segunda-feira, 27 de junho de 2016

A alegria de Zé Pereira


Pessoas de verdade são boas e más, mentirosas e verdadeiras, alegres e tristes, loucas e ajuizadas, impulsivas e racionais. Assim era José Pereira e é a lenda carnavalesca do "Zé Pereira", com a qual procuro intencionalmente confundi-lo neste artigo.

José Pereira, o real, foi um produtor cultural de origem paraibana revelado na segunda metade dos anos 1970 em Brasília. Era idealizador, bastante criativo, de uma intuição admirável, obstinado, divertidíssimo, sarcástico e muito esperto.

Também tinha seu lado "Zé Pereira", o personagem que de tanto se esbaldar no Carnaval, acabou morrendo. O Zé Pereira real era igualmente festeiro, farrista, tomava todas, namorador inveterado, mas de uma fidelidade e paixão visceral por aquilo que acreditava: a cultura.

Nem me lembro direito de como nos conhecemos. Mas dentre os vários grandes amigos de Brasília, ele foi um dos mais presentes em minha vida. Convivemos por cerca de duas décadas, inclusive depois que me mudei para São Paulo.

Infelizmente, minha desorganização pessoal levou-me a perder todas as fotos que tinha dele. Tratava-se de um mulato de pele clara, cabelos encaracolados, descendente de portugueses e negros.

Como foi uma das figuras mais bem-humoradas que conheci, procuro neste artigo suprir a falta de fotografias do próprio com a utilização de fotos dos festejos carnavalescos em homenagem ao popular "Zé Pereira", cuja origem é também portuguesa.

O "Zé Pereira" do Carnaval é um personagem misterioso, macabro, vinculado ao mesmo tempo à alegria extremada e à morte. Em diferentes versões, mas sempre associado à alegria e à tristeza, é conhecido por todo o Brasil.

Quanto ao Zé Pereira real, em Brasília e na capital paulista participei de vários dos seus projetos culturais. Tinha as chaves da minha casa. Entrava e saía quando queria. Seu círculo de atividades incluía, além de Brasília e São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.




Às vezes passava meses em São Paulo, dormindo parte do tempo na minha casa e parte nas casas das várias namoradas. Reaparecia sempre de madrugada e me despertava de forma escandalosa, falando alto e fazendo muito barulho, mesmo que eu estivesse acompanhado.

– Acorda, caipira vagabundo! Chegou aquele que te põe pra trabalhar e só te traz prejuízos.

Sempre procurava de alguma forma me envolver em seus projetos, assim como a outros dos seus vários amigos. Muitas vezes me livrou do sufoco oferecendo algum bico em suas múltiplas atividades.

Os “prejuízos” a que se referia eram decorrentes das contas de telefone enormes que me deixava. Nunca especulava em quanto ficavam e nem eu me dispunha a cobrá-las.

Pereira não tinha formação universitária, mas era mais informado que a maioria de seus amigos com educação superior.

Lia bastante e escrevia bem. Quando me dava os textos dos projetos para revisar, me limitava a tirar certos exageros de conteúdo para torná-los mais objetivos, mas nem tinha muito o que corrigir.

Não havia nele o meu menor desejo de ser visto como intelectual ou artista.

– Sabe, Derva, minha missão de vida é botar gente criativa pra trabalhar. Se conseguir isso já tá muito bom. Dinheiro sei que não vou ganhar mesmo.




Nunca teve contas bancárias ocultas ou bens. Seu dinheiro, de sobrevivência, provinha exclusivamente das verbas de produção de cada projeto aprovado.

Quando estava à frente de algum, comia e bebia do melhor e proporcionava os mesmos prazeres aos amigos artistas e às namoradas.

Mas quando não havia projetos, ficava duro e muitas vezes os mesmos amigos e namoradas o sustentavam em suas casas até que conseguisse novo trabalho...



Lembro-me de uma farra por duas semanas no Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, bancada sei lá por quem. Convidou vários dos amigos residentes em São Paulo para irem até lá. Eu, Paulão, Duda, Bel, Ana, Agenor e vários outros.

Agenor é nome fictício. Escolhi-o para poder contar o entrecho que se segue. Ele e Pereira eram muito amigos. Agenor era também um sujeito empreendedor e esperto. Ajudou Pereira no evento da Praça do Pôr-do-Sol e, depois, na primeira Feira da Vila, na Vila Madalena.

