sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Anna Akhmátova e Marina Svietáieva, ambas russas, foram poetisas modernas de 1ª

A mais avançada produção cultural de vanguarda moderna, em conjunto, se deu na Rússia nas primeiras três décadas do século XX.



Abrangeu áreas diversas: literatura, artes plásticas, música, teatro, dança, cinema, desenho industrial e estudos da linguagem (o chamado "formalismo russo").

Nenhum país nos legou tantos artistas inventivos em tão curto período e em segmentos tão diversos.

Esses russos pioneiros influenciaram todos os movimentos artísticos que os sucederam. Digo, continuma a influenciar.



Seu lastro inovador irradiou-se para a arquitetura e design da escola alemã Bauhaus, para o construtivismo internacional, para o dadaísmo, para o estruturalismo e os estudos de semiótica.

Alguns dos seus expoentes continuam insuperáveis.



Por exemplo, o que há de mais avançado para o teatro contemporâneo que a estética cenográfica e a biomecânica de Vsvolod Meyerhold, o cinema de montagem de Serguei Eisenstein e Dziga Vertov, a poesia cubofuturista de Vladimir Maiakóvski e Velímir Khlébnikov e as técnicas abstracionistas de Kasimir Malévitch e Vassily Kandinski?


No entanto, no Brasil se conhece pouco sobre essa vertiginosa onda criadora no maior país do planeta, apesar dos esforços de Boris Schnaiderman, Aurora Bernardini, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari e outros.


O pouco que se conhece está atrelado ao interesse ideológico de militantes de esquerda pela antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o nome oficial do país de 1917 a 1985, quando o regime comunista começou as se desfazer com a perestroika (abertura política e econômica) comandada por Mikhail Gorbachev.


Neste artigo dou algumas pinceladas sobre as duas mais importantes poetisas dessa época de ouro da cultura russa: as belas Marina Svietáieva (1892-1941) e Anna Akhmátova (1899-1966).


Marina Svietáieva


Anna Akhmátova
Cada qual era vinculada a um dos dois principais centros culturais do país: Marina a Moscou e Anna a São Petersburgo (Leningrado na época do regime comunista, hoje Petrogrado).

Tinham personalidades bem diferentes. Marina era impulsiva, sedutora arrojada e Ana, mais técnica e ponderada.

Ambas sofreram muito com a repressão soviética e tiveram os respectivos maridos assassinados pelo regime.

Com a morte de Stalin, a segunda (Anna) foi reabilitada pelo regime. Marina, que vivia exilada na França, retornou ao país, mas foi marginalizada e, na completa penúria, acabou se matando.

Marina tinha maior afinidade com os cubo-futuristas. Experimentou poemas na “linguagem transmental” zaum de  Khliébnikov.

Anna foi uma das fundadoras do movimento acmeísta, junto com o marido, Nicolau Gumilíev, também poeta. O acmeísmo tinha forte raízes no simbolismo do grande poeta Alksandr Blok (1880-1921).

Alksandr Blok
As duas só se viram uma vez na vida, poucos meses antes do suicídio de Marina, em 1941, mas mantiveram intensa correspondência. A "ditadura do proletariado" as fez amigas virtuais, numa época que nem se sonhava com internet...


A Rússia, com seus mais de 17 milhões de quilômetros quadrados, tem o dobro do tamanho do Brasil. Mas tem um vasto território parcamente habitado: a gelada Sibéria, para onde iam os presos políticos na época do czarismo e continuaram a ir na época do regime soviético.

Além das maioria eslava, talvez seja o país do planeta que reúne maior diversidade de etnias, idiomas e culturas.

Tem, por exemplo, grande contingente populacional teuto (alemães). Por sinal, um dos principais divulgadores da literatura russa no Brasil, Boris Schnaiderman, provém de família alemã.


Boris Schnaiderman e, à sua direita, Antônio Cândido
Assim como os imigrantes do antigo Império Otomano no Brasil eram genericamente chamados de turcos, entre os imigrantes russos em nosso país há muitos cidadãos alemães, ucranianos, georgianos, etc., genericamente chamados de "russos".


