de uma curta aparição do imperador austríaco Francisco José I) seja ficcional, vários personagens foram inspirados em austríacos e alemães conhecidos e alguns em pessoas anônimas do círculo do escritor.

Mas os traços autobiográficos terminam aí.

A intuição poética do escritor, enriquecida por seu aguçado espírito científico, proporcionou ao autor a capacidade de traçar um vasto panorama ficcional de sua terra e da Europa do século XX.

Sua preocupação foi muito mais abrangente do que realizar uma obra memorialista. O romance constitui um painel da existência burguesa no início do século XX e antecipa as crises que a Europa viveria apenas na segunda metade do século.

Musil foi um dos prosadores do século XX que melhor traçou o valor da inteligência objetiva do homem diante das casualidades mundanas.

O protagonista Ulrich – o "homem sem qualidades" – faz três grandes tentativas de se tornar um homem importante.

A primeira na condição de oficial, a segunda no papel de engenheiro (a carreira do próprio Musil) e a terceira como matemático, três profissões dominantes da cultura alemã do século XX.

Os três ofícios são essencialmente masculinos e revelam o semblante de uma época regida pelo militarismo, pela técnica e pelo cálculo que, juntos, acabaram resultando em imenso potencial destrutivo para a humanidade.

A compreensão da realidade característica da obra e do pensamento de Musil não é apenas satírica. Há também a índole ensaística, que faz com que o romance abranja a confluência dos gêneros.

Assim como Joyce com seu Ulisses, Musil utiliza de vários recursos expressivos próprios da era moderna em seu romance.

Joyce também encerrou sua vida na Suíça, a pátria dos exilados
Há,  sobretudo, elementos do ensaio no corpo da ficção, mas também uso livre do discurso falsamente científico carregado de poesia, do discurso publicitário e do discurso jornalístico.

Por ter adotado uma atitude irônica diante da sociedade, e decidido a lutar contra a estultice do século – “a imensa raça das cabeças medíocres e estúpidas” – Musil passou a ser considerado pelos críticos como utopista, ou até místico.

Embora tenha sido um escritor combativo e determinado, os críticos passaram a mostrá-lo como um homme de lettres – o que ele sempre renegou – distanciado da realidade, apesar de provido de requintes na linguagem.

Quando foi publicada a primeira edição de O homem sem qualidades, entre 1930 e 1932, o romance foi qualificado como "obra pornográfica". Mais ou menos como ocorreu com Ulisses, de James Joyce, que, por isso, foi proibido por um período nos EUA e na Inglaterra.

No Brasil, a obra-prima de Musil foi publicada em 1989, pela Nova Fronteira, com tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth.

Estilo e estrutura

O romance monumental O homem sem qualidades, de Robert Musil, tem mais de 1.700 páginas (a depender da edição) divididas entre três livros, o último dos quais publicado pela viúva após sua morte.

Retrata com ironia a sociedade austríaca pouco antes da 1ª Guerra Mundial.

A trama se passa em 1913 em Viena, capital do então Império Austro-Húngaro, ao qual Musil se refere jocosamente como “Kakânia”. Em tradução literal, kaka refere-se mesmo a "caca", fezes. Portanto, império de merda.

Em 1954, o brasileiro Oswald de Andrade lançou o primeiro volume de um livro memoralista que prometia ser extenso: Um homem sem profissão. É sobre um Ulrich brasileiro, ele próprio, sobrevivendo da herança familiar na "Kakânia" nacional.

Oswald de Andrade

A obra de Oswald estacou nesse primeiro volume, pois o autor morreu naquele mesmo ano.

Musil buscava chegar, com o protagonista Ulrich e a trama que se desenvolve a seu redor, a uma síntese entre o fato científico minucioso e o místico, ao qual se refere como "a vida flutuante".

No começo, ele não queria que a primeira parte do romance fosse publicada até que toda a obra estivesse concluída. Mas a penúria econômica o forçou a autorizar a primeira edição com a obra incompleta.

Mais tarde, quando não pôde mais fazer alterações no que já havia sido publicado, ele arrependeu-se de ceder às insistências de seu editor, que há muito tempo lhe emprestava dinheiro, para cortar vinte capítulos.

Os críticos especularam sobre a viabilidade dessa primeira ideia de Musil, já que alguns acreditavam que o tamanho da edição definitiva, caso ele tivesse terminado o livro, seria duas vezes maior do que a que se tem hoje.

O romance é dividido entre o Livro primeiro e o Livro segundo. O Livro primeiro abrange a "Parte I: uma espécie de introdução" e a "Parte II: A mesma coisa acontece". E o Livro segundo, a "Parte III: Rumo ao reino dos mil anos: os criminosos".

Parte I: Uma espécie de introdução

A Parte I é a apresentação do protagonista, um matemático de 32 anos chamado Ulrich que busca um sentido para a vida e para a realidade.

Sua flexibilidade moral e indiferença o transformam em 'um homem sem qualidades', que precisa do mundo exterior apenas para formar seu caráter.

Ao mesmo tempo, é apresentado outro importante personagem: o assassino e estuprador Moosbrugger, que é condenado por esfaquear uma prostituta.

Dentre os outros personagens da Parte I estão a amante ninfomaníaca de Ulrich, Bonadea, e a esposa neurótica de seu amigo Walter, Clarisse, cuja recusa em ter uma existência comum acaba por conduzir o marido à loucura.

Parte II: A mesma coisa acontece

Na Parte II, Ulrich participa dos frenéticos preparativos da celebração dos 70 anos do reinado do imperador austríaco Francisco José I, chamada de Campanha Colateral ou Campanha Paralela.

No mesmo ano, 1918, o imperador alemão Guilherme II completa seu trigésimo aniversário no comando do país.

Patriotas austríacos se propõem então, com todas as suas forças, a demonstrar a supremacia política, cultural e filosófica da Áustria na festa.

Algumas personagens do romance entram para a organização do evento, chamando a atenção de Ulrich. Uma delas é Ermelinda Tuzzi, chamada de Diotima – prima de Ulrich – que tenta ser musa inspiradora de qualquer homem que passe por seu caminho.

Ela consegue atrair as atenções tanto de Ulrich como do conde Arhneim.

Há um nobre quixotesco no comando da campanha, o velho conservador conde Leinsdofr, apresentado por Musil como uma figura paradoxal: é incapaz de se achar e, ao mesmo tempo, de se perder.

O general Stumm von Bordwehr, do Exército Imperial Real, acaba por ser malvisto pelo povo, graças às suas tentativas de organizar as coisas de modo sistemático em meio a uma atmosfera mística e anárquica.

Já o conde alemão Paul Arhneim é um admirador da combinação de beleza e espiritualidade em Diotima, apesar de não querer casar-se com ela.

A grande ironia e sátira de Musil se encontra no fato de uma celebração planejada para enaltecer a paz e a coesão imperial tornar-se um caminho para a guerra e para o caos.

Livro segundo – "Parte III: Rumo ao reino dos mil anos: os criminosos"

A Parte III está centrada em Ágata, irmã de Ulrich. Após a morte do pai, os dois irmãos têm um encontro em que, numa atmosfera surreal, transparecem seus anseios incestuosos.

Este foi o motivo principal de os críticos da época considerarem a obra pornográfica.

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