sábado, 16 de abril de 2016

Um dia para sempre registrado por James Joyce

Em artigo anterior escrevi sobre a primeira das três obras mais importantes de James Joyce (1882-1941), o conto The dead (Os mortos), publicado no livro Dubliners (Dublinenses), de 1914, o qual reúne outras 14 histórias curtas.

Anunciei também que escreveria sobre suas duas obras fundamentais: o romance Ulisses, publicado em 1922, e a novela picaresca e panlinguística Finnegans wake, publicada em 1939. Segue, agora, o artigo sobre Ulisses, em breve publicarei o último sobre Finnegans wake.

A ideia é fornecer subsídios e estimular os leitores a se aventurarem a lê-las. Aliás, aventuras bastante difíceis, em ambos os casos, para qualquer tipo de leitor, inclusive os de língua inglesa.



James Joyce

O conto The dead tem construção complexa, mas segue ainda o modelo dos grandes prosadores realistas do século XIX admirados pelo escritor irlandês: o francês Gustave Flaubert (1821-1880) e o russo Anton Tchekhov (1860-1904).
Anton Tchekhov
Com Ulisses, James Joyce inicia uma grande revirada na prosa moderna, cujo desfecho mais radical foi Finnegans wake, concluído quando já havia perdido a visão de um olho e 70% do outro.

Ulisses e Finnegans wake, juntos, motivaram cerca de três mil estudos catalogados sobre a obra de Joyce em todo o mundo. Sem dúvida, ele é o prosador moderno mais importante.

Embora tão estudado e conhecido – há até uma data comemorativa à sua obra de Joyce, alusiva ao dia em que se passa o romance Ulisses, 16 de junho de 1904, quando se comemora em vários países o chamado Bloomsday –, Joyce continua pouco lido, dada a complexidade de suas duas últimas grandes obras.

Cartaz alusivo ao evento Bloomsday
Mesmo quanto ao romance Ulisses, que possibilita leitura mais acessível, é grande o número de leitores que a iniciam e não conseguiram chegar ao final. Daí ouvimos os bordões comuns no que se refere ao livro: “É muito chato”, “Nada acontece”, “É incompreensível”, etc.

Finnegans wake é talvez a obra em prosa de assimilação mais difícil da história da literatura. Além das múltiplas referências simbólicas, é uma Babel de montagens e jogos de palavras em 18 idiomas.

Os três artigos que me propus a produzir visam, como já disse, fornecer informações que auxiliem e estimulem as pessoas a tentarem lê-las e desvendá-las.

O que posso afirmar, com certeza, é que sem assimilar a obra de Joyce é impossível o leitor afirmar que conhece a extensa cordilheira da prosa moderna.

Isso sem qualquer menosprezo a outros grandes autores modernos como Céline, Borges, Lezama Lima, Musil, Biéli, Kafka, Mann, nosso Guimarães Rosa e outros igualmente importantes.


Ocorre que Joyce é o pico mais elevado dessa cordilheira...



Ulisses começa pela escolha do dia referencial (16/06/1904), data exata que o escritor irlandês James Joyce escolheu para situar em sua cidade, Dublin, as peripécias do seu anti-herói Leopold Bloom e dos demais personagens do romance.

Foi nesse dia que o escritor conheceu Nora Barnacle, uma arrumadeira de camas de hotel com a qual se casou e passou toda sua vida itinerante de exilado, parte na Itália, na França e na Suíça.



Nora Barnacle
Também foi nesse dia que lhe vieram as primeiras ideias de escrever Ulisses.

Joyce escreveu Ulisses de 1914 a 1921. Iniciou-o na cidade de Trieste, Itália, onde trabalhava como professor de línguas, e o concluiu em Zurich, Suíça. Mas antes de redigi-lo passou dez anos se preparando.

Um dos objetos de sua pesquisa preparatória foi levantar informações detalhadas sobre tudo que ocorreu em Dublin naquele dia 16/06/1904 (todo o enredo do romance transcorre nesse dia), como era a cidade naquela época e toda a rede de outras referências nas quais se baseou.

A começar pela obra a partiu da qual estruturou o enredo do romance: o poema épico Odisseia, atribuído a Homero, do século VIII a.C.

Ulisses foi concebido para ter os seguintes níveis: o naturalista (tudo que se passa com os personagens em Dublin no dia 16/06/1904), o clássico (a epopeia homérica), o medieval (as referências históricas e simbólicas relativas às origens do povo irlandês) e o poético (a música tonal).

Finnegans wake associa-se à música atonal de Arnold Schöenberg (1874-1971), Anton Webern (1883-1945) e Alban Berg (1885-1935).

Com base nas referências do grande poema homérico, os capítulos do romance se dividem em três partes: a telemaquia (referentes aos conceitos introdutórios defendidos pelos personagens Stephen Dedalus e Leopold Bloom), as viagens de Ulisses (labutas e tropeços diário de ambos os personagens pelas ruas de Dublin) e nostos (referente ao retorno de Leopold Bloom ao lar).

