segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A madrugada avançava para o emendado domingo. João Manco estava sujo, suado, exausto. Labutara durante horas para abrir uma cova profunda na qual coubessem os três caixões. A prefeitura se comprometera a cobrir os custos do enterro desde que fossem sepultados na mesma cova. Sobrou para quem fazer o serviço pesado? O terrível de tudo é que às 8h em ponto teria de reabrir o necrotério, conforme manda a Lei. Não importa o defunto, todos têm os mesmos direitos.
Quem dera pudesse ir para casa tomar banho e dormir pelo menos as três horas que restavam para retomar o expediente. Não, não podia. Anésio, o pai dos mortos, permanecia estirado num dos bancos de madeira, bêbado como um gambá. Chegara no final da noite de sábado, quando apenas os corpos de dois dos seus filhos estavam por lá. E não saiu mais. A funerária demorou para trazer o terceiro. Ao ver os três juntos, com aquelas roupas emprestadas do abrigo da Prefeitura, vomitou no jardim, depois retornou, chorou e indagou consigo mesmo: “O que fiz de errado? O que fiz de errado?”
À noitinha, seu Agenor, chefe do Departamento de Serviços Gerais, telefonou para dar as últimas instruções. João ouviu a besteirada que ele costuma dizer, depois comentou que o homem (Anésio) continuava por lá. Seu Agenor ordenou que o pusesse para fora com uns sopapos. Bater num homem naquele estado? Não seguiu a orientação do chefe e decidiu permanecer na companhia do pai dos mortos.
João Manco era o faz-tudo no pequeno cemitério de Qualquerunceintuba. Coveiro, pedreiro, porteiro, guarda, responsável pela limpeza e até assombração, quando alguém tinha o azar de se deparar como sua andadura trôpega pelas vielas escuras das cercanias. Várias vezes fora chamado às pressas, como daquela vez. Havia época em que quase ninguém morria. Por outro lado, no inverno a cidade emplacava um morto atrás do outro e ele não tinha sossego.
O motivo real para permanecer no necrotério era outro. Não estava ali por solidariedade a Anésio, por quem não tinha a menor simpatia. Encontrava-se muito endividado e precisava juntar algum dinheiro com horas-extras. Se pelo menos o homem ficasse quieto, podia tirar um cochilo, Mas volta e meia ele se levantava e repetia diante dos três caixões: “O que fiz de errado? O que fiz de errado?” Fizera tudo de errado, ora. Não mantivera a herança que recebera do pai – esse, sim, um homem correto, trabalhador –, depois engravidou a mulher três vezes sem ter as mínimas condições de criar os filhos. Por fim, a tal o abandonou com os três ainda pequenos e, desde então, tudo que Anésio tinha feito era beber até o último centavo da ajuda que recebia mensalmente do governo.
João Manco começou a picotar fumo de corda para enrolar cigarros de palha. Melhor dizendo, para enrolar o tempo. Anésio voltou a roncar sobre o banco de madeira. Ao olhar para ele, só conseguia pensar nos cinquentinhas a mais que receberia por ter de suportá-lo horas a fio naquela noite. No dia anterior, os filhos daquele idiota fizeram com que o país soubesse que em alguma parte do território nacional existia Qualquerunceintuba, um vilarejo quase invisível encravado na região metropolitana de Madreincitá, a cidade mãe de todas as cidades.
Na tarde do sábado o necrotério estivera repleto de curiosos e repórteres. Estes vieram de longe para cobrir o trágico episódio. Por várias vezes João teve de abrir os caixões para que os mortos fossem filmados e fotografados. Depois que os jornalistas se foram, ninguém mais, além de Anésio, apareceu para perturbá-lo. Ninguém uma vírgula! Havia aquele gato que zanzava de um lado para o outro entre os caixões. Não tinha comida por ali. João Manco era um sujeito bom de garfo. De sua quentinha não sobrava sequer um grãozinho de arroz para dar ao bichano. Então por que continuava por ali?
O engenheiro morto devia ser alguém muito importante, pois seu corpo e o do filho foram encaminhados de helicóptero para um cemitério de gente rica de Madreincitá. Disseram que ambos seriam cremados. Coisa chique! No frigir dos ovos, aquele fora apenas mais um dos tantos crimes imbecis ocorridos em Qualquerunceintuba nos últimos anos. Quase todos relacionados ao consumo de cocaína e seus derivados, preponderante entre os mais jovens. O vilarejo, que fora tão tranquilo décadas antes, se tornara um dos mais violentos da região metropolitana.
Os três irmãos homicidas continuavam estáticos dentro dos caixões, para sempre incapazes de explicar o que os levara àquilo. Anésio outra vez acordou de um ronco profundo, levantou-se do banco cambaleante, conferiu se os filhos continuavam dentro dos caixões e repetiu a mesma lenga-lenga: “O que eu fiz de errado? O que fiz de errado?”. Em seguida, deitou-se no banco de madeira, obviamente sem a devida resposta, e voltou a cair no sono.
Irritado com aquela cíclica lamentação sem termo, João Manco foi ao jardim acender mais um palheiro. A Lei não permitia que fumasse no interior do necrotério. Assim como não se atrevia a responder às indagações de Anésio, também não perdia tempo para entender o que era ou não era permitido pela legislação vigente. Trocando em miúdos, como foi mesmo que a coisa se deu? Se você tiver tolerância de me acompanhar daqui por diante, notará que a origem do episódio estave muito longe do que ocorria naquele necrotério e na própria Qualquerunceintuba.