Mas tinha uma mulher linda. E Pereira, sabe-se com é, era danado.






Passou a transar com a mulher do Agenor. Não escondia nada. Tudo ocorria na cara do respectivo. Estávamos todos no Sujinho, de repente Pereira era tomado por repentino tesão e ordenava na cara dura à mulherzinha do amigo: “Fulana, vamos dar um passeio!”

Agenor, resignado, nos dizia que ainda iria matar Pereira, atropelá-lo, envenená-lo, o caralho a quatro. Mas no dia seguinte lá estavam os dois rindo das mesmas piadas, em perfeita sintonia. Entre nós Agenor era chamado de “Marido Compreensivo”.

Pereira era desbocado e às vezes grosseiro. Tanto com homens quanto mulheres. Mas estas nunca se sentiam ofendidas com seu extenso repertório de palavrões e termos chulos.

Por outro lado, era altamente preocupado com os amigos. Quando sabia que eu passava por dificuldades, mesmo que não tivesse como ajudar, me ligava seguidas vezes para conversar horas a fio.

Em certa ocasião me viu com uma namorada muito bonita e me chamou para uma conversa paternal:

– Você sabe o significado de corno, Derva?

Apenas ri, achando que se tratasse de mais uma de suas tantas piadas. Acrescentou de modo bastante sério:

Corno é todo sujeito que se apega a mulher bonita. Vigiar mulher bonita, meu amigo, é função mais fadada ao fracasso do que tentar fazer revolução no Brasil.



Pereira também era chegado a dar ordens. Mas graças à sua simpatia e afetuosidade, as pessoas o atendiam como cachorrinhos, muitas vezes sem ter a mínima ideia de que aquilo no que estavam se metendo iria dar em alguma coisa. Nem Pereira sabia, óbvio.

O evento da Praça do Pôr-do-Sol, por exemplo, começou porque eu morava com os arquitetos Paulo Amaral, Pedro Rivaben (Bel) e Aluízio Eras a duas quadras do local.

Pereira volta e meia dormia em casa depois de ter tomado todas no Bar do Gaúcho, situado a meio quarteirão.

Num dia de semana fomos até a praça caminhar para curar a ressaca. Pereira começou a sonhar e a imaginar um evento domingueiro ali, a fim de atrair as pessoas para o lugar, que até então era deserto e abandonado.

Na parte mais baixa da praça havia uma escola de educação infantil municipal. Num rompante, ele me arrastou até . Entrou com tudo para falar com a diretora, jogando aquele charme que só ele sabia jogar.

Logo todas as professorinhas, incluindo a diretora, se encontravam derretidas por ele. Saímos de lá com o compromisso de que estariam engajadas num evento que até então era apenas uma vaga hipótese.

Embora a amarração principal estivesse feita, sabia que daí por diante teria de envolver mais e mais pessoas. Uma delas foi o baiano Penna, músico e também produtor cultural.

Penna, que é primo do cineasta Hermano Penna, hoje é o presidente nacional do Partido Verde.

O evento da Praça do Pôr-do-Sol durou todo o dia de um domingo e entrou noite adentro. Contou com feira de artesanatos e bijuterias, bancas de comidas diversas, apresentações de malabaristas e um monte de atividades para todas as faixas etárias.

Os pontos altos do evento foram a inauguração de uma tribuna livre e a extensa programação de um show com muita música, performances, leituras de manifestos, declamações de poemas, apresentações de dança e teatro.

Praça do Pôr-do-Sol ao entardecer

Decidiu-se, após muita discussão, que a tribuna deveria se chamar Sérgio Buarque de Holanda. O nome foi imposto por Pereira sob a seguinte justificativa.

– É pai do Chico, intelectual de renome... participou até do modernismo... pertence a uma família quatrocentona e é de esquerda. Uma unanimidade nacional, à qual nenhum filho duma puta irá se opor.

E acrescentou:

Tem de ser ele. Pois toda a elite brasileira, mesmo a mais conservadora, se considera de esquerda. Sabe como é... complexo de culpa cristão. Até a TFP se sente culpada por ser identificada como de direita!

Meus companheiros de república, os arquitetos Paulo, Bel e Aluizio foram incumbidos de projetar a Tribuna Sérgio Buarque de Holanda. Mas tiveram de ir além: também a construíram.

Como Pereira não conseguiu grana para contratar uma construtora para erguê-la, os três arquitetos foram avisados de última hora:

– Ou vocês mesmos a constroem ou o troço não sai.