Dedalus e Bloom defendem o ideia de Mattew Arnold (mencionado várias vezes no romance) de que na era moderna a religião deixaria de ser o elemento centralizador da cultura, como ocorre na Odisseia, para ser substituída pela arte e a ciência.



Mattew Arnold
Dedalus advoga o primado das artes e Bloom, o da ciência.

Nos contextos naturalista e medieval entram a constituição cristã (e ao mesmo tempo pagã) da cultura irlandesa, o ódio ao domínio inglês, a miséria que sempre castigou o país e a diáspora do povo irlandês para a América.

Aliás, o próprio Joyce fez parte dessa diáspora, embora tenha imigrado para os países europeus (Itália, Suíça e França). O personagem principal do livro (Leopold Bloom) vem de outra diáspora, a judaica.

Ulisses é um monstro da linguagem que afirma e, ao mesmo tempo, rejeita a obra realista e objetiva de Gustave Flaubert.



Gustave Flaubert
Troca a frase descritiva deste pela sucessão de linguagens miméticas, sem maiores explicações. Cada capítulo reproduz um órgão do corpo humano e um estado de consciência, remetendo-se à teoria do inconsciente de Sigmund Freud (1856-1939).
Sigmund Freud
Há trechos em que os personagens grunhem como idiotas, engatinham-se como bebês, deliram como usuários de drogas e até utilizam obtusos discursos que parodiam textos técnicos, burocráticos, jornalísticos, teológicos e da literatura popular de consumo.

Cada capítulo também reproduz um episódio importante da Odisseia, mas em diferentes formatos e estilos: narrativo, expressionista, alegórico, paródico e outros.

Todos os artifícios de linguagem lutam entre si no decorrer do livro, substituindo a função narrativa realista e sequencial de Flaubert.

Ulisses foi publicado no mesmo ano de 1921, em edição limitada, por Sylvia Beach, norte-americana radicada em Paris, onde era proprietária da editora Shakespeare and Co.


Capa da primeira edição

Sylvia Beach e Joyce na sede da editora em Paris
As primeiras reações ao livro não foram positivas. Conhecidos críticos literários ingleses e norte-americanos o classificaram como “obsceno”, “repugnante”, “indecente” e outros adjetivos parecidos.

O então jovem escritor e crítico inglês George Orwell (1903-1950) classificou Joyce de “pedante elefantesco”. Mesmo o poeta William Butler Yeats (1865-1939), patrício de Joyce, manifestou opiniões negativas sobre o livro.

William Butler Yeats
Entre os poucos que elogiaram Ulisses estava o então jovem crítico e poeta norte-americano Ezra Pound (1885-1972), radicado em Paris.



Por muito tempo, Ulisses foi proibido em países de língua inglesa pela crueza das cenas, como o onanismo (masturbação) de Bloom, a minuciosa descrição de atos fisiológicos, termos chulos e cenas de explícita sacanagem.

Mas o livro não tem nada de pornográfico. Está mais para a categoria de obras fesceninas, que transgridem a erotização por meio do exagero e da ironia. Algo similar à sexualidade nas obras do artista plástico francês Marcel Duchamp (1887-1968), sobre o qual já escrevi neste blog.



Duchamp e uma modelo em foto de Man Ray
Somente em 1933 um juiz suspendeu o embargo de Ulisses nos EUA, sob o argumento de que “sua leitura integral não conduz à excitação do instinto sexual, nem a pensamentos luxuriantes”. Sua tradução no Brasil só se deu em 1965, pelo linguista e filólogo Antonio Houaiss. Há uma segunda tradução nacional, mas de qualidade muito inferior à de Houaiss.

Nos dez anos de preparação para iniciar a redação do romance, Joyce estudou a fundo o poema épico Odisseia, de Homero. Seu romance parodia a trajetória do herói grego Ulisses para retornar à sua terra, Ítaca, depois de ter participado da Guerra de Troia.

Mas enquanto o herói de Homero leva anos para realizar esse retorno e assumir o antigo posto de comandante de Ítaca, após derrotar os oponentes que assediavam sua esposa Penélope, o de Joyce, o contato publicitário Leopold Bloom, realiza sua Odisseia num único dia: 16/06/1904.

Bloom começa o dia preparando o café da manhã para a esposa Marion (Molly) às 8h e a termina quando vai dormir às duas da madrugada. Nas andanças de Bloom nessas 18 horas o escritor irlandês reproduz a trajetória do herói Ulisses para voltar à sua terra.

A Odisseia é, em parte, uma sequência da Ilíada, outra obra creditada a Homero. Historicamente, é a segunda – a primeira é a própria Ilíada – grande obra da literatura ocidental.

A Odisseia, assim como a Ilíada, é um longo poema elaborado durante séculos de tradição oral, tendo sua forma fixada por escrito somente no fim do século VIII a.C.

