sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Se fecha, abre, houve (conto)

Os sapatos rotos de Unzé se arrastam entre multidões de rostos. Cruzam a pista pelas faixas de pedestres. Plecplacplacplec. Tropeçam desastrados, reaprumam-se aos solavancos e avançam pela calçada no ir e vir destroçado. O repicar de saltos confunde-se com os sucessivos mapas pedrabritados. Na Praça dos Poderes ele se sente pequeno fragmento do que poderia ser. Vistas por trás, suas pernas desandam em descompassado desdém. É dia comum, sem cismas demasiadas e temíveis tremores. O frio úmido da garoa penetra o agasalho e entedia sua quase alma no titubeado seguir adiante.
Logo atrás, outros dois sapatos gastos perpassam rostos igualmente rotos. Trazem nos calcanhares amostras de feridas tétricas, calosidades de onde dores pontiagudas pululam como que por impulso persistente. Feios que são os tais calcantes moldam extensão à pele a que mal se soldam. Deduz-se que existam pontas de pregos salientes nas soleiras, frieiras dentre os dedos de péssimo odor e dores nos tendões após consecutivos pisões no piso irregular da realidade. O portador subjetivo desses pés em tão péssimas condições prossegue em idêntico trâmite.
Chamemo-no Outrozé. Traz nas mãos macucas embrulho gasto pelo demasiado manuseio. Aproxima-se de Unzé, cujo crispar de solas cessa diante de uma banca de revistas da qual capatítulos com mulheres objeto acolhem a multicumplicidade de olhares que nelas se introjeta. Unzé sente o membro teso entre as pernas, prestes a escapulir das dobras da cueca velha com elásticas fissuras. Outrozé se apressa na sua direção. Desvia-se de uns e outros movido por força maior. Enquanto Unzé, alheio ao seu enleio, continua abstraído pela abundância de bundas das revistas à vista. Outrozé então deposita em suas mãos o embrulho gasto e, seguidamente, corre ao encontro da multidão.
Uma avenida de tráfego intenso separa sua fuga das centenas de pessoas com as quais quer se misturar. O taxista Seo Brasil tem de deixar urgentemente um passageiro para iniciar nova corrida, de modo que a fatura futura resulte em fartura para os acertos às tantas contas pendentes. As marcas d’água das cifras imaginárias confundem-se com as marcas divisórias da pista. Não nota o sujeito que investe sem jeito em sentido contrário às tristes listras do asfalto. O baque é seco. Seus olhos saltam das órbitas para ver a imagem estupeflácida do boneco humano arremessado contra o vidro dianteiro, para depois se estatelar abatido sobre o piso negro no qual os automóveis imperam.
Putaquepariu, só me faltava essa!
Há rápida circunconscentração de gente em torno do judas carneosseoesfacelado. Desditas lamuriantes são lançadas a esmo pelo decúbito ocaso. O morto público é cada um de nós. Oremos pro nobis após! Unzé, ali por perto, segura perplexo o embrulho incógnito que há pouco lhe fora entregue pelo desditoso acidentado. Indaga, por hábito bitolado entre engasgos de pieguice, por que motivo um súbito judas qual aquele teria lhe entregue o eivado embrulho. E se sente atropelado qual a expedita e verdadeira vítima.
Uma viatura da Polícia Militar encosta-se para averiguar o fato recém-findado. Dela saltam dois policiais. Um controla o tráfego, o outro traz uma prancheta para anotar o que de vero não falta. Unzé mostra ao policial o embrulho e desdiz que minutos antes lhe fora entregue, sem mais para quê, pelo sucumbido exposto. O policial não lhe dá atenção e segue anotando detalhes. Unzé assiste à lavração do auto sobre o inconsequente ato, depois insiste com o uniformizado escriba para que considere a existência do embrulho de que é acidental portador. Quer o quanto antes desfazer os nós que lhe amarram àquilo.
