quarta-feira, 20 de julho de 2016

Finnegans wake: alegoria sobre a queda e ressurreição da humanidade



Este artigo encerra a série de três sobre as obras, a meu ver, mais importantes do escritor irlandês James Joyce (1882-1941): o conto The dead (Os mortos), o romance Ulisses e o romance Finnegans wake.


Os dois primeiros artigos encontram-se postados no blog Transinfoirmação. Foram intitulados “Os mortos na literatura de James Joyce” e “Um dia para sempre registrado por James Joyce”.

James Joyce quase cego no final da vida

No início dos anos 1920, enquanto 500 cópias de Ulisses eram queimadas por censores postais norte-americanos e outras 500 desapareciam da alfândega londrina, o autor do romance então acusado de obsceno e incompreensível, iniciava a redação de uma obra muitíssimo mais complexa e radical.


Tratava-se de Finnegans wake, a qual só seria concluída 18 anos depois, no auge da 2ª Grande Guerra Mundial. Durante esse período, capítulos avulsos do livro, que só foi intitulado na fase final, foram publicados em revistas literárias e denominados pelo autor de Work in progress.


Ulisses tivera um grupo de defensores, agregado em torno de Sylvia Beach, a editora norte-americana exilada que tivera a ousadia de publicá-lo em Paris. Dentre os que o apoiaram estava o influente poeta norte-americano Ezra Pound (1875-1972).

Joyce e amigos; à sua direita, Ezra Pound

Mas sobre Finnegans wake todos os simpatizantes e mesmo os amigos mais próximos, como Italo Svevo (1861-1928) e Pound, se calaram.

Italo Svevo

George Orwell (1903-1950) declarou publicamente que o autor enlouquecera. Psiquiatras conhecidos, como Carl Jung (1875-1961), chegaram a opinar sobre sua possível “doença mental”.


Se Ulisses fora uma grande viagem diurna referenciada em uma obra clássica – a Odisseia de Homero – Finnegans wake soou aos poucos leitores iniciais como um monstruoso pesadelo.


Um pesadelo por meio do qual o autor se propunha a expurgar toda imundície e degradação civilizatória e decretar o fim do próprio idioma (o inglês) a partir de palavras polilinguísticas inventadas.


Mais: o romance parecia decretar o fim da comunicação, como uma Torre de Babel predestinada a explodir todos os gêneros literários.


Joyce morreu na miséria e demorou para que as cortinas fossem abertas e a obra aos poucos se revelasse bem menos monstruosa do que aparentara no início.


Joyce concluiu Finnegans wake em Zurich (Suíça) enquanto a força e violência do nazismo preponderavam pela Europa.


O autor encontrava-se quase cego, exilado, sem recursos, longe do seu país, da maioria dos amigos e amargurado por ter sido obrigado a abandonar a filha em uma instituição psiquiátrica francesa.

Joyce e sua filha Lucia

Ele logo morreria por consequência da perfuração de uma úlcera estomacal, provavelmente devido a décadas de consumo de bebidas destiladas fortes e de pouca qualidade a que seu minguado poder aquisitivo permitia comprar.


Foi enterrado sem pompas. Velaram-no apenas sua mulher, o filho, a nora e funcionários do governo suíço.


Nas décadas seguintes viria sua ressurreição, qual a do gigante Finn, da mitologia irlandesa, no qual se baseou para iniciar o romance e intitulá-lo.


Nas décadas seguintes o conjunto da obra de Joyce foi reconhecido como a mais avançada prosa do século XX, assim como fora a de Gustave Flaubert (1821-1880) para o século XIX.

Gustave Flaubert

Em Finnegans wake, Joyce aplicou seus amplos conhecimentos de idiomas na elaboração da linguagem hieroglífica e noturna dos sonhos, por meio da qual construiu uma densa enciclopédia onírica da história arquetípica da humanidade baseada nas teorias do pensador renascentista italiano Giambattista Vico (1668-1744)...