Enquanto os três corriam às lojas de material de construção, Pereira foi a um supermercado e buscou farto estoque de bebidas. Graças às quais conseguiu arrastar para a construção vários ajudantes braçais voluntários pescados das águas turvas do Bar do Gaúcho.

De início tentou trazer Chico Buarque como principal atração do show e para participar da inauguração da tribuna em nome do seu pai. Mas devido a compromissos já agendados, o compositor não pôde vir.

Pereira então trouxe sua irmã Anna de Holanda, que mais recentemente foi ministra da Cultura, e Jards Macalé.


Jards Macalé

 A certa altura do evento, Macalé, já visivelmente cansado após horas a fio carregando o violão e apertado as mãos das trocentas pessoas a ele apresentadas por Pereira, me chamou num canto:

– Ô galego, parece que tu é da organização...

– Mais ou menos.

Propôs em tom de súplica:

Eu te dou todo meu cachê se você der um jeito de me botar naquele palco.

Queria se apresentar e voltar ao Rio o quanto antes para descansar, pois há três noites que não via uma cama. Para seu desgosto, Macau era a atração principal do evento e só subiria ao palco por volta das 22 horas.

A essa altura já o tínhamos levado no Bar do Gaúcho para tomar uns gorós. Apesar das muitas biritas e da longa e exaustiva espera, seu show foi ótimo.

Ocorreram outras edições do evento na Praça do Pôr-do-Sol, até que a oposição de um grupo de moradores acabou por interrompê-lo. Penna e Pereira então idealizaram a Feira da Vila, mais ou menos nos mesmos moldes, em uma das ruas da Vila Madalena.

O primeiro evento da Feira da Vila contou com a participação de uma das mais importantes personalidades culturais surgidas nos anos 1960: o designer, inventor, artista plástico e poeta Rogério Duarte, figura de bastidores do tropicalismo.


Rogério Duarte daquela época


Pelo início dos anos 1980, Rogério e o irmão Ronaldo (engenheiro civil) moravam nas respectivas casas na Vila Madalena. Estimulado por Pereira, Rogério expôs na Feira da Vila sua escultura “Neodésica”.

Era com ironia que Rogério costumava homenagear aqueles dos quais gostava. Neste caso, Buckminster Fuller, que acabara de falecer.

Fuller, para quem não sabe, foi, como Rogério, designer e inventor. Sua carreira internacional teve salto com o sucesso das suas enormes cúpulas geodésicas, nos anos 1950.

Desenhando, pesquisando, desenvolvendo projetos e escrevendo, Fuller ensinou design nas várias partes do mundo.

Os conceitos geométricos estudados por Fuller provêm de sua capacidade de interpretar os fundamentos geométricos da natureza como a estrutura biológica dos vírus, dos quasi-cristais e da forma alotrópica do carbono puro, para além do diamante e do grafite.

A natureza aparece, desde o início de sua carreira, como a grande mestra. Seguia o caminho já iniciado pelos antigos gregos, na escola pitagórica e platônica, sendo um dos primeiros pesquisadores a propor fontes renováveis de energia.


Buck Fuller e, ao fundo, uma estrutura geodésica



Depois da primeira Feira da Vila, Zé Pereira foi para Brasília. Penna e outros continuaram à frente das novas edições da Feira da Vila.

Após meses sumido, um dia fui acordado pela manhã com Pereira entrando num rompante no meu quarto. Jogou sobre o colchão um patuá de fumo e disse sem ao menos me cumprimentar:

– Enrole um baseado bem feito, do tipo charutão. Mas sem sementes e pedaços de galhos, pois o homem é enjoado.

Pereira não fumava maconha. Quis saber do que e de quem estava falando. Foi direto ao assunto:

– Nós dois vamos entrevistar Rogério Duarte para o Correio Braziliense. É um pedido do Fernando Lemos.

Fernando Lemos, jornalista do Rio, era o então editor do principal jornal brasiliense. Tentei argumentar que seria difícil, pois Rogério tinha aversão a entrevistas. Pereira:

– Por isso que precisamos de um baseadão muito bem feito.

A ideia era imitar o semanário O Pasquim. Só que em lugar de uísque, como fazia a trupe do Tarso de Castro, entupiríamos a cabeça de Rogério de fumo. Depois levaríamos um longo papo com ele e, escondido, gravaríamos tudo.