Vê que o policial não assinala a existência de qualquer embrulho nos registros da prancheta. Unzé reinsiste. O policial informa enérgico que a viatura foi chamada para outro acidente de proporções bem maiores que aquele, com vários fatos desfeitos, portanto que não venha lhe torrar a paciência por mera causa de um imbróglio embrulho. Resta a Unzé seguir caminho com mãos-olhos fixos no objeto que persiste seu. Olha as horas pelo celular. Atrasadíssimo! Pensa que talvez seja melhor não fazer barulho e se desfazer do embrulho, mas a voz de dentro acha que não:
Desate o lacre, loque! Talvez seja esta a oportunidade que trará à tona aquilo que da vida tanta falta te faz.
Unzé, de tal forma interinamente sugestionado, entra no Bar Tequim, onde o baalcronista Ceará exige respeito dos frementes fregueses para os quais é tão só um indevido servidor de porcarias bebingeríveis. Ceará não consegue se fazer ouvido. Quer porque quer que os fregueses o tolerem como sujeito de gênio, a ser respeitado por perjúrio franco como o desditoso buda do Ubaldo. Que todos saibam que ele veio dos cafundós onde se lava a honra com peixeira. Que ninguém venha mangar de sua carranca ranzinza. Não sabem com que estão bulindo, ora. Se perde a cabeça, é capaz de coisas que nem Deus imagina. É a terceira vez que troca o copo de um sujeitinho inconveniente. Só podia ser baixinho! Olha só como o pai d’égua fala com ele:
Ô, cabeça chata, tô te estranhando. Tu só me serve copo sujo! Será que não tem pelo menos um... unzinho só... limpo?!
Ceará não perde a pose parruda. Apanha o copo devolvido, lava-o displicentemente, como se aquilo não lhe custasse o mínimo esforço, e devolve-o sem remover as bolhas aderidas às bordas. O baixinho apanha o copo a contragosto. Quando vê os lastros borbulhantes de detergente no entorno berra abundante:
Assim não dá!
Ceará finge que não ouve. Seus olhos seguem fixos noutro sujeito que entra no bar com ar de preocupado souninguém. O tal está um tanto leso e segura com demasiado zelo um embrulho sórdido. O baalcronista deduz ligeiro:
É pacoteira de muamba. Ô, se!
 Mas o freguês falante à sua frente, o tal baixinho, ouve aquilo como desacato a ele dirigido, justo a ele que está ali pagando para tomar uma cerveja fuleira, mais para morna que para fresca, num copo que cheira a detergente. Ainda por cima vem esse cabeça-chata com desfeita. Muamba é a puta que o pariu! Ora, ora. O baixinho anda de um lado para o outro como garnisé de rinha. Por precaução, Ceará agarra o cabo da peixeira que mantém vigilante trás do balcão. O baixinho acintoso segue se esgoelando:
 – Hoje tu pegô pra me enervá!
Ceará, ainda com a mão no cabo da peixeira, não dá a mínima para o tampinha. Mantém a atenção centrada no camarada do pacote. Só furará o trouxa à sua frente se mesmissimamente necessário. Não vai se sujar por maromba pouca e nem ficar de trela. Porém o filhote de anão persiste reclamante. Aquilo começa a tirar Ceará ligeiramente do sério. Sua cabeleira grisalha cinza crispa qual a crista de galo índio. Airam evidências de que partirá para a ignorância. Para piorar, o arroto de pulga leva a mão à cintura, mostra um cabo de canivete e se esgoela estridente:
 – Vou mostrá a você do que sou capaz. Ah, se vou!
