segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Por que literatura?

Recentemente realizei uma palestra interativa para associados da entidade JPI (Jovens, Pessoas de meia idade e Idosos unidos). O tema foi por eles sugerido: “Por que literatura?”

O combinado fora que os participantes me indicariam alguns motes sobre os quais eu deveria falar. Assim foi. Se bem que em alguns momentos me prestei apenas a ouvi-los.


Imagem do pequeno público presente
Um dos representantes iniciou as atividades falando sobre a formação da maioria deles. Explicou que realizavam ciclos permanentes de palestras relacionados àquilo que convinha à maioria.

Como eu era tido como um sujeito meio versátil – ora escrevo sobre literatura e artes em geral, ora me meto a escrever sobre política (cada vez menos), bichos, plantas, etc. – acharam por bem me convidar.

Ele disse que a maioria fora educada para dois universos do conhecimento: as artes e as ciências. Como se fossem o que de mais essencial há nesta vida.

Mas mesmo os mais jovens sabiam que seguiriam trajetórias afastadas de tudo que aprendiam. Pois teriam de encarar a vida real e se tornar adeptos de um monte de outras porcarias que nada teriam a ver com os conceitos puristas que lhes eram ensinados.
  
No entanto, algumas das formulações permaneciam nas memórias de cada um deles.


Por exemplo, a de que no “campo das artes” está a literatura e também o desenho, a pintura, a escultura, o teatro, a música, a moda, a arquitetura, o design, a publicidade, o cinema, as histórias em quadrinhos, a fotografia, o artesanato, os arranjos florais, etc.

Enfim, os JPIs realizavam tais ciclos de palestras para aprender a digerir questões pouco resolvidas que não lhes de saía da cabeça ao longo da vida.


Por que as grandes glórias das civilizações eram quase sempre atribuídas aos artistas e cientistas?

Um político, um religioso, um esportista, etc., podiam se tornar célebres, mas nada que se comparasse a um grande artista ou a um grande cientista.

Entre tantos conceitos sobre “arte”, disse o JPI que introduzia o evento, foi a eles ensinado que se trata do culto do belo.

Ou então que a função do artista é expressar emoções: alegria, paixão, culpa, dor, arrependimento, etc. E que por meio da arte qualquer uma delas pode vir à tona.


Nos tempos antigos os gregos atribuíam a isso o nome de catarse.

Hoje temos festivais de rock nos quais cada qual solta toda alegria e maluquices, dançando, gritando, se beijando, cheirando pó, fumando maconha, tomando todas sem moderação, exprimindo todo amor e ódio represados e o que mais possa ser feito por impulso nos ambientes coletivos.

E muitos artistas, óbvio, se tornam extremamente hábeis em expressar essas emoções para o público.

Um dos JPIs perguntou o que eu achava do fato de os artes em geral exercerem essa função de externar as emoções, variando apenas os métodos, as formas e a capacidade criadora.

Pedi um tempo, pois realmente não tinha nada formulado para dizer naquele momento.

Ao notar meu constrangimento, o JPI que apresentava o encontro prosseguiu. Disse que fora ensinado a eles que todas as artes têm, entre si, mais semelhanças que diferenças.


Música e literatura, por exemplo, usam o som sob medidas temporais.

Na música, o som vem em sentido mais material, vinculado aos instrumentos, à voz.


Na literatura, os sons têm algumas das qualidades da música, mas acrescidas de significados a que chamamos de palavras, frases, etc.

Lembrei a ele que Anthony Burgess dizia que literatura, grosso modo, pode ser definida como o uso de palavras maximamente trabalhadas. Que, essencialmente, é a arte da exploração das palavras.


Anthony Burgess e um amigo
Portanto, alguns textos que não são considerados “arte” literária, como a notável tradução da Bíblia para o inglês médio conhecida como a Bíblia de Wycliffe (de 1383), o tratado Origens das espécies, do médico Charles Darwin têm mais qualidade no trato com as palavras do que obras declaradamente literárias.

Emendei para Ezra Pound, que dizia que literatura é linguagem carregada de significados. E que grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível.


Ezra Pound sob tratamento psiquiátrico
Mas que essa concentração de significados não peque por excessos. Deve ter em alta conta outros aspectos essenciais como a clareza, a objetividade, a condensação.
Perguntei a todos: “O que lhes foi ensinado sobre formas literárias?”

