quarta-feira, 20 de julho de 2016

Finnegans wake: alegoria sobre a queda e ressurreição da humanidade



Este artigo encerra a série de três sobre as obras, a meu ver, mais importantes do escritor irlandês James Joyce (1882-1941): o conto The dead (Os mortos), o romance Ulisses e o romance Finnegans wake.


Os dois primeiros artigos encontram-se postados no blog Transinfoirmação. Foram intitulados “Os mortos na literatura de James Joyce” e “Um dia para sempre registrado por James Joyce”.

James Joyce quase cego no final da vida

No início dos anos 1920, enquanto 500 cópias de Ulisses eram queimadas por censores postais norte-americanos e outras 500 desapareciam da alfândega londrina, o autor do romance então acusado de obsceno e incompreensível, iniciava a redação de uma obra muitíssimo mais complexa e radical.


Tratava-se de Finnegans wake, a qual só seria concluída 18 anos depois, no auge da 2ª Grande Guerra Mundial. Durante esse período, capítulos avulsos do livro, que só foi intitulado na fase final, foram publicados em revistas literárias e denominados pelo autor de Work in progress.


Ulisses tivera um grupo de defensores, agregado em torno de Sylvia Beach, a editora norte-americana exilada que tivera a ousadia de publicá-lo em Paris. Dentre os que o apoiaram estava o influente poeta norte-americano Ezra Pound (1875-1972).

Joyce e amigos; à sua direita, Ezra Pound

Mas sobre Finnegans wake todos os simpatizantes e mesmo os amigos mais próximos, como Italo Svevo (1861-1928) e Pound, se calaram.

Italo Svevo

George Orwell (1903-1950) declarou publicamente que o autor enlouquecera. Psiquiatras conhecidos, como Carl Jung (1875-1961), chegaram a opinar sobre sua possível “doença mental”.


Se Ulisses fora uma grande viagem diurna referenciada em uma obra clássica – a Odisseia de Homero – Finnegans wake soou aos poucos leitores iniciais como um monstruoso pesadelo.


Um pesadelo por meio do qual o autor se propunha a expurgar toda imundície e degradação civilizatória e decretar o fim do próprio idioma (o inglês) a partir de palavras polilinguísticas inventadas.


Mais: o romance parecia decretar o fim da comunicação, como uma Torre de Babel predestinada a explodir todos os gêneros literários.


Joyce morreu na miséria e demorou para que as cortinas fossem abertas e a obra aos poucos se revelasse bem menos monstruosa do que aparentara no início.


Joyce concluiu Finnegans wake em Zurich (Suíça) enquanto a força e violência do nazismo preponderavam pela Europa.


O autor encontrava-se quase cego, exilado, sem recursos, longe do seu país, da maioria dos amigos e amargurado por ter sido obrigado a abandonar a filha em uma instituição psiquiátrica francesa.

Joyce e sua filha Lucia

Ele logo morreria por consequência da perfuração de uma úlcera estomacal, provavelmente devido a décadas de consumo de bebidas destiladas fortes e de pouca qualidade a que seu minguado poder aquisitivo permitia comprar.


Foi enterrado sem pompas. Velaram-no apenas sua mulher, o filho, a nora e funcionários do governo suíço.


Nas décadas seguintes viria sua ressurreição, qual a do gigante Finn, da mitologia irlandesa, no qual se baseou para iniciar o romance e intitulá-lo.


Nas décadas seguintes o conjunto da obra de Joyce foi reconhecido como a mais avançada prosa do século XX, assim como fora a de Gustave Flaubert (1821-1880) para o século XIX.

Gustave Flaubert

Em Finnegans wake, Joyce aplicou seus amplos conhecimentos de idiomas na elaboração da linguagem hieroglífica e noturna dos sonhos, por meio da qual construiu uma densa enciclopédia onírica da história arquetípica da humanidade baseada nas teorias do pensador renascentista italiano Giambattista Vico (1668-1744)...