Curiós...idades

Iniciemos o remissivo introito por um almoço comemorativo após o término das obras das três torres do ERNEST HEMINGWAY VILLAGIO, erguidas em uma das regiões mais valorizadas pelo mercado imobiliário de alto padrão de Madreincitá. Os principais envolvidos no projeto estavam ali reunidos e riram com descontração quando o engenheiro responsável pela obra, Henrique Salles, contou que adquirira recentemente um curió por dez mil reais. Não consideravam a quantia tão exorbitante, até porque nem faziam ideia de quanto custava um pássaro daqueles. Ficaram, sim, espantados com o interesse no mínimo excêntrico de um dos engenheiros civis mais requisitados da maior metrópole do país, de uma família tradicional e totalmente urbana.
Aquela não era a única das esquisitices de Henrique Salles. Houve época em que teve apego obsessivo por armas e caçadas. Em várias ocasiões participou de safáris africanos ao lado de amigos sauditas. Depois veio o interesse por touradas e esteve várias vezes na Espanha para acompanhar os torneios mais tradicionais. Por toda sua vida fora aficionado por boxe. Chegou a disputar torneios amadores e só não se tornou um lutador mais competitivo porque a rotina de trabalho como engenheiro o impedira.
A maioria dos que estavam presentes naquele almoço achava que criar pássaros era coisa de pessoas da periferia. Mas Salles se mostrava realmente empolgado. Contou detalhes sobre a ave recentemente adquirida. Falou da sua origem, de onde a comprara e das circunstâncias em meio às quais se dera a aquisição. Tirou da carteira o registro de certificação e mostrou para confirmar que o que estava dizendo era verdade. Discorreu entusiasmado sobre os troféus que o pássaro ganhara. Falou da entidade a que se filara, a qual, segundo ele, congregava criadores de curiós não só brasileiros, como de outros países sul-americanos.
Sua conversa prolongou-se em demasia, mas ninguém se importou. Estavam todos muito contentes para se chatearem com algo. Afinal, comemoravam o término de mais um grande projeto que custara muito empenho dos principais profissionais da empresa para dar conta dos muitos percalços surgidos. Um dos que mais sacrificados pela rotina de trabalho estressante dos últimos meses fora justamente Henrique Salles. Portanto, que o homem falasse à vontade. Não importava o que dissesse, era merecedor da atenção de todos que ali estavam.
O conjunto inaugurado destinava-se aos compradores mais endinheirados de Madrincitá. Um apartamento por andar. Só de sacadas cada unidade somava quatrocentos metros quadrados, área superior à maioria dos apartamentos de classe média da cidade. Uma particularidade: o terreno onde os três prédios foram construídos havia sido comprado de uma congregação israelita. Com a condição de que os primeiros e segundos andares de cada torre fossem comercializados para famílias de judeus ortodoxos, que não utilizam elevadores.
O almoço teve início após a solenidade de inauguração, celebrada por um padre amigo do judeu Armando Levy, dono da construtora. Além dos profissionais da empresa diretamente envolvidos com o projeto, foram convidados para o almoço os diretores do banco que financiara a obra, o gerente da corretora incumbida da venda dos apartamentos, os representantes das principais empresas prestadoras de serviço, além de conhecidos escolhidos a dedo por Levy.
Aquele encontro representava um momento de alívio para todos, em especial para Salles, que nos últimos meses trabalhara exaustivamente na obra, inclusive nos feriados e finais de semana. Indagado pelos colegas, confirmou que já se mudara para a propriedade rural adquirida em Qualquerunceintuba. Alguém especulou se estava procurando se isolar? Não, de modo algum. Ao mesmo tempo em que proporcionara tranquilidade e qualidade de vida à família, reformara a propriedade para melhor receber os amigos.
Disse que um dos fatores que o levaram a escolher o imóvel fora a comodidade das amplas instalações já existentes, que foram ampliadas. A localização do vilarejo era ótima, numa região aprazível e próxima de Minincitá, cidade da região metropolitana com boa estrutura de serviços, inclusive com um excelente colégio onde seus filhos já estavam matriculados. Muitos dos que estavam presentes naquele almoço sabiam que por trás da sua decisão de morar fora da metrópole havia outra razão preponderante: o insistente convívio de sua bela esposa Penélope com rapazes mais jovens. Onde quer que ela fosse, havia um por perto. Salles apostava que a mudança de ares salvaria o casamento.
O relacionamento de Salles com Penélope fora, desde o inicio, bastante conturbado. Começaram a namorar quando ela tinha quinze anos e ele, trinta e cinco. A oposição da família foi total. Ousou levá-la às escondidas para passarem um final de semana no litoral e voltou de lá preso, após ter sido denunciado pelo pai da moça, Icário, por sequestro. Um acordo entre famílias, costurado a muito custo por renomados advogados, levou Icário a retirar a acusação. Porém Salles teve de se comprometer a nunca mais procurá-la. No entanto, dias depois ele e Penélope fugiram para o Uruguai para se casarem às escondidas. Icário embarcou imediatamente para Montevidéu e implorou à filha que voltasse com ele. Salles disse que ela devia escolher se desejava ficar com o pai ou com ele. Penélope não respondeu e apenas o acompanhou, em submissa aceitação.
Após se casarem, já no primeiro mês de convívio ela o chamou para uma conversa franca. Disse que não fugira com ele por amor e muito menos por sexo. Casara-se porque sabia que toda mulher tem, de alguma forma, se casar com alguém um dia. Dispunha-se a fazer sexo com ele, sim, como qualquer esposa faz. Também aceitava alguns momentos de exposição social juntos. Mas fora isso, cada qual teria sua vida, com seus próprios prazeres e amizades. Enfim, que ficasse claro para ele que não ela era o tipo de viver grudada em marido.
Para não haver dúvida de que seu propósito era continuar com ele, logo no primeiro ano de casados engravidou-se da primeira filha. No ano seguinte, do segundo filho e, no outro, do terceiro. Que compromisso maior pode existir entre mulher e marido senão conceber filhos? No entanto, nunca fez questão de agradar aos familiares de Salles e muito menos aos seus amigos. Fazia companhia a ele em algumas atividades sociais, mas desaparecia em vários momentos e tinha crises histéricas todas as vezes que ele tentava descobrir onde estivera.
Salles nunca se queixara sobre ela com amigos e parentes. Mas sabiam que havia profundas rusgas entre os dois. O principal prazer de Salles era viajar. Penélope não o acompanhava, pois dizia detestar aviões e hotéis. Todas as estadias dele em território africano para participar de safáris e as idas à Espanha para acompanhar touradas se deram sem a presença dela. Enquanto o marido estava ausente, mantinha intensa agenda de encontros com pessoas que Salles sequer conhecia. A maioria, rapazes jovens. Alguns dos quais eram amigos homossexuais que a admiravam.