Marina Svietáieva era de família alemã católica. As duas religiões que primam no país, além do velho marxismo, são o cristianismo ortodoxo e o islamismo.

Seu pai era um conhecido filólogo e historiador da arte, professor da Universidade de Moscou. Depois da Revolução Russa, em 1917, a poetisa teve de se exilar. Morou em Berlin, depois em Praga e, a partir de 1925, em Paris.

Seu esposo Sergei Efron, de origem judaica, foi oficial do Exército Branco, que tentou combater os bolcheviques.

Marina só retornou à chamada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1939, para se juntar ao marido, que voltara à pátria atraído por uma proposta do governo soviético de perdoar os “traidores”.

Tratava-se de uma armadilha cruel do regime. Sergei e Ariadna, filha de ambos, foram presos logo que chegaram ao país. Sergei foi fuzilado dois anos depois. Ariadna foi reabilitada somente em 1955, quando se casou com um homem do regime.

Além desta filha, Marina teve dois outros filhos: Irina e Georgi.

Devido à desaprovação oficial, a poetisa não conseguiu morada nem trabalho. Sua filha Irina foi entregue a um orfanato, onde morreu.

Também não conseguia publicar nada. Sua obra poética foi salva da destruição e do esquecimento por sua filha Ariadna, a única sobrevivente da família, já que seu filho Giorgi também desapareceu em condições misteriosas.

Sua obra só começou s ser editada após a II Guerra Mundial, ainda assim em publicações clandestinas.

Concisos, ásperos, de uma severidade que se alterna com certa tendência para o fluente e o musical, seus versos são certamente dos mais belos da poesia russa do século XX.

Manteve em sua poesia os traços da literatura alemã, idioma sob o qual fora educada, caracterizada pela obra de poetas românticos de grande musicalidade como Wolfgang Goethe (1749-1832), Friedrich Höelderlin (1770-1843) e Heinrich Heine (1797-1856).

Deixou também reminiscências, crônicas e ensaios sobre literatura, artes plásticas, teatro e cinema. Sua obra é acessível, apenas em parte, quer na Rússia ou no Ocidente.

Um dos aspectos que levou o regime soviético a marginalizá-la foi o comportamental.

Vários artistas russos tinham relacionamentos amorosos abertos. Maiakovski, por exemplo, mantinha um triângulo amoroso com Lilia Brik, esposa do linguista Óssip Brik, seu amigo.

Serguei Iessiênin (1895-1925) era casado com a bailarina norte-americana Isadora Duncan (1877-1927), mas ambos tiveram amantes de ambos os sexos.


Isadora Duncan e Serguei Iessiênin
Marina também era bissexual. Paralelo ao casamento com Sergei Efron, foi amante dos poetas Óssip Mandelsham, Bóris Pasternak, da poetisa Sofia Parnok e da atriz Sônia Holliday. Dizia-se, inclusive, que Pasternak era o pai de seu úinico filho, Georgi.

Boris Pasternak
Em correspondência, seu marido Sergei Efron deixou registro de sua inconstância afetiva:

“Marina é criatura das paixões. Assim que a sua imaginação envolve alguém, desencadeia-se o furacão. Se descobre a mediocridade do causador, abandona-se a um desespero sem controle. Não importa o objeto, mas sim o como. Não a substância ou a fonte, mas o ritmo, que é demoníaco.”
 
Anna Akhmátova era de ascendência ucraniana.



Sua obra compreende tanto pequenos poemas líricos como grandes poemas, como Requiem, acerca do terror estalinista, cuja tradução postei no final deste artigo.

Seus temas recorrentes eram o passar do tempo, as recordações, o destino da mulher criadora e as dificuldades em viver e escrever à sombra do estalinismo.

Na generalidade, sua obra é caracterizada pela aparente simplicidade e naturalidade e pela precisão e clareza da escrita.

Embora só tenham se visto uma vez, Anna e Marina trocaram correspondência durante décadas.