Tarso de Castro (à dir.) com Chico e Caetano

Disse a Pereira que não achava aquilo certo. Mas ele me esculhambou:

– Porra, Derva, é preciso culhão pra ser jornalista.

Acabou me dobrando e fizemos tudo conforme ele quis. Quando dava umas bolas, Rogério falava pelos cotovelos. Portanto, depois daquele baseadão foi fácil arrancar dele qualquer tipo de assunto.

A “entrevista” resultou em quase duas fitas cassetes gravadas de ambos os lados. Em nenhum momento Rogério desconfiou. Levei um tempão para transcrever aquilo. Então mostrei a Pereira, com a ideia de cortarmos os trechos inconvenientes. Mas ele nem quis ler a transcrição.

– Não corte nada. É pra ser igualzinho o Tarso fazia nO Pasquim.

Reagi em defesa do entrevistado: “Ô, Zé, isso vai ser uma grande sacanagem com o homem.”

– Tenha culhão, Dervas. Tenha culhão!

Acabei fazendo qual ordenou. Pus aquilo em linguagem de entrevista, acrescentei perguntas em meu nome e no nome dele, fiz uma introdução e entreguei o texto assinado por ambos. Pereira o apanhou e sumiu.

Na segunda-feira seguinte, Rogério Duarte entrou em minha casa como um vendaval. Estava bufando de raiva. Acusou-me de um monte de coisas. Traidor. Canalha. Covarde. Moleque irresponsável. Pessoa não confiável. Dissimulado. Mentiroso. Etc.

Não fazia ideia da razão de tudo aquilo, até que ele me mostrou as cerca de quatro páginas de “entrevista” no Correio Brazilienze. Tudo conforme o texto que entregara a Pereira, com a diferença de que o nome dele não aparecia na coautoria e as perguntas estavam todas em meu nome.

Fiquei absolutamente sem defesa, ouvindo impotente aos xingamentos de Rogério. Iria falar o que depois daquilo?

Rogério me pediu para pôr papel na máquina de escrever – ainda não havia computadores – e obrigou-me a redigir que nunca o entrevistara e que a publicação do Correio Brazilienze era mentirosa.

Atendi-o sem questionar, pensando comigo: “Estou fodido”. Já imaginava Rogério me processando por tudo. Escrevi duas páginas assumindo minha culpa, minha vasta culpa e assinei no final. Perguntei aflito:

– E agora, o que você vai fazer com isso?

Rogério:

– Nada, idiota. Vou apenas guardar para provar a quem quer que seja que esta porcaria – mostrou a publicação – nunca deveria ter sido feita.

E ordenou:

– E agora vá enrolar um baseado pra amenizar os prejuízos que você me causou.

Rogério tinha um vozeirão danado e era muito escandaloso. Por muito tempo deixei de frequentar o Sujinho para não ouvir as pechas que me lançava na cara quando bêbado por causa da maldita “entrevista”.

Pereira me envolveu em outras situações constrangedoras. Deve ter feito o mesmo com outros amigos. Isso fazia parte de suas muitas molecagens.

No final dos anos 1980, eu e Duda fomos por ele convocados a Brasília para trabalhar como roteiristas do filme Brasília, a última utopia, um longa-metragem, segundo as palavras de Pereira, para revelar a identidade e o inconsciente coletivo da capital federal.


Durvalino Couto (Duda)

O longa seria integrado por curtas dos cineastas Vladimir de Carvalho, Pedro Anísio, Geraldo Moraes, Roberto Pires, Moacir de Oliveira e Pedro Jorge de Castro. Nosso roteiro era sobre a espiritualidade da capital. Seria dirigido por Pedro Anísio.


Pedro Anísio

Eu e Duda fizemos algo de ficção, envolvendo o personagem Spirit das histórias em quadrinhos de Will Eisner e toda uma trama burlesca, na qual misturávamos as várias vertentes místicas de Brasília aos fatos e mitos políticos da época, dentre eles o então governador do DF, José Aparecido.

Nosso “consultor espiritual” era o babalorixá Raul de Xangô, com quem transitamos por vários templos sincréticos do Distrito Federal, dentre eles o Vale do Amanhecer.

Misturávamos, em tom de troça, os delírios místicos aos delírios políticos. Mas nosso roteiro extrapolou em muito o tempo disponível. Pedro Anísio acabou aproveitando os personagens e pequena parte da trama, despindo dela o caráter mais debochado e sarcástico.