Embora seja a maior metrópole do país, Madreincitá tem suas redes de intrigas e fuxicos como qualquer pequena cidade interiorana. De modo que com o tempo os falatórios sobre os hábitos de sua esposa se tornaram públicos. Alguns desses comentários chegaram aos ouvidos de Salles. Para piorar, Penélope nunca se desgrudara do pai, o principal desafeto do marido. Icário não se cansava de pedir à filha que se divorciasse do “velho” e escolhesse algum daqueles moços bonitos que só lhe faltavam lamber os seus pés, para ter um casamento de verdade. Ela própria contara isso a Salles. Mas assegurava que continuaria fiel a ele, por toda a vida. A menos que viesse a falecer antes dela, o casamento jamais seria rompido. O que Salles mais temia em Penélope era sua predisposição à histeria. Uma mínima contrariedade podia motivar reações das mais intempestivas. Nesses momentos ficava irreconhecível, provocativa e fazia de tudo para desmoralizá-lo.
O início da construção das três torres do ERNEST HEMINGWAY VILLAGIO coincidira com a época em que adquirira o sítio para onde havia se mudado. Apesar dos intensos trâmites de trabalho, Salles conseguiu acompanhar as reformas e obras de ampliação da nova moradia. A casa fora adaptada para proporcionar todo conforto urbano a que a família estava acostumada em Madreincitá. Quando comprou o imóvel já havia a piscina, o campo de futebol, a quadra de tênis, a sauna, o salão de jogos e o salão multimídia. Também havia a pista de caminhada, os jardins, o pomar e o espaço sinalizado para pouso de helicópteros, que se tornaria seu meio de transporte do dia a dia até o trabalho na metrópole.
Com a orientação de um amigo agrônomo, introduziu novas plantas frutíferas no pomar e ergueu uma estufa para cultivar ervas aromáticas e verduras. Construiu um galpão climatizado para abrigar as gaiolas dos curiós. Um segundo galpão para acomodar o ringue de luta de boxe, seu esporte preferido, e os equipamentos de musculação. Comprou dois cães labradores, três gatos siameses e montou um grande aquário repleto de peixes e organismos marinhos para agradar aos filhos. Numa das salas da casa reuniu todos os objetos de estimação, incluindo o armário com a coleção de armas, os animais empalhados que havia abatido nos safáris africanos, uma capa com a assinatura do lendário toureiro Manuelito e as relíquias familiares, como o brasão em alto-relevo sobre bronze.
O sítio tinha três alqueires, dos quais menos da metade era utilizada. Alimentava planos de investir em alguma atividade rentável no futuro e, quem sabe, deixar a vida de engenheiro citadino para fincar raízes como ruralista. Inspirado nos bons resultados da estufa, um dos negócios que lhe passava pela cabeça era ampliar o cultivo de ervas aromáticas para desidratá-las e embalá-las para exportação. Há tempo vinha pesquisando esse nicho de mercado.
Sua paixão pelos curiós acabou por centralizar as atenções gerais naquele almoço comemorativo. Já que lhe haviam dado tanta corda, foi se estendendo no assunto. Disse que a reprodução dos pássaros começava pelos cuidados com as gaiolas. Antes de recebê-los, deviam ser pulverizadas com cal para evitar o aparecimento de piolhos. O galpão climatizado no qual foram acomodadas era arejado, sem excesso de frio ou calor, e recebia raios solares apenas pela manhã.
O pássaro adquirido seria um dos reprodutores. Ressaltou que se tratava de um animal com excelente saúde e várias qualidades. Um macho ideal para as cópulas. Os acasalamentos ocorreriam de agosto até final de março do ano seguinte. Antes de os filhotes nascerem, o reprodutor seria tirado da gaiola, mas mantido por perto para ensiná-los a cantar. Com 20 a 25 dias os pássaros jovens começariam a ensaiar seus primeiros gorjeios.
– Costumamos dizer que nossos filhos trazem as qualidades do pai ou da mãe. Com os curiós é a mesma coisa. Bons cantadores sempre aprendem com bons instrutores paternos.A alimentação básica disponibilizada diariamente era uma mistura de gema de ovo cozido com milharina, milho verde e talos de couve para as mães oferecerem aos recém-nascidos. Inseria na alimentação tenébrio molitor, uma fonte de proteína bastante apreciada pelas aves. Quando os pássaros novos adquiriam trinta dias já se alimentavam sozinhos e suas mães eram retiradas das gaiolas para voltar a copular.
Um cuidado muito importante para evitar doenças entre as aves era a higiene das mãos, principalmente antes de manejar as gaiolas ou de preparar os alimentos. Todas as gaiolas passavam por limpezas diárias, após as quais recebiam novos fundos de papel absorvente. A desinfecção geral de cada gaiola e de seus componentes era feita a cada quatro meses. Os acessórios também eram rotineiramente esterilizados. Além do climatizador, o galpão contava com aparelho para purificação do ar.
Os curiós não permaneciam isolados. Pelo contrário, requeriam convívio social. Tinham de ver pessoas, escutar sons e passear. Isso se fazia necessário para se acostumarem a ambientes movimentados, do contrário podiam empacar no momento de mostrar sua cantoria nos torneios. Entretanto, não podiam passar por situações incômodas, repentinas, que lhes causavam estresse e danos irreparáveis. Razão pela qual evitava que no galpão entrassem os cães e, principalmente, os gatos. Também mantinha as aves isoladas de ruídos de máquinas e equipamentos que as pudessem perturbar.
Quando tinha de se ausentar por motivo de trabalho, os cuidados com os pássaros ficavam por conta do segurança Severino, que os tratava com muito zelo, como se fossem seus. Salles explicou, com orgulho, que o grande sucesso de uma criação estava nas mãos do tratador, pois de nada adiantava ter machos excepcionais e fêmeas de altíssima linhagem, provenientes de renomados criadores, se faltasse capricho com “certos detalhes”. Como era criterioso a esse respeito, podia se dar ao luxo de ter apenas casais descendentes, ascendentes, irmãos ou irmãs de curiós que tivessem se destacado em torneios. Adquiria-os de criadores idôneos, que apresentassem as devidas certificações dos pássaros.
– Todas as minhas fêmeas são filhas de pais com voz, andamento de canto e melodia sem falhas.
Depois daquele almoço, seus colegas de trabalho continuaram a indagá-lo a respeito dos curiós só para poder rir muito de tudo o que ele lhes dizia a respeito. Essas suas conversas passaram a proporcionam agradáveis momentos de descontração nas reuniões. Conforme já dito, que ninguém deixe se enganar com essas brincadeiras. Salles era o engenheiro de referência da empresa e todos tinham muito respeito por ele.
Sabiam que sua vida não tinha sido fácil desde que se mudara para a nova residência. Durante a semana vinha todos os dias bem cedo para Madreincitá, fizesse sol ou chuva. Do sítio até o heliporto, em Madreincitá, o percurso era rápido. Mas do heliporto ao escritório perdia, no mínimo, uma hora e meia no trânsito. O percurso de volta era feito no mesmo tempo. Qual seja, diariamente lhe eram consumidas de três a cinco horas para ir e voltar de casa ao local de trabalho.
Nos últimos meses, as obras exigiram dele acompanhamento ininterrupto. A qualquer hora do dia ou da noite tinha imprevistos para resolver. Foi obrigado a trabalhar por tempo integral e até se instalou por um período num pequeno cômodo improvisado no próprio escritório da obra. Motivos é que não lhe faltavam para ser uma pessoa tensa. Fumava muito – pelo menos três maços de cigarros ao dia – comia fora de hora e tomava incontáveis xícaras de café com pitadas de conhaque para se manter acordado. Dormia pouco, face à sempre extensa agenda de trabalho e aos muitos problemas que tinha de solucionar. O que o mantinha de bom humor era saber que Penélope e os filhos estavam bem longe do inferno que cercava seu cotidiano.