A linguagem homérica combina dialetos diferentes, inclusive com reminiscências antigas do idioma grego. Seus versos foram compostos em hexâmetro dactílico, para serem cantados, acompanhado pelos instrumentos musicais de corda cítara ou fórminx.

Como se diz na proposição, Odisseia é a história do “herói de mil estratagemas que tanto vagueou, depois de ter destruído a cidadela sagrada de Troia, que viu cidades e conheceu costumes de muitos homens e que no mar padeceu mil tormentos, quanto lutava pela vida e pelo regresso dos seus companheiros”.

O herói homérico Ulisses leva dez anos para chegar à sua terra natal, Ítaca, depois da Guerra de Troia, que também havia durado dez anos. Encontra seu reino dilacerado e é preciso lutar para reconquistar sua esposa Penélope, alvo de vários pretendentes.

Joyce em seu romance suprime alguns episódios da Odisseia, muda a ordem de outros, mas basicamente segue o roteiro original da obra de Homero.

As aventuras do herói homérico, a superação desesperada dos perigos, nas ameaças que lhe surgem na luta pela sobrevivência, são as matrizes de grande parte das narrativas modernas, desde a literatura até o cinema.

A trama da narrativa homérica, surpreendentemente moderna pela sua não-linearidade, apresenta a originalidade de só conservar elementos concretos, diretos, que se encadeiam no poema sem análises nem comentários.

O livro de Joyce, da mesma forma, encadeia fatos sem maiores análises e esclarecimentos. Estes estão, sim, na forma e níveis de compreensão que permeiam cada capítulo. Cabe ao leitor descobri-los.

Qual no poema homérico, no livro de Joyce os personagens agem ou falam; ou então, falam e agem. Num discurso direto, diante de nós, para nós.

A influência homérica é clara em poemas épicos como a Eneida, de Virgílio, Os lusíadas, de Camões, e, claro, no próprio Ulisses de James Joyce.

Mas enquanto o personagem de Homero é um herói, ocupando função intermediária entre os homens e os deuses, o de Joyce é um homem comum, frágil e nada heroico, inclusive com certo pendor para o consumo de bebidas alcoólicas fortes.

Bloom é desatento e atrapalhado. Tem paixões platônicas por prostitutas. Sequer é um bom agenciador de anúncios. É judeu num país antissemita e é alvo constante de chacotas por onde passa.

Sua mulher, Molly, é uma cantora de cabaré de descendência espanhola que tem desprezo pelo marido e o trai com qualquer um.

Nas 18 horas em que se passa o romance, Bloom conhece Stephen Dedalus, um estudante de 22 anos, e o protege no decorrer do dia.

Dedalus é o alter-ego do próprio Joyce. Apareceu pela primeira vez em sua obra no romance Retrato do artista quando jovem, publicado em 1916.

Por meio de Bloom e Dedalus, Joyce expõe algumas das teorias que defendeu por toda a vida.


Dedalus discursa com frequência sobre o papel preponderante das artes como antenas da sociedade e seu protetor, Leopold Bloom, sobre a capacidade das ciências de desempenhar as funções de dar forma ao mundo, para além do que as religiões foram capazes.

Na transposição do enredo homérico para a realidade daquele dia 16/04/1904, Bloom salva Dedalus numa confusão barra pesada em que este se meteu num bordel, o que corresponde ao episódio de Circe, a deusa que transforma os homens em porcos no poema homérico.

Se Penélope tecia a mortalha para Ulisses na Odisseia, por já considerá-lo morto na Guerra de Troia, a Molly de Bloom é capaz de tramar contra a vida do marido se aparecer um parceiro que a convença das vantagens.

Ou seja, não mantém com o parceiro nenhum laço de fidelidade e afetuosidade. De modo algum formam um casal exemplar. O primeiro filho morreu ainda criança e a filha vive fora de casa por razões não esclarecidas.

Dedalus representa no livro Telêmaco, o filho de Ulisses no poema homérico.

O romance Ulisses segue a rigor como era Dublin em 16/06/1904 e tudo o que ocorreu de relevante nesse dia.

Principais localidades de Dublin relacionadas por Joyce no romance: a Torre do Martello (onde Stephen Dedalus e o também estudante Buck Mulligan residem), a escola onde Dedalus leciona, a Cervejaria Guinness, a casa de número 7 da Eccles Street (onde moram Leopold e Molly Bloom), a sede do Freeman’s Journal (para o qual Bloom vende anúncios), o Pub David Byrne (onde os personagens se reúnem), a Biblioteca Nacional e a Praia de Sandymount.

A Eccles Street é uma referência ao livro bíblico Qohélet ou Esclesiastes.