No processo de ressurreição de Joyce, que se seguiu à sua morte, um dos primeiros escritores a se posicionarem em defesa de Finnegans wake foi o alemão Thomas Mann (1875-1955):

“A obra de Joyce é um paradigma de experimentalismo inovador. Embora me sinta tradicionalista com relação a ele, sou também ligado ao seu amor pela paródia.”
Thomas Mann


Na URSS, o escritor comunista Iuri Olecha (1899-1960) teve a ousadia de declarar que Joyce era “mais interessante do ponto de vista formal que Máximo Gorki”. Gorki, sabe-se, era o escritor símbolo do real-socialismo vigente na URSS.


Outro intelectual de esquerda, Jean-Paul Sartre (1905-1980), no livro Critique de la raison dialectique, também registrou seu elogio a Finnegans wake:

“Joyce cria um espelho do mundo ao contestar a linguagem comum e lançar os fundamentos de uma nova universalidade linguística.”
Jean-Paul Sartre


No Brasil, os contatos com a obra de Joyce entre os modernistas não passou de Ulisses.


Houve críticas favoráveis ao romance de Oswald de Andrade (1890-1954), Patrícia Galvão (1910-1962) e Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982).


Oswald, em Ponta de Lança, cita Ulisses como “um grande marco antinormativo”.


Mas Finnegans wake só seria incorporado à cultura nacional quando, em 1958, o movimento de poesia concreta o incluiu em seu Plano-Piloto como obra referencial do “microcosmo verbivocovisual”, ao lado da prosa de Guimarães Rosa (1908-1967).

Guimarães Rosa
Foram os poetas concretos (Augusto e Haroldo de Campos) os primeiros a traduzirem fragmentos do romance publicados com o título Panaroma de Finnegans wake. Isso em 1962.

Haroldo e Augusto de Campos

A ideia original dos irmãos Campos era publicá-lo com o título Panaroma do Finnicius. Panaroma de pan+aroma+panorama e Finnicius de fim+início+Finn.


Bem mais recentemente, em 2004, o filólogo gaúcho Donaldo Schüler, verteu o romance na íntegra para o português com o título de Finnicius revém, em homenagem aos Campos.


Até hoje paira no contexto nacional o mito de que a obra é impossível de se ler.


Posiciono-me entre os que dizem o contrário. Só é “impossível” lê-lo face à incúria nacional pela literatura mais inovadora – não diz respeito apenas à obra de Joyce – e apego preguiçoso ao que é facilmente compreensível.


Com o propósito de estimular novos leitores, poucos que sejam, a desvendar o universo noturno e onírico de Finnegans wake, segue este artigo com algumas dicas ao alcance de qualquer um, qual o título da versão nacional de obra similar com este propósito do romancista inglês Anthony Burgess (1917-1963): Homem comum enfim.

Anthony Burgess

Três dos principais admiradores da última obra de Joyce foram o mitólogo Joseph Campbell (1904-1987), o estudioso de literatura e meios de comunicação Marshall McLuhan (1911-1980) e o compositor John Cage (1912-1982).

John Cage

Sobre Finnegans wake, Cage escreveu:

“Penso que os artistas do século XX que oferecem uma resistência à nossa compreensão são aqueles a que não cessaremos de redescobrir. Joyce, Duchamp... E Satie, cuja obra, ainda que aparentemente simples, não é mais fácil de compreender que a de Anton Webern.”

O austríaco Anton Webern (1883-1945) formou o triunvirato dos grandes compositores dodecafônicos junto com  Arnold Schöenberg e Alban Berg. Já postei artigos sobre cada um deles neste blog.

A respeito do que as chamadas obras “difíceis” representam, lembro aqui uma citação de um poeta que antecedeu a Joyce, o francês Paul Valéry (1871-1945). Este escreveu em seus famosos Cahiers:

“Meu fácil me enfada, meu difícil me guia. O novo sempre é difícil.”
Paul Valéry


O artigo, a seguir, apresenta um presumível roteiro de Finnegans wake, aspectos de sua composição e algumas obras referenciais para aqueles que quiserem desvendá-lo.


Rio recorrente


Pela própria definição de James Joyce, Finnegans wake é um rio em cujas águas muitas coisas se juntam, estilhaçadas e entrelaçadas.

A simbologia do rio sinuoso que desemboca no mar, onde todas as águas se juntam para outra vez voltarem ao leito dos rios em forma de chuva, é imagem recorrente em todo o livro.