 Felizmente os companheiros do pintor de rodapé tratam de acudir para evitar que se dê demasiada luz à presepada. Convencem-no de que não vale a pena se encrencar com um escroque baalcronista como aquele. Teve sorte, pois. Mal sabia o tamanho da cuja que o aguardava do outro lado do balcão. Cessada a ameaça sem armas nem aço, Ceará guarda a peixeira no lugar de costume e continua de olho no sujeito sem jeito atento à atadura do pacote. A tensão do outro desata a de Ceará e este inverte os pedidos dos fregueses. Guaraná para quem pediu caldinho de feijão. Salgado para quem pediu café. Ouve protestos indigestos à sua displicente conduta. Sentencioso, ele comenta consigo mesmo:
 – É farinha! Aquele cabra tá procurando o banheiro pra dá uns tiros.
Unzé, o do pacote tal, entra mesmo no banheiro, o que deixa Ceará por demais inquieto. Crê que acertou em cheio ao suspeitar do traste. Faz pose de sabido diante dos fregueses que reclamam por melhor atendimento. Ceará chama o gerente e gesticula que um sujeito assim-assim acaba de entrar no banheiro para usar entorpecentes. O gerente dá um berro de chacoalhar o ambiente:
Qué fazê u favô di atendê us criente? É pra isso que te pago e não pra se metê na vida alheia.
Por instantes Ceará se esquece do camarada do pacote e segue malatendendo os pedidos dos fregueses. Outra vez carrancudo, se faz gigantadamastor por trás da imponente irrelevância. No banheiro a voz de dentro exige que Unzé abra o pacote. Desata o lacre, solta o papel gasto que revela caixas e mais caixas de tamanhos sucessivamente menores, umas dentro das outras. Na menor delas acha uma chave envolvida num capulho de algodão. A voz de dentro lhe diz intimamente:
 – Esta chave lhe abrirá novas portas.
Será mesmo? Trata-se apenas de uma chave velha com aparência de há muito não ter tido usada. O mais provável é que nem mais existam fechaduras que lhe sejam compatíveis. Mas a voz interior é taxativa. Pede para que não a jogue fora. Ele pensa, repensa. Basta um gesto para se desfazer do objeto abjeto. No entanto, continuará sem resposta plausível. Será, por ventura, que a chave lhe foi entregue para de vero entender o que de oculto existe neste mundo, vasto mundo?
Unzé então a guarda no bolso e sai do banheiro a caminho da indevida vida, na qual afazeres pendentes aguardam execução. Ceará, por trás do balcão, fica de olhos fixos na sua retirada e novamente é alvo das reclamações dos fregueses. O baalcronista nota que o sujeitinho esquisito está sem o sujo pacote cujo. Deduz com ares de sabido que o souninguém já deve de ter consumido a droga enquanto esteve no banheiro.
 Após ter deixado o Bar Tequim, Unzé alça percurso pelas calçadas indigentes. Ceará se mantém atrás do balcão em corrosiva curiosidade. Até que não aguenta mais, abandona o posto e vai ao banheiro atrás de uma resposta. Entra, revira a lixeira na qual encontra pequenas caixas de vários tamanhos misturadas a bolos de papel higiênico embosteados e, por fim, o capulho de algodão. Provavelmente foi usado pelo sujeito para filtrar a droga antes de inseri-la na veia. Supondo ter confirmado suas sagazes suspeitas, Ceará respira com alívio, como se tivesse ganhado uma aposta consigo mesmo, e volta ao seu lugar de ofício.
Pelas vias expressas Unzé se apressa. Tem trabalho demasiado pela frente. Que o episódio recente não o afaste das obrigações. Pois sem as fricções do trabalho não há termos para a ficção dos reparos. Lê a relação de tarefas a cumprir. Atrasadíssimo! Em passos mais e mais acelerados, calcula que primeiro deverá deixar os documentos no escritório de contabilidade para depois fazer a via sacra no purgatório do cartório e, por fim, há de levar ao banco o calhamaço de contas. A chave não lhe sai do tino. Com as pontas dos dedos ele a vasculha no bolso para se certificar de que continua lá. Por onde anda, flerta os vários tipos de fechaduras.