Há várias referências no romance a ocorrências do dia 16/06/1904: o corpo de um cidadão afogado numa praia, o óbito de um cidadão conhecido, um incêndio num cinema, uma grande briga num pub, os resultados das corridas de cavalos, as notícias sobre política, as notícias sobre economia e até os anúncios publicitários em evidência.

Houve duas tentativas de adaptar Ulisses para o cinema: a do cineasta norte-americano Orson Welles (1915-1985) e a do cineasta russo Sergei Eisenstein (1898-1948). Ambos chegaram a desenvolver os roteiros.

Orson Welles
Sergei Eisenstein
O brasileiro Mário Peixoto (1908-1992), diretor de Limites, também menciona em uma carta a ideia de adaptar o livro para o cinema, mas ao que tudo indica não a desenvolveu.

Mário Peixoto
Há vários estudos sobre Ulisses e a obra de James Joyce no Brasil. Dentre eles sugiro dois: Homem comum enfim, de Anthony Burgess, e biografia literária James Joyce, de Richard Ellmann.


Capa do livro de Ellmann

Principais personagens e roteiro de Ulisses

Os quatro personagens principais do livro são: Leopold Bloom (correspondente ao Ulisses homérico), Molly Bloom (correspondente a Penélope, esposa de Ulisses), Stephen Dedalus (correspondente a Telêmaco, filho de Ulisses) e o estudante de medicina Buck Mulligan, amigo e rival de Dedalus.

Joyce deixou vários escritos suplementares para caracterizar os três primeiros personagens.


Leopold Bloom tem 38 anos, é filho de pai judeu imigrante, o húngaro Rudof Virag (que ao chegar à Irlanda mudara o nome para Rudolph Bloom) e Ellen Higgins, não judia. Rudolph Bloom, o pai, se suicida.


Leopold Bloom, homem comum, sente-se deslocado na comunidade xenofóbica de Dublin. Quando o encontramos no início do livro, está remoendo uma série de preocupações.

Relembra o suicídio do pai e a ausência do filho falecido ainda criança. Preocupa-se com a filha adolescente (Milly), que não vive com ele e a mulher, e suspeita das traições de Molly.

Molly Bloom tem 34 anos e é cantora soprano. Nasceu em Gibraltar com o nome de Marion Tweedy, mudou-se para Dublin aos 16 anos, com o pai, o major Brian Tweedy.

Sua mãe, Lunita Laredo, espanhola de família judia, teria morrido ao ser abandonado pela família quando Molly era jovem.

Molly é vista por outras personagens do livro como mulher sensual, voluptuosa e até prostituta. Só aparece substancialmente no fim da narrativa, enquanto o marido dorme, num extraordinário monólogo.

Stephen Dedalus é o único personagem de Ulisses que aparece no romance anterior de Joyce, Retrato do artista quando jovem, no qual é enfocado desde a infância até à juventude, dos primeiros estudos à universidade, da complexa formação de um artista inconformado até a recusa ao provincianismo cultural e político do país, à sociedade católica coercitiva, e à inevitável partida para Paris para estudar medicina.

Em Ulisses, Dedalus retorna à Irlanda devido à morte de sua mãe. Por falta de dinheiro e por indecisão, permanece em Dublin, onde mora com Mulligan num antigo forte circular, a Torre do Martello, do tempo das guerras napoleônicas.

Dedalus leciona numa escola para adolescentes e continua a pregar as ideias estéticas nas quais acredita.

James Joyce deixou em cartas e esboços – alguns dos quais publicados nas edições do romance – várias trilhas para facilitar a leitura do livro.

Ainda assim, caberá sempre ao leitor o esforço maior de desvendar a densa floresta literária por trás de suas duas obras mais complexas: Ulisses e Finnegans wake, sobre o qual escreverei a seguir.

Além de seguir um roteiro pelas localidades de Dublin de 16/06/1906, criteriosamente escolhidas pelo autor para traçar os paralelos com as passagens da obra homérica, cada um dos 18 capítulos de Ulisses tem estrutura e técnicas narrativas próprias.

É conveniente, antes de ler a obra de Joyce, que o leitor conheça a Odisseia de Homero, que lhe serve como base estrutural para os 18 capítulos.

Num dos diagramas do romance, Joyce indica como escreveu Ulisses a partir das três divisões da Odisseia.

Telemachia: Telêmaco, Nestor e Proteus.

Odisseia: Calipso, Os lotófagos, Hades, Éolo, Lestrigões, Cila e Caribdis, Os rochedos falantes, As sereias, Ciclope, Nausícaa, O gado do sol e Circe.

Nostos:   Eumeu, Ítaca e Penélope.

Cada episódio homérico transposto para o romance corresponde a uma denominação grega, a uma cena do dia fatídico em que tudo se deu, a um órgão do corpo humano, a uma arte, a uma cor, a um símbolo e, como já disse, a uma técnica narrativa.

As informações a seguir provêm de roteiro deixado pelo próprio Joyce sobre como transpôs para os 18 capítulos do romance as passagens do poema homérico.