Não é em vão que o romance começa como uma frase em aberto e termina com outra que remeterá ao seu início.



Segue uma estrutural conceitual que divide seus vários temas em quatro fases, conforme os ciclos históricos conceituados pelo pensador renascentista Giambattista Vico: teocrática, aristocrática, democrática e o ricorso (retorno ao início do ciclo).


A cada uma das idades corresponde uma forma de linguagem. A idade dos deuses – a hieroglífica (a comunicação por sinais); a idade dos heróis – símbolos (siglas); a idade dos homens – linguagem vulgar; a idade do ricorso – a imaginação livre de peias, anárquica.


Esta é para Joyce a época moderna, caracterizada pelo individualismo e esterilidade, representando a queda do homem. Terminará com um trovejar (criado no texto) cujo impacto terrificará e despertará a humanidade e, assim, principiará um novo retorno à teocracia primitiva.


Não há uma divisão cartesiana dessas quatro fases no decorrer do livro. Elas são referenciadas simultaneamente. "Livre de peias". Ora mais ou menos definidas. Mas constituem o esqueleto de Finnegans wake.


O livro começa pela segunda fase, a dos heróis. Portanto simbólica. A partir do título, que se refere à queda e ao despertar do personagem Finnegan.

O protagonista inicial, Finnegan, é soma de dois personagens: o mitológico gigante guerreiro irlandês Finn MacCool e o pedreiro Tim Finnegan, um homem comum, personagem de uma canção burlesca de vaudeville.


Na canção, o pedreiro, bêbado, cai da escada de uma obra, fere a cabeça e aparentemente morre.


Sua queda simboliza todas as quedas da humanidade: de Lucífer, de Adão, do sol que se põe, de Roma, da Bolsa de Wall Street, da maçã de Newton, do herói nacionalista irlandês Charles Stewart Parnell, de Noé e, inclusive, as quedas cotidianas na vida de todos nós homens comuns.


Os amigos promovem um velório festivo, conforme o morto gostaria de ser lembrado. Durante a festividade alguém respinga uísque no morto que desperta para a vida e passa a dançar com os demais numa farra generalizada.


No Finnegans wake, o pedreiro, enquanto dança, incorpora Finn MacCool, segundo a lenda um guerreiro gigante que por duzentos anos comandou a horda de heróis primitivos que fundaram Dublin.


Finn tipifica vários heróis da humanidade: Thor, Prometeu, Osíris, Cristo, Maomé, Buda, etc. Ou seja, aqueles de cuja inspiração a humanidade se alimenta.


Então ocorre o inusitado: os amigos do pedreiro ressuscitado promovem uma celebração antropofágica e o devoram vivo.

Por consequência de sua queda e devoração, o Ovo Cósmico (Hampty Dumpty) se despedaça e seus elementos passam a nutrir o povo como um todo.


Humpty Dumpty é um personagem mítico de uma rima enigmática infantil populart no mundo anglófono. É retratado como um ovo antropomórfico, com rosto, braços e pernas. Esse personagem aparece em muitas obras literárias, como Alice através do espelho de Lewis Carroll (1832-1898).


Ilustração de Humpty Dumpty no livro de Carroll

A queda da bolsa de Nova York também inspirou a passagem mais complexa de O guesa errante, poema épico do poeta maranhense Sousândrade (1833-1902), o principal de seu tempo – muitíssimo mais que Castro Alves – denominada O inferno de Wall Street.

Sousândrade

O título Finnegans wake remete a dois sentidos: a queda e, ao mesmo tempo, a ressurreição. Na canção sobre Tim Finnegan, o morto de repente se levanta do caixão e seu velório termina em festa, “borbulha de vida”, conforme a narrativa de Joyce.


No meu primeiro artigo, sobre o conto The dead, saliento o quanto a morte é recorrente em toda obra de Joyce, principalmente em Finnegans wake.


Mas não no sentido de fim. O sobrenome Finnegans é junção de duas palavras: finis (fim) e seu oposto again, para mencionar a ideia da circularidade que remete às teorias de Vico.


A ideia central é de que morrer e renascer são inseparáveis. Os que vivem precisam morrer para que outros nasçam ou cresçam, bem como para que seus feitos e obras possam se fixar na memória daqueles que os sucederam.


