segunda-feira, 27 de junho de 2016


Pessoas de verdade são boas e más, mentirosas e verdadeiras, alegres e tristes, loucas e ajuizadas, impulsivas e racionais. Assim era José Pereira e é a lenda carnavalesca do "Zé Pereira", com a qual procuro intencionalmente confundi-lo neste artigo.

José Pereira, o real, foi um produtor cultural de origem paraibana revelado na segunda metade dos anos 1970 em Brasília. Era idealizador, bastante criativo, de uma intuição admirável, obstinado, divertidíssimo, sarcástico e muito esperto.

Também tinha seu lado "Zé Pereira", o personagem que de tanto se esbaldar no Carnaval, acabou morrendo. O Zé Pereira real era igualmente festeiro, farrista, tomava todas, namorador inveterado, mas de uma fidelidade e paixão visceral por aquilo que acreditava: a cultura.

Nem me lembro direito de como nos conhecemos. Mas dentre os vários grandes amigos de Brasília, ele foi um dos mais presentes em minha vida. Convivemos por cerca de duas décadas, inclusive depois que me mudei para São Paulo.

Infelizmente, minha desorganização pessoal levou-me a perder todas as fotos que tinha dele. Tratava-se de um mulato de pele clara, cabelos encaracolados, descendente de portugueses e negros.

Como foi uma das figuras mais bem-humoradas que conheci, procuro neste artigo suprir a falta de fotografias do próprio com a utilização de fotos dos festejos carnavalescos em homenagem ao popular "Zé Pereira", cuja origem é também portuguesa.

O "Zé Pereira" do Carnaval é um personagem misterioso, macabro, vinculado ao mesmo tempo à alegria extremada e à morte. Em diferentes versões, mas sempre associado à alegria e à tristeza, é conhecido por todo o Brasil.

Quanto ao Zé Pereira real, em Brasília e na capital paulista participei de vários dos seus projetos culturais. Tinha as chaves da minha casa. Entrava e saía quando queria. Seu círculo de atividades incluía, além de Brasília e São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.




Às vezes passava meses em São Paulo, dormindo parte do tempo na minha casa e parte nas casas das várias namoradas. Reaparecia sempre de madrugada e me despertava de forma escandalosa, falando alto e fazendo muito barulho, mesmo que eu estivesse acompanhado.

– Acorda, caipira vagabundo! Chegou aquele que te põe pra trabalhar e só te traz prejuízos.

Sempre procurava de alguma forma me envolver em seus projetos, assim como a outros dos seus vários amigos. Muitas vezes me livrou do sufoco oferecendo algum bico em suas múltiplas atividades.

Os “prejuízos” a que se referia eram decorrentes das contas de telefone enormes que me deixava. Nunca especulava em quanto ficavam e nem eu me dispunha a cobrá-las.

Pereira não tinha formação universitária, mas era mais informado que a maioria de seus amigos com educação superior.

Lia bastante e escrevia bem. Quando me dava os textos dos projetos para revisar, me limitava a tirar certos exageros de conteúdo para torná-los mais objetivos, mas nem tinha muito o que corrigir.

Não havia nele o meu menor desejo de ser visto como intelectual ou artista.

– Sabe, Derva, minha missão de vida é botar gente criativa pra trabalhar. Se conseguir isso já tá muito bom. Dinheiro sei que não vou ganhar mesmo.




Nunca teve contas bancárias ocultas ou bens. Seu dinheiro, de sobrevivência, provinha exclusivamente das verbas de produção de cada projeto aprovado.

Quando estava à frente de algum, comia e bebia do melhor e proporcionava os mesmos prazeres aos amigos artistas e às namoradas.

Mas quando não havia projetos, ficava duro e muitas vezes os mesmos amigos e namoradas o sustentavam em suas casas até que conseguisse novo trabalho...