No horário de almoço engole uma borbulhante abacatada com churrasco grego. Dá até para ler o carimbo do frigorífico em uma das faces da manta gordurosa suspensa no espeto. Palita dos dentes as letras não digeridas e segue em frente. Após ter cumprido a relação de tarefas do período da manhã, retorna à imobiliária para rever as cenas insanas de todos os dias. Homulheres entram e saem no afã de conseguir imóveis para morar ou reajustar aluguéis já ocupados por valores condizentes com seus minguados rendimentos. Uns e outras tentam, em vão, negociar descontos com funcionários pagos para não concedê-los.
Já conferiu que nenhuma das fechaduras da imobiliária é compatível com a chave. O chefe, ao vê-lo, quer saber os motivos do atraso. Unzé lança mão de umas tantas desculpas. Foi devido ao trânsito. A fila do banco estava repleta. Etc. Para ambos não importa que seja verdade. Mas é preciso ter a preocupação de se justificar. O chefe concorda que o trânsito está a cada dia pior, pois ele próprio tem despendido tempo abusivo para vir de casa ao escritório. Por isso mesmo é preciso ser ágil e não se perder em devaneios.
Claro que Unzé não menciona o episódio da chave. De alguma forma se sente cúmplice daquele objeto fundoculto. Sequer à secretária boazuda de mútuas confidências fia qualquer comentário. Nem mesmo o prazer de vir vê-la ouvindo toda cheia de anseios faz com que se abra a respeito. Decerto ela não tem a menor intenção de trair o namorado carpinteiro. Especialmente com um coitado como ele. Tenha dó! Mesmo sendo o namorado um escroto de marca menor, não será com ele que.
A secretária anda, sim, enfadada de saber que o namorado diz aos amigos, aos brados, que se sente orgulhoso por ser o feliz proprietário daquele rabão cobiçado. O carpinteiro Já garganteou, inclusive na frente dela, que se derrete de prazer ao pôr aquele seu caralhão para fora e ordenar a ela: “Chupe!” Arremata com a mais ordinária empáfia: “Podem olhar à vontade. Num tira pedaço e, no final, quem bole com tudo sou eu e mais ninguém.”
A secretária, além do nada secreto jogo de quadris, tem considerável jogo de cintura. Quando os homens fazem graça a respeito dos seus admiráveis trejeitos, meramente restitui sorrisos insujeitavelmente mansos, o que desarma qualquer conteúdo de malícia. Faz o tipo gostosa simpática, tão prática no bom trato que deixa os homens inferiorizados, apáticos. Tem poucas amigas. Se as mulheres não a detestam, tampouco a querem como concorrente. De modo que suas amizades são quase todas masculinas. É dada a compreender os homens, a ouvir suas confidências pândegas e seus sofreres pouco fidedignos. O namorado carpinteiro não a recrimina por isso. Acha bonita essa sua preocupação com os frequentes confidentes.
Enquanto a secretária uma dá conselhos a Unzé, este fica de olho no viés do seu sutiã, de cujas reentrâncias se sugestionam volumosos quesitos apreciáveis. Imagina que sua vida seria bem diferente se ela deixasse o carpinteiro por ele. No fundo sabe que isso é bobagem. Bobagem sonhar. É o tipo de coisa que jamais ocorreria. Aquele filé de mulher é muita farinha para seu pirão. Vê o pequeno relógio preso à correntinha no pescoço dela, reluzente logo acima das reentrâncias volumosas, e pensa nas horas. Atrasadíssimo!
É preciso tratar da extensa relação de tarefas para o período da tarde. A secretária diz ter notado que ele está um tanto aflito. Pergunta rapidamente se o chefe tem sido muito ríspido com ele? Responde curto e grosso que não, que está tudo bem. Ela indaga se o “problema” é financeiro. Ah, grana sempre falta, mas não há nada de especial quanto a isso. É mulher? Só não teria problema com mulheres se não fosse homem, mas garante que também não há nada de preocupante a respeito.