Esse é o lastro de todo o romance.


A própria sobreposição de sentidos e formas reproduz esse nascer/morrer.

Vide o "rio da vida" (Liffy) em cujas águas tudo se mistura e segue para o mar de onde as águas evaporam, formam névoa, neve e chuvas propiciando a reformação dos rios.


Como consequência da queda do herói e de sua devoração, que deram no arrebentamento do ovo civilizatório (Humpty Dumpty), surge o elementar Humphrey Chimpden Earwicker (HCE), personagem sigla que daí por diante dominará a obra.


HCE inicia então suas várias metamorfoses em Finnegans wake. Transforma-se em frases, nomes próprios, fatos históricos, estados de sensibilidades, etc. Todos convergindo para a sigla.


A definição de Joyce do que é esse personagem mítico e difuso: “uma onda de visão que se borra”.


Earwicker vem do substantivo alemão erwecker (o que desperta). Embora Earwicker seja cidadão dublinense, é também migrante, descendente das hordas germânicas que invadiram a Irlanda no passado.


A certa altura se descobre que o quase deus HCE é meramente um homem comum. Um certo Porter, dono de um bar na periferia de Dublin. Porter e HCE se confundem. Ora é um, ora é outro. Ora são dois em um.


HCE/Porter a certa altura se desnuda para duas garotas num conhecido parque de Dublin. Tal como Ulisses, em Finnegans wake o autor reporta-se com precisão a fatos e localidades reais da capital irlandesa.


Uma das garotas para quem HCE mostrou seu enorme pinto foi para a própria filha de Porter, Isabel. Aqui HCE e Porter ora parecem não só divididos, como em situações opostas, ora são a mesma pessoa.


A culpa pelo crime incestuoso manifesta-se constantemente no romance nas situações que envolvam um homem velho e uma mulher jovem.

Passam a pesar sobre HCE/Porter várias culpas míticas: a do pecado original, a de Hamlet de Shakespeare, a de Stephen Dedalus, a do daimonion de Sócrates, etc.


À medida que HCE/Porter cai em desgraça, cresce em importância de sua esposa Anna Livia Plurabelle, uma personagem de descendência russa. Mas ela também passa a ser identificada como uma sigla ALP, tal como ocorrera com Humphrey Chimpden Earwicker.


Porter e Anna moram no próprio bar, às margens do rio Liffey (rio da vida), nos arrabaldes de Dublin.

Têm três filhos: Isabel e os gêmeos Kevin e Jerry.


Kevin é um homem prático, centrado, apolíneo. Jerry é um sonhador, um artista, um dionisíaco.


Outros personagens, além dos já citados, protagonizam Finnegans wake. Depende das circunstâncias nas quais aparecem e reaparecem.


A doméstica da casa é Kate, viúva de Finn MacCool, que vive saudosa do tempo em que o falecido marido era o senhor da Irlanda.


Na taverna também trabalha o vigia Joe, que nos sonhos às vezes desempenha também os papéis de vigia do céu ou do inferno.


Porter, antes do episódio em que os amigos o devoram, enche a cara num sábado de muito calor. Canta, dança e, por fim, já muito bêbado, tem as visões oníricas povoadas de pesadelos que se sucedem no decorrer do romance.


Porter e Anna já não têm qualquer afinidade sexual/afetiva. Os filhos são agora sua paixão e motivo de discórdia entre os dois. Anna gosta do filho Jerry, Porter prefere Kevin. Esse conflito também divide os gêmeos que reproduzem o mito bíblico de Caim e Abel.


Porter tem perturbadora paixão incestuosa pela filha Isabel, que mantém relação de simbose e, ao mesmo tempo, repulsão, pela mãe.

Durante a bebedeira, presenciada por toda a família, Porter degrada-se a tal ponto que se vê metamorfoseado ora em inseto, ora em macaco para futricar furtivamente a genitália da filha.


Todos os personagens do romance se metamorfosear em outros, associados às vezes aos elementos da natureza. Anna se transforma em ALP (rio), Jerry em Shem (árvore), Keven em Shaun (pedra), Isabel em Isolda (nuvem).


