domingo, 22 de maio de 2016

Crumb e Artaud nunca se renderam

Amigos de fé, meu irmãos, camaradas. Definitivamente cultura não é questão de Estado e muito menos de partido político e ideologias que se proponhem a salvar a humanidade para, no final das contas, deixar as coisas sempre piores do que encontram.

Essa discussão toda sobre existir ou não Ministério da Cultura (MinC), ex exemplo, é estrita à seara política. Nada tem a ver com cultura de verdade.

Cultura de verdade não é estatal ou partidária. Muito pelo contrário, é anti-Estado, anti-status quo. Sequer é anárquica, pois anarquismo ou quaisquer outros ismos são formas de reafirmar aquilo que se nega.



Desenho de Robert Crumb: artista indo no sentido contrário ao olhar consensual do público
Crumb, o próprio
Antonin, o momo artaudmentado
Na Gringolândia (vulgo Isteitis, vulgo EUA ou EEUU) a produção cultural alternativa, independente das peias do mercado ou do Estado, sempre teve espaços consistentes sustentados por pessoas que os valorizam e pagam para que subsistam.

Dessa via independente saíram vários artistas griongolândicos importantes, alguns dos quais foram incorporados pelo mercadão dos dólares furados. Ex exemplos:

Na música popular, vários grupos como The Doors, compositores como Bob Dylan, Tom Waits e dezenas de outros.

Na literatura, os bate-estrada da beat generation e o fracassado plantador de milho Willian Faulkner, que usou o Prêmio Nobel de Literatura para salvar sua fazenda da falência.

Nas artes plásticas, Andy Warhol e toda trupe da Factory, incluindo o grupo Velvet Underground.

No cinema, Tarantino, Jim Jarmusch, os Coen, o chatíssimo documentarista Michael Moore e outros que começaram pífios e terminaram nos telões.

Por aqui alternativas ao mercado convencional mais consistente são os financiamentos culturais via Estado e empresas públicas, cujos esquemas viciados resultam em droga malhada vendida por apadrinhados ou porrinhas que se adequam às políticas culturais em vigor.

Dentre os poucos exemplos de alternativas no Brasil mais ou menos recentes tivemos alguns grupos teatrais, diretores de cinema cujos rolos de filmes continuam enlatados, revistas culturais produzidas a toques de falta de caixa – Navelouca, Código, Dimensão, Pólen, Samurai, Almanaque Biotônico Fontoura, Jornalivro, Bric-à-Brac e outras tantas
e espaços culturais como o Circo Voador no Rio de Janeiro e o Lira Paulistana em São Paulo.

Claro que há outros exemplos não aqui lembrados por esse moço não tão moço com memória de peixe, mas nenhum com existência tão duradoura quanto os similares da Gringolândia.

Não menciono os Pontos de Cultura, os coletivos  e outros troços proliferados na última década porque todos têm o viés partidário-estatal. Não são, portanto, independentes. Têm por trás essa peia coercitiva que os minimiza.

Mas na Gringolândia vulgo Isteitis a produção alternativa sempre vicejou e tem não só existência duradoura como importância determinante para a cultura de BOSTA maíscula que todos admiram e compram de olhos fechados nos shoppings de merdicância.

Por sinal, muitos artistas, inclusive alguns endeusados pelos doutos senhores que mantêm seus rabos suspensos nos cabides acadêmicos, nunca se desvincularam dela.

Cito os Isteitis porque é o espelho mais distinto do nosso universo fedorento. No entanto isso ocorre em toda parte do mundo, inclusive em
nações totalitárias como o Irã e Cuba.

Calho de abordar dois ex exemplos de cabras independentes que nunca se calaram:



O ilustrador e desenhista de histórias em quadrinhos (HQs) gringolândico Robert Crumb e o francês Antonin, o momo artaudmentado...



Comecemos por Crumb, o Robert. O bicho está pra lá dos setentões produzindo à revelia ainda vinculado à marca editorial própria, cujo lema é “não se vender ao sistema”.