Um JPI logo respondeu que a literatura está dividida entre prosa e poesia...



Disse a ele que tal definição peca pela eficiência. Pois há prosa de alta elaboração técnica e alta condensação que, a rigor, é poesia. E poesia altamente discursiva que, a rigor, é prosa – mesmo que em versos.

Salientei que, historicamente, a prosa é bem mais recente que a poesia. Por um longo tempo o único tipo de literatura existente era a poesia. Daí porque na Grécia antiga a literatura se dividia em três áreas “poéticas”: lírica, dramática e épica.

Um JPI logo resmungou que eu estava chovendo no molhado, pois todos ali haviam aprendido tudo isso nas faculdades. Tintim por tintim.

Um JPI idoso disse, de modo professoral, que por meio da poesia lírica o autor expressa emoções (amor, ódio, piedade, dor) com palavras. De forma que desde os tempos primordiais a poesia lírica se encontra associada à música.

Na Idade Média, acrescentei, por cerca de três séculos a poesia foi mais associada à música que à escrita.

Nos tempos modernos chegou ao consumo de massas por meio dos vários gêneros de música popular. Tanto é que os poetas líricos atuais que não escrevem letras de canções são ignorados.

Mm JPI bastante jovem sugeriu que passássemos à segunda área da literatura na definição clássica: a poesia dramática.

O JPI idoso disse que, apesar de originalmente escrita em versos, a poesia dramática sempre esteve voltada para a ação, por meio de sua representação cênica. Não se restringia, portanto, às palavras.

Mas acrescentei que, como a prosa de hoje, fazia uso da ação, do enredo e de personagens. Observei que as rubricas dos textos dramáticos eram narrativas.

O modelo da poesia dramática antiga, com óbvios aprimoramentos, chegou aos nossos dias. Parte extrapolou os palcos, parte para o romance e, mais recentemente, para o cinema e para a televisão (as telenovelas e as séries das redes pagas).

A terceira área da literatura por definição clássica, disse o JPI idoso, era a poesia épica. Contava uma história, mas também fazia uso da ação, do enredo e de personagens. E também utilizava a narrativa, porém desvinculada das representações cênicas.

Para retomar meu papel de palestrante, que até aquele momento tinha sido pífio, frisei que da poesia dramática e da poesia épica vieram os vários gêneros de prosa.

A longa novela Guerra e paz, do russo Leon Tolstoi, tem laços óbvios com a antiga poesia épica, embora longe de ser comparável à qualidade técnica desta.

Leon Tolstoi em retiro espiritual

Quando se fala que alguém é “escritor”, um profissional que vive da sua arte, normalmente o escasso público leitor dos nossos dias se refere a algum tipo de prosador: romancista, ensaísta, autor de biografias, memoralista, biógrafo, autor de livros de autoajuda, livros-reportagem, livros espíritas ou coisas do tipo.

Mas nos primórdios, toda a literatura estava associada à poesia. A qual tinha funções mais complexas que a dos nossos dias.

Os poemas norteavam a formação dos homens civilizados dos tempos antigos.Todas as obras fundadoras das primeiras grandes tradições literárias eram poemas com funções diversas: religiosa, educadora, legisladora, ética, doutrinadora, entre outras.

Exemplos: os poemas homéricos (Ilíada e Odisseia), o Torá (os cinco livros bíblicos Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) e o Corão.

Um JPI que tinha cara de ser mais douto que os demais disse que a palavra “literatura” vem do latim "litteris", que significa "letras".

Esse JPI ilustrado parecia disposto a jogar mais lenha à fogueira. Acrescentou que literatura significa uma instrução ou um conjunto de saberes ou habilidades de escrever e ler bem, e se relaciona com as artes da gramática, da retórica e da poética.

Por extensão, se refere especificamente à arte ou ofício de escrever de forma artística e por meio das normas cultas de cada língua.

Procurei lançar meus gravetos à fogueira por ele acesa.

Disse que o termo literatura também é usado como referência a um corpo ou um conjunto escolhido de textos. Por exemplo, literatura brasileira, literatura espanhola, literatura inglesa, literatura portuguesa, literatura japonesa, etc.