Divergiam em quase tudo no que diz respeito à produção poética. Anna fazia críticas à poesia de Marina e esta à da amiga. Mas ainda assim foram muito amigas. A distância, uma na URSS e a outra na França.

O marido de Anna, o poeta Nikolai Gumilev,  foi preso por causa de atividades consideradas antissoviéticas e fuzilado em 1921.O filho deles, o historiador Lev Goumilev, também foi preso posteriormente pelo regime.

Por consequência, Anna foi forçada ao silêncio, não podendo publicar sua poesia de 1925 a 1952. Nesse período sobreviveu como tradutora.

A mudança da situação política após a morte de Stalin, em 1953, permitiu sua entrada no Sindicato de Escritores da URSS, que autorizava ou desautorizava quem devia ser publicado pelas editoras do Estado.

Também se dedicou à crítica literária, tendo escrito vários ensaios sobre a obra de Alexandre Púchkin (1799-1837).


Púchkin: caso raro de russo mulato; seu pai descendia de eritreus
Na área da tradução, Akhmátova verteu para o russo autores como Victor Hugo, Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi.

Poemas de Marina e Anna podem ser lidos nas boas traduções de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman no livro Poesia russa moderna, publicado pela Editora Perspectiva.

Décio Pignatari, com o auxílio de Elena Belova Godoy, publicou poemas traduzidos de Marina Svieáieva pela Travessa de Editores. Lauro Machado Coelho publicou traduções de poemas traduzidos de Anna Akhmátova pela editora L&PM.

A seguir, o poema A Vladimir Maiakóvski, escrito por Marina Svietáieva por ocasião do suicídio do poeta, em 1930, com tradução de Haroldo de Campos.

Na sequência, o grande poema Requiem, de Anna Akhmatova, escrito entre 1935 e 1940, com tradução de Lauro Machado Coelho.

O poema retrata o terror do regime stalinista e seus dias à porta da cadeia de Leningrado à espera de notícias do filho Lev Gumiliov.


A Vladimir Maiakovski

A cima das cruzes e dos topos,
Arcanjo sólido, passo firme,
Batizado a fumaça e a fogo -
Salve, pelos séculos, Vladímir!

Ele é dois: a lei e a exceção,
Ele é dois: cavalo e cavaleiro.
Toma fôlego, cospe nas mãos:
Resiste, triunfo carreteiro.

Escura altivez, soberba tosca,
Tribuno dos prodígios da praça,
Que trocou pela pedra mais fosca
O diamante lavrado e sem jaça.

Saúdo-te, trovão pedregoso!
Boceja, cumprimenta - e ligeiro
Toma o timão, rema no teu voo
Áspero de arcanjo carreteiro.

(Trad. Haroldo de Campos)



Réquiem

"You cannot leave your mother an orphan."
- James Joyce

Não, não foi sob um céu estrangeiro,
nem ao abrigo de asas estrangeiras –
eu estava bem no meio de meu povo,
lá onde o meu povo infelizmente estava.

NO LUGAR DE UM PREFÁCIO

“Nos anos terríveis da Iéjovshtchina, passei dezessete meses fazendo fila diante das prisões de Leningrado. Um dia alguém me ‘reconheceu’. Uma mulher de lábios lívidos que, naturalmente, jamais ouvira falar meu nome, saiu daquele torpor em que sempre ficávamos e, falando pertinho de meu ouvido (ali todas nós só falávamos sussurrando), me perguntou:
– E isso, a senhora pode descrever?
E eu respondi:
– Posso.
Uma coisa parecida com um sorriso surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.”