Esse gringo caipira metido a besta apareceu como artista gráfico lá pela Califórnia, mais precisamente em San Francisco. Mas veio dos caipiródramos recônditos mais babacas dos interiores isteitianos.

Iniciou sua produção independente no literal litoral pouco Pacífico durante os anos 1960, com a fanzine Zap Comix, editada em ambiente doméstico e vendida nas ruas por ele e a esposa. Pra pagar água, luz, telefone, aluguel, papinha do bebê, fraldas, comida, maconha, ácidos e biritas.


O significado de fanzine é revista de fã. O caipira Crumb vendia suas fanzines nos botecos mais doidões de San Francisco e os malucos começaram a achar aquela joça muito interessante.

No início a batalha para produzir Zap Comix era tão precária que Crumb e a mulher transportavam à noite os exemplares aos locais de venda – bares – no mesmo carrinho de bebê que transportavam a filha durante o dia.




As tiragens eram mínimas. De cem a, no máximo, trezentos exemplares.

Com o tempo tiras como Keep on truckin, Mr. Natural (sátira a Maharishi Mahesh Yogi e a outros gurus picaretas em moda) e Fritz the cat (um gato boa vida que tomava drogas como criança chupa picolé e tinha a vida sexual que todos nós bengaludos tarados sonhamos) fizeram tanto sucesso que passou a vender tiragens de milhares de exemplares.




Até então Crumb sobrevivia como desenhista de placas e cartazes para pequenas agências de publicidade do bairro onde residia em San Francisco.

Com o crescente sucesso de venda, Zap Comix expandiu o número de páginas, o que permitiu a Crumb publicar trabalhos dos quadrinhistas seus amigos: S. Clay Wilson, Rick Griffin, Robert Williams, Manuel Spain Rodriguez, Victor Moscoso, Gilbert Shelton e Paul Mavrides.

Assim, Crumb e os amigos conquistaram uma liberdade criativa que jamais teriam se publicassem suas historietas em revistas convencionais ou bancados por dinheiro público caso vivessem no brejeiro Brasil.

Vide porrrr achi o ex exemplo do chatérrimo rapper “consciente” Criolo, um praga de banana podre eternamente subvencionada por grana pública que o público de esquerda eternamente meiaoitiano acha o máximo.


Voltemos ao que e a quem importa nesta porta que aos poucos se abre.

Robert Crumb sempre foi anticapitalista, bem mais que a esquerda brasileira, e mantém-se até hoje teimosamente resistente a se render ao "sistema”. Nunca se deixou seduzir pelas ofertas dos grandes para se desvincular dos pequenos nós.

Mandou às favas milionárias propostas, dentre elas a de desenhar uma tira permanente para a revista Playboy.


Não a recusou de imediato. Apenas pediu o impossível a Hugh Hefner: uma garota para cada hora do dia, o que daria, em média, umas 700 bocetas cordialmente disponíveis ao mês.

Hefner era bárbaro, mas nem tanto. Achou o pedido o pedido do desenhista vesgo muito vago, nada confiável e optou por não contratá-lo.

Crumb desenhou a capa do disco Cheap thrills para a amiga Janis Joplin. Quando a gravadora remeteu um cheque num valor abaixo do que ele achava que deveria receber, rasgou e remeteu os papéis picados com recomendações para que a gravadora os enfiasse no cu.

Por anos a Metro tentou, em vão, negociar com ele o direito de levar o personagem Fritz the cat para o cinemão de animação.


Os caras da produtora ligavam ou batiam na porta de sua casa em San Francisco e a mesma cena se repetia: a esposa os atendia e dizia que ele estava no banheiro com caganeira e não havia previsão de quando deixaria o trono.

Como uma empresa do calibre da Metro poderia levar para as telas um gato perverso que incendiava instituições, violava garotas e tinha por companheiros os Hell’s Angels? Claro que isso não daria certo nunca.

Quando o sucesso aumentou e passou a ser visto em San Francisco como uma espécie de guru da contracultura ou gênio das HQs, reuniu a família e mudou-se para o sul da França, onde vive até hoje, anônimo, numa cidadezinha cercada por ovelhas, cabras e vacas.