O curso circular e sinuoso do rio Liffey ilustra o ciclo de metamorfoses de Finnegans wake.

As relações entre os cinco integrantes da família vão se tornando dramáticas. Porter/HCE deseja cada vez mais a filha Isabel/Isolda. Os dois filhos gêmeos o hostilizam por isso. Conforme os conflitos se intensificam, aumentam as metamorfoses.


HCE, no papel da consciência de Porter que se liberta de seu corpo, passa então a se metamorfosear em outros vários nomes com significados próprios: Howth Castle and Evirons; Here Comes Everybody; Heverth Children Everywher; How Charmingly Exquisite; Hume The Chepner, Esc; Hod, Cement and Edifices; Haroun Childeric Eggenberth e outros.


HCE e sua esposa ALP se tornam siglas cujos significados se transformam e se diluem o tempo todo.


HCE foge de casa. Vagueia pelo mundo,em vários momentos da história da humanidade, fornicando com mulheres de várias nacionalidades e deixando multidões de filhos por toda parte: troianos, godos, turcos, semitas, francos, bretões, nórdicos, etc.


Em dado momento, a família Porter se torna a família de toda humanidade. Porter passa a pai de todos os pais, Anna se torna a mãe de todas as mães. Isabel, Jerry e Keven passam a filhos de todos os filhos.


Anna Livia Plurabelle – mãe de todas as mães e filha de todas as filhas – passa a ter cada vez mais importância no romance que o marido.


Isabel se transforma em várias: Eva, Ísis, Isolda, uma nuvem que alimenta o rio da vida e outras aparições de mulheres – todas sexualmente desejáveis.


Anna, a mãe das mães e filha das filhas, se torna cada vez mais um rio mutável, do qual todos os conflitos surgem ou para o qual convergem.


Jerry/Shem, um dos gêmeos, passa a negar todas as convenções e a promover coisas proibidas, dentre as quais grandes bacanais de amor coletivo.


Suas palavras passam a ser temidas e, por isso, seus sentidos são cada vez mais deturpados nas caleidoscópicas invenções linguísticas introduzidas pelo autor.


Com Keven/Shaun ocorre a mesma coisa, mas por motivação oposta. Este passa a ser o pastor de toda a humanidade. Próspero, aplaudido, vitorioso e bem aceito pelo senso comum.


No entanto, suas palavras também são deformadas pelos ouvintes primitifos, para ampliar seus sentidos e assim torná-los mais audíveis. Mas ao ampliá-las, explodem suas palavras para vários e difusos significados.


Do conflito entre os dois irmãos/entidades surgem várias lendas da humanidade, dentre elas a de Caim e Abel e a de Tristão e Isolda.


As desventuras de Tristão são sucedidas pelas desventuras amorosas de Jonathan Swift (1667-1745), o escritor irlandês autor das Viagens de Gulliver.


Além do romance de Swift, Finnegans wake incorpora, parodia e deforma várias obras da história da literatura, incluindo as bíblicas.


As referências aos personagens e enredos de obras literárias são bastante identificados às quatro idades definidas por Vico: a dos deuses, a dos heróis, a dos homens e a do ricorso, período confuso no qual o fim de um ciclo se cofunde com o início de outro.


Além de Vico, Joyce baseou grande parte do romance nas teorias antropológicas do francês Lucien Lévi-Bruhl (1857-1939), que se empenhou a discernir o pensamento lógico ao pensamento pré-lógico.


Para Lévi-Bruhl, o homem primitivo seria incapaz de distinguir o mundo sensível do não-sensível. Distribui os períodos em tempos nefastos e não nefastos. E assim faz suas opções.


O homem primitivo, segundo ele, incorpora o saber onde as coisas acontecem. A distinção entre infância e maturidade, vida e morte, ontem e hoje só existe na medida em que possa ser transgredida em seu benefício.


Se Ulisses é um romance sobre um dia em constante vigília por seus personagens, Finnegans wake é a narrativa de um sonho sobre a história da humanidade no qual nada pode ser controlado.


O sonho é tão violento que quebra as cadeias da subordinação. Quebra também a sintaxe, os limites entre ação/revelação, entre os idiomas e entre as várias correntes de pensamento.