E também a um conjunto de conhecimentos fundamentais sobre determinados assuntos ou áreas do conhecimento: literatura agronômica, literatura médica, literatura espírita, literatura de cordel, literatura pornográfica, literatura culinária, literatura jurídica, etc.

Assim, literatura é tudo que gera um cabedal de conhecimentos.

Um dos JPIs se contrapôs à minha fala denotando certa irritação.

Disse que literatura, na acepção moderna da palavra, diz respeito à literatura de ficção, que cria e não apenas reproduz a natureza, o conhecimento ou coisa que o valha. À literatura de ficção estão associados os vários gêneros de prosa e poesia contemporâneos.

Não baixei minha bola. Disse que há literatura mais avançada – na forma de realização e construção – em outras áreas que não a da ficção.

Voltei a citar o exemplo de Origens das espécies, do médico naturalista inglês Charles Darwin, e o livro-reportagem Os sertões, do engenheiro e jornalista brasileiro Euclides da Cunha.

Euclides da Cunha após uma briga com um militar

O livro de Cunha, ressaltei, é melhor escrito e elaborado que a maioria dos grandes romances brasileiros da época.

De modo que a própria natureza do caráter estético da literatura cria dificuldades de se elaborar alguma definição objetiva sobre o que é um bom texto literário.

Outros JPIs manifestaram novas discordâncias ao que eu dizia.

Um deles afirmou que todo escritor de ficção busca instruir e perpassar determinadas ideias. Mas que, diferentemente do texto científico, o texto de ficção une essa instrução à necessidade estética que toda obra de arte literária exige.

Enquanto que o texto científico emprega as palavras no seu sentido denotativo, o texto artístico de ficção busca empregar as palavras com liberdade, preferindo o seu sentido conotativo, figurado.

O JPI mais douto acrescentou que a compreensão do fenômeno literário, como das outras artes, tende a ser marcada por etapas enfáticas na história da cultura ocidental.

Assim encontramos uma concepção "clássica", surgida durante o Renascimento e aprimorada durante o Iluminismo, baseada na tradição das grandes obras greco-latinas, que procurava organizar e estabelecer as bases de periodização usadas na estruturação do cânone ocidental da chamada alta literatura.

O paideuma dos gregos antigos, disse eu com ênfase. Mas parece que ninguém entendeu minha observação e esta se perdeu no vazio.

O JPI douto disse ainda que durante o Iluminismo surgira a concepção "romântica", idealista, para a qual a presença de uma intenção estética do próprio autor, ou de um conjunto de ideias no qual se ampara, tornam-se decisivos para sua caracterização.

A concepção "crítica", surgida um pouco mais tarde, passou a sustentar que quaisquer definições são passíveis de confronto. De modo que os escritores e demais artistas se voltaram para modelos teóricos capazes de identificar os fenômenos estéticos dos quais se sentiam parte.

Surgiram, assim, os movimentos de vanguarda: romantismo, realismo, naturalismo, impressionismo, construtivismo e outros.

Observei que há ainda as concepções do leitor individual, que implicam, obviamente, em alto subjetivismo do tipo “gosto disso”, “adoro determinado autor”, etc.

Meu senão: o que é demasiado subjetivo não só sufoca a renovação literária, como também limita excessivamente o corpus já reconhecido.

De qualquer forma, as três concepções citadas (a "clássica", a "romântica" e a "crítica") continuavam preponderantes. Embora o subjetivismo, talvez mais.

Para que serve a literatura?

Como dizia Ezra Pound, literatura não existe num vácuo. Os bons escritores têm uma função social definida que, obviamente, é proporcional à sua competência. Mas não são passíveis de serem avaliados apenas sob o ponto de vista particular de cada um.

A palavra "crítica" veio do grego krino, que significa: fazer sua seleção, escolher.

Assim como a bons conhecedores de carros, cavalos, vinhos e outros produtos, há bons conhecedores de literatura. Mas nem todos os conhecedores de literatura são bons escritores.

Disse aos JPIs que tendo a recorrer às opiniões de bons escritores que foram bons críticos, dentre eles os norte-americanos Edgard Allan Poe e Ezra Pound, os ingleses Samuel Coleridge e Anthony Burgess, o russo Vladimir Maiakóvski, os brasileiros Mário Faustino, Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos.