Por lá concilia seu trabalho de desenhista bissexto com o de músico de rock. Só produz HQs quando se sente motivado e nunca desenha por obrigação. Tem uma banda de garagem formada com amigos, mas também não toca por grana.

Seus traços continuam grossos, tremidos e propositadamente mal-acabados. Parecidos ao rock esculhambado dos Rolling Stones e das bandas grunge de Seatle.

As histórias e personagens continuam politicamente incorretos qual na época em que começou a desenhar. Fluem por suas páginas burgueses cretinos, religiosos canalhas, militantes políticos corruptos, gurus aproveitadores, religiosos tarados, policiais nazistas, hippies idiotas, negros arrogantes bundudos, consumidores obesos, beatniks vagabundos, educadores da Ku Klux Klam, motoqueiros aloprados e outros animais raivosos da fauna American Way of Life.

Em 1994 Crumb foi tema de um documentário do diretor Terry Zwigoff. O filme foca-se nele e em seus dois irmãos. Os três, com alto grau de sociofobia, foram frutos da criação severa numa família católica superprotetora, crente até os pentelhos e péssima de grana.


Vejam trechos do documentário:




Há, sobretudo, bastante destaque para o irmão mais velho, Charles, que se suicidou. Charles obrigava os irmãos a desenharem quadrinhos na infância, como única alternativa para saírem daquela miséria, já que não tinham cacife financeiro para cursar nenhuma faculdade.

No filme, Crumb é curto e grosso ao se referir ao “sistema”:


“Quanto mais dinheiro em jogo, maior é a chance de corrupção. De uma forma ou de outra, dinheiro e corrupção se enquadram.”

Crumb produziu várias HQs autobiográficas com sua esposa, Aline Kominsky-Crumb, desenhadas a quatro mãos.

Criou um personagem que se parece com ele próprio. Um Woody Allen piorado de corpo frágil, andar encurvado, óculos de tartaruga tortos e ensebados, sempre com blocos de desenho debaixo dos braços.

Sua filha Sophie também desenha HQs.

Nos últimos anos Crumb adaptou para os quadrinhos obras literárias de autores como Franz Kafka, Charles Bukowski e Philip K. Dick.

Em 2009 lançou a adaptação quadrinhística do Gênesis, o livro da Bíblia, com uma versão apócrifa que nenhuma das religiões monoteístas aprovou.

No Brasil seus quadrinhos foram publicados na revista Grilo, durante a década de 1970, e nas revistas Circo e Porrada! nos anos 1980.

Atualmente, suas obras vêm sendo publicadas pela Conrad. A editora lançou coletâneas de seus personagens Fritz the cat e Mr. Natural, histórias autobiográficos e uma antologia especialmente organizada para o Brasil da Zap Comix.

Seu livro de HQs mais recente no Brasil é Viva a revolução!, lançado em outubro de 2015 pela editora Veneta, que também publicou seu livro A mente suja em agosto de 2013.

Envio anexada entrevista com o autor publicada pelo jornal O Globo por ocasião de sua participação na Festa Literária Internacional de Paratu (Flip), na cidade de Paraty (RJ), em 2010.


Clique aqui para lê-la, seu cabeça de pudim!


Crumb continua residindo na pequena cidade do sul da França
– não vou dizer o nome para que nenhum turista brasileiro baixe por lá para lhe encher o saco – onde leva uma vida das mais modestas, trabalha em eventuais HQs e toca em sua banda de rock.

Bom, vamos pro segundo cabra:

Antonin, o momo artaumentado

Antonin Artaud (1896 —1948) foi, por ordem de importância, poeta, dramaturgo, teórico e formalizador do teatro moderno, ator (de teatro e de cinema), roteirista de cinema, diretor de teatro e jornalista.

Começou como o primeiro editor da revista do surrealismo, movimento de vanguarda do qual acabou expulso por André Breton e Louis Aragon, por ter rejeitado veementemente a cooptação ao comunismo internacional.