A leitura dos sonhos, sobre a qual Joyce recorreu à obra de Freud, leva a processos narrativos que incorporam várias línguas, lugares do planeta, culturas, épocas e teorias.


O romance expõe tudo isso, mas nada explica. A proposta de Joyce é fazer com de cada leitor um analista, um coautor.Aliás, é desse sonho de associar a autoria que nasce o romance. Um sonho para todos. Here comes everybody!


Obviamente que isso não pode se dar por meio de uma leitura linear, aristotélica, sintática, com princípio, meio, fim.


Cada parágrafo, cada frase, cada palavra têm múltiplos estratos superpostos, com verticalidade e horizontalidade se entrecruzando.


Ao mesmo tempo em que Finnegans wake foi composto, segundo as palavras do autor, para ser uma “sinfonia de palavras”, sua beleza sonora e rítmica também traz violência, sentimentos proibidos, excrescências e horrores.


E, como toda obra de Joyce, muita ironia e humor.

Para se fazer "entendido", seu último romance oferece múltiplas versões de códigos cifrados, de modo que o leitor seja induzido não propriamente à leitura, mas à investigação pessoal em busca de significados.


Trata-se uma obra para ser lida numerosas vezes, em ritorno à sua gradativa decifração. Joyce escreveu seu último livro para ser uma aventura de cada um de nós.


Invenção, obra aberta


Joyce declarou que se o Ulisses era o livro de um dia, seu último romance – Finnegans wake – encamparia a noite e suas regras: o mundo da ilógica dos sonhos, onde tudo pode ser sem parecer e parecer ser sem poder.


Como os sonhos, Finnegans wake não só é difícil de entender como questiona a própria ideia de compreensão.


“Ler” Finnegans wake é sempre algo mais do que ler ou, no mínimo, é como aprender a ler de novo.


Em Finnegans wake as palavras não significam apenas o que aparentan. Mesmo a infinidade de trocadilhos populares por ele introduzidos no livro tem funções diferentes das usuais.


Tudo em Finnegans wake diz duas ou mais coisas ao mesmo tempo.

Graças não só aos múltiplos significados, mas principalmente a recursos construtivos, como a aglutinação de várias palavras numa mesma (as chamadas palavras-valise) e ao emprego de mais de uma língua ao mesmo tempo (há quem já tenha contado mais de 80 idiomas em Finnegans wake).

Em torno da família de Porter surgem personagens aparentemente secundários que se transformam.

Há uma infinidade de figuras que transitam pelo bar. Os “doze bêbados”. Os “quatro velhos clientes”. A faxineira que ora se chama Kate, ora tem outros nomes conforme suas funções.


Os “doze clientes” podem ser qualquer grupo de doze. Os “quatro homens” podem ser qualquer grupo de quatro (os quatro evangelistas, por exemplo).


Há momentos em que os personagens de Finnegans wake tendem a se diluir uns nos outros, como que se reduzindo ao essencial: um homem, uma mulher, o tempo e os vários tempos da história da humanidade.


Mas também há momentos em que se expandem e abarcam a todos em todos os tempos: Wellington, Jonathan Swift, Eva, papas, generais famosos e todo o passado da Irlanda.


O múltiplo HCE, que nasce da carne do gigante guerreiro irlandês Finn MacCool e do pedreiro Tim Finnegan, e da consecutiva implosão de Hampty Dumpty, pode ser qualquer figura masculina de autoridade. Napoleão ou Noé, por exemplo.


Kate pode ser apenas a versão mais velha (e Issy a mais nova) de ALP. Issy pode se cindir em duas enquanto conversa com o espelho.


Em dados momentos os personagens voltam a ser elementos da natureza. HCE é uma montanha, Shaun é pedra, Shem é árvore, ALP é um rio e Issy, uma nuvem/chuva que vira rio.


O núcleo familiar se estilhaça em miríades de relações, englobando toda e qualquer família de relações e, ao mesmo tempo, se espraia sobre o mundo e pela história das civilizações.


Os personagens podem ainda virar cenas e cenários da História.


No decorrer do livro se sabe que houve um “crime” de natureza sexual/incestuosa. O personagem/sigla HCE será por ele julgado, condenado, morto, enterrado e ressuscitará com dupla personalidade em seus dois filhos gêmeos.