1 – Telêmaco

Oito horas da manhã na Torre do Martello, à beira-mar, Stephen Dedalus discute arte com o amigo Buck Mulligan. O inglês Haines, amigo de Mulligan, é hóspede.

Dedalus preza a arte íntegra e despreza a concessão para obter reconhecimento, que é a posição de Mulligan. A tensão subliminar entre os dois é aumentada por Haines, que pretende estudar o renascimento da literatura irlandesa e admira o folclore.

Haines revela-se antissemita. Dedalus vê em Haines um representante do colonizador inglês, opressor da Irlanda.

Tomam café da manhã e saem. Mulligan vai se banhar na praia e se depara com dois homens que procuram o corpo de um afogado.

Dedalus sente que não há mais lugar para ele na torre. Entrega as chaves a Mulligan e parte sem intenção de voltar.

Mulligan e Haines equivalem aos pretendentes de Penélope na Odisseia e a partida de Dedalus simboliza a busca de um pai (no caso do romance de Joyce, espiritual).

A narração inicial combina realismo com monólogo interior. A técnica narrativa é a dos romances populares juvenis.

2 – Nestor

Dedalus vai para a escola onde leciona, a poucos quilômetros da torre, no sudeste de Dublin. Os alunos comportam-se mal e ele não consegue controlá-los.

Terminada a aula, fica na classe para orientar o garoto Cyril Sargent, atrasado em matemática. Stephen se identifica com Cyril quando menino. Imagina-o protegido dos males do mundo pela mãe.

Libera Cyrul para jogar hóquei e procura o diretor da escola, Garrett Deasy, para receber seu pagamento.

Deasy discursa sobre economia, aconselha Dedalus a controlar as finanças, defende o unionismo como se fosse inglês, explica mal as relações entre Inglaterra (o dominador) e Irlanda (a dominada) e revela-se antissemita tal como Haines.

Deasy escreveu uma carta de alerta para os perigos de uma epidemia de febre aftosa na Irlanda e entrega-a a Dedalus para, por meio de sua influência, publicá-la em um jornal.

O episódio enfatiza a situação histórica da Irlanda e ressalta o deslocamento de Dedalus, tanto físico como psicológico. A arte aqui é a da narrativa histórica.

Por meio do menino Cyril, é introduzido no livro o tema do amor materno, associado ao espectro maternal de Penélope para a Ítaca homérica.

O monólogo interior é utilizado durante todo o episódio, mais intensamente no início e no fim.

3 – Proteus

Depois de sair da escola, Dedalus anda pela praia a caminho do centro de Dublin.

Reflete sobre filosofia e estética, evocando o filósofo grego Aristóteles e o poeta inglês Willian Blake, entre outros.

Passa pela casa dos tios e imagina uma visita que acaba não ocorrendo.

Reflete sobre o que aspirou, realizou e não realizou, sobre os anos em Paris como estudante de medicina autoexilado.

Imagina a vida pregressa de duas pessoas que vê na praia.

Num pedaço de papel que arranca da carta de Deasy, anota os versos de abertura de um poema simbolista.

Dedalus reflete sobre o visível e o invisível, o mundo objetivo como sinais que exigem interpretação, a transformação de tudo no tempo e no espaço, e a própria mente.

O grande significado aqui é a matéria primordia: a água, como símbolo da evolução e da metamorfose.

Correm subliminarmente os temas da mãe, da mulher e da fertilidade.

Monólogo interior intenso.

4 – Calipso

Oito horas da manhã na casa número 7 da Eccles Street, noroeste de Dublin. Leopold Bloom prepara o café da manhã para si, para a mulher e para o gato.

Resolve comer rim de porco e vai ao açougue comprar. Vê uma mulher que lhe desperta devaneios. Volta para casa, recolhe a correspondência. Há uma carta da filha Milly e outra de Blazes Boylan endereçada a Molly.

Boylan organizou uma turnê de concertos que inclui Molly, mas Bloom desconfia que sua mulher o trai com o empresário. Bloom come rim tostado e vai ao banheiro, fora de casa, com um jornal.


Depois se prepara para ir ao enterro de um amigo Paddy Dignam.

Este capítulo apresenta o personagem que se pode interpretar como a encarnação de Ulisses, o pai espiritual de Dedalus (Telêmaco).

O monólogo interior prevalece, mas diferente, porque Bloom é um homem comum e maduro. O devaneio ocupa-lhe a mente, sugerindo temas que vão e voltam ao longo do romance, como o sionismo e o erotismo.

Os símbolos aqui são Israel, família e vagina.

5 – Os lotófagos

Bloom sai de casa e anda pelas ruas de Dublin. Pensa em anúncios e em temas científicos.

Carrega uma carta que recebeu endereçada a Henry Flower (seu pseudônimo), enviada por Martha Clifford, a quem nunca conheceu pessoalmente, mas que sempre lhe escreve. Trata-se de uma paixão platônica.