Unzé encerra a conversa e sai à rua para o ir e vir consequente. O tempo é ingrato. Cobra eficiência aos incautos. Veja o caso dele. Reside num pequeno espaço umidomofrio num daqueles prédios quasecai do Condomínio Pombal. São dois cômodos que já foram cozinha e área de serviço de um pequeno apartamento. O proprietário fechou o acesso interno e abriu uma porta para o corredor, de modo a criar um cômodo independente para alugar. Por ser locação ilegal, não exige contrato.
Vive ali em condições precárias. Lava louças, se lava e escova os dentes em um tanque de roupas. O banheiro minúsculo não tem chuveiro. Mesmo assim acha que não tem do que reclamar. Caso vivesse na periferia como os irmãos, seria alvo fácil de verbicafungados buferozes meliantes nalguma melancofria noite. Ou talvez até estivesse morando sob pontes qual alcisne negro por malafamadas vias. Ali no seu cantinho ex-área de serviço tem colchão, lençóis, cobertor, toalha, chinelos, fogão elétrico, uma panela, uma jarra com cabo quebrado, um copo, uma colher, um garfo e demais miudezas necessárias para quem como ele vive só, com o mínimo.
Cumprida a relação de tarefas no final da tarde, finalmente segue para seu acanhado cubículo. Quando chega já é noite. Não recorrerá ao habitual sanduíche de pão com ovo como última refeição. Detesta arrotar aquilo quando se deita e o mau cheiro do hálito se volta para as próprias narinas. Também não suporta mais leite longa vida com xarope de groselha. Inclusive está sem fome. Só lhe passa pela cabeça o que fazer com a chave. Sua atenção se perde por instante atrás de uma barata caçadora de migalhas. É provável que se esconda em alguma das caixas de papelão nas quais guarda centenas de gibis das séries de Tex Willer, Ken Parker, Skorpio, Epopeia, Zargor e Histórias do Faroeste.
 Lá fora, na rua que se insinua à lua, os automóveis ronronam e uma sirene papa-desgraças caça espólios na escuridão sanguinolenta. Esmaga um pernilongo. Volta a apanhar a chave. Então tem uma ideia. Veste-se rapidamente e desce ao térreo. Sobe de volta pela escada, andar por andar, para testá-la nas portas de cada um dos apartamentos. Embora tenha todo cuidado de não se fazer notado, um morador insone ouve os ruídos e grita pegaladrão. É obrigado a escalar os degraus acima em disparada.
Chega taquicardíaco ao seu cubículo, tranca a porta por dentro de modo a não ser ouvido, apaga as luzes e fica imóvel no silêncio onde os homens se fazem neutros. Vozes passeiam comentários persecutórios no surdo silêncio da noite. Há quem diga ter ouvido passos do suposto ladrão e o bater de uma porta seguidamente. Talvez até tenha sido um disparo, diz alguém. Nesse tempo de tanta violência nunca se sabe. Os comentários se sucedem em zunzunzum pelos andares baixoacima. Prende a respiração quando passam por seu corredor. Mesmo após as vozes já não lhe serem audíveis, mantém olhouvidos vigilantes, quase sem respirar. Permanece acordado até que o sol reapareça para espalhar sua luminescência devoradora sobre o despertar dos homens.
Deus do céu, não podia ter se esquecido de dormir! Sente náuseas de tamanho cansaço. Não pregou os olhos um só minuto e já é hora de retomar o expediente fazdetudo na imobiliária. Escova os dentes, tira as remelas dos olhos avermelhados, molha o cabelo e jorra perfume barato pelo corpo porco para fingir asseio. No escritório perguntam insistentemente se ele está bem. Sente-se incomodado por ter de repetir que sim. Sequer confere o novousado decote da secretária amiga de tantas confidências tontas. Por sugestão da própria entra espalhafatoso na sala do chefe para dizer que se sente bem coisa nenhuma, que na verdade está muito mal, mal à beça e necessita de um dia de folga. Sabe que o momento requer justificativas, por isso explica que teve problemas tais sobre os quais não pode falar a respeito, motivo por que não conseguiu dormir à noite.