Descobrimos que não é só o pai que cobiça Isabel/Issy/Izolda/Izobel. Os irmãos também a desejam para eles.


Anna Livia Plurabelle, a mãe, se verá abandonada por todos ao envelhecer.


Essa intriga familiar será encenada e reencenada sob os mais variados disfarces, associada a situações díspares coimo a Batalha de Waterloo, uma discussão filosófica, uma narrativa antropológica, um esquete teatral, uma antiga piada, uma canção boêmia, uma passagem bíblica, uma invocação religiosa, uma paródia literária...

Mas cada disfarce incorpora os mesmos traços centrais e se inviste deles, ganhando vida com aquelas cinco pessoas da família e fazendo com que elas vivam em todos os tempos.


O sonho em Finnegans wake não é o sonho de toda a humanidade. Uma “panmitologia”, como diria Joyce.


Seu livro é, ao lado de Un coup de dés de Stéphane Mallarmé (1842-1898) e de Bouvard et Pécuchet de Gustave Flaubert, um dos principais exemplos de obra de invenção na acepção de Ezra Pound.


Segundo Pound, as raras obras literárias de invenção são aquelas que levam à descoberta e formulação de novos processos de composição. 


Ou “obra aberta” segundo o conceito do semioticista Umberto Eco (1932-2016). Para Eco, uma obra de arte “aberta” tem as seguintes características:


– Comporta várias interpretações e vários modelos de composição


– Qualquer referencial teórico usado para analisá-la não revela todas as suas características estéticas, mas apenas um modo de ser dela segundo os próprios pressupostos do leitor


Assim, toda “obra aberta” tende a motivar antinomia, servindo de ponto de discórdia entre leitores e comentaristas (estudiosos, críticos, outros escritores)


Por outro lado, obras “abertas”, de “invenção” (Pound) como Finnegans wake são as mais capazes de lidar com a pluralidade de sentidos.


Seu caráter multifacetado busca linguagens artísticas capazes de promover no intérprete justamente esse sentimento de descentralização.


O que ler para descobrir Finnegans wake


Caso você esteja no time dos dispostos a se embrenharem nessa floresta enigmática que é Finnegans wake, um dos pontos de partida é começar pela melhor biografia do autor de Richard Ellmann, titulada apenas James Joyce. Apenas para ter ideia mais clara de quem foi o autor, sua formação e como idealizou o conjunto de sua obra.


Ellmann apresenta, passo a passo, como Joyce produziu os dois livros de poemas, a peça de teatro, o livro de contos, os três romances e até os três livros póstumos que serviram de enxertos para os três romances.


Trata-se de uma extensa biografia literária, com cerca de mil páginas, sobre os procedimentos criativos de todos os livros do autor, incluindo Finnegans wake.


Depois é conveniente conhecer Principi d'una scienza nuova intorno alla natura delle nazioni (1725), de Giambattista Vico, cujas teorias serviram de esqueleto construtivo para o romance. Há tradução nacioanal publicada pela coleção Pensadores.



Também é sensato conhecer os conceitos do antropólogo Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939) sobre a percepção dos povos em seus diferentes patamares civilizatórios. Sobretudo o livro A mentalidade primitiva.

Lucien Lévy-Bruhl

Depois vêm os dois volumes de Interpretação dos sonhos de Sigmund Freud (1856-1939). Lembre-se: a utilização dos escritos de Freud é literária, nada tem a ver com a psicanálise.


Sobre os que estudaram Finnegans wake, talvez os que mais revelaram aspectos importantes do romance tenham sido os norte-americanos Joseph Campbell (1904-1987) e Henry Morton Robinson (1898-1961), que publicaram em 1944 o insubstituível A skeleton key to Finnegans wake.

Joseph Campbell

Ambos foram importantes estudiosos de mitologia e comunicação. Robinson também se consagrou tardiamente como prosador, qual se deu com o também estudioso de comunicação Umberto Eco.


O estudioso de literatura e comunicação canadense Marshall McLuhan (1911-1980) foi outro dos que se esforçaram para desvendar Finnegans wake.