DEDICATÓRIA

Diante dessa dor, as montanhas se inclinam
e o grande rio deixa de correr.
Mas os muros das prisões são poderosos
e, por trás deles, estão as “tocas dos condenados”
e a saudade mortal.
É para os outros que a brisa fresca sopra,
é para os outros que o pôr-do-sol se enternece –
mas nada sabemos disso: somos as que, por toda parte,
só ouvem o odioso ranger das chaves
e o passo pesado dos soldados.
Levantávamo-nos como para o culto da madrugada,
arrastávamo-nos por esta capital selvagem,
para nos encontrarmos lá, mais inertes do que os mortos,
o sol cada vez mais baixo, o Neva mais nevoento,
enquanto a esperança cantava bem ao longe…
O veredicto… e as lágrimas de súbito brotam.
E ei-la separada do mundo inteiro
como se de seu coração a vida se arrancasse,
como se com um soco a derrubassem.
E, no entanto, ela ainda anda… cambaleando… sozinha…
Onde estão, agora, as companheiras de infortúnio
desses meus dois anos de terror?
O que estarão vendo, agora, na neblina siberiana?
A elas eu mando a minha última saudação.

PRÓLOGO

Houve um tempo em que só sorriam
os mortos, felizes em seu repouso.
E como um apêndice supérfluo, balançava
Leningrado, pendurada às suas prisões.
E quando, enlouquecidos pelo sofrimento,
os regimentos de condenados iam embora,
para eles as locomotivas cantavam
sua aguda canção de despedida.
As estrelas da morte pairavam sobre nós
e a Rússia inocente torcia-se de dor
sob as botas ensanguentadas
e os pneus das Marias Pretas.

I

Levaram-te embora ao amanhecer.
Atrás de ti, como quem acompanha um carro fúnebre, eu segui.
No quarto às escuras, as crianças soluçavam
e a vela gotejava diante do ícone.
Teus lábios estavam gelados como uma medalhinha.
Do suor mortal em tua fronte nunca me esquecerei.
Como as viúvas dos Striéltsi, eu também
irei gritar diante das torres do Kremlim.

II

Lento flui o Don silencioso.
amarela a lua entra em casa,
entra com seu boné enviesado,
a lua amarela, e depara com uma sombra.

Esta mulher está doente, esta mulher está sozinha.

O marido morto, o filho preso.
Digam por mim uma oração.

III

Não, esta não sou eu, é uma outra qualquer que sofre.
Não posso suportar o que aconteceu,
deixem que uma negra mortalha o cubra
e que levem embora os lampiões de rua…
Anoitece...

IV

Se te tivessem mostrado – a ti, a zombeteira,
a estimada de todos os amigos,
a alegre pecadora de Tsárskoie Seló –
o que a tua vida te reservava:
como, tricentésima da fila, com teu pacotinho na mão,
ficarias diante da Kriesty,
e tuas lágrimas escaldantes
derreteriam o gelo do Ano Novo…
Lá longe, o álamo no pátio da prisão balouça.
Não se ouve um só som – lá, quantas vidas
inocentes estão acabando…

V

Há dezessete meses choro,
chamando-te de volta para casa.
Já me atirei aos pés de teu carrasco.
És meu filho e meu terror.
As coisas se confundem para sempre
e não consigo mais distinguir, agora,
quem a fera, quem o homem,
e quanto terei de esperar até a tua execução.
Só o que me resta são flores empoeiradas
e o tilintar do turíbulo e pegadas
que levam de lugar nenhum a parte alguma.
E bem nos olhos me olha,
com a ameaça de uma morte próxima,
uma estrela enorme.

VI

As semanas leves vão-se embora.
O que aconteceu eu não entendo.
Como a ti, meu filho, na prisão,
vieram contemplar as noites brancas,
e ainda te contemplam,
com seus ardentes olhos de falcão,
e da tua alta cruz
e de tua morte falam.

VII

O VEREDICTO

E a pétrea palavra caiu
sobre o meu peito ainda vivo.
Pouco importa: estava pronta.
Dou um jeito de aguentar.

Hoje, tenho muito o que fazer:
devo matar a memória até o fim.
Minha alma vai ter de virar pedra.
Terei de reaprender a viver.

Senão… o ardente ruído do verão
é como uma festa debaixo da janela.
Há muito tempo eu esperava
por este dia brilhante, esta casa vazia.