Mário Faustino em momento de reflexão

Mas também recorro às opiniões de estudiosos que conheceram profundamente literatura: os norte-americanos Ernest Fenollosa e Charles Sanders Peirce, o russo Roman Jakobson, o canadense Marshall McLuhan.

Woody Allen e, à sua direita, Marshall McLuhan

Disse mais. Que os críticos partidários da concepção “romântica”, idealista, tendem, quase sempre, a dar mais valor a escritores que convergem para o que pensam.

Por exemplo, um sectário de esquerda quase sempre elegerá como seus prediletos escritores de esquerda, mesmo que sejam maus escritores.

O religioso elegerá escritores que convenham às suas crenças.

E assim por diante.

Fora essas bobagens todas, uma das principais funções da literatura continuava a mesma desde os tempos primordiais: manter a linguagem eficiente.

Bons escritores – independente do matiz ideológico – devem ser aqueles que mantêm a linguagem eficiente. Mas não só por meio da obediência cega às normas cultas das línguas, conforme fora dito no início. Bons escritores ousam renovar a linguagem.

A par disso, Pound observava:

“Se a literatura de uma nação entra em declínio a nação se atrofia e decai. O legislador não pode legislar para o bem público, o comandante não pode comandar, o povo (se se tratar de um país democrático) não pode instruir seus representantes.”

Por isso, assinalei, creio que a linguagem continuará como o principal meio de comunicação humana. Todos os demais meios sempre dependerão de sua eficiência.

Linguagem nebulosa, em princípio, só serve para gente de má índole: péssimos políticos, corruptos, estelionatários, sociopatas, trapaceiros, mafiosos e enganadores de todos os tipos.

Mas é evidente que nenhuma linguagem em particular é capaz de exprimir todas as formas e graus da compreensão humana. Pessoas sectárias tendam a defender suas ideias fixas numa linguagem igualmente restritiva. E, assim, impõem as desejadas limitações à compreensão humana em geral.

Preservar a boa literatura é, portanto, fundamental para preservar a boa linguagem, a qual melhora a comunicação e a sociedade em geral.

Evidente que poucos leem. Mas por meio dos poucos que o fazem, quanto melhor uma época se comunica mais pessoas dela podem participar, melhor as leis são elaboradas, a governança se qualifica, o ensino e a pesquisa rumam para patamares superiores.

Enfim, a cultura em geral viceja e todos se beneficiam.

Literatura é, portanto, um elo essencial para o progresso.

No entanto, nunca se editou tanto (por meio impresso ou digital) como em nossa época, mas nunca os bons escritores tiveram tanta dificuldade de veicular sua produção.

Razão pela qual é impossível apontarmos um só bom escritor vivo, a não ser os já consolidados – que já faleceram ou estão em vias de.

Provável até que isso não tenha a ver com a falta de interesse das editoras. Estas bailam conforme a onda. Se há quem se disponha a comprar, editam. A falta de interesse por literatura é, portanto, um problema inerente à época e como as coisas se refletem para o público.

Tudo que é autoral e radicalmente inovador encontra grandes dificuldades nesta fase altamente participativa que vivemos, voltada para ambientes de expressão coletivos, como a internet, cujos impulsos são de rápida fruição, mas as reflexões pairam de forma muito superficial.

Há pouca, senão nenhuma tolerância com informações de alto repertório.

Nos ambientes altamente participativos a informação autoral, mais aprofundada e complexa – que exige lenta assimilação e mais tempo para reflexão – perde a importância.

Sabe-se que nos dez anos de ebulição social que resultaram na Revolução Francesa – de 1789 a 1799 – a literatura esteve igualmente jogada às traças. Lia-se apenas aquilo que estava associado às ideias preponderantes. Qual seja, volantes, panfletos, cartilhas e outros materiais de agitação política.

As épocas participativas, como a nossa, sugerem falsa impressão de abundância.

Por exemplo: qualquer pessoa que posta assuntos pela internet se sente autor, pensador, crítico, o diabo a quatro. Umberto Eco já salientou que as redes sociais igualam o público por baixo, proporcionando ambientes de efusiva ignorância.

É óbvio que tais contextos são pouco convidativos para a literatura que, para começar, é produto de autoria que busca a complexidade construtiva e a exatidão no trato com a linguagem.