Proposta de negócio

Armando Levy confirmou em reunião que a construtora continuaria apostando na alta demanda do mercado imobiliário. Tão logo foram inauguradas as obras do ERNEST HEMINGWAY VILLAGIO, iniciou novo projeto de envergadura similar. Para compensar a ausência de férias, anunciou que concederia ao longo do ano algumas semanas de descanso coletivo a toda equipe. A primeira delas ocorreu entre o Natal e o Ano Novo, quando todas as atividades foram suspensas. Salles aproveitou para reunir os amigos mais próximos e usufruir cada momento em sua nova casa.
Vemo-lo só de calção, com um copo de uísque pela metade, o som ligado em Caprice em Lá menor, Op. 1 nº 24, de Niccolò Paganini, seu compositor preferido, e contando uma piada para os convidados. Já havia promovido lutas de boxe entre eles e, logicamente, vencera a todos. Agora era o momento de espairecer com as primeiras bebidas do dia. O churrasqueiro veio informar que estava tudo pronto para pôr as carnes na grelha. Salles agradeceu, pediu que aguardasse um pouco mais e prosseguiu a anedota que vinha contando.
 O segurança Josmar esperou que a concluísse para anunciar que havia um senhor no portão pedindo para falar com ele. Se não estivesse disposto a atender, poderia dispensá-lo. Salles achou melhor ver do que se tratava. Quem o aguardava no portão era o mesmo Anésio do início da narrativa. Aquela fora a primeira e a única vez que se viram. Salles notou que se tratava de um homem de meia idade, possivelmente mais jovem que ele, porém precocemente envelhecido.
O visitante iniciou um longo e ininterrupto falatório a respeito do sítio no qual residia. Salles demorou a entender que a propriedade era limítrofe à sua. O homem disse que o sítio tivera um período próspero, durante o qual abrigara uma granja de criação de frangos e uma plantação de tomates. Os problemas começaram quando a Vigilância Sanitária “inventou” que a água do ribeirão nos fundos era imprópria para abastecer a granja e irrigar o cultivo. Depois a cooperativa à qual era vinculado também “inventou” que interromperia a oferta de pintinhos porque sua granja estava fora dos padrões exigidos.
Recorreu à Casa da Agricultura local, cujo agrônomo o convenceu a criar cabras. O serviço de abastecimento de água logo estendeu sua rede para a região e o problema com água foi resolvido. Com algumas adaptações, a granja foi transformada em capril e a área da lavoura de tomates deu lugar a uma capineira. O próprio agrônomo foi avalista do contrato para que conseguisse financiamento de custeio no banco, para as reformas e a compra dos animais. Mas a produção de leite de cabras não se mostrou tão vantajosa. Como não conseguia pagar as parcelas do financiamento, entrou em concordata e seus bens, incluindo o sítio, estavam agora sob intervenção judicial movida pelo banco.
Havia, no entanto, uma saída. Caso conseguisse um comprador, poderia pagar a dívida com o banco e com o restante do dinheiro adquirir uma casa em Minincitá. Esse era seu plano. Residia na propriedade com os três filhos, porém em situação bastante precária. A luz elétrica e o fornecimento de água haviam sido cortados. Utilizavam água de um poço por eles próprios cavado. Sabia que com a esposa, “aquela vadia”, não poderia mais contar, pois fora capaz de deixá-lo quando o filho mais novo era ainda bebê.
– Num venho aqui recramá, doutor. Venho mode dá as boa-vinda e avisá que minha propriedade tá à venda. Caso interesse...O engenheiro agradeceu a oferta, mas disse que não tinha intenção de comprar mais terras naquele momento. Para o futuro, quando já não trabalhasse na capital, talvez decidisse aumentar a propriedade. Aí, sim, poderiam conversar a respeito. Isso, logicamente, se o sítio dele ainda estivesse à venda. Anésio comentou que isso seria pouco provável, pois tinha urgência de vendê-lo. Depois se despediu e se foi.
Mais tarde, Salles comentou com Penélope a péssima impressão que tivera do vizinho, cujo estado de miséria era evidente. O melhor era esquecer a visita inoportuna. Depois daquele dia procurou não dar atenção ao que se passava fora dos limites da propriedade. Para manter a privacidade, contava com a eficiente proteção dos seguranças Josmar e Severino. Os dois tinham várias outras incumbências, dentre elas a de motoristas da família. Levavam e buscavam as crianças no colégio. Todas as idas e vindas de Penélope a Minincitá eram acompanhadas por algum deles. Com a ajuda dos dois, o engenheiro acreditava ser capaz de manter a família longe de problemas.