VIII

À MORTE

De qualquer jeito virás – então, por que não vens já?
Estou te esperando: tudo para mim ficou difícil.
Apaguei a luz, abri a porta
para ti, tão simples, tão maravilhosa.
Para isso, toma o aspecto que quiseres:
entra como um obus envenenado,
ou sorrateira qual hábil bandido,
ou como as emanações do tifo,
ou sob a forma daquela fábula que tu mesma inventaste
e que todos já conhecem até a náusea –
na qual torno a ver o topo do quepe azul e,
por trás dele, o zelador pálido de medo.
Para mim dá na mesma. O Ienissêi corre turbulento.
A Estrela Polar brilha no céu.
O brilho azul dos olhos que eu amo
é recoberto por esse terror.

IX

Já a loucura com as suas asas
envolveu-me toda a alma,
me encharcando em seu licor,
levando-me ao vale das sombras.

Ouvindo o meu delírio
como se fosse o de outra,
está certo, sei que devo
admitir que ela venceu.

Eu sei que não deixará
que eu leve nada comigo
(por mais que eu lhe peça,
por mais que eu lhe implore):

nem os olhos do meu filho
que a dor petrificou,
nem o dia do terror,
nem o dia da visita,

nem o frio de suas mãos,
nem o tremular dos álamos,
nem o som que vem de longe,
últimos sons de consolo.

X

A CRUCIFICAÇÃO

……………………………………………………….Não chores por mim, Mãe,
……………………………………………………………………….no túmulo estou

1

O coro dos anjos glorificou esta hora terrível
e os céus partiram-se em abismos de fogo.
Ele perguntou ao Pai: “Por que me abandonaste?”.
Mas à Mãe disse: “Oh, não chores por mim…”

2

Madalena batia no peito e chorava.
O discípulo favorito convertera-se em pedra.
Mas para lá, onde a Mãe, em silêncio, se erguia,
ninguém ousava erguer os olhos e olhar

EPÍLOGO

1

Aprendi como os rostos se desfazem,
como o pavor dardeja sob as pálpebras,
como a dor sulca a tabuinha do rosto
com seus rugosos caracteres cuneiformes,
como os cachos negros ou cinzentos
de um dia para o outro se pranteiam,
como em lábios submissos o sorriso fenece
e, com um risinho seco, como se treme de medo.
E não é só por mim que rezo,
mas por todas as que estiveram lá comigo,
no frio selvagem, no tórrido mês de julho,
em frente à muralha rubra e cega.

2

Uma vez mais volta o Dia da Lembrança.
Vejo, ouço, sinto por vocês todas:

aquela que mal conseguiu chegar ao fim,
aquela que já não vive mais em sua terra,

aquela que, balançando a bonita cabeça,
disse: “Volto aqui como se fosse o meu lar”.

Gostaria de poder chamá-las, a todas, por seus nomes,
mas levaram a lista embora, e onde posso me informar?

Para elas teci uma ampla mortalha
com suas pobres palavras que consegui escutar.

Sempre e em toda parte hei de lembrar-me delas:
delas não me esquecerei, nem numa nova miséria.

E se tamparem a minha boca fatigada,
através da qual jorra um milhão de gritos,

que seja a vez de todas elas me lembrarem,
na véspera do meu Dia da Lembrança.

E se, neste país, um dia decidirem
à minha memória erguer um monumento,

Eu concordarei com essa honraria,
desde que não me façam estátua

nem à beira do mar, onde nasci
meus últimos laços com o mar já se romperam –,

nem no jardim do Tsar, junto ao tronco consagrado,
onde uma sombra inconsolável ainda procura por mim,

mas aqui, onde fiquei de pé trezentas horas sem
que os portões para mim se destrancassem;

porque, mesmo na morte abençoada, tenho medo
de esquecer o som surdo das Marias Pretas,

de esquecer como os odiosos portões estalavam
e como a velha gemia qual animal ferido.

Das pálpebras imóveis, das pálpebras de bronze,
deixem que corram lágrimas qual neve fundida,

deixem que as pombas da prisão arrulhem na distância
e que os barcos deslizem em silêncio sobre o Neva.

(tradução de Lauro Machado Coelho)


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