O chefe, surpreendentemente compreensivo, concede-lhe a dispensa mediante o compromisso de trabalhar dobrado no dia seguinte para compensar o que deixará de fazer no de hoje. De volta ao seu pequeno cômodo umidofrio, o incômodo sono não vem. Tiquetaques da aflição saltam por impulso dos ponteiros do velho despertador, única herança que lhe restou do pai sempre ausente. As horas se sucedem sem mais demora, propícias a mais desassossego. Outra vez escurece e nada, nada de o sono vir.
Segue-se mais uma noite em claro, na qual consegue testar a chave em todas as fechaduras de apartamentos do prédio. Desta feita sem fazer alarde. Infelizmente não serve em nenhuma. O sol mais uma vez se põe devorador e ele retorna ao trabalho em pior estado que do dia anterior. Nunca foi descuidado ao se vestir. Mas neste dia de aparência gasta se apresenta com as roupas amarrotadas, a braguilha semiaberta, os botões da camisa em casas descasadas, os olhos em completa vermelhidão e os cabelos por demais engordurados.
Pela imobiliária inflama-se o óbvio e sussurrado comentário exclamativo por onde passa: “Que horror!” Os mais maliciosos expõem as gengivas para impor demasiadas conclusões. O chefe, afoito demandante, concede-lhe outro dia de folga, desde que se comprometa a providenciar parecer médico especificado a respeito do que lhe vem ocorrendo. Da imobiliária vai direto à unidade pública de saúde próxima, onde aguarda horas e horas para não ser atendido. Os dedos beliscam a chave no fundoculto bolso. Onde estará a fechadura a que se serve? Folheia uma revista antiga, plurimanuseada, onde encontra fotos das casas da velha Vila Inglesa, outrora tombadas pelo patrimônio histórico, mas que agora estão quase que literalmente tombadas pelo abandono.
Será que em alguma das portas dessas casas de tijolos à vista estará uma antiga fechadura que sirva para a chave que persiste sua? Vem-lhe um formigamento interno intenso. Abandona a fila de espera na unidade de saúde e caminha ansioso até lá. Ao chegar ao local, nem tem tempo de procurar. É logo flagrado pelos seguranças que lhe pedem os documentos. Diz que os esqueceu no incômodo cômodo em que reside. Aonde? Não consegue descrever com precisão seu endereço. Querem saber o que veio fazer na Vila Inglesa. Continua sem respostas plausíveis. Os seguranças dizem que têm ocorrido furtos frequentes de objetos daqueles imóveis. Peças antigas vendidas a receptadores que as repassam aos antiquários. Não têm, portanto, alternativa senão encaminhá-lo ao distrito policial.
Dr. Trigueiras, o delegado de plantão, diz que está de saco-cheio de ser acusado de inoperante no tocante às denúncias de furtos na Vila Inglesa. Lavrado o boletim de ocorrência pelo escrivão Vicunha, ordena ao investigador Tucão que tire alguma confissão daquele qualquer coisa. Unzé é levado para uma cela nos fundos do distrito. Por não responder a nenhuma das perguntas, leva socos, pontapés e tapas nas orelhas. Seus ouvidos zumbem e já nem consegue ouvir o que Tucão lhe pergunta. Quanto mais perguntas sem respostas, mais sopapos. O investigador insiste para que revele onde guarda ou vende os presumíveis objetos furtados. Apenas segura firme a chave em uma das mãos e nada responde.