Sua obra O teatro e seu duplo é um dos principais escritos sobre teatro do século XX. Três dos mais importantes diretores modernos foram ejaculados por Artaud: o inglês Peter Brook, o polonês Jerzy Grotowski e o italiano Eugenio Barba.

Pela dinâmica criadora, a carreira de Artaud, entre nós, só é comparável ao fluxo ebulivo do diretor de cinema Gláuber Rocha (1939-1981), outro que não se rendeu.

Artaud chegou a Paris como um caipira anônimo (qual Arthur Rimbaud décadas antes) e, em meses, já era uma das personalidades capitais na capital das vanguardas.

Artaud no cinema
Artaud no teatro

Artaud no retrado
Artaud devastado

A partir de 1937, quando um questionável júri o declarou louco e incapacitado, Artaud passou a se dedicar a comprovar, até sua morte, em 1948, que tinha “pleno domínio das faculdades mentais”.

Algo bastante similar ao que ocorrera um século antes com nosso grande dramaturgo, poeta e jornalista polemista Qorpo Santo (1829-1883).

Artaud, da mesma forma que Qorpo Santo, foi internado em vários manicômios e submetido a horríveis “tratamentos” hoje prescritos. Seus últimos anos de internação foram no Hospício de Rodes, na periferia de Paris, enquanto pipocavam os bombardeios da 2ª Guerra Mundial.

Nesse hospital psiquiátrico estabeleceu com o médico-diretor “docteur Ferdière“ uma intensa correspondência.

Estabeleceu-se uma relação ambígua entre os dois. O médico reconhecia o valor do poeta e o incentivava a prosseguir a atividade literária, mas julgava sua poesia e comportamento como delirantes e o submetia a "tratamentos" como eletrochoques.

Evidentemente que à força. Há um afrontamento entre dois mundos, o do superpoderoso acadêmico da medicina e o do intenso fluxo criativo do poeta, que ultrapassava a lógica até para seus delirantes companheiros do surrealismo, que também o consideraram “louco”.

As Cartas aos poderes (ou Lettres au docteur Ferdière) escritas por Artaud nesse período são seus documentos comprobatórios de que não perdera a lucidez. Revelam um homem em terrível estado de sofrimento, que aborda sua dor de forma íntima e espontânea.


Segue uma das "cartas":


"Carta aos diretores de asilos de loucos

As leis, os costumes, concedem-lhes o direito de medir o espírito. Esta jurisdição soberana e terrível, vocês a exercem segundo seus próprios padrões de entendimento.
Não nos façam rir. A credulidade dos povos civilizados, dos especialistas, dos governantes, reveste a psiquiatria de inexplicáveis luzes sobrenaturais. A profissão que vocês exercem esta julgada de antemão. Não pensamos em discutir aqui o valor dessa ciência, nem a duvidosa existência das doenças mentais. Porém para cada cem pretendidas patogenias, onde se desencadeia a confusão da matéria e do espírito, para cada cem classificações, onde as mais vagas são também as únicas utilizáveis, quantas tentativas nobres se contam para conseguir melhor compreensão do mundo irreal onde vivem aqueles que vocês encarceraram?
Quantos de vocês, por exemplo, consideram que o sonho do demente precoce ou as imagens que o perseguem são algo mais que uma salada de palavras? Não nos surpreende ver até que ponto vocês estão empenhados em uma tarefa para a qual só existem muito poucos predestinados. Porém não nos rebelamos contra o direito concedido a certos homens – capazes ou não – de dar por terminadas suas investigações no campo do espírito com um veredito de encarceramento perpétuo.
E que encerramento! Sabe-se – nunca se saberá o suficiente – que os asilos, longe de ser "asilos", são cárceres horríveis onde os reclusos fornecem mão de obra gratuita e cômoda, e onde a brutalidade é norma. E vocês toleram tudo isso. O hospício de alienados, sob o amparo da ciência e da justiça, é comparável aos quartéis, aos cárceres, às penitenciárias. Não nos referimos aqui às internações arbitrárias, para lhes evitar o incomodo de um fácil desmentido. Afirmamos que grande parte de seus internados – completamente loucos segundo a definição oficial – estão também reclusos arbitrariamente. E não podemos admitir que se impeça o livre desenvolvimento de um delírio, tão legitimo e lógico como qualquer outra serie de ideias e atos humanos. A repressão das reações antissociais, em principio, é tão quimérica como inaceitável. Todos os atos individuais são antissociais. Os loucos são as vitimas individuais por excelência da ditadura social. E em nome dessa individualidade, que è patrimônio do homem, reclamamos a liberdade desses forcados das galés da sensibilidade, já que não se está dentro das faculdades da lei condenar à prisão a todos que pensam e trabalham. Sem insistir no caráter verdadeiramente genial das manifestações de certos loucos, na medida de nossa capacidade para avaliá-las, afirmamos a legitimidade absoluta de sua concepção da realidade e de todos os atos que dela derivam.
Esperamos que amanhã de manhã, na hora da visita médica, recordem isto, quando tratarem de conversar sem dicionário com esses homens sobre os quais – reconheçam – só têm a superioridade da força."