Sua parte se chamou Além do cinema do além. Foi estrelada por Ana Maria Magalhães, J. Pingo, Joel Barcelos e pelo nosso “consultor espiritual” Raul de Xangô, em cujo terreiro parte das cenas foi rodada.

Vejam como ficou:





Qual ocorrera no Maksoud Plaza, em São Paulo, no hotel de Brasília onde toda a equipe de produção ficou hospedada a farra rolou solta. Pereira às vezes não tinha grana nem para pagar táxi e poder sair do hotel, mas dentro dele liderava uma esbórnia sem limites.

Eu e Duda, seus amigos mais próximos, éramos pau para toda obra. Certa noite me tirou do flat para “uma reunião” com o compositor, clarinetista e saxofonista Paulo Moura.


Paulo Moura

Pereira queria que eu jogasse um lero de que conhecia os familiares dele em São José do Rio Preto (SP), onde morei na adolescência. Me recusei, pois sabia que em dado momento o músico iria sacar que era uma deslavada mentira.

A reunião não era uma reunião. Tratava-se de um jantar num restaurante francês, ao qual Moura compareceu com sua namorada, uma loira muito bonita.

De repente Pereira fez o inusitado: lançou a proposta de que Moura passasse a compor canções com letras e que eu fosse seu letrista. Moura me olhou de cima em baixo e perguntou:

– Mas o Derva aí já escreveu alguma letra de canção?

Pereira assegurou que sim ("várias!") e até citou uma parceria minha com Morais Moreira. Inexistente, óbvio. Eu não sabia onde enfiar minha cara de constrangimento. Para comprovar que eu era mesmo letrista, me deu um guardanapo, uma caneta e ordenou:

– Derva, escreva uma letra sobre esta noite para que o maestro saiba do que você é capaz.

Nesta eu não caí. Enrolei, enrolei e o guardanapo continuou em branco. Moura encontrava-se em Brasília para um show. O que Pereira queria, na verdade, é que ele aceitasse ter seu nome incluído no projeto do filme.

Enquanto esteve em atividade como produtor cultural, Pereira se relacionou com parcela significativa dos artistas brasileiros de todas as áreas, principalmente de música, literatura e cinema.

Isso sem ser apresentado a eles por ninguém. Ele os procurava na cara dura e os seduzia com sua boa conversa. Costumava me dizer:

– Conheço mais a natureza humana que Freud, Jung, Reich e Lacan juntos.

Mesmo que nosso roteiro tenha sido resumidamente aproveitado por Pedro Anísio, eu e Duda de modo algum tivemos do que reclamar por ter feito parte daquela farra anárquica.

Dois anos depois eu estava residindo no sítio, na dura labuta para realizar meus primeiros plantios de seringueiras, quando Rosana gritou que minha amiga Cristina, de Brasília, estava ao telefone.

Fui correndo, com o coração pulsando de alegria por ter recebido uma ligação de minha querida comadre. Mas eis que me deparo com uma voz chorosa do outro lado: “Pereirinha se foi, Derva.”

Contou que ele e a namorada haviam dormido tarde, como de hábito. Pela manhã esta fora trabalhar e não quis acordá-lo. Quando retornou, ao final do dia, ele estava na mesma posição, já morto. Derrame fulminante.

Terminei a conversa bastante desnorteado. Parecia que tinha perdido meu chão. Um troço muito esquisito imaginar que nunca mais encontraria meu querido Zé Pereira.

Pelos dias seguintes me debrucei na composição do longo poema que segue abaixo, em homenagem a ele e à inteligência de todos os “braZÉleirinhos” livre-pensadores e malandros como ele, que não são paus mandados da corrupção política e muito menos dos cabrestos ideológicos.