Tucão retorna à sala de Dr. Trigueiras para avisar que já não é possível prosseguir o interrogatório, pois o indivíduo acaba de ter convulsões e não parece em condições de colaborar. O delegado então ordena que seja encaminhado a um hospital público. Acrescenta ao boletim de ocorrência que o indivíduo não é ladrão, apenas um maluquinho que andava no lugar errado na hora errada. Depois de dias, Unzé acorda em uma maca do hospital preso a um tubo de soro. Uma assistente social e uma psicóloga fazem-lhe série de perguntas. Responde a pouca delas, pois de quase nada se lembra. As duas moças chamam o médico, dizem que o souninguém parece surtado e talvez melhor encaminhá-lo para “aquele lugar”. O médico concorda:
Lá saberão o que fazer dele.
Num dos mais antigos hospitais psiquiátricos ainda em funcionamento do país todos os dias um incerto Zé Nissei se senta no mesmo local, ao lado da árvore ali-ali. Se o levam ao refeitório, come como que por obrigação e volta a se encostar na árvore. A árvore não é dele. Nada é dele. Nem ele dele próprio é. Se é hora de tomar medicamentos, muito bem, é hora de. Não se discute. Impregnado pela tortura da tontura, volta a se encostar na árvore ali-ali, imóvel, sempre pronta a ampará-lo. Não de todo ausente se encontra Zé Nissei. Tem sempre os olhos apontados para o portão, à espera do irmão engenheiro que nunca vem. Zé Nissei quase foi engenheiro também. Cursou até o terceiro ano de faculdade, mas de repente houve de existir outros nele e tudo desandou. Quando em um há outros é impossível ter o sossego de ser um só.
O centenário portão do hospital é aberto para dar passagem a uma ambulância perambulante que chega do mundo dos homens sãos com mais um que são não é. Um novo Zé desce do veículo com olhar ausente e mãos crispadas, qual neném sem mãe. É mais um souninguém quaisquais os zés todos ali quarentenados. Zé Nissei contorna a árvore. Senta-se do outro lado da e cede seu lugar, aquecido e afofado, para aquele recém-chegado. Logo o recém estará zanzando pelo pátio qual zangão desgarrado da comeia humana.
É duro subviver num charcô. Gira-se em torno do mesmo ponto e nunca se sai do lugar. É como estar e nem estar. Pois que o souninguém saiba que na árvore ali-ali há espaço para ele também. Caso algum zé qualquer tente ocupar o mesmo espaço, ele, Zé Nissei, dará um baculejo no sujeito para que se ajeite noutro canto. Dirá ao recém-chegado que não fale muito, pois no charcô as palavras ganham conotações impróprias, os doutores não gostam e preenchem coisas não boas a respeito do paciente nos prontuários. Coisas que os leva a ingerir mais medicações que causam vazio no peito, muito sono ou falta do, secura na boca ou excessiva salivação, evasiva obsessão ou invasiva ausência.
 Lá vem Zé Magro. Baixa no pátio após ter tido alta. Está bem vestido, pronto para ir embora. Dizem que é artista de vocação, embora predestinado aos desatinos do estado de dentro. Trata-se de um puto bem tratado, queridinho de todos. Os médicos gostam de conversar com ele. O danadinho tem amigos no mundo dos homens são que vêm visitá-lo quando se encontra internado. Esses seus amigos fumam maconha no pátio e a administração faz de conta que não nota. Mesmo o psiquiatra de entranhada estranheza costuma deixar sua sala escura para conversar com Zé Magro. Semana-sim, semana-não, papai e mamãe vêm paparicá-lo. Agora lá está ele, todo alegrinho, chamando os zés de todos para uma fotografia de despedida. Grita eufórico para cada um dos uns:
 – Coleguinhas! Coleguinhas! Venham, venham tirar uma fotografia comigo.
Aqui no charcô Zé Magro recebe o codinome de Gilete. É fininho como uma e se o deixam sozinho logo arruma uma forma de se cortar. Irá embora no carro preto de papai e mamãe. Só não podem deixá-lo sozinho, porque já se sabe o que ele se faz quando o deixam só: volta para o Charcô com os pulsos enfaixados. Até breve, Zé Magro!