Fiz uma advertência aos JPIs em geral: desconfiem de toda obra literária que não proporciona menor apelo de releitura.

A qualidade uma grande obra está no todo. Nenhuma de suas partes é visível como um estímulo evidente. Haroldo de Campos disse a respeito do poema homérico Ilíada, do qual foi tradutor: “Homero não decai. A Ilíada não tem recheio. Oscila entre o pico de Agulhas Negras e o Himalaia o tempo todo.”

Haroldo de Campos afundado no trabalho

Cabe ao bom leitor encontrar em suas releituras as razões de uma recepção tão positiva quanto a de Campos a respeito do poema homérico.

Categorias de escritores


Já vimos que, em princípio, literatura é tudo que gera um cabedal de conhecimentos.

Literatura farmacêutica, literatura pornográfica, literatura gastronômica, literatura de cordel, literatura dramática e, entre tantas, a literatura de ficção, que cria, reforma a linguagem e não apenas reproduz a natureza ou se faz redentora do "belo", dos bons ou maus sentimentos, das normas cultas da língua ou coisa que o valha.

Na literatura de ficção estão alocados os vários gêneros de prosa e poesia.

Mas há literatura e literaturas.

A importância de certas obras extrapola a literatura de ficção. Encontramos alta literatura em campos específicos do conhecimento como as ciências naturais, a geografia, a filosofia, as ciências sociais, a história da arte, etc.

Na chamada literatura de ficção, bons escritores quase sempre se encontram nos limites entre a prosa e a poesia.

À primeira, a prosa, que se originou da poesia épica e da poesia dramática, estão relacionados os vários gêneros: contos, novelas, romances, crônicas, poesia em prosa, etc.

À segunda, a poesia, estão relacionados não só o que conhecemos convencionalmente como poesia mas os aspectos mais técnicos da literatura em geral, especialmente os da vertente construtivista, que privilegia a busca cerebral por uma melhor associação entre forma e conteúdo.

A literatura grega antiga, por esse viés construtivista, era dividida em três vertentes: logopeia, fanopeia e melopeia.

Logopeia – a vertente que diz respeito às ideias e às escolas literárias, bem como aos enredos, às tramas, aos gêneros, às minuciosas descrições de cenários e épocas, aos estilos, às concepções em geral e demais aspectos denominados, rasteiramente, como "conteúdo".

Fanopeia – a vertente das técnicas vinculadas aos aspectos visuais da linguagem.

Melopeia – a vertente das técnicas vinculadas aos aspectos sonoro-musicais da linguagem.

Ezra Pound recuperou esses conceitos, enfatizando seus significados para sua gigantesca tarefa de reunir (e traduzir) o que considerava essencial na produção literária de todos os tempos até a era moderna.

Pound também definia os escritores por categorias mais ou menos importantes: inventores, mestres, diluidores, bons escritores sem qualidades salientes, beletristas e lançadores de modas.

Inventores – homens que descobriram um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo.

Mestres – homens que combinaram um certo número de processos, mas não os criaram, e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores.

Diluidores – homens que vieram depois das duas primeiras categorias de escritores e não foram capazes de realizar tão bem os seus trabalhos.

Bons escritores sem qualidades salientes – homens que tiveram a sorte de nascer numa época em que a literatura de seu país estava em boa ordem ou em que algum ramo particular da arte de escrever estava em bom nível. Por ex.: os escritores da época de Dante, de Shakespeare e, mais recentemente, de Flaubert e de James Joyce.

Beletristas – homens que não inventaram nada, mas que se especializaram em uma parte particular da arte de escrever – os autores de biografias, por exemplo – e não podem ser considerados como autores que tentaram dar uma representação da vida ou da sua época.

Lançadores de modas – escritores que trabalham apenas com o gosto médio dos leitores e se mantêm na moda por algum tempo, mesmo que esse tempo seja razoavelmente longo. Exemplo: John Ronald Reuel Tolkien, autor de Senhor dos anéis.

John Ronald Reuel Tolkien satisfeito com a carreira

Sem desmerecer as demais categorias, as mais importantes – apontei aos JPIs – são os inventores, qual seja, os que descobrem um novo processo literário ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de determinado processo literário, rompendo com as convenções.