Não tão bons meninos têm ideias não tão boas

Aquele período festivo da virada de ano fora um dos piores para Anésio. Os filhos não deram as caras e só lhe sobrou como companhia um garrafão de cachaça da pior qualidade comprado de um alambique de fundo de quintal das vizinhanças. Embebedou-se de tal forma que perdeu a noção do tempo. Desde que parara de trabalhar e a “vagabunda” o abandonara, vinha sendo assim. Antigamente costumava caçar preás no brejo e pescar mandis no ribeirão. Mas os preás rarearam, os peixes desapareceram e parou de vez com tais daninhezas.
Seus filhos Caqui, Sanhaço e Beronha estavam se tornando homens. Passavam os dias à solta, sem qualquer compromisso com estudos ou trabalho. Os três viviam do auxílio que o pai recebia de um programa assistencial do governo. Nunca tivera pulso para obrigar que o ajudassem no sítio. Agora que não podia mais com eles, seriam mesmo capazes de agredi-lo se exigisse algo. Beronha, o mais velho, foi o único que procurou trabalho em certa ocasião. De ajudante de borracheiro. Porém logo desistiu.
Diferente do pai, que levava a vidinha tristonha, alheio a tudo, os filhos tinham muito interesse por tudo que se passava na propriedade dos bacanas ao lado. Naquele final de ano ficaram horas assistindo a distância às mulheres se banhando na piscina. Também observaram os veículos que chegavam e até brincaram de conferir as marcas de alguns deles com um colega mecânico que nas horas vagas fazia bicos como puxador de carros para um desmanche clandestino.
Os três invejaram o cheiro bom do churrasco e as bebidas que tomavam. Chegaram a ouvir trechos das conversas. Entraram às escondidas na propriedade para apanhar frutos, utilizando um acesso em meio à cerca viva do qual só eles sabiam. Os cachorros eram mansos e permitiram que bisbilhotassem. Nessa “visita” furtaram uma bola de futebol e algumas ferramentas. Como havia várias outras bolas, ninguém deu falta da que desaparecera. Quanto às ferramentas, depois de os empregados procurarem em vão por elas, providenciaram outras.
Foi Sanhaço quem começou com certas ideias. Por conta própria conseguiu ver pelas janelas da casa principal uma série de objetos. Veio todo fogoso contar aos irmãos:
– Os bacana têm tudo do melhor. TV grandona, baita aparelho de som, computador e muita roupa de grife. Deve de havê montão de grana lá dentro, mano.
– Viu onde guardam?
– Guardam o quê?
– A grana, idiota!
– Não, mas é claro que tem. O homem é muito rico e deve guardá bufunfa a rodo naquela casa.
– Tu tem certeza?
– Num nasci ontem, pô. Tá na cara que ali há cacetada de real, dólar, euro. Aquela muié gostosona dele deve tê caixas de joia. Ô se tem!
– Cumé que a gente descobre?
– Tem de ir lá e atacá, ué. Nóis rende eles e aperta até que contem onde é que fica os mocó.
– E os seguranças, espertão, a gente faz o que com eles?
– Das vezes os dois cabeça-chata forga junto. Num forga?
– Só quando o ômi tá em casa.
– Pois é, daí nóis pruveita e entremo. O ômi suzim é mais fácil de rendê.

Às 8h45 daquele sábado

Durante o Carnaval a construtora voltou a interromper as atividades e concedeu uma nova semana de descanso coletivo. Desta vez Salles não quis convidar ninguém. Na folga da passagem de ano tivera de manter vigilância sobre Penélope, que se mostrara especialmente interessada pelo filho adolescente de um dos convidados. Seus olhos ficavam enviesados quando o via, prenunciando os manjados sinais de histeria. Flagrou-a convidando o rapaz para conhecer o pomar, mas felizmente conseguiu evitar mais um escândalo. Entretanto, sua interferência foi motivo de áspera discussão entre o casal após os convidados terem ido embora. As palavras ásperas que ela lhe disse ressoaram em sua mente:
– Não adianta me vigiar. Quando eu quero uma coisa, eu faço. Ninguém me impede. Gosto muito de fazer sexo, sim, inclusive com você. Preciso variar, meu caro. Não consigo me satisfazer só com um homem.Como de outras vezes, ouviu a tudo calado. Se retrucasse, sabia que aí sim Penélope seria capaz de alguma besteira maior e o conflito entre o casal chegaria ao extremo de envolver as crianças e os empregados. Para evitar que o “velho problema” se repetisse, no feriado de Carnaval decidiu não convidar ninguém. Queria dedicar aqueles dias de ócio apenas a Penélope, aos filhos e ao seu principal hobby do momento: os curiós. Devido aos seus compromissos com a construtora, havia meses que os seguranças Josmar e Serverino não arredavam pé da casa. Pôde então dar dispensa aos dois. Permitiu que fossem para as respectivas casas, a fim de que também tivessem seus dias de descanso com as famílias. O engenheiro autorizou que levassem um dos três carros para não terem de tomar ônibus.
Salles se levantou logo que amanheceu, no mesmo horário em que costumava se pôr de pé durante os dias de trabalho. Aquele era o momento propício para se dedicar às aves, pois logo que Penélope e as crianças acordassem teria de ficar à disposição deles. Encontrava-se agora limpando as gaiolas dos pássaros, na maior concentração, assobiando um trecho de Paganini. Depois de ter lavado cada uma das gaiolas, forrou-as com novas lâminas de papel impermeável, pôs água e comida para os pássaros e ligou o som de uma fita para estimulá-los a cantar.
Nem podia imaginar que ali por perto três gatunos de meia-tigela estavam altamente propensos a invadir a casa. Para dar coragem, Caqui, Sanhaço e Beronha dividiram as últimas tragadas de uma pedra de crack. Levavam com eles a velha cartucheira que o pai usara para caçar preás. A intenção nem era utilizá-la, pois disparava um único tiro por vez. Serviria para intimidar as pessoas. Nem tinham ambição de roubar tanta coisa. Apenas objetos cuja venda lhes permitisse comprar roupas para zoar com “as mina”, renovar o estoque de pedras de crack e curtir a vida naquele Carnaval. Caqui, o mais novo, comentou que a mulher do proprietário era a mais gostosa da casa, muito melhor que a filha adolescente, um tanto gordinha.
– Se tem muié no mundo que eu quero fodê, é essa coroa perva.
Beronha:
– Que qui tu qué, moleque?! Tu nunca pôs teu pipizinho nem em buraco de bananeira.Sanhaço e Beronha riram à beça. Caqui ficou calado, amuado, nada contente com a troça.