Vide a esse respeito o belo poema do nosso irmão Paulo Leminski (1944-1989), outro safado que costumava mijar nas toalhas de piquenique das pessoas consideradas normais:

Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra”

Cartas aos poderes
, de Artaud, são diálogos desesperados com um médico e seu poder absoluto sobre as vidas de seus pacientes e, através dele, com toda a sociedade.

Artaud usou ardilosamente o “docteur Ferdière”, que dele abusou de todas as formas.

“Não quero que ninguém ignore meus gritos de dor e quero que você (o médico) faça com que todos sejam ouvidos”.

Em 1935, dois anos antes de ser diagnosticado e internado como “louco”, Artaud concluíra Teatro e seu duplo (Le théâtre et son double), um dos livros mais influentes do teatro moderno, conforme já mencionado.

Trata-se de uma obra técnica e crítica. Expõe o grito, a respiração e o corpo do homem como lugar primordial do ato teatral. Denuncia o teatro digestivo e rejeita a supremacia da palavra.

No “teatro da crueldade” por ele idealizado não haveria nenhuma distância entre ator e plateia, todos seriam atores e todos fariam parte do "processo de transformação" ao mesmo tempo.

Em Rodes, além suas cartas, Artaud elaborou uma prática vocal apurada dia a dia. Sua voz bate, cava, espeta e treme na cela onde ficava confinado. A palavra toma uma dimensão material, é gesto e ato.

De volta a Paris, em 1946, após encerrada a guerra e ser liberto da internação, faz conferências e realiza a gravação da peça radiofônica Para acabar com o juízo de Deus (Pour en finir avec le jugement de dieu), sob parâmetros expressivos e formalistas dos mais cuidadosos.



A peça, produzida a pedido do diretor da Rádio Estatal Francesa, vinculada ao Partido Comunista, foi proibida de última hora sob a pecha de ser “antissocial”.

Incrível como esse homem desdentado, sifilítico, magérrimo, precocemente transformado num idoso sustenta com tamanha coerência o que se propunha a fazer:

“A questão que se coloca é de permitir que o teatro reencontre sua verdadeira linguagem, linguagem espacial, linguagem de gestos, de atitudes, de expressões e de mímica, linguagem de gritos e onomatopeias, linguagem sonora, em que todos os elementos objetivos se transformem em sinais, sejam visuais, sejam sonoros, mas que terão tanta importância intelectual e de significados sensíveis quanto a linguagem de palavras.”

Seu trabalho ao longo da vida incluiu cenografia, pintura, ensaios críticos e série de manifestos polêmicos.

Considerava-se um poeta, mas não no sentido usual, pois acreditava que alguém que se definia como poeta não era em função das palavras, mas da própria intensidade da vida.

Um comentário:

  1. Quando fui diretor do Hospital de Engenho de Dentro colei nas enfermarias e nos quadros de avisos trechos da Carta aos Diretores de Asilo de Artaud.

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