Em segundo lugar, viriam os escritores mestres, que combinam certas características de tais processos e as usam tão bem ou melhor do que seus inventores.

As demais categorias, concluí, são importantes para as épocas ou meios sociais nos quais surgem e são valorizados.

Mas acabam caindo no esquecimento, dado que seu suporte ou é frágil ou novidadeiro.

Porém dão ao público diversão ou a falsa impressão de que se adquire cultura, conhecimentos, ao consumir o que produziram.

Meios “quentes”, meios “frios”


Na obra Understanding media: the extensions of man (Os meios de comunicação como extensões do homem), publicada em 1964, o até então estudioso de literatura de origem canadense Marshall McLuhan buscou distinguir as mídias de acordo com o grau de participação que exigem das pessoas, classificando-as como "quentes” e “frias" (gírias por ele emprestadas de jargões utilizados pelos críticos de jazz).

Os meios “quentes” são aqueles que não exigem grande grau de participação da audiência para compreensão da mensagem.

Prolongam um único de nossos sentidos por meio da saturação de dados.

Ao fornecer um maior número de dados, permitem pouca ou nenhuma interação com o público.

A literatura, obviamente, é um exemplo de meio “quente”.

Já os meios “frios” requerem alta participação, prolongam mais de um sentido (audição e visão a um só tempo, por exemplo) e, por isso mesmo, têm baixa definição. Exemplo de meio “frio”: a internet.

Os meios “frios” envolvem vários sentidos simultaneamente e disponibilizam muitas informações e pouco repertório, exigindo a intervenção do espectador para interpretar e completar livremente os vazios deixados.

Ao passo que os meios “quentes” não fomentam a participação, pois já comunicam de forma explícita, implícita e intensa.

Justamente por não estar totalmente completo, um meio “frio” permite maior participação que um meio “quente”.

As sociedades também podem ser categorizadas como “quentes” e “frias”. As sociedades em desenvolvimento (como a brasileira) seriam as sociedades “frias” e as sociedades desenvolvidas, altamente letradas, as sociedades “quentes”.

Para McLuhan as tecnologias, consideradas “extensões” do homem, são qualquer artefato produzido pelo homem. Não necessariamente máquinas ou coisas parecidas. A rudimentar pedra de lascar era uma tecnologia. E a escrita continua a ser a principal delas.

Nascemos apenas com nossos sentidos e vamos construindo e incorporando, ao longo da vida, ferramentas que os aperfeiçoam – as chamadas “extensões".  As civilizações o fazem da mesma forma. Uma "extensão" amplia o alcance do corpo e da mente de uma nova forma.

A evolução dos meios afeta a vida física e mental do homem.

Por exemplo, levou-o de um mundo linear e mecânico (da 1ª Revolução Industrial) para uma nova realidade da "era eletrônica" dos meios de comunicação, em especial o rádio, a televisão e, mais recentemente, o computador/internet.

Uma das discussões levantadas por McLuhan foi a ideia de "definição" e “assimilação”.

Para ele, "definição" se confunde com intensidade, e provoca ou a especialização ou a fragmentação do meio. Logo, quando uma experiência é intensa, é necessário reduzi-la a um estado “frio” para que seja, então, assimilada.

Em qualquer meio existe o “limite de ruptura", no qual o sistema se transforma em outro ou atinge um ponto irreversível em seu processo dinâmico. A consequência mais comum das causas de ruptura é o cruzamento com outro sistema.

Por exemplo: a crise do jornalismo impresso após o advento da internet.

A literatura, um meio mais "quente" que o jornalismo impresso, menos participativo que este, portanto, vive uma crise ainda mais profunda.

Testemunho


A parte final da palestra interativa foi quase toda protagonizada pelo participante idoso, identificado como mais douto entre todos, a quem já me referi em passagens anteriores.

Revelou-se como um autor inédito. Anos e anos escrevendo. Obras e mais obras acumuladas. Todas inéditas.

Disse que começou a ler muito jovem.

De tudo: almanaques de variedades, histórias em quadrinhos, livros populares, a Bíblia, livros técnicos, telenovelas e os chamados clássicos que havia na estante de sua casa (Machado de Assis, Raul Pompeia, Aluísio de Azevedo, José de Alencar e outros).