Marshall McLuhan

Três dos seus livros de McLuhan fazem referências constantes ao romance de Joyce: Galáxia de Gutenberg, Os meios de comunicação como extensão do homem e Guerra e paz na aldeia global (este, escrito em coautoria com Quentin Fiore, tem numerosas citações de trechos de Finnegans wake).



Há ainda o livro Joyce et Mallarmé de David Hayman, comparando Un coupe de dés com Finnegans wake.


Anthony Burgess (1917-1933) traz importantes apontamentos sobre o livro em sua pequena obra Here comes everybody (no Brasil vertido como Homem comum enfim por José Antonio Arantes).


Mas o livro de Burgess faz parte de uma série de ensaios didáticos para escolares, publicados em dois volumes. No primeiro abordou as principais fases da evolução da literatura inglesa e, no segundo, a obra de Joyce.


No Brasil há diversidade de artigos escritos a partir de meados dos anos 1950 pelos poetas concretos Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari e José Lino Grünewald.

Sobre a obra de Joyce e, em específico, Finnegans wake.


Tais artigos estão distribuídos pelos vários livros de ensaios e críticas publicados por esses quatros autores.


Relativo aos dois Campos, há a primeira tradução parcial do romance, publicada com o título Panaroma de Finnegans wake. E, por fim, tivemos a integral de Donaldo Schüler; denominada Finnicius revém.



Ambas trazem os originais dos textos vertidos e notas de interpretações dos tradutores sobre cada trecho.


Por fim, vale ressaltar que Finnegans wake tem tão amplo repertório de significados que qualquer tradução ou interpretação nunca será satisfatória para contemplá-lo.


Seu amplo repertório abrange assuntos diversos sobre arte, política, história, mitologia e, principalmente, sobre a própria história da literatura.


O mais importante, no entanto, foi como ele tratou tudo isso, por meio de uma complexa estrutura construtiva associada às invenções de linguagem.


É, sem dúvida, uma das mais ambiciosas obras de todos os tempos, que ambiciona concentrar aspectos de todas as obras já escritas.


O autor, em seu sonho obsessivo, lança mão dos vários processos de composição criados ao longo de mais de dois mil anos de existência da literatura escrita: monólogos interiores, montagem e aglutinação vocabulares e outras figuras de linguagem inventadas ou para serem inventadas.


Como escreveu Jorge Luís Borges (1899-1986) a despeito de seu conto picaresco Pierre Menard, autor del Quijote, incluído no livro Ficciones, de 1944, todos os autores são grãos de areia da grande poeira que é a história da literatura.

Jorge Luis Borges
Esta é algo muito maior, ao qual todos servem, em maior ou menor grau, mesmo os medíocres ou os falsos autores, como Pierre Menard. De certa forma a obra maior é uma só. E a autoria, seja qual for sua escala de importância, sempre será relativa.


Mas Joyce pretendeu não só dividir a autoria dessa obra maior com outros escritores, como procurou estendê-la a cada um de nós, seus potenciais leitores.


Por isso a sua conhecida brincadeira: “Que cada leitor leve pelo menos o tempo que levei para escrevê-lo”. Ou seja, que o leem por pelo menos 18 anos seguidos. Quem se habilita?


O sonho de Joyce com Finnegans wake se inspira em outras obras quase impossíveis anteriores. Dentre elas Metamorfoses de Ovídio (poeta latino do século 8 dC), Gargântua e Pantagruel de François Rabelais (1494-1553) e, mais recentemente, o já citado Un coup de dés de Mallarmé.


A obsessão de Mallarmé com seu derradeiro poema inacabado era controlar o acaso. O objetivo de Joyce com Finnegans wake era idêntico, mas por meio da dissolução do acaso com abundância de elementos.



Além da visão uniforme, da economia de meios, do amplo cabedal de invenções, o que estimula o leitor inteligente a se aprofundar em Finnegans wake é o humor rabelaisiano picaresco.

Sim, o romance é bem-humorado e se insere na grande tradição picaresca que o irmana ao Dom Quijote de Miguel de Cervantes e ao Gargântua e Pantagruel, ambos aqui já citados.


Encerro com uma gravação de 1929 na qual James Joyce lê o episódio de Anna Livia Plurabelle:





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