O engenheiro é rendido às 9h17

Logo que se aproximaram da passagem pela cerca viva, ouviram os latidos dos cães. Sinal de que os animais os tinham farejado. Beronha atirou os pedaços de carne que providencialmente havia trazido, os cães se puseram a mastigá-los e os três puderam entrar sem mais alarde. Salles nem notara os latidos, de tão concentrado que estava nos cuidados com os pássaros. A porta da cozinha estava destrancada. Entraram por ela e renderam as duas empregadas. Uma delas contou que o patrão estava no galpão dos passarinhos e que a mulher e as crianças ainda dormiam. Beronha comentou com os irmãos:
– Os bacanas têm um sono danado. Pudera, não precisam se preocupar com nada.Trancaram as empregadas no quartinho de despejo e foram à procura do “ômi”. Salles assustou-se quando se deparou com os três. Beronha apontou a arma e pediu que não reagisse.
BERONHA:
– O doutor fica na boa que tudo fica na boa com nóis também.
Salles:
– Quem são vocês?
BERONHA:
– Não interessa.
Sanhaço ficou admirado com as aves.
SANHAÇO:
– Quanto passarinho bonito, senhor! De que raça é?Salles:
– São curiós.
SANHAÇO:
– Rorrô! Sabia que sô passarinho também, senhor? Me chamam de...Levou um cascudo de Beronha para não contar à vítima que seu apelido era Sanhaço.
Salles:
– O que querem?BERONHA:
– Roubá, ué.Salles:
– Isto aqui é uma casa de família.BERONHA:
– Pois é nas casas das famílias que têm as coisas que a gente quer, senhor. É só ficá na boa que tudo vai corrê numa boa.O engenheiro foi levado para o interior da casa principal. Beronha, sempre com a cartucheira apontada, não desgrudava dele. Salles sequer imaginava que os três eram seus vizinhos e que o pai deles era aquele mesmo senhor que viera visitá-lo na passagem de ano. Procurou acalmá-los. Disse que poderiam levar o que quisessem, desde que não molestassem as pessoas.
BERONHA:
– Só viemo roubá, senhor. Basta colaborá com nóis que todo mundo sai sastifeito.Caqui e Sanhaço passaram a vascular os armários e gavetas da cozinha. Sobre uma toalha de mesa jogaram vários talheres e pequenos eletrodomésticos. Amarraram as pontas da toalha e fizeram com ela uma grande trouxa. Sanhaço vibrou quando o engenheiro mostrou a ele o armário de bebidas. Era cedo, mas cada um pegou um litro de uísque e passou a tomá-lo no gargalo. Outra toalha de mesa foi estendida para reunir os litros de bebidas e demais objetos pelos quais se interessaram.
Iniciaram uma discussão sobre quem teria a incumbência de entrar nos quartos para acordar a mulher e os filhos. Beronha ordenou que Caqui ficasse com a arma apontada para Salles para que ele e Sanhaço fossem até lá. Quanto mais discutiam, mais bebiam e iam ficando cada vez mais alterados. Caqui insistiu que ele próprio se dispunha a buscar a “coroa perva”. Antes que tomasse qualquer providência, Penélope e os filhos apareceram na sala com as caras assustadas. Salles explicou rapidamente o que estava ocorrendo e procurou acalmá-los. A filha adolescente mantinha-se agarrada à mãe e tremia de forma incontrolável. Os dois garotos estavam igualmente pasmos.
BERONHA:
– Se a senhora e os moleque colaborá, vai ficá tudo bem.SANHAÇO:
– Mas que ninguém tente dá uma de esperto, tá sabeno? Porque daí nóis increspa e joga pesado.
9h45: começam a procurar pelo dinheiro

Salles, Penélope e os filhos apertaram-se para conseguir se sentar juntos num mesmo sofá. Beronha os mantinha sob vigilância, com a arma apontada. Caqui ficara por perto, mas não se intrometeu. Sanhaço era o mais agitado. Entrava e saía dos cômodos, parecendo não saber ao certo o que procurava. A família apenas ouvia o barulho de objetos sendo quebrados e gavetas abertas com rispidez. Depois de muito vasculhar, Sanhaço retornou com uma caixinha de joias, mas muito irritado por não ter encontrado dinheiro. Bateu forte com a caixa na testa de Salles e o sangue escorreu denso.
SANHAÇO:
– Olha aqui, bacana, por enquanto fomo decente. Mas tem de colaborá, tá sabeno? Conta logo onde tá a grana.Salles:
– Todo dinheiro que tenho está nesta carteira.Entregou a Sanhaço.
SANHAÇO:
– Mas aqui só tem setenta real! O doutô resorveu zuá comigo?!
– Não, não se trata disso. Juro que é tudo o que tenho de momento. Mas posso conseguir mais. Basta irmos a um caixa eletrônico.
Levou uma coronhada de Boronha. Novo ferimento foi aberto em seu rosto e mais sangue jorrou. Penélope levantou-se exasperada e pediu aos prantos:
– Pelo amor de Deus, não batam mais! Ele está falando a verdade. A gente...BERONHA:
– Quer fazê o favor de calá a boca, dona? Quando os ômi fala, as muié cala. Ninguém pediu tua opinião.SANHAÇO:
– Como é que não tem grana nessa casa?! A gente sabe que os bacana guarda dólar, euro.CAQUI:
– Assaltaram um deputado num condomínio aqui por perto e os malandro encontrô uma maleta lotada de dólar. Onde é que tá tua maleta, senhor? BERONHA:
– Trate de colaborá, pois daí nóis tudo vai s’imbora sastifeito, sem deixá mais ninguém machucado.Salles:
– O dinheiro em espécie que tenho em casa é o que está na carteira. Vocês podem levar os eletrodomésticos, os carros... Só conseguirei mais dinheiro se formos a um caixa eletrônico.BERONHA:
– Então cumé que a gente fica, senhor? Num entremo aqui pra saí só com essa coisaradinha miúda e setenta real.Salles:
– Hoje em dia quase ninguém anda com dinheiro. Todas as despesas são pagas com cartões de crédito. Levem meus cartões... eu forneço as senhas.Sanhaço para Beronha:
– Como é que se faz dinheiro com cartão? BERONHA:
– Sei lá.Salles:
– Explico como se faz. Para facilitar, eu posso até ir junto.BERONHA:
– Não, senhor! Ninguém sai daqui. Nóis num qué esse negócio de cartão não. Nóis qué é dinheiro de verdade, morô?Salles:
– Lamento, mas já disse que não tenho.BERONHA:
– Se não havê colaboração, nóis fica nervoso e daí a coisa azeda. O sinhô é quem decide...Salles:
– O que você quer que eu faça?!BERONHA:
– O doutô não tem pelo menos talão de cheque?
– Também não uso mais cheques. Hoje em dia pago tudo por intermédio de cartões.
Sanhaço perdeu a paciência e lançou uma taça de cristal contra a parede, assustando a todos.
SANHAÇO:
– Se toca, bacana! Nóis num sai daqui enquanto num aparecê os dólar e os euro.
Desafio que mexe com Caqui