Aos 13 anos decidiu ser escritor. Mas não queria ser autor de romances atrás de romances, como José de Alencar, Jorge Amado e outros. Pretendia ser autor de livros completamente diferentes entre si.

Pensou então em realizar uma obra em progresso, que evoluísse conforme sua própria formação evoluísse. Planejou a concepção e a estrutura construtiva de oito obras com características distintas.

A primeira seria um livro de poemas lírico-dramático sobre o amor e a violência.

A segunda seria um livro de contos compreendendo histórias dos vários gêneros: românticos, policiais, realistas, fantásticos, ficção científica, etc.

A terceira seria uma novela picaresca para contar os acontecimentos do país durante sua vida sob a ótica de um personagem que interagia com quase todos os meios (literatura, jornalismo, TV, cinema, teatro, rádio, publicidade, artes plásticas, literatura oral, internet, etc.).

A quarta seria um romance híbrido em forma de roteiro (que poderia ser de TV, cinema, teatro, show, etc.).

A quinta seria uma novela dramática cujos diálogos contariam com rubricas/didascálias narrativas, mas que incorporasse também modelos de construção musicais (óperas, operetas, sinfonias, sonatas, etc.).

A sexta seria um épico de ficção científica envolvendo elementos construtivos de histórias em quadrinhos e outros meios da cultura de massas.

A sétima seria um romance policial e de aventura em forma de folhetim que se passaria por várias regiões do país.

A oitava seria uma novela naturalista, com alto detalhamento de informações provenientes das ciências naturais, mesclada à literatura fantástica.

Cada obra envolveria uma concepção e um modo de construção distinto.

Esses projetos vinham sendo trabalhados desde sua adolescência.

Dos oito, quatro estavam mais ou menos concluídos. Mas publicara apenas um que não constava na série projetada: um pequeno romance de gênero híbrido que mesclava série de fábulas a um conto.

Originalmente, o romance era para ser uma peça de teatro. Mais tarde evoluiu para um enredo por meio do qual as fábulas se juntaram em torno do enredo de um conto.

E assim ficou, qual os oito livros projetados, num formato único que não viesse a ser repetido em trabalhos futuros.

Disse que se sentia bastante vulnerável, principalmente porque grande parte do que concluíra permanecia inédito e tinha muito o que fazer nos anos de vida que lhe restavam, sem uma perspectiva segura de que teria espaço para veicular esses seus trabalhos de toda a vida.

Manifestei minha torcida para que a vida lhe beneficie com mais algumas décadas para concluir os projetos já iniciados e que tenha condições para divulgar os já concluídos.

Ele agradeceu, mas informou que mesmo sobre o romance publicado pairava a incerteza quanto à possibilidade de torná-lo conhecido. Tinha centenas de exemplares em sua casa e não sabia o que fazer com eles.

Por fim ponderou sobre suas principais fragilidades:

– Não fazia literatura de entretenimento ou com possibilidade mercadológica definida;

– Não fazia literatura engajada;

– Não fazia parte do métier acadêmico ou político;

– Dedicava-se a um trabalho autoral sofisticado, qual seja, navegava por um meio “quente”, altamente saturado, de alta definição e difícil assimilação.

Dispus-me então a mencionar seu dilema no blog Transinfomação – o que estou fazendo agora. Seu nome artístico é Armando Ciladas. Quem por ventura tiver interesse em conhecer esse autor inédito, envie mensagens para o blog que me comprometo a facilitar o contato com o autor.

Procurei estimulá-lo a se expor. Assinalei que o pior dos erros é não nos manifestarmos. No tocante a isso, citei este trecho de Pound:

"O homem lúcido não pode permanecer quieto e resignado enquanto seu país deixa que a literatura decaia e que os bons escritores sejam desprezados, da mesma forma que um médico não pode assistir, quieta e resignadamente, a que uma criança ignorante contraia tuberculose pensando que esteja simplesmente chupando uma bala."

O douto JPI concluiu sua participação confessando que se sentia numa solidão intelectual dos diabos.

Disse que detestava a imagem de sujeito resignado que trabalha solitário por algo considerado quixotesco por muitos. Salientou que não ambiciona reconhecimento e muito menos retorno financeiro com o que faz. Quer apenas poder escrever e ser lido.

Originais de Armando Ciladas

Por hoje é só.

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