 Vai à Igreja, à farmácia. Reflete sobre remédios e produtos químicos. Um conhecido pede-lhe o jornal emprestado para verificar informações sobre corrida de cavalos.

O tema da sensualidade e da sexualidade vai se formando, com as fantasias sobre Martha. Os jogos de palavras também se estabelecem: o nome Henry Flower e Bloom remetem a florescência, o desejo sexual que aflora.

A correspondência direta com Homero é lotófagos. O nome do cavalo que o amigo vai apostar é Thorowaway (significa jogar fora).

Os símbolos aqui são a sedução e a lealdade.

6 – Hades


Bloom vai ao enterro de Dignam com os amigos.

No cemitério conhece pessoas, entre elas o jamais identificado “homem de capa impermeável”.
Reflete sobre nascimento, morte e transitoriedade. Pensa no falecido filho Rudy e no pai suicida.

Participa de conversas sobre a morte que desembocam na situação da Irlanda após o falecimento do líder do Partido Nacionalista Irlandês, Charles Stewart Parnell.

A correspondência com Homero é o episódio da Circe, a deusa-feiticeira que aconselha o Ulisses da Odisseia a descer aos infernos e consultar os mortos para tentar encontrar um rumo.

As pessoas que Bloom conhece representam esses mortos. O significado é a descida ao nada e os símbolos, o homem desconhecido e o inconsciente.

Joyce denomina a técnica desta parte como “incubismo”.

7 – Éolo

Bloom vai à redação dos jornais para os quais trabalha – Freeman’s Journal e Evening Telegraph – para fechar contratos de um anúncio.

Encontra Dedalus numa das redações, onde fora entregar a carta do diretor da escola. Um vento forte sopra quando as portas se abrem, fazendo voar os papéis.

Rolam histórias ligadas ao jornalismo, discursos, política (Grã-Bretanha comparada com Roma, Israel com Irlanda) e exílio.

Dedalus e outros vão para um pub. Bloom vai para a Biblioteca Nacional, a fim de pesquisar o layout para o anúncio.

Nesta parte, Joyce substitui o monólogo interior pela linguagem do jornalismo, com o uso abundante de manchetes.

O vento representa a retórica, cuja origem é grega e romana, transparecendo uma espécie de consciência coletiva.

A narrativa é impessoal, similar à pretensa objetividade do texto jornalístico.

8 – Lestrigões

Bloom continua a andar por Dublin. Pensa no passado: os amores de Molly e o nascimento dos dois filhos. Avista a irmã de Dedalus da rua. Alimenta aves e pensa em publicidade.

Encontra uma conhecida, ex-amor passageiro, que lhe conta que a senhora Purefoy está internada na maternidade.

Bloom, com fome, entra no Pub David Byrne. Sai do pub e ajuda um cego a atravessar a rua. Joyce retoma ao monólogo interior para retratar Bloom como homem bondoso e solidário.

Os pensamentos correm quase imperceptíveis, como que reprimidos, representando a suspeita de traição de Molly com Blazes Boylan, que ele receia encontrar.

O significado aqui é a melancolia.

Joyce constrói o capítulo com essas associações de ideias.

9 – Cila e Caribdis

Dedalus discute Shakespeare com um grupo de intelectuais na Biblioteca Nacional. Expõe sua teoria da criação literária utilizando o idealismo defendido por Mulligan para mostrar que a arte e a vida interagem.

Com base na teologia, filosofia e literatura, defende a teoria de que Hamlet seria o fruto de uma relação verdadeira, assim como o filho de Shakespeare, Hamnet, teria sido fruto de uma relação adúltera de Ann Hatthaeay.

Mulligan aparece na biblioteca e ridiculariza a teoria de Dedalus.

Bloom chega, mas logo parte. Mulligan ridiculariza Bloom por ser judeu e afirma que este deseja Dedalaus. Saem todos da biblioteca.

A narrativa adota o estilo de Dedalus das três primeiras partes.

A ênfase na teoria de Hamlet de certa forma mina a teoria estética de Dedalus sobre Hamnet, o príncipe que teme a traição materna, mas aqui ele remói a traição em relação à própria mãe.

Joyce enfatiza nesta parte a função criadora da mulher, com seu amor físico e seu amor materno, o que aparece em todo o romance através do símbolo da água.

Sugere também a relação entre ele mesmo, como autor, e a criação de Dedalus, seu alter ego, tendo do outro lado a relação pai-filho espiritual com Bloom.

A arte aqui é a literatura, a técnica é a dialética. Os símbolos: a juventude e a maturidade.

10 – Os rochedos falantes

Abundância de personagens, dentre os quais o padre Conmee, as imãs de Stephen e Blazes Boylan. Os acontecimentos são praticamente impossíveis de recontar com brevidade.