última festa de Zé Pereira




todo dia é dia de festa

todo dia se manifesta

a alegria de Zé Pereira

o futuro não se faz com gestos

gesta-se se preciso

com laços fraternos entre inimigos

juntos os justos aprendem a viver lado a lado

e todos os párias também podem ter seus pares mais tarde

é possível estar alegre sem contudo estar contente

somente os infelizes se fartam com a ideia da felicidade

nos corredores do presente viceja

o culto explícito à incompetência

nas trocas de favores entre os melhores

legitima-se os benefícios em causa própria

ante plateias boquiabertas oferta-se a droga da euforia

exulta-se do privilégio de não se crer em nada

quantos arrastões serão precisos

para que se entenda

que a violência não é obra de homicidas

que o andor da brutalidade mostra

a imagem do criminoso que há em todos

que as chagas achadas no corpo da vítima eminente

refletem o ódio no fundo dos nossos olhos

que o morto jaz sereno como se a morte não fosse dele

morreu porque o destino o escolheu por tema

como sucedâneo às crianças prostituídas

às bichas e mulheres assassinadas

o futuro não depende de boas intenções

nem de berros histéricos de rufiões históricos

somente com ação política direta

é possível fazer com que alguns

escapem do inferno

nem é preciso suprimir os caminhos certos

o que é útil se legitima sem os vereditos do consenso

quem muito discute é incapaz de admitir enganos

é incapaz de aceitar os erros, de acertar o certo

em meio ao assédio da arrogância consumada

vejo a realidade fazer-se hábil pugilista

derruba sonhos com desafetos cruzados

um punch relâmpago lança meu crânio à lona

os olhos saltam fora das órbitas

os dentes caem sobre o piso em sangue

os lóbulos se espalham por reflexões exangues

até que um convicto de mau hálito

cava as unhas em minhas dúvidas

badalam-se os sinos

é o meu fim

braZÉleirinho chinfrim vexado por todos

o progresso me arrasta como tempestade

enxurradas de fantasias

se sobrepõem à avalanche de fatos

cessado o dilúvio

rapinas de tretas batem as asas sobre a noite América

avançam impiedosas

logram os que pouco lucram

quem tenta, cai

quem se levanta recua ante o perigo

um caboclo estende as mãos mutiladas

ao presidente do Banco Mundial

este saca da pasta um contrato:

assine aqui, ok?

declare via rede

que educação não gera desenvolvimento

e não tema a fome

promoveremos aqui o que fizemos na Somália

uma invasão beneficente

nossos aviões sobrevoarão florestas de tocos

e lançarão sobre vossos ossos

montanhas de suprimentos

a Rochfeller Fundation dá-lhe terno e gravata

fará dele um líder mundial

um diletante da ONU segreda-lhe o ônus:

votre misere chaufler avec plaisir

eu tu Ele nós vós eles

braZÉleirinhos

bem sabemos quem é quem nesse jogo abominável

do qual não se leva nada

são todos da mesma laia

o empresário se faz ladrão

o ladrão, empresário

depois declaram guerra aos desgraçados

e os desgraçados exploram a desgraça

dos que estão por baixo

todos, sem exceção, se sentem alguém

quando transformam os perdedores

em instrumento de suas aflições

enquanto a realidade esmurra a lógica

e a cosmologia fortalece a inanição dos fracos

eu, braZÉleirinho

como tu Ele nós vós eles

assisto a morte pousar abusiva sobre os destroços de nós

cá na banda do lado da bunda do mundo

seguimos de boca em boca ganhando alguns trocados

para trocar os trapos

vibrando com as mínimas vitórias

ignorando os fracassos

antes que o diabo me agarre

minha alma bate as asas

para longe da pieguice

não chorem

lágrimas derramadas é uma chatice

acolham meus tesões por esta terra

deitemos nossas genitalhas sobre ela

em face aos anseios mais prazerosos

e não me falem em ousadia por ousadia

a merda que se nega é a caca que se caga

que nossa intuição seja usina radioativa na usina dos fatos

que nossos olhos abram as janelas do universo

para que o sol ascenda invicto

chega dessa súcia de pregadores do que é certo

façamos do Brasil

um país de instâncias vastas

uma síncope de chorinhos a cada sábado de ócio

que o trabalho seja grato

e que no escracho do dia a dia

consigamos abolir os excessos práticos

que esse ciclo de extermínio tenha termo

e o sol aclame pelo favorável veredito

para que eu tu Ele nós vós eles

braZÉleirinhos

não deixemos de ouvir os acordes sutis de Waldyr

basta de nos arrastarmos como um rebanho de bostas

Brasil, nós que nos despedaçamos a cada ano para te juntar

deixamos que a realidade nos apure para te definir

que nossas piadas sejam gotas d’água no oceano dos fatos

que nosso humor recicle o lixo do paraíso

e a indigestão de cada dia

nos redima com alguns átimos de otimismo

orgulho, rapaziada!

não nos deixemos abater

uma vez nascidos

sejamos para sempre

embrionários

de um outro Estado








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