A conversa prosseguiu em tom cada vez mais tenso. Sanhaço ameaçava de forma evasiva e violenta. Mas a ameaça de Beronha foi pior: se não encontrassem o dinheiro, atenderia ao pedido do irmão mais novo. O engenheiro quis saber que pedido era esse.
BERONHA:
– Ele qué de quarqué jeito papá tua muié. Garanto que num vai fazê muita diferença, não, pois o muleque é virgi e tem o pau menor que meu dedo mindim.Salles se estremeceu ao olhar para Penélope e ver seus olhos enviesados, a respiração acelerada, indicando que o surto de histeria estava a caminho. Sanhaço e Beronha riram de sua reação. Depois de já ter sugado mais da metade do conteúdo de uma garrafa de uísque, Caqui não se sentia nadinha envergonhado. A essa altura não tirava os olhos de Penélope e estava plenamente disposto a cumprir a advertência lançada pelo irmão mais velho. Sanhaço e Beronha continuavam a fazer troças, deixando Caqui agitado e os olhos de Penélope cada vez mais inebriados. As chacotas dos irmãos acabaram se tornando um desafio para Caqui, inclusive porque eram testemunhadas por estranhos.

Descoberta do armário com armas

Sanhaço se afastou e continuou a vasculhar os aposentos. De repente chamou Beronha:
– Vem cá vê uma coisa, mano.Mostrou a ele a coleção de armas no corredor:
– Oia só!
Sanhaço escancarou as portas do móvel para que ele visse. Beronha exclamou:
– Vixe!
Caqui também foi ver o que era.
– E o filha da puta do bacana não falou nada a respeito!Salles disse de onde estava, sentado no sofá da sala:
 – Peraí! Vocês me pediram grana e não me falaram nada sobre armas. Foi só por isso que não as mencionei.Beronha veio a até ele e deu-lhe um chute no rosto.
BERONHA:
Num pedimo tua opinião!
Sanhaço para os irmãos:
Pô, nós somo ou não somo bandido? O coroa tinha de nos ter contado que as ferramenta tava aí. Ele queria nos ingrupi na cara dura, isso é que é.
Comprar armas fora um dos primeiros hobbies de Salles. Durante anos se dedicara à aquisição de cada uma das dezenas de peças de sua coleção. Após descobrir os curiós, perdera um pouco o interesse por elas. Primeiro porque não contava mais com tempo para caçadas. Também não tinha, como seu pai, talento para esporte. Seu velho fora campeão de tiros sul-americano e participara de vários torneios internacionais representando o país. Conforme os três assaltantes esvaziavam o armário, ficavam cada vez mais impressionados com o arsenal ali guardado: revólveres, garruchas, pistolas, carabinas, escopetas, espingardas, fuzis, granadas, uma submetralhadora e até uma bazuca. A coleção tinha etiquetas para identificar cada arma, o fabricante, o ano de fabricação e o calibre. Ao lado de cada uma encontravam-se as respectivas caixas de munição.
Sanhaço estava eufórico:
– Pô, descubrimo uma mina maió que os dólar. Com isso aqui nóis pode fazê de tudo. Pode vendê, assaltá banco, istorá caixa eletrônico, carro-forte, dirrubá helicopi. Nóis tá rico, mano!Caqui acrescentou incrédulo:
– De que jeito a gente assalta banco se a gente nunca entrô num?Sanhaço:
– Isso a gente aprende. Profissô é que não falta no meio da bandidagem. Agora nóis temo o principal, que é o poder de fogo.Sanhaço escolheu uma pistola automática. Beronha trocou a velha cartucheira do pai por uma carabina. Depois carregou um revólver com munição e o pôs nas mãos de Caqui.
– Olha só, mano, com isto aqui tudo pode papá inté a muié do prefeito.Os dois irmãos continuaram a desafiá-lo. Caqui bebeu mais um gole de sua garrafa de uísque. As troças dos irmãos não cessavam. Eram ouvidas por todos, inclusive pelas empregadas da casa, que tinham sido retiradas do banheiro para se juntar à família. Caqui reagiu:
– Pois eu não quero sabê de muié de prefeito não, eu quero é essa dona aí.Apontou o revólver para Penélope, que começou a chorar e a rir ao mesmo tempo. Salles pensou consigo mesmo: pronto, é agora que a coisa ficará mesmo feia. Essa maluca vai se lançar nos braços de um desses bandidos, oferecer-se desbragadamente como uma puta rampeira e as crianças vão assistir a tudo. Beronha direcionou a carabina para Salles e ordenou que sua esposa fosse com Caqui para um quarto. Se ela não atendesse, ameaçou atirar. Mas garantiu que se satisfizesse o garoto sem resistência, tudo terminaria bem.
SANHAÇO:
– Se num tirá o cabaço do moleque, aí nóis tudo vai querê fodê a senhora, tá sabeno? Então faiz tudo direitinho, dona.Depois apontou a arma para a filha adolescente do casal, querendo dizer que ela poderia ser a próxima. Salles intercedeu de forma dramática. Disse aos irmãos que sua esposa era mãe de três filhos e tinha idade para ser mãe deles.
BERONHA:
– Essa história dela sê mãe da gente é impossível, senhor. Nossa mãe era uma puta feia pra caramba, enquanto que tua muié tá aí nos trinque.Os irmãos riram.
CAQUI:
– O sinhô sabe que já vi tua muié pelada e inté bati punheta pra ela? Todo mundo vê ela trocano de roupa, inclusive teus seguranças. Ela é demais, senhor!
11h37: hora do vai ou racha

Salles, desesperado, se atracou a Caqui, tomou-lhe o revólver, atirou e o matou com um único tiro na cabeça. Mas não teve tempo de disparar contra os demais e levou uma saraivada de balas dos outros dois irmãos. Seu filho mais velho gritou de pavor e também foi atingido. Para vingar Caqui, Sanhaço estuprou Penélope, enquanto Beronha fez o mesmo com sua filha adolescente. Na sala permaneciam imóveis os corpos de Caqui, do engenheiro e do seu filho mais velho.
Beronha também tentou estuprar uma das empregadas, mas teve queda de ereção e foi alvo de gozações de Sanhaço. Irado, descarregou a arma contra o irmão. Foi mais um que permaneceu estirado na sala. Já bastante alcoolizado, Beronha deixou a casa sozinho, carregando apenas a sacola repleta de armas e algumas garrafas de bebida.