O episódio consiste em dezoito narrativas breves, desconectadas e sem sequência temporal.
Vários motivos se repetem, como se a narrativa principal não tivesse rumo a tomar.

É a interpretação de Joyce do episódio Circe, da Odisseia de Homero, em que esta sugere a Ulisses que não tome determinado rumo.

O significado é o ambiente hostil, a técnica labiríntica, os símbolos homônimos, as sincronizações e as semelhanças.

11 – As sereias

Bloom compra jornal, vê o carro de Blazes Boylan estacionado em frente ao Hotel Ormond e desconfia que ele esteja lá dentro.

Entra com o amigo Ritchie Goulding. Encontra Boylan aos flertes com as garçonetes e vai embora.

Simon Dedalus, pai de Stephen, toca piano e canta. Ben Dollard canta uma balada sobre a revolta irlandesa.

A atmosfera é de nacionalismo. Bloom, alheio, pensa em Molly e escreve uma resposta à carta de Martha Cardiff. Depois sai.

Este episódio compõe-se de inúmeros fragmentos que se relacionam como uma fuga. A técnica adequada às sereias é a música, daí ser repleto de canto e música.

Falas e associações também são arranjadas como música, algumas palavras fragmentadas a ponto de se tornarem puros sons.

A narrativa lógica se dilui e a música é uma espécie de voz narradora. Resta a mente de Bloom, de novo desconfiado de que Boylan foi visitar Molly.

12 – Ciclopes

Bloom dirige-se à Barney Kiernant Tavern, onde pretende se reunir com Martin Cunningham para conversar sobre assuntos da família Dignam.

Lá está o personagem “Cidadão”, um nacionalista ferrenho. Bloom entra. O “Cidadão” fala de pena de morte. Bloom tenta conversar com ele com jeito. O “Cidadão” desdenha Bloom, afirmando que a Irlanda está cheia de estrangeiros e discursa sobre a história irlandesa.

Bloom fala de amor e compreensão, ciente de sua descendência judia, depois sai. Lenehan acha que o cavalo em que Bloom teria apostado (Throwaway) foi o vencedor. O “Cidadão’ se enfurece. Bloom volta e o “Cidadão”, violento, força Bloom a deixar o bar.

Este é um dos capítulos mais complexos do livro. A narrativa é interrompida por inúmeras passagens paródicas voltadas para si mesmas, indo do discurso jurídico a lendas irlandesas, eventos sociais e religiosos a desastres da natureza.

Há um narrador não identificável e outro que é o “Cidadão”.

No paralelo com Homero, o “Cidadão” é o Ciclope, que vê tudo segundo um único ponto de vista, sobretudo a ordem estabelecida.

Os símbolos são: a nação, o estado, o fanatismo. A técnica é a do gigantismo.

13 – Nausícaa


Novos dublinenses aparecem na Praia de Sandymount, onde Dedalus caminhou às oito da manhã (agora são oito da noite): as moças Gerty MacDowell, Edy Boardmanm, Cissy Caffrey e os irmãos desta.

Gerty irrita-se com a algazarra dos meninos. Devaneia, pensa no homem que a rejeitou e em coisas religiosas.

Bloom está na praia, um pouco distante. Gerty pensa nele romanticamente. Começa a queima de fogos de artifício. As amigas saem correndo. Gerty fica, insinuando-se levemente e deixando que Bloom lhe entreveja as pernas.

Quando ela se vai, Bloom percebe que ela manca. Antes disso, Bloom já havia se masturbado. Agora pensa nos filhos e em Gerty.

Os estilos aqui variam conforme os personagens. O de Gerty é tirado dos romances românticos. O romantismo possibilita a Joyce “revelar” o impulso sexual subjacente e o erotismo discreto.

Os fogos de artifício estouram no exato momento do orgasmo masturbatório de Bloom.

Com a partida de Gerty, o ponto de vista narrativo volta-se para Bloom. A traição de Molly retorna com o canto de um cuco.

O significado deste capítulo é a ilusão projetada. Os símbolos: o onanismo, a mulher, a hipocrisia. A técnica, a da tumescência e detumescência.

14 – O gado do sol

Na maternidade do Hospital de Dublin a senhora Purefoy está em trabalho de parto. Bloom a visita.

Dedalus, Lenenhan, Lynch e Mulligan festejam ruidosamente. Discutem a técnica da medicina em relação ao parto malsucedido e à prevenção da gravidez.

Bloom pensa no filho morto.

Dedalus discorre sobre literatura. Cai um temporal, que Bloom explica cientificamente. A enfermeira pede-lhes silêncio duas vezes. O menino nasce. O grupo vai embora.

Dedalus e Lynch vão para o prostíbulo.

Outro episódio complexo: aos nove meses de gravidez correspondem a várias vozes, estilos de literatura inglesa, linguagem simbólica, disparates, gírias e discurso religioso.

A linguagem vai do primitivo à modernidade.