Sábado é dia de futezorra. Dia em que Zé Beladona dá passeios com a bola de pé em pé. É mesmo um craque o baixinho. A bola gruda nele como se ele tivesse teias do Homem-Aranha nos pés. Ninguém consegue tomá-la. Ele a doma com jeito, dribla a todos, parceiros e adversários, mas não faz gol. Pois sabe que se fizer, o juiz, que é médico, reporá a bola no centro do campo. Como não quer ficar sem a pelota, chega à boca do gol e volta driblando todos outra vez. Dá embaixadas nos doidões, chapéus, lençóis, toques por entre as pernas e também costuma soltar uns pontas-pés se insistem em lhe tomar a bola. Quando anunciam que a partida está no fim, Zé Beladona chora alto e o médico juiz conclui que ele não está nada bem.
Depois de sábado vem o domingo, dia de visitas. Dia de alegria para os que as recebem e de agrura para a maioria que vê o sol se desfazer insólito sem que ninguém de fora apareça para ver se continuam vivos. Zé Nissei é um dos mais ansiosos. Põe a melhor roupa, escova bem os dentes, lustra os sapatos, apara as unhas, penteia o cabelo liso para trás e gira saltitante em torno da árvore ali-ali, à espera do irmão agrônomo. Os parentes dos internos chegam, um a um, e nada do irmão. De nervos mais-mais, Zé Nissei começa então a falar alto. Para que aquele seus impulsos farfalantes não resultem em agressões aos internos ou aos visitantes, aplicam-lhe um sossega leão e tudo nele cessa num silêncio sem excessos.
Aos poucos o recém-chegado Unzé encontra-se a si mesmo desse outro lado de dentro do mundo dos homens, dos homens que não são sãos. Se dá conta de que tem um corpo e não apenas os sentidos desmedidos pela falta de evidências. Há, por certo, um alguém nele. A terapeuta observa no prontuário que podem diminuir as dosagens de certas medicações. O psiquiatra confirma que se trata de crise passageira, um equívoco de fácil reparação. Enfim, tudo é mais fácil quando o outro não é você.
Quase tudo se pode tirar de um homem. Seus pertences, sua linguagem, sua liberdade, quase tudo. Mas enquanto estiver vivo, sua mente persistirá igualmente viva e alguma parte dele existirá só nele para assim ser. Não conseguiram tomar-lhe a chave e, finalmente, descobriu que serve: para abrir o portão principal do charcô. Tão óbvio! Decerto chegou-lhe às mãos para providencialmente pôr os doidinhos em direção contrária à comum, que de resto costuma ser contrária a tudo que diz respeito ao que as pessoas do mundo dos homens sãos são.
Está tudo fomentado entre os coleguinhas. Segue noite adentro acordado pelo haver de ver as horas até o momento combinado de. Um casal de gatos ama-se aos arranhões sobre os muros. Unzé se levanta e passeia seu olhar pelas frestas do vitrô. Calmamente vai ao banheiro, lava o rosto, escova os dentes, penteia os cabelos, veste a troca de roupas quase limpa, a mesma com que deu entrada no charcô, e então acorda um por um dos uns. Logo o dormitório é tomado por vagos murmúrios balbuciantes. A multidão de eus deixa o dormitório e avança sob a lua que se insinua nua. Todos atravessam o pátio, passam pelo portão escancarado e se enviesam por rumos sem muros.
Horas depois, quando o sol se entremeia ao novo dia, Unzé é visto vasculhando as lixeiras das lojas da Central Atacadista para conseguir uma sequência de caixas sucessivamente menores que caibam umas dentro das outras. Com elas monta um embrulho roto, qual o que lhe fora entregue pelo neófito fato defunto no introito desta narrativa. Põe caixas dentro de caixas e, na menor delas, a que está entre todas, acomoda a chave num capulho de algodão. Antes que o episódio se esgote por obra de algum descuido do autor, as mãos de Unzé saltam aflitas da página para a derradeira entrega.
A chave agora é tua, leitor.