12h25: de volta ao lar

Beronha entrou cambaleante na velha casa onde nascera e fora criado. Acordou o pai, que o repreendeu.
– Qui é, moleque? Me deixa dormir em paz!Beronha:
– Oia só o que eu trouxe pra ti.Tirou da sacola uma garrafa de uísque e deu a ele.
– Mas o que é isso?!  Beronha:
– Bebida da boa, meu pai. Importada! Pelo menos uma vez na vida o sinhô vai bebê coisa que preste.
– Cadê teus irmãos?
– Tão por aí.
– E essas armas... de quem são?
– É tudo de brinquedo.
– O que tu vai fazê com elas?
Beronha riu:
– É mode doá pras instituição de caridade.Fechou a sacola e levantou-se para sair. O pai:
– Pra donde tu vai agora?
– Por aí.

13h27: o caso chega à imprensa

A tragédia que se abateu sobre Salles e a família foi rapidamente comunicada à polícia pelas empregadas e logo o sítio estaria repleto de policiais e repórteres. O pai da patroa, Ícaro, logo chegou à propriedade e ordenou que as duas não falassem com os jornalistas. Comentava-se entre os repórteres que um dos criminosos continuava desaparecido. O comandante da operação policial, delegado Terton Buskea, garantiu em entrevista ao vivo que este seria caçado sem piedade. Em outro cômodo da casa, longe dos holofotes, Ícaro procurava, a seu modo, dar amparo a Penélope:
– Pense bem, minha filha. Ninguém queria que isso acontecesse. Mas há males que vêm pra bem. Você agora está livre! Não tem mais de prestar contas ao velho. Com a fortuna que tem para receber poderá dar a melhor educação aos filhos, viajar pelo mundo e conhecer outros homens com quem possa ter amor de verdade.

17h27: tomba o último

A essa altura toda a população da pequena Qualquerunceintuba sabia do caso. Alguém vira um sujeito com uma sacola a caminhar cambaleante por uma estrada vicinal e avisou a polícia. O delegado Terton Buskea foi com sua equipe ao local e deu voz de prisão a Beronha. Este foi alvejado várias vezes ao tentar tirar uma arma da sacola. Caiu de cara sobre uma moita de carrapichos. Do jeito que tombou, ficou, com muitos espinhos cravados no rosto e nos cabelos.
Passaram-se horas até aparecer o rabecão para tirá-lo de lá. Já sem os espinhos de carrapicho, foi colocado num caixão e se juntou aos dois irmãos no necrotério de Qualquerunceintuba. Os corpos de Salles e do seu filho mais velho haviam sido removidos para Madreincitá, onde foram velados com grande pesar por parentes e amigos. Aguardou-se até a última hora pela presença da esposa e dos dois filhos sobreviventes. Como não apareceram, ambos foram cremados.

6h30 do domingo: as horas custam a passar

Pelos pios dos pardais, o coveiro João Manco notara que o dia havia amanhecido. O gato idiota continuava no necrotério à procura da comida que não havia por lá. João nem se preocupou em conferir o relógio. Quanto mais se olha para ele, menos os ponteiros se movem. Tomou o último gole de café da garrafa térmica e acendeu um palheiro. Olhou para os caixões e pensou que os três mortos estavam bem melhor onde agora se encontravam. Anésio pegara no sono profundo e há horas não acordava para choramingar.
Que noite! Dentro de uma hora e meia teria de reabrir o necrotério. Sabia que apareceria um monte de curiosos para ver os mortos. Paciência. Era o que mandava a Lei. Levantou o braço para conferir o odor do sovaco. Credo, estava mesmo muito fedido! Nem ele próprio era capaz de suportar aquele mau-cheiro. Pudera, sequer tomara banho depois da trabalheira toda para abrir a única cova onde seriam metidos os três defuntos. O novo dia de trabalho finalmente se avizinhava e ele não tivera um só segundo de sono. Tomara que ninguém mais viesse a morrer naquele domingo, porque João Manco estava muito, muito cansado.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Mencionar todos os bons violonistas da música popular brasileira é o equivalente a tentar fazer o mesmo com os nomes dos nossos craques ao longo da história do futebol.

Você sempre deixará vários de fora. Cometerá injustiças cabeludas, pois são tantos que ninguém é capaz de se lembrar de todos.

A começar, o violão é o principal instrumento do país. Daí cada qual tem seus gostos e elegerá os seus.

Puxa-se pelos que tiveram maior visibilidade: Garoto, Dilermando Reis, João Gilberto, Paulinho Nogueira, Baden Powell, João Bosco, Toquinho, Raphael Rabello, Egberto Gismonti, Guinga, Yamandu Costa, etc.


Dilermando Reis

Lógico que a relação é muitíssimo maior. Mesmo entre os que fazem as função de instrumentista solo e, por isso, aparecem mais.

Se formos incluir os grandes violonistas que são ou foram músicos acompanhantes, a coisa desembesta para citações sem fim.

Como disse, é qual relacionar os craques do futebol. Normalmente se parte daqueles que estiveram nas várias formações da Seleção Brasileira. Mas e os que foram tão bons quanto e, por uma razão ou outra, não estiveram selecionados?

Não gosto muito de virtuoses, caso da maioria dos nomes citados acima. Vez ou outra ouço, por exemplo, Raphael Rabello. Técnica impressionante. Mas muito perfeito, excessivo para meu deleite amador.

Vou me limitar aqui aos craques do violão no Brasil dos quais mais gosto.

No texto abaixo destacarei Villa-Lobos, dois dos nomes acima – Dilermando Reis e João Gilberto –, mais Canhoto da Paraíba, Renato Piau e alguns intérpretes/compositores que foram especiais no instrumento: Noel Rosa, Dorival Caymmi, Nelson Cavaquinho, Gilberto Gil, Jorge Ben, Jards Macalé, Sérgio Sampaio e Morais Moreira.

Evidente que torcerão os narizes por eu ter me esquecido de fulanos, beltranos e sicranos.

Sobre cada um dos citados apresentarei uma ou mais gravação, os motivos por que os escolho e informações bem resumidas, para não tornar este artigo demasiado longo e cacete.

Começo por Dilermando Reis, por motivação pessoal...