De acordo com a visão corpórea do romance, Joyce põe na linguagem a mediação da realidade física.

A técnica, como ele próprio deixou escrito, é a do “desenvolvimento embriônico”. Os símbolos são a fecundação e a partogênese. A arte, a da medicina.

15 – Circe


Meia-noite no bordel de Bella Cohen. Dedalus e Lynch entram bêbados. Bloom chega. Alucina, acossado pelas visões de Gerty, Molly, do pai e da mãe.

Na alucinação, Bloom se vê preso por desordem, é submetido a um julgamento, durante o qual o chama por vários nomes.

Uma prostituta lhe diz que Dedalus está na sala de música. Bloom transforma-se no avô de Dedalus, este por sua vez se transforma num cardeal e passa a discutir teologia.

A dona do bordel, Bella Cohen, troca de sexo com Bloom e o submete a castigos. O espectro da mãe de Dedalus aparece. Ele destrói um candelabro e, junto com Bloom, é expulso do bordel.

Na rua soldados rasos espancam Dedalus por ter ofendido o rei e o largam inconsciente na calçada. A polícia chega. Bloom resolve a situação. Seu falecido filho Rudy aparece em suas visões.

Este é um episódio em que a objetividade e a subjetividade se interpõem e a alucinação substitui o realismo.

Joyce chama a zona de prostituição de “cidade da noite”, como uma metáfora do inconsciente, lugar propício para fantasias, pesadelos e realizações de desejos.

Densamente metafórico, na diluição de fronteiras concretiza-se neste capítulo o encontro mais profundo de Bloom e Dedalus.

A arte deste episódio é a da magia. Os símbolos são a zoologia e a personificação.

16 – Eumeu

Bloom leva Stephen para o abrigo de motoristas de praça, não longe da “cidade da noite”.

Dedalus encontra um amigo desempregado e recomenda a ele que procure emprego na escola de Deasy, de onde resolveu se demitir.

No abrigo, bebem café e conversam com um marinheiro, W. B. Murphy.

Bloom sonha em viajar. Fala do encontro com o “Cidadão”, mas Dedalus não lhe dá atenção. Mostra a Dedalus a fotografia de Molly. Os dois saem do abrigo.

A narração aqui é convencional, mas com vários estilos. Novas personagens parecem ser simuladas, como se ocultassem a identidade. O mesmo aplica-se a Stephen e Bloom.

Vaguidão e incoerência permeiam o episódio. A arte aqui é a da navegação. O símbolo: os marinheiros. A narrativa: a senil.

17 – Ítaca

Bloom leva Dedalus para sua casa, o mesmo número 7 da Eccles Street.

Como está sem a chave da porta da frente (perdeu-a), pula a grade para entrar pela porta dos fundos, não querendo acordar Molly.

Prepara chocolate e os dois rememoram tempos passados. Dedalus fala de arte e Bloom de ciência. Bloom convida-o a morar com ele e Molly. Dedalus entoa uma cantiga sobre uma menina judia e não responde.

Bloom convida Dedalus a pelo menos passar a noite por lá. Ele recusa. Vão para o jardim e urinam, enquanto no céu passa uma estrela cadente.

Dedalus vai embora. Bloom volta a entrar. Guarda a carta que escreveu para Martha Cardiff numa gaveta, dentro da qual encontra coisas que lhe trazem lembranças.

Repassa o dia que findou. Vai para o quarto. Sente na cama a presença de Boylan. Deita-se com a cabeça voltada para os pés de Molly, em posição fetal, e dorme.


Próximo do fim, o romance parece carecer de armação.

Trata-se de um episódio com a técnica do catecismo (impessoal), em forma de perguntas e respostas. As respostas são muito precisas e científicas (por exemplo, a reflexão sobre o complexo sistema que leva a água à torneira da cozinha de Bloom).

O “fim” é o encontro de Bloom e Dedalus como pai e filho espirituais, mas também a separação um do outro, ao menos neste dia. E é um distanciamento também de Homero. O símbolo são os cometas.

18 – Penélope

Na cama, Molly reflete sobre o marido, o encontro com Boylan, o passado, as esperanças. Ela suspeita que Bloom tenha uma amante e pensa nos próprios amantes que teve.

Ainda assim aspira a um grande futuro. Pensa em Gibraltar e na filha. É interrompida duas vezes, uma por um apito de trem, outra pelo início da menstruação.

Pensa no estudante Stephen Dedalus, no filho morto e em Bloom. O relógio toca. Lembra-se de quando fez sexo com Bloom pela primeira vez.

Este longo e último episódio, sem pontuação gráfica, é um monólogo interior fragmentado de Molly, com frases ligadas ininterruptamente por associações.

Paira o infinito, a intemporalidade, a ausência de identificação. Segundo o próprio Joyce, as oito frases de Molly começam e terminam com “sim” porque são a afirmação do “eterno feminino”: “Mulher, sou a carne que